Archive for the ‘identidade’ Category

Angélique Kidjo

28/04/2020

#GlassMinute é uma série para tempos de pandemia publicada por Philip Glass em suas redes sociais. São vídeos curtos, 1 minuto cada, mostrando artistas de todo o mundo se relacionando com suas composições. Ontem apareceu a figura e a voz imponentes de Angélique Kidjo cantando a parte da Sinfonia n° 12 (composta por Glass inspirada no disco Lodger de David Bowie) onde ouvimos a letra de Red Sails.

Pensei em Numa Ciro com seu canto a capella. Até a roupa tem semelhanças: uma Numa Ciro subitamente negra e africana, ao mesmo tempo a capella e acompanhada por orquestra sinfônica. (Aproveito para perguntar: quando Numa Ciro lançará seu excelente primeiro disco, onde o a capella aparece apenas na abertura e nas faixas seguintes é substituído por canto acompanhado por muitos instrumentos, tudo com brilhante produção de Lan Lanh?)

Pensei também na carreira cada vez mais excelente/brilhante da própria Angélique Kidjo. Quero elogiar principalmente seus dois discos mais recentes. Em 2018 lançou Remain in light, sua ousada versão para o disco do Talking Heads, regravado faixa a faixa. Em 2019 foi a vez de Celia, com suas versões para músicas gravadas por Célia Cruz (preciso tirar onda: tive a honra de entrevistar a rainha da salsa para uma série de programas de TV chamada Baila Caribe), acompanhada até pelo Sons of Kemet.

Os dois discos dão um nó no debate sobre apropriação cultural. Atualizam as transações rizomáticas do Atlântico Negro de forma surpreendente. A música afrocubana fez a viagem de volta sobre o oceano via ondas curtas (elas ainda existem?) e discos de 78rpm e foi copiada por músicos de Kinshasa na invenção da rumba zairense, acontecimento fundamental para todo o pop africano. O som de Fela Kuti, com sua releitura iorubá de James Brown, foi fundamental para a produção de Remain in light com Brian Eno. Angélique Kidjo torna essas conexões mais evidentes ainda, ou totalmente explícitas como como ao misturar o refrão de Lady de Fela Kuti com o “I’m still waiting” de Crosseyed and painless. Ou ao escolher várias canções que falam de candomblé/santeria para o repertório de Celia (Angélique Kidjo é iorubá pelo lado materno).

Idas e vindas, fluxos e refluxos, inclusive neste #GlassMinute de ontem: o disco Lodger, que também tem colaboração de Brian Eno, é o mais “africano” da discografia de Bowie, mesmo pensando no drum’n’bass de Earthling.

Angélique Kidjo sabe de tudo isso, e leva tudo isso adiante, com inteligência, criatividade e novas misturas impressionantes.

(Tenho tentado escrever sobre outras coisas, coisas fortes, animadoras. Mas está bem difícil.)

outras identidades

20/05/2018

Quando o Orkut apareceu, como brincadeira anti identidade, eu trocava o texto da minha descrição pessoal frequentemente. Este aqui foi o que ficou publicado por mais tempo:

“Detesto do fado. Detesto o sebastianismo e a filosofia portuguesa. Detesto o Papa, os militares, os romances de Camilo. Detesto o Wagner, o Cristo-Rei e a Elizabeth Taylor. Detesto os sonetos de Florbela e as praias do Algarve. Detesto o bispo de Braga, as iscas de bacalhau, o Ulisses de Joyce, a senhora Tatcher. Detesto o Almada Negreiros, os ranchos folclóricos, os travestis, as majorettes, os pupilos do exército. Detesto o exibicionismo, o sentimentalismo, o surrealismo e o caldo galego. Detesto a poesia barroca, a arquitectura do Taveira, o Pedro Almodóvar, os pastorinhos de Fátima. Detesto a poesia do Ginsberg, o carnaval carioca. Detesto a pintura do Rubens e os acrósticos. Detesto o Retrato de Dorian Gray, o Andy Warhol, a loiça de Caldas. Detesto a Madonna. Detesto os castelos da Baviera. Detesto anedotas. Detesto jantar com mais de uma pessoa.”

Amigos ficaram espantados. Alguns acreditaram, mesmo com tantas referências lusitanas, que era mesmo a lista de meus gostos, ou desgostos, pessoais, refletindo minha identidade.

Poderia ter continuado com a sequência:

“Então de que é que gosta?

De framboesas. Do Mozart. Do Moby Dick. Do Walt Whitman. Das infantas de Velázquez. Gosto das Geórgicas e da Ilíada. De cerejas, de gatos e do Miguel. Gosto de Florença e Praga e Oxford. Gosto dois oiros e dos vermelhos de Rembrandt, das naturezas-mortas de Morandi. Gosto de Li Bai e da canção única de Meendinho. Gosto de Andrei Tarkovsky, dos versos de Pessanha, de Cesário. Gosto de espirituais negros. Gosto da sombra dos plátanos e das ilhas gregas. Gosto de muros brancos, de praças quadradas. Gosto dos madrigais de Monteverdi, da Casa sobre a Cascata de Frank Lloyd Wright. Das Variações Goldberg. Das Iluminations. Gosto do deserto, dos coros alentejanos. Gosto de minha mãe e de Virgínia Woolf. Da Via Ápia. Gosto dos esquilos do Central Park e das dunas de Long Island no inverno. Gosto de um verso do Cesariny: Conto os meus dias, tangerinas brancas. Gosto do aroma do feno e de Schumann. Gosto do cheiro dos corpos quando se amam. Hoje, não gosto de mais nada.”

Claro, não sou eu. Meus gostos são bem diferentes. Na verdade, o que me chamou a atenção, o que me atrai e me espanta nessas palavras, é a força do detesto e do gosto. A certeza (talvez um pouco quebrada pelo “hoje”, da frase final). Não sou tão firme assim. Aliás, não saberia ou seria capaz fazer lista semelhante. Meus gostos mudam a todo instante. E mesmo num único instante, não são convictos. Como a minha identidade pessoal remendada, mutante, instável. Gosto e não gosto das mesmíssimas coisas ao mesmo tempo (raro detestar), mantenho distância de absolutos, faço exercícios para me manter afastado de dogmatismos.

Mas continuo gostando dessa lista, anos depois do desaparecimento do Orkut. Leio toda ela como poesia (tenho meus versos preferidos: “Gosto de muros brancos, praças quadradas”), até porque são palavras de um dos poetas que mais admiro. Retirei esses trechos do livro “Rosto precário”, que reúne as entrevistas de Eugénio de Andrade.

Tive a sorte de entrevistar Eugénio de Andrade, na sua cidade do Porto, para o programa Além-Mar. Ele escolheu alguns de seus poemas para ler diante de nossa câmera. No final, fez questão de me entregar um livro para trazer para o Brasil com dedicatória para Maria Bethânia.

copiei Eugénio de Andrade em outras coisas, além de me apropriar com total afastamento da sua lista de gostos. Entre seus poemas, este aqui tem o poder de sempre me comover:

Deste jardim o que levo comigo

é um ramo de bambu para servir

de espelho ao resto dos meus dias.

Seu título é “Jardim de Lou Lim Ieoc”, lugar deslumbrante, que fica em Macau. Ali gravamos fado e um imigrante angolano lendo trecho de “Sobrados e mucambos” sobre os jardins chineses. Dali, copiando Eugénio de Andrade, levei comigo um ramo de bambu que me serve de espelho marcando páginas de “Rosto precário”.

Copiar é bom. Faz bem. Ajuda a dissolver nosso ego na matéria em movimento (aqui copio Fausto Fawcett). Tenho também que copiar a Maria da canção da Timbalada: existe letra melhor, mais alegre? E eu disse que não tenho opiniões firmes… Quod erat demonstrandum…

PS: lembrei disso tudo pois, ainda copiando Eugénio de Andrade, estou lendo  maravilhado, Poesia, de Mario Cesariny, o das “tangerinas brancas”, lançamento de 2017 da Assírio & Alvim. Volto a Mário Cesariny qualquer hora destas.


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