perto da China

Nosso zeitgeist é cada vez mais chinês. (Não sei ainda quais palavras ou conceitos ou ideogramas chineses traduzem zeitgeist, mas certamente – do jeito que as coisas andam – saberei em breve.) Vamos precisar cada vez mais de guias para entender a China. No Brasil, recentemente, ganhamos algumas ferramentas preciosas para nos orientar (se oriente rapaz) nessa tarefa urgente. Primeiro temos o livro “Ideogramas e cultura chinesa”, de Tai Hsuan-An (pintor naturalizado brasileiro – também estudioso de sementes do cerrado!), que ganhou nova edição no ano passado. Gosto até do título dos capítulos. Por exemplo: “Todos os atos das mãos: da amizade ao conflito e da confusão à ordem”. É um bom início para depois mergulhar nas novas traduções, diretamente do chinês, de “Os Analectos” de Confúcio e de “Dao De Jing” de Laozi. Dois tesouros, que devem ser saudados entre os principais acontecimentos editoriais no Brasil neste século, trabalho de anos do tradutor e diplomata Giorgio Sinedino. Não apenas no Brasil: muitas das citações contidas nas abundantes e interessantíssimas notas que comentam trechos do “Dao De Jing” são traduzidas pela primeira vez do chinês para qualquer outra língua.

Tem gente que pode pensar que esses clássicos não têm mais nada a ver com a China atual, pós-Mao. Porém, vários sinais mostram que esse julgamento é talvez precipitado. Entre outros: a organização encarregada da difusão da língua e do soft power chineses pelo mundo afora foi batizada em 2004 de Instituto Confúcio. Um pouco antes, mas já assinalando uma nova relação do Partido Comunista Chinês com essas tradições milenares, temos (e isso descobri na Nota 1 do Capítulo 7 do nosso novo “Dao De Jing” em português) Deng Xiaoping usando o ditado ou o “conselho” (totalmente contra ostentação)  taoísta “embainhe seu brilho e cultive-se na escuridão” como diretriz de suas reformas econômicas (e também de sua conduta pessoal) que inventaram essa nova potência global. Talvez isso confirme uma intuição/sugestão um tanto polêmica de Giorgio Sinedino na introdução de sua tradução de “Os Analectos”: “Na China não houve uma quebra tão radical entre tradição e modernidade como na Europa. Há razões para acreditar que a fragmentação e as convoluções ao final da dinastia Qing (1644-1911) seguem padrões de mudanças encontrados no passado. Na China, a transição entre dinastias sempre terminava com o retorno aos valores e à identidade chineses, ‘tais como sempre foram’.”

Um aviso: que ninguém se assuste com o peso de cada um desses livros. Copiemos os chineses, em sua prática milenar de leitura. Não é necessário ler tudo do início ao fim, em ordem linear. Como Giorgio Sinedino também ensina: “o texto não possui unidade rígida, pois normalmente não é essa a forma como as obras antigas na China, especialmente os Clássicos, eram pensadas. Os chineses as leem ‘aleatoriamente’. Muitas vezes a leitura é menos voltada a um entendimento sistemático do que à busca de frases que despertem a intuição individual, algo muito peculiar à cultura chinesa.”

Escolho, ao acaso, duas frases então, uma de Confúcio, outra de Laozi:

“Há quatro coisas que o Mestre não faz de forma alguma: não é arbitrário, não é categórico, não é obstinado, não é egoísta.” (Os Analectos, 9.4)

“‘Eu, o único estólido. Repentino, oh, como a maré. Flutuando [pelo vazio], sem [saber] onde pousar.” (Dao De Jing, Segundo Rolo, Capítulo 20)

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Escrevi este post escutando Dai Xiaolian tocando qin. Difícil existir som que eu goste mais. Difícil também encontrar outras boas gravações de qin facilmente disponíveis online ou offline. Recomendo igualmente este disco de Lin Youren.

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PS: fico esperando a tradução de Giorgio Sinedino para o I Ching.

 

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