passagem do tempo

Escutar novamente Analog fluids of sonic black holes agora, depois dos protestos contra o racismo no planeta inteiro, é tarefa obrigatória para quem quer entender tudo que está acontecendo. Esse disco de Moor Mother ganha sentido mais profundo e urgente do que aquele que já podia ser percebido na época de seu lançamento, em novembro do ano passado. Muitas de suas poesias poderiam se transformar em cantos das multidões nas passeatas. Sim, eu sei bem: já virou lugar comum dizer que várias coisas ganharam ares de profecia no momento em que estamos vivendo. Mas neste caso, é a mais pura verdade. Mesmo as críticas do disco – ver por exemplo, esta do Pitchfork, esta do Guardian – hoje soam igualmente proféticas.

Nesse caso, não chega a ser exatamente uma surpresa. Rasheedah Phillips, companheira de Camae Ayewa (a Moor Mother – as duas são parceiras também em projetos que conjugam arte e militância, como o Black Quantum Futurism e o Community Futures Lab), há anos defende uma concepção afrofuturista do tempo, contra a linearidade mecânica que desemboca num futuro excludente, impondo a necessidade de invenção de outras noções de progresso. (Recomendo a leitura dos artigos de Rasheedah Phillips publicados no livro We travel the space ways, coletânea que inclui textos, artes plásticas, histórias em quadrinhos, extratos de roteiros cinematográficos e muito mais, gerando um panorama muito diverso do afrofuturismo, com autores/criadores como Kodwo Eshun, Greg Tate ou Jim Chuchu – o título é uma homenagem a Sun Ra – que falta ele faz, ainda bem que tive a sorte de ver um de seus shows, totalmente apoteótico, rodei por todo o universo com sua música prafrentex, suas roupas e refrãos espaciais.)

Ainda sobre Analog fluids of sonic black holes: que incrível terminar com a faixa afro(futurista)brasileira Passing of time, com a poesia dizendo em inglês “minha mãe, minha avó, minha bisavó colheram tanto algodão que salvaram o mundo”, ao mesmo tempo em que Juçara Marçal canta em português “direto ao coração” repetidas vezes. Deu vontade de escutar novamente também o Baião das Princesas, gravação de A Barca (Juçara foi uma das fundadoras), uma das coisas mais bonitas que há no mundo salvo (e salve Pai Euclides!), que sempre me faz chorar de tanta beleza.

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