Archive for the ‘teatro’ Category

Fauzi Arap

21/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/12/2013

Fauzi Arap, que morreu há 15 dias, publicou sua autobiografia – “Mare nostrum – sonhos, viagens e outros caminhos” – em 1988. Foi Maria Bethânia que me indicou enfaticamente sua leitura quando eu lhe disse que estava interessado na explosão artística radical que aconteceu no Brasil do início dos anos 1970, apesar do auge da ditadura militar. Demorei a encontrar um exemplar a venda. Vale a pena a busca difícil (escrevo esta coluna para sugerir nova edição).

Passei a ter com esse livro, e com a trajetória de Fauzi Arap (não cheguei a conhecê-lo pessoalmente; achei que nosso encontro aconteceria por acaso inevitável…), uma relação especial. Copio Maria Bethânia, que escreveu para seu “velho querido Arap” em carta impressa na orelha de “Mare nostrum”: “A tua fé ilumina todo o livro, cada palavra. E quero lhe dizer que ele passou a ser um objeto sagrado para mim. Me ocupo em vigiá-lo, procuro colocá-lo sempre em lugares luminosos e onde de vez em quando passe um leve vento, uma aragem fresca, uma brisa suave que o acaricie.”

Depois das notícias sobre a morte de Fauzi Arap, reli todas as páginas de “Mare nostrum” com a mesma curiosidade da primeira vez. É um dos relatos mais comoventes, de entrega total, sobre a combinação de busca espiritual e desenvolvimento artístico. É também documento precioso sobre a aventura tempestuosa da cultura brasileira, dos anos 1960 até hoje. A coincidência de ter visto o filme “Tatuagem”, também comovente na sua amorosa reflexão sobre contracultura na ditadura, e ter feito a pesquisa para escrever a coluna da semana passada sobre Numa Ciro (com informações sobre o movimento pré-punk de Campina Grande), enquanto mergulhava novamente na autobiografia de Fauzi Arap só revelou as marcas profundas que todas essas viagens deixaram em nosso (in)consciente coletivo.

“Mare nostrum” começa no tranco. Maria Bethânia rememora na mesma carta/orelha: “soube logo que ia me pegar fundo. Intuí parar de ler e deixei-o sobre meu corpo, silencioso.” Pudera: somos transportados para 1963, quando Fauzi Arap estava no Rio atuando na peça “A mandrágora”, de Maquiavel, dirigida por Augusto Boal. Seguindo indicação de uma amiga atriz (não é revelado o nome, “por respeito à sua privacidade”), ele vai parar no consultório do Dr. Murilo Pereira Gomes, médico que fazia experiência pioneira de terapia com o uso de LSD (ainda comercializado legalmente pelo laboratório Sandoz, com bula e tudo), administrado com injeção (!). Dr. Murilo teve alguns pacientes celebridades, como Paulo Mendes Campos, que escreveu uma série de artigos sobre o novo remédio para a revista Manchete.

Formado em Engenharia, participando de um ambiente teatral dominado pelo materialismo marxista, Fauzi Arap não tinha elementos para entender o contato imediato com a dimensão espiritual proporcionado já na sua primeira viagem de ácido (correndo e pulando no Parque da Cidade). Aquilo acontecia muito antes da voga psicodélica, que trouxe amparo para viajantes posteriores: “Castañeda não existia. Jung só era conhecido por eleitos, e livros sobre ioga e zen-budismo não eram populares como hoje em dia.” Não importava: em qualquer conversa, Fauzi Arap não parava de falar de sua experiência (“meu cotidiano havia se transformado em algo absolutamente mágico”): “fantasiei que o LSD tinha o poder de mostrar o paraíso democraticamente a todos.” Pensava ser o apóstolo da boa nova lisérgica. “Compulsão messiânica”. Acabou sendo considerado maluco, antes que houvesse maluco beleza.

Seu sentimento de inadequação/solidão foi se aprofundando. Apesar do sucesso como ator e em seguida como autor de teatro não trazia alívio. A barra se tornava um pouco mais leve ao se encontrar com pessoas pouco comuns, como Clarice Lispector (escreveu um espetáculo – com Glauce Rocha, trilha de Karabitchevski etc. – misturando trechos de vários de seus livros). Ainda assim: “minha insistência em conversar sobre percepções alteradas e estados de consciência especiais a incomodava”.  Anos depois é que o ambiente cultural passou a ter pistas para entender (“acertar o passo com a minha geração”) aquele papo pra lá de Marrakesh. 1971 foi o ano de “Rosa dos ventos”, show que dirigiu para Maria Bethânia e que marcou a época (“alguns acabaram presenteados com o livre acesso diário ao show, depois de terem voltado quarenta vezes”). Mas nada é simples ou fácil numa iniciação. Não contei nada ainda. Leia “Mare nostrum”. Dra. Nise da Silveira e seus gatos. Living Theatre no candomblé. Muitas turmas mais num “psicodrama cósmico” que é nossa história nacional. Duas possíveis conclusões: “o mundo não nos deixa sem resposta” e “a morte não existe”.

Numa Ciro

14/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/12/2013

Numa Ciro termina a temporada do espetáculo (mais precisamente um monólogo cantante) “A peleja da voz com a língua” nas próximas terça-feira e quarta-feira (gosto muito de nossos dias de semana serem todos “feiras”, forma bem mais maluca – na origem eclesiástica tudo era feriado – do que as homenagens para deuses romanos/vikings de outras línguas; por isso insisto sempre no uso dos nomes completos) no teatro do Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema. Por mim, poderia continuar eternamente. Ter Numa Ciro se apresentando na cidade deveria ser algo tão garantido quanto o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento. O bom é ver repetidas vezes, religiosamente. Mas agora é quase tarde: quem perdeu só tem mais uma oportunidade. Até que a peleja de Numa Ciro encontre sua próxima morada.

Escrevi terça-feira e quarta-feira. Não seriam então duas oportunidades? Não: em cada feira (Numa Ciro vem de Campina Grande, cidade que tem – além do forródromo e da “tech city” – um dos melhores mercados de rua nordestinos; espero que ainda com aquela ala só de barbeiros) o repertório é diferente. Na terça-feira a peleja é chamada de “A viagem”; na quarta-feira encontramos “O amor”. Os dois monólogos – criação encomendada para homenagear os 50 anos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (não se espante: Numa Ciro é mestre radical na circulação entre mundos diferentes) – deveriam ter sido um só. Mas no seu bordado (desde criança, Numa Ciro aprendeu a bordar com linhas – tão preciosas “quanto um stradivarius” – da Ilha da Madeira), somando tudo que ia entrando de Portugal/Brasil/África (e ainda a interferência de outras línguas, mesmo o grego antigo), foi ficando cada vez mais complexo/quilométrico, e finalmente precisou ser dividido em dois. Quem puder ver só um, vai ter boa introdução ao universo de Numa Ciro. Porém, o melhor mesmo é assistir aos dois rounds dessa peleja.

Como disse, Numa Ciro cresceu na Serra da Borborema paraibana, aprendendo até a bordar para se tornar uma dona de casa perfeita. Casou bem cedo, ainda adolescente. Naquela época/cultura, era comum que mulher casada deixasse de estudar. Nos planos domésticos, apareceu um grande problema. Ela não engravidava. Disse para o marido: só terei filho se entrar para a universidade. Barganha feita, passou para psicologia, engravidou, mas inventou outro tipo de perfeição existencial. Seu nome era Maria do Socorro, em devir para psicanalista lacaniana, e também Socorro Brito, atriz. Apresentou os espetáculos “Escombros eletrônicos – um show de anormalidades” (com Selma Tuareg) e “Tangos e boleros punks” (com Diomedes), na Campina Grande do início dos anos 1980.

Chegando no Rio, ficou logo amiga do pessoal da Poesia Pornô e da Geração 80 (precisamos de algum estudo detalhado daquele momento cultural da cidade; outro dia procurei e não encontrei nada na internet sobre o Cabaret Voltaire de Ipanema – será que foi sonho meu? – lembro-me vagamente de gente pelada, filmes udigrudis e shows new wave – era a resposta carioca para os televisores da Gang 90 no Lira Paulistana e para a cítara de Alberto Marsicano [que o panteão hindu o tenha em bom lugar] no Carbono 14). Quase imediatamente foi parar na Academia Brasileira de Letras cantando “Subayara Johnny”, nua (Hidelbrando de Castro pintou uma explosão de bomba atômica no seu corpo, transformando-o em ameaçadora natureza viva). Totalmente demais?

Nas décadas seguintes, Numa Ciro foi desenvolvendo (com a colaboração de parceiros/artistas, como Tania Christal, inventora do nome Numa Ciro, ou Flaviola, cocriador do primeiro monólogo cantante, e sempre Hildebrando de Castro) um tipo de espetáculo muito particular, fundamentado no canto a capella. Tudo simples e delicado: um corpo e uma voz em cena, poucos bons adereços mais. Voz totalmente diferente daquele estilo que faz sucesso no The Voice. Voz que peleja com o canto e com as ideias.

Agora: uma voz que nos leva para uma viagem pela língua portuguesa (incluindo o crioulo de Cabo Verde), tentando descobrir o que ela pode, inventa, anuncia. Ao ouvir Numa Ciro cantar no minúsculo palco do Cândido Mendes, ali tão próxima dos nossos corpos e de nossas vozes, lembrei as palavras do poeta português Eugênio de Andrade, revelando que nossa língua tem “este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar das abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel corrosivo da melancolia.” No seu monólogo cantante, Numa Ciro processa e expande essas características (misturando Luiz Gonzaga com Renato Russo, Marianne Faithfull com Sophia de M.B. Andressen etc.) como um sampler sertanejo de muitos mares além.

exemplo de Atenas

15/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/12/2012

Philip K. Dick, o autor literário com maior influência no ciberimaginário do século XXI, teve intensa experiência religiosa em 20 de fevereiro de 1974. Um raio cor-de-rosa o atingiu, transmitindo vasta quantidade de informação diretamente para sua mente. A Califórnia ao redor se revelou alucinação produzida por nossos algozes, agentes do Mal. PKD descobriu que ainda vivemos no Império Romano dos primeiros anos da era cristã. Isso resolvia um problema teológico central para o cristianismo. Jesus nos anunciou para breve a chegada do Reino de Deus, acabando com tudo de ruim que existe na Terra. Por que a demora da chegada do paraíso? Resposta do raio cor-de-rosa: a passagem do tempo, de lá para cá, é ilusão/prisão. Estamos ainda no Coliseu, jogados aos leões.

Sou otimista. Contra PKD acredito, com a ajuda de raios de Zeus: vivemos na Grécia (a antiga, não a atual da crise do Euro). Simplificando, ao modo gnóstico de PKD (sem levar em conta os ensinamentos de Paul Veyne ou Lucien Jephargnon): Roma teria nos ensinado o Império, o circo dos gladiadores e as catacumbas (sim, com a “Arte de amar” de Ovídio, mas esse é o outro lado de sua face sombria). A Grécia teria nos ensinado a democracia e o “conhece-te a ti mesmo” (sim, com a cicuta de Sócrates, mas esse é o outro lado de sua face iluminada). Encontro sinais contemporâneos da criatividade grega o tempo todo. Até em acontecimentos óbvios.

Neste verão, no quintal de uma casa de Ipanema (a Laura Alvim), podemos – bem queimados apenas pelos raios de sol da praia – ter contato direto com essa Grécia fundamental na bela encenação da “Oréstia”, trilogia de tragédias de Ésquilo (em cartaz até 27 de janeiro). Tudo no palco é – simultaneamente – junto e misturado, antigo e contemporâneo, ateniense e carioca, simples e sofisticado, embaralhando eras históricas aparentemente distantes, servindo de canal de transmissão para a mais potente poesia trágica, vinda lá do nascedouro do teatro.

Este ano ainda vi a “Antígona” do National Theatre, em Londres. Lá havia também a tentativa, com forte impacto cênico, de conectar o passado ao presente. Por exemplo, tudo começava no moderno palácio de Creonte, com equipe do rei reunida em momento de tensão, repetindo a imagem de Obama e companhia na Casa Branca conferindo on-line a morte de Osama. Nada contra essa estratégia estética de choque. Funciona igualmente. Entretanto, prefiro a sutileza da “Oréstia” carioca, onde – sem estranharmos mesmo o uso constante de microfones em cena, e de guitarras elétricas na trilha sonora – nos sentimos contemporâneos da pitonisa de Delfos. Gosto especialmente de ter o coro sempre presente, vários atores falando os mesmos versos ao mesmo tempo, e muitas vezes cantando, como os gregos faziam e ainda podemos fazer (claro que tudo fica mais bonito com as melodias que Rômulo Fróes e Cacá Machado fizeram para o espetáculo concebido por Malu Galli).

Karen Armstrong, no livro “A grande transformação”, diz que a “Oréstia” aborda o momento de invenção da democracia em Atenas, com a transição nada tranquila do caos tribal e da vendeta para uma “ordem relativa”, que incluía também a criação dos primeiros tribunais (seus debates eram “rudes e agressivos”, e “um julgamento era essencialmente batalha entre acusados e acusadores”). A trilogia termina com as deusas da vingança ganhando santuário na cidade. Era preciso “incorporar esse fardo doloroso, aceitá-lo, honrá-lo no coração sagrado da pólis e transformá-lo numa força benéfica.”

Boa coincidência: ver “Oréstia” no momento dos julgamentos do STF, que (pego carona bem livre em pensamento de José Marcelo Zacchi) ritualiza também sacolejo recente no judiciário brasileiro, o último dos três poderes a ser repaginado pelos ventos democráticos. Lição de Ésquilo: precisamos mirar sempre no exemplo daqueles atenienses. Eles já sabiam que democracia é um jogo onde o “ethos da força bruta” nunca é inteiramente domado. A virtude maior, para todos os “partidos”, é a moderação.

Antes da “Oréstia” em Ipanema, é bom saber que podemos assistir a outra trilogia formada pelos filmes “Electra”, “As troianas” e “Iphigenia” (a origem dos problemas de “Orestéia”) do diretor grego Michael Cacoyannis, recém-lançada em DVD no Brasil. Recomendo também o livro “A small greek world”, de Irad Malkin, para mim a maior revelação entre leituras de 2012. Malkin dá pistas novas para a explicação da atualidade renovada dos gregos antigos. Ao contrário dos romanos, centralizadores, a civilização grega (nenhuma cidade mandava em todas as outras [e algumas colônias eram tão importantes economica e culturalmente quanto suas metrópoles], e seu mapa – ao contrário do que mostra a maioria dos livros didáticos – não se resumia ao Mar Egeu) sabia que “o que apaga diferenças e consolida identidade não é a proximidade e a permanência, mas sim movimento, distância e conectividade.” Por isso, por incrível que pareça (e aqui vai meu mais improvável otimismo), tem mais a ver com o melhor de nossa realidade atual, fundamentada nos links da internet, do que o Império Romano de Philip K. Dick.

longe daqui – aqui mesmo

07/07/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/07/2012

Quando me mudei para o Rio, em 1977, o Teatro Ipanema já era referência. Não peguei seus tempos heroicos, quando se transformou da casa de Rubens Corrêa em palco com linha estética vigorosa. Mas foi ali que vi alguns dos espetáculos mais marcantes: da estreia da “Página do relâmpago elétrico”, de Beto Guedes, a várias apresentações de “Aquela coisa toda”, do Asdrúbal Trouxe o Trombone. Era uma programação eclética, de “abertura”, espécie de pré-comemoração do final dos anos controlados pela Censura Federal. Só aos poucos fui entendendo a história daquele teatro. E assim, na minha arqueologia artística carioca, sempre acabava me deparando com os tempos em que, “todos os dias”, “todo mundo” via “Hoje é dia de rock”.

Essa peça de José Vicente era bem mais que fenômeno teatral: virou rito geracional, símbolo de época que descobria as viagens contraculturais mesmo sob tortura. Não dava para entender direito como aquele colorido manifesto de resistência hippie se manteve em cartaz com tanto sucesso em anos de chumbo. Eu me sentia como alguém que chegara atrasado numa festa estranha com gente esquisita: “Hoje é dia de rock” ficou envolto por anos na nebulosidade que cerca mitos distantes.

Semana passada, no reinaugurado Teatro Ipanema, o Asdrúbal Trouxe o Trombone (numa raríssima e emocionante reunião de todos seus componentes) me apresentou o texto da peça, livre de meus devaneios. Foi como se várias etapas da minha vida, e da cultura brasileira, estivessem remixadas num mesmo palco, que nos transportou não para o Rock in Rio, mas para aldeia de Minas Gerais. Viagem surpreendente. Regina Casé, lendo as falas da personagem Isabel, afirmou – com tom de inocente autoestima – algo assim: “quem nasce aqui só pode ser caipira”. Lembrei do Esquenta! que foi ao ar no domingo de São João, quando fizemos homenagem ao novo interior pós-caipira do Brasil, agora motor econômico nacional. Longo caminho desde “Hoje é dia de rock”, início dos anos 1970, quando o país se descobria pós-rural, pós-grotões: hoje também nos redescobrimos modernos, cosmopolitas – mas ainda temos um pé na roça (mesmo uma roça que ouve Elvis pelo rádio, ou Alabama Shakes pela internet), e podemos até cultivar a nostalgia de uma pureza doidona perdida.

Antonio Bivar, em “Longe daqui aqui mesmo”, seu delicioso livro de memórias (que traz o mesmo título de sua peça que estreou um pouco antes de “Hoje é dia de rock”), lembra o ambiente dos ensaios: “enquanto o elenco de “Longe daqui” representava uma comunidade, o de “Hoje é dia” podia se dar ao luxo de viver a experiência comunitária. E, fazendo esse laboratório, viajavam em grupo para Parati e às montanhas, a cata de uma aproximação maior entre eles, e eles e a natureza, tanto no sentido humano quanto no sentido cósmico. O elenco de “Hoje em dia” era mais aristocrático, o de “Longe daqui” mais pop. “Hoje em dia” em Ipanema, “Longe daqui” em Copacabana.” Ando cada vez mais fascinado por esse momento do Rio, quando a cidade vivia ebulição criativa inigualável, apesar de regime político medonho.

Em Brasília, um casal de censores disse pessoalmente para Bivar que não liberaria “Longe daqui”: “a peça é pornográfica e atenta contra a moral e os bons costumes, além de passar uma mensagem pessimista.” Para tentar a liberação com outro censor, seguiu a recomendação de Odete Lara para ser bem charmoso: “Telefono à recepção pedindo que me providenciem um secador. Lavo os cabelos, seco-os com o secador, agito-o com os dedos e pronto. Tipo Gal Costa.” Mesmo assim teve que mudar o final da peça, “com todo mundo se arrependendo da liberdade”. Incrível, parece uma viagem coletiva – censores e censurados – de ácido que, paradoxalmente, acabou produzindo muito daquilo que houve de mais consistente e experimental na cultura brasileira.

Recentemente, André Midani me presenteou com a audição de material nunca lançado do festival Phono 73. Só maluco beleza, inclusive Raul Seixas, em seus momentos de mais esplendorosa ousadia sonora, mesmo com a Censura ali colada, cortando os microfones de Gil e Chico em Cálice. Essa peculiar conjunção de repressão política com liberdade criativa ainda precisa de estudo aprofundado.

Em outro livro de memórias, “Verdes vales do fim do mundo”, Bivar descreve muitos detalhes do cotidiano dos brasileiros em seu exílio – mais ou menos imposto ou voluntário – londrino. Gil, Caetano, Dedé, Sandra, Sganzerla, Helena Ignês, Hélio Oiticica, Jorge Mautner, Zé Vicente, Cláudio Prado, Bressane, Peticov, Péricles Cavalcanti, Haroldo de Campos e tantos outros, mandando brasa. Incrível que Londres não tenha aproveitado a presença brasileira e só agora comece a se dar conta do que perdeu. Havia uma incompatibilidade entre as experiências aqui e lá. Como escreveu Isabel Câmara, outra grande dramaturga, na época: “Não aceitamos o the dream is over de John Lennon porque nosso sonho sequer começou. […] E ainda, sim, estou viva, apesar do horror. A travessia do deserto ainda salvará muitos de nós. Tudo está começando. É tocar o barco.”

Deixo de lado a nostalgia. Muita gente continua tocando o barco do sonho carioca. Tudo que, por exemplo, Ernesto Neto faz ou promove me parece confirmação de que hoje continua a ser dia de nosso rock. Por sinal, sua exposição “Não tenha medo do seu corpo”, abre terça-feira em São Paulo, depois de uma festiva “instabilidade existencial” em ateliê do Centro do Rio.


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