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vazio

16/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/02/2013

Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Sei que este meu otimismo desvaloriza meu passe. É mais chique falar mal de tudo. A maledicência nos garante aplausos calorosos em palestras. Atrai igualmente muitos seguidores no Twitter. Viramos heróis por causa de nossas opiniões do contra. Natural que assim seja: Lucien Jephargnon, historiador que já foi tema de uma coluna inteira por aqui, publicou um livro delicioso chamado “Era melhor antes”. Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal.

No século primeiro, Petrônio, autor de “Satyricon”, escreveu sem humor nenhum: “Fica pior a cada dia… Ninguém mais acredita que o céu é céu”. Plínio o Jovem não gostava dos jovens de seu tempo: “eles não respeitam ninguém, não imitam ninguém; são os modelos deles mesmos”. O poeta Juvenal afirmava que o problema vinha de longe: mesmo no tempo de Homero a raça humana já era decadente e “a terra só alimenta hoje homens perversos e atrofiados.” Temos sorte de estarmos vivos vinte e um séculos depois…

Vivos mas vazios? Penso que o vazio tem sido menosprezado nessas lamentações. Os budistas propõem conceito precioso para sairmos bem desse niilismo paralisante: Shunyata – quer dizer vazio, mas também interdependência e abertura. Como fala o monge coreano Misan (que descobri por causa de “Gangnam style”): “o mundo vazio que inclui tudo”. Tudo conectado. Talvez aí resida a chave para compreender a distância entre o modo como percebo o que há de importante na dinâmica cultural contemporânea e aquele que denuncia nossa perdição. Contra o “era melhor antes”, digo que não é melhor agora: é diferente; as coisas estão mais abertas e interdependentes. No lugar do regime da escassez que produz gênios, temos um regime de criatividade distribuída em rede, e o processo criativo é mais aberto, à procura de obras abertas, permanentemente inacabadas.

Por isso não é útil tentar convencer os apóstolos do vazio “não budista” de que não estamos tão decadentes assim, apresentando exemplos de vigor nas artes de agora. Não vou convencê-los: Tom Jobim ou Guimarães Rosa vão ser sempre “melhores” do que meus interesses atuais, até porque são produtos de um mundo onde fazia sentido ser “melhor” assim, quando todos os olhares/julgamentos podiam apontar para a mesma direção. No mundo pós-internet, tudo está junto e misturado: a retromania (todo o passado cultural a um clique), a xenomania (toda a diversidade cultural a um clique), a facilidade de produção (todo smartphone vai se tornar rapidinho estúdio cinematográfico, além de distribuidora).

Não estou dizendo que obras geniais não existam. Por exemplo (correndo o risco de fazer o que eu disse que é inútil): tenho certeza que “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá é um dos grandes momentos da criação nacional, em qualquer gênero – e demonstra claramente a maturidade das histórias em quadrinhos brasileiras, com muito mais gente desenvolvendo trabalhos originais e reconhecidos mundialmente. Porém, seu público é bem específico, e mesmo que estabeleça seu cânone particular, dificilmente vai adquirir status de conhecimento/reconhecimento geral. Não por falta de qualidade, é claro.

Pensei nisso ao abrir link que Ronaldo Lemos (ele deveria ser coautor desta coluna) me mandou para a lista de 100 melhores discos brasileiros de 2012, seleção do Rockinpress (que se diz “a página bege da música brasileira”): nunca nem tinha ouvido falar de metade dos artistas listados. Digo isso envergonhado, plenamente consciente da seriedade do trabalho de quem fez a escolha dos “melhores”, todos nas minhas bookmarks para tentar escutar suas músicas depois, um depois que talvez nunca chegue.

É a mesma sensação que tenho ao abrir a página do Carlito Azevedo no caderno Prosa deste jornal. Fico alegre só de saber que há tanta gente nova escrevendo poesia com tanta qualidade (e intuo o debate crítico que torna possível essa produção). Anoto nomes para ler mais, quando der. Não fico angustiado com tanta oferta. É assim mesmo. Êta vazio gostoso!

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gerações

09/02/2013

texto publicaldo na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/02/2012

Outro dia tentei fazer uma adolescente (13 anos) compreender que não é bacana ser descuidada com seus pertences a ponto de ter que trocar de celular a cada 30 dias. Ela não entendia meus argumentos: “mas os celulares não são dados de graça pela operadora?” Expliquei pacientemente: “não existe boca totalmente livre neste mundo”; os custos do aparelho estão incluídos no plano de serviços ou são retirados dos pontos do programa de fidelidade (e não podem ser encarados como brindes). Não adiantou: eu mesmo não acreditava que minhas palavras iriam convencê-la a mudar de comportamento. Senti até vertigem ao contemplar o abismo geracional que causava ruído em nossa comunicação.

Já apontei, em vários textos desta coluna, a questão central para o desentendimento: fui criado num mundo da escassez; os novos adolescentes estão acostumados com a abundância. Não existe tradução fácil entre essas duas economias. Quem tem a minha idade se lembra do tempo em que fazer interurbano custava uma fortuna. DDDs só eram utilizadas em ocasiões solenes. Hoje qualquer pirralho pode deixar o Skype ligado 24 horas por dia para ficar em contato direto com primos que moram em Hong Kong. Ainda sinto leve pânico quando vejo isso acontecer, esperando a conta astronômica, ou encarando tudo como desperdício. Os novos habitantes deste planeta já são produtos de uma cultura do “ilimitado” (começando pelos SMSs), mesmo com bombardeio da publicidade do apocalipse ecológico.

Meu discurso “o aparelho é pago pelo plano” ainda faz algum sentido, mas qualquer pessoa pode constatar: objetos industrializados, mesmo com tecnologia de ponta, estão ficando muito mais baratos, e acessíveis para um número a todo instante maior de pessoas (portanto, não estou tratando de problema de crianças da antiga classe média – o abastamento virou característica transclasse). O mercado já sabe: pagamos cada vez mais por serviço e não por coisas. E esse barateamento daquilo que é “material” tende a se radicalizar.

Em sua coluna mais recente, publicada no jornal The Austin Chronicle (olha a abundância aí, gente: pouco tempo atrás seria impossível ter acesso rápido a essa publicação sem viajar para o Texas), meu guru Michael Ventura comenta a robotização avassaladora das fábricas de coisas palpáveis. Inclusive nas plantações, exércitos de “agribots” vieram para ficar e cortar custos na produção de alimentos. Mesmo os robôs são produzidos por outros robôs. Seus preços diminuem com velocidade espantosa, o que aumenta o número de empresas que podem utilizá-los.

Com a chegada das impressoras 3-D, nossas fábricas robotizadas particulares, outros custos desaparecem: distribuição, intermediários do comércio, manutenção de equipamento etc. O valor de todas as coisas vai se aproximar de zero? Então como ensinar para as novas gerações que as coisas (facilmente substituíveis) têm algum valor? O recurso mais óbvio é produzir escassez artificial (por exemplo: o custo de fabricação de uma mochila na China é US$5, mas ao ganhar marca “exclusiva” seu preço fica 25 vezes maior). Mas até quando esse truque simbólico vai funcionar?

Ventura se preocupa mais com outra consequência deste nosso estado “das” coisas: além do preço dos objetos, o número de empregos também encolhe (até os serviços são dominados por máquinas: você não sente um frio na espinha quando liga para a operadora do seu celular e o atendente virtual sabe sua identidade, ouve sua voz e ainda diz “entendi”?). Então: “o que as pessoas vão fazer?” Com apenas robôs trabalhando, que regime político e econômico dará sentido ao mundo da produção? Veredito: “Não há mecanismo para parar a nova revolução industrial (e não estou dizendo que deva haver). Mas a eliminação da maioria dos seres humanos dos meios de produção mudará, bem, tudo.” Outra pergunta de Ventura: estamos condenados a virar filósofos procurando resposta para a velha pergunta sobre a serventia dos seres humanos, que pelo que parece só causam problemas para um mundo que está descobrindo maneiras de se complexificar sem nossa presença?

Agostinho da Silva (ele sempre reaparece por aqui) resume assim a história da Humanidade: o desejo de cada vez mais coisas nos levou a inventar um parque industrial que agora, “se bem utilizado”, pode ser instrumento de nossa libertação, criando economia da quietação, “que não semeie em nós o desejo”. Em outras palavras: com tudo “de graça” descobriremos que não precisamos de tantas coisas, e poderemos cuidar melhor do que já temos.

Prego a quietação e desejo bom carnaval para todos. Não tão contraditório assim: a folia nos ensina que, com quase nada, podemos ser abundantemente alegres.

conclusão?

17/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/03/2012

Para concluir esta série sobre direito autoral, vou piratear dois pensamentos alheios, resumos dos maiores problemas da economia da cultura contemporânea, pós-digitalização de tudo. A primeira citação é de Paul Tassi (obrigado, Pedro Mizukami, pelo link, via Google+), que escreve sobre a indústria de jogos eletrônicos na revista Forbes: “Compreenda que a pirataria é um problema de serviço”. Com minhas palavras: não culpe os piratas, a culpa é sua – você, produtor de conteúdo, que não sabe encontrar uma maneira barata e eficiente de vender seus produtos para seus consumidores, aproveitando as facilidades que a internet criou. Simples assim: no lugar de gastar dinheiro fazendo lobby para o governo aprovar leis mal formuladas, querendo eternizar modelos de negócios obsoletos, vá trabalhar de verdade.

A segunda citação é mais surpreendente. Vem de artigo de Michel Bauwens, fundador da Peer-to-Peer Foundation (o termo peer-to-peer, ou P2P, se popularizou primeiro entre desenvolvedores de redes de computadores, criando arquiteturas descentralizadas para compartilhamento de arquivos e tarefas – hoje se refere também ao compartilhamento descentralizado de cultura de maneira geral), publicado no site da Al Jazeera (obrigado, José Murilo, pelo link, também via Google+): “Os mercados são definidos como maneiras de alocar recursos escassos e o capitalismo é de fato não apenas um sistema de ‘alocação’ da escassez mas também um sistema de criação da escassez, que só pode acumular capital reproduzindo e expandindo as condições da escassez. Quando não há nenhuma tensão entre oferta e procura, não pode haver mercado e acumulação de capital. O que os “peer producers” estão fazendo […] é criar uma abundância de informação facilmente reproduzível […] Isso não pode ser diretamente traduzível em valor de mercado, pois não é de maneira nenhuma escasso – é superabundante.” (Bawens continua seu texto defendendo a opinião de que empresas como Facebook e Google não transformam diretamente essa produção coletiva em lucro – não tenho espaço aqui para seguir sua linha de raciocínio – para saber mais leia o texto completo).

Sempre repito nesta coluna: estamos reclamando de barriga cheia (que coisa mais feia, como canta Zeca Pagodinho) – nosso problema não é ter pouco, mas sim ter demais. Na base dessa fartura há ainda um novo relacionamento do público com o mundo cultural como um todo, situação que a indústria de entretenimento tradicional não sabe como encarar – ou não encontrou estratégia para se inserir no novo momento como elemento decisivo; do centro passa cada vez mais para a periferia do gosto público, ou da produção pública (já que o público agora é também produtor). Talvez suas músicas vendam menos, não por causa da pirataria, mas porque o público deixou de se interessar avidamente por elas, e encontrou outras maneiras divertidas de fazer/consumir arte.

Nessa nova cadeia produtiva, há dois aspectos que me parecem mais relevantes. O primeiro tem a ver com apropriações criativas da produção de outros autores. No ambiente “escasso” das artes plásticas, isso tem longa história, do bigode que Duchamp colocou na Mona Lisa ao processo contra Richard Prince pelo uso das fotos dos rastafaris. Hoje, o que era recurso erudito virou diversão de massas: com softwares gratuitos de edição de vídeo e som, e maneiras fáceis de copiar conteúdo dos outros, todo mundo pode produzir arte remixada e divulgar o resultado para o planeta.

E todo mundo pode também utilizar esses programas, que não exigem estudo anterior nenhum, para – continuando a usar música como exemplo – cantar, tocar e deixar que o computador afine ou coloque no ritmo o resultado. Suzanne Lainson, estrategista de marketing, já apontou as consequências dessa abundância em termos de negócios: “muitas pessoas fazendo alguma música, mas muito poucas pessoas com fãs pagantes em número suficiente para viver de música. Isso é OK, no entanto. Se todos puderem fazer música, é um mundo melhor.” Retornamos, por meios digitais, ao mundo folclórico, onde produzir arte e beleza era uma atividade de todos e não de uma classe especial de seres talentosos (esses sempre existirão, e darão um jeito para viver do seu talento especial).

Lembro o que escrevi na minha dissertação de mestrado sobre o funk carioca, lá no final dos anos 80: “Os dançarinos têm uma relação ainda mais descartável com as músicas que tocam no baile. Como já disse, eles não conhecem o nome dos sucessos nem dos artistas […] Geralmente não têm discos em casa […] O funk […] é a música que mais gostam de dançar. Não muito mais que isso.” Naquela época não havia funk de baile produzido no Rio. Hoje milhares de dançarinos também gravam seus pancadões. Porém a relação com essa produção continua funcional. É música para animar a festa, não para a eternidade. E isso não quer dizer que seja música pior do que aquela que os críticos consideram eternas.

Sites como o Megaupload serão cada vez mais necessários, não para armazenar conteúdos piratas, mas para fazer circular essa enorme produção: sem eles muitas novas cenas musicais contemporâneas, totalmente independentes das gravadoras, não existiriam. Ninguém vai conseguir parar esse processo. O pessoal da indústria de conteúdo precisa deixar seus escritórios e pesquisas de laboratório e ir para internet (a nova rua), onde o futuro já é.

filtros

11/06/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-06-2011

Uma das armas mais poderosas da cultura da escassez, antes da abundância proporcionada pelos meios digitais, foi o segredo. Como o acesso às informações era difícil e caro, e sua distribuição monopólio de poucos canais de comunicação (ciosos de manter artificialmente um alto nível de raridade, para garantir preços também elevados num regime de muita procura e “pouca” oferta, onde poucos produziam e muitos só podiam consumir), as pessoas escondiam suas “fontes” a sete chaves, ganhando respeitabilidade por serem as primeiras a saber das coisas, prestígio “exclusivo” logo convertido em grana e/ou poder. Lembro de jornalistas de cultura no Brasil que criaram fama não pela originalidade de suas reportagens mas apenas por terem acesso privilegiado a revistas internacionais que não chegavam às nossas bancas, e cujos nomes eram mantidos na surdina. Havia estratégia parecida para o monopólio do sucesso entre as equipes de baile funk até final dos anos 80. Os discos – antes de haver funk carioca – eram todos importados, comprados a peso de ouro num mercado precário e paralelo. Quem descobria um sucesso raspava o selo do vinil para as equipes concorrentes não descobrirem o nome da música. A mesma coisa acontecia entre os sound systems da Jamaica pré-reggae, com discos de rhythm and blues importados de Nova Orleans.

Hoje, tudo isso seria impossível. Ouvimos falar de uma nova banda que algum hipster diz que vai ser a “next cool thing” no Cazaquistão e em poucos cliques já podemos ver o seu concerto da noite de ontem que tinha na platéia apenas dois caçadores de tendências japoneses. Vivemos um tempo de transparência cada vez mais impositiva e perturbadora (vide os efeitos do WikiLeaks), onde os instantes que separam a “descoberta” da “massificação” não são suficientes para ninguém tirar onda (“eu falei antes disso”), muito menos para ganhar dinheiro com isso ou emplacar a matéria na capa da revista. Marshall McLuhan, em 1974, comentando o escândalo Watergate, já decretava: “Nenhuma forma de segredo é possível na velocidade elétrica. Seja no mundo das patentes, no mundo da moda, no mundo político. O padrão se torna claro uma milha antes que qualquer pessoa possa falar qualquer coisa sobre ele. Na velocidade elétrica tudo está sob efeito do raio X. […] Não é possível mais o monopólio de conhecimento que muitas pessoas cultas tinham até poucos anos atrás. Isso não é mais possível sob condições elétricas. Tanto na vida profissional quanto na vida privada.”

A nova situação tem outras consequências interessantes. Para continuar usando o exemplo das equipes de som: se todos os DJs podem ter acesso simultâneo às mesmas músicas, milhões de músicas, então vale mais sua seleção, sua “curadoria”, separando aquilo que realmente vale a pena no meio da avalanche de novidades. As novas tendências também ficam por aí dando sopa para todos os jornalistas – o que importa não é o furo, mas o tratamento para o fenômeno, a maneira original de apresentá-lo para os leitores, conectando-o ao (ou destacando-o do) fluxo ininterrupto de “últimos gritos”. E num mundo da abundância, onde há tantos bons DJs quanto jornalistas, o valor vira função não da raridade, da exclusividade (pois mesmo para o muito caro, há cada vez mais bilionários), mas da atenção que seu “produto” (ainda que esse produto seja apenas selecionar outros produtos) pode ganhar num mundo abarrotado de coisas disputando “consumidores” também famintos de atenção e assim por diante, ao infinito. Precisamos então pagar para gente que preste atenção por nós, para que não percamos nada que realmente possa nos interessar, e também possa mudar nossas vidas, como dizem que até uma boa canção – ou um perfume – é capaz.

Por isso acho que as revistas têm longo futuro. Elas prestam atenção por nós, poupando nosso tempo. O que é escasso não é mais a informação, ou o acesso à informação; o que é raro hoje é tempo para prestar atenção. Sendo assim, uma revista pode escolher caminhos variados para ser bem-sucedida. Um deles é cobrir um determinado segmento da oferta das “coisas”. Gosto por exemplo da Giant Robot (fui até na festa de seu primeiro aniversário, em Los Angeles, 1995), a melhor fonte de informação sobre cultura pop asiática fora da Ásia. Tento ler também todos os números da Bidoun, com campo de cobertura mais abstrato, que talvez possa ser definido por um cosmopolitismo experimentalmente moderno quase sempre de origem árabe, mas não necessariamente islâmico. Já falei aqui na coluna também da The Wire, leitura essencial para quem precisa de música aventureira.

Outra possibilidade é um olhar mais generalista, para o qual tudo de interessante interessa. Veja o caso da 032c, revista semestral de língua inglesa editada em Berlim, que está completando 10 anos de atividade. Foram portanto 20 números, o último deles ainda se encontra em bancas e livrarias cariocas que costumam vender revistas importadas. Nas suas páginas, os suspeitos de sempre, poderosos do mundo da arte contemporânea: Rem Koolhaas, Juergen Teller, Hedi Slimane, Hans-Ulrich Obrist, sempre eles. Mas tudo com olhar animado, que nos faz acreditar que vivemos no mais criativo dos mundos possíveis. Além disso, o dossiê sobre Rei Kawakubo, da Comme des Garçons e uma das pessoas mais inteligentes do planeta, deve ser lido como um grande tratado sobre o que realmente merece nossa atenção.

abundância

06/04/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/03/2011

O comentário mais inspirador que já encontrei sobre a transformação que a internet provocou na vida cultural foi publicado por José Miguel Wisnik em sua coluna de 05/03/2011, aqui no Segundo Caderno. Antigamente, na era pré-digital, “as coisas eram decantadas pelo tempo. Porque o seu valor e seu preço simbólico eram ditados pela capacidade de sobreviver à morte. A cultura era em grande parte um culto aos mortos.” Hoje, aumentou “assustadoramente o número dos vivos.” Wisnik se pergunta: “Quem dá conta da cascata infinita de autores de tudo? Quem decanta essa massa informe e simultânea, epidérmica, cheia de potencialidades e de engano?” Indagações que contêm os principais desafios da cultura contemporânea. O que fazer com tanta vida, transbordante, que não cabe mais nem nos modelos de negócio nem nas instituições artísticas que até outro dia tentavam organizar nossa relação com a cultura?

Sintetizando: a cultura dos mortos se fundamentava na escassez; a cultura dos vivos produz cada vez maior abundância. Pense nos exemplos de uma gravadora, de uma produtora de filmes, de uma empresa de rádio e TV, de uma revista de arte. Eram poucos os artistas contratados, eram limitados os recursos que faziam com que as obras fossem produzidas, ganhassem visibilidade e fossem distribuídas no restrito circuito de comércio e divulgação (lojas de discos, salas de cinema, os 13 canais de TV, o “dial” do rádio, o número de páginas da revista). E mesmo assim nem tudo o que era lançado fazia sucesso: um raro hit pagava o prejuízo de muitos fracassos. Mas a conta tinha que fechar; então sempre foi reduzido o número lançamentos e contratações, mesmo em épocas de grandes lucros.

As restrições orçamentárias e mesmo físicas (o espectro por onde podem ser transmitidas ondas radiofônicas tem limites preci(o)sos) se combinava com a crença, provavelmente “verdadeira”, de que o talento é um igualmente um bem escasso, e que só talentosos – ou sortudos enganadores – podem ser artistas de sucesso (seja lá como é feita a medição do grau de sucesso). Estou relendo “O mal-estar na civilização”, na nova tradução (a primeira diretamente do alemão) de Paulo César de Sousa. Ali Freud também denuncia a “fraqueza” do método da sublimação dos instintos através da arte, pois não é de “aplicação geral” e “pressupõe talentos e disposições especiais”, aos quais poucos têm “acesso”. Então tudo conspirava para que a produção de arte fosse vista necessariamente como uma atividade de poucos para muitos. E os poucos eram filtrados por uma série de intermediários para chegar aos muitos.

A internet bagunçou com o coreto pequenininho, onde só haveria espaço para pouquinhas pessoas. Hoje qualquer menino com uma webcam pode transmitir sua nova dança diretamente da laje da favela para mundo inteiro (e alguma dessas danças viram logo “a melhor dança de todos os tempos” – já viu a moda planetária do “choque” colombiano em bit.ly/9EVGQe?), através de novos tipos de intermediários – por exemplo, o YouTube – que não mais selecionam o que vão lançar, e sim aceitam tudo e mais alguma coisa. É Arte com A maiúsculo? Talvez não seja, talvez seja algo diferente, um jogo de diversão coletiva, sem pretensão à eternidade. Um novo mundo pior ou melhor? Quem pode saber com certeza? Se como diz Freud, em seu Mal-estar, a finalidade da vida é “a busca da felicidade”, penso que hoje há mais gente feliz, “brincando” de ser artista, como faziam seus antepassados em outras brincadeiras que ficaram conhecidas como folclore e onde, geralmente, não havia diferença entre quem estava no palco e na platéia.

Essa mudança radical e rapidíssima, da escassez para a abundância, exige outras posturas diante da criação, sua distribuição e seu consumo. Muita gente já apontou, mas isso fica cada vez mais claro, que estamos deixando de lado o império da propriedade para entrarmos na era do serviço. Eu não quero ser o feliz proprietário de todos os vídeos de gente dançando choque colombiano, até porque isso seria impossível – agora mesmo dezenas de vídeos com novos movimentos de choque estão sendo publicados. Quero poder ver esses vídeos na hora que quiser, e melhor, quero poder fazer meus remixes desses vídeos e publicá-los na rede, retroalimentando a brincadeira. Então quem quiser que copie meu vídeo à vontade, e espalhe por aí. Provavelmente não vou nem guardar cópia desse vídeo, que se transformará apenas num item perdido no meu mar de bookmarks. Claro que seria bom ganhar dinheiro com o meu remix, pagando também para os produtores de todas as imagens que remixei. Isso será cada vez mais fácil, pois saberemos exatamente quantas pessoas assistiram o vídeo completo, ou quantas outras fizeram remixes do meu remix.

Evoluindo: o melhor é deixar a obra aberta, facilitando sua circulação de diversas maneiras. Quanto mais gente republicá-la ou remixá-la melhor. A abertura está se tornando a norma, mesmo para o bom senso comercial. O segredo e a proteção atrapalham. Vide o caso do Kinect, da Microsoft. Logo após seu lançamento, hackers abriram o aparelho e inventaram para ele novos usos. A Microsoft desistiu de proibir e começa timidamente a facilitar a vida dos hackers lançando um kit de desenvolvimento. Os hackers agora podem ganhar dinheiro ajudando a Microsoft a lucrar mais com o Kinect. O que é bom para todo mundo. Os vivos agradecem.


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