Archive for junho \30\UTC 2012

semi e menos: muito mais

30/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29/06/2012

Gilberto Gil fez 70 anos na terça-feira. Já participei de algumas homenagens. Fui um dos entrevistadores em seu Depoimento para a Posteridade, no MIS, convite de Rosa Maria Araújo. Acabo também de escrever texto para exposição comemorativa, convite de Frederico Coelho. Ainda fiz pesquisa sobre o exílio londrino para um projeto de Andrucha Waddington (o festival Back2Black, com curadoria de Gil, tem início hoje em Londres – será boa ocasião para falar sobre sua relação com a cidade). Portanto andei mergulhado na biografia de meu querido mestre/amigo tropicalista, o que é sempre uma alegria. Redescobri, por exemplo, o disco “Quanta”, que contêm a canção “Pop wu wei”, uma de minhas preferidas, e que deveria escutar (junto com a leitura de “O artista inconfessável” de João Cabral) todos os dias como uma oração: “Se Deus achar que eu mereço viver sem fazer nada / Que eu faça por merecer.”

Quanta, de 1997, termina com “Objeto ainda menos identificado”, outra maravilha. É continuação/resposta/etc. de “Objeto semi-identificado”, lançada 28 anos antes, naquele disco de “Aquele abraço”. Muitas vezes tenho a impressão que já fiz todas as perguntas possíveis para Gil. Afinal não foram poucas as vezes que o entrevistei (por exemplo, no documentário “Tempo rei”, quando volta para Ituaçu pela primeira vez desde a infância). Mas no processo de “desidentificação” das duas canções Objeto (as que levam a tradição da canção a seu extremo mais radical entre as gravações de Gil), deparei-me com algo nunca dantes conversado. Cheguei até a mandar email para Gil e Caetano com perguntas sobre a relação entre tropicalismo e música erudita contemporânea. Os dois me responderam com informações pouco comentadas em outras análises de suas obras, o que me animou a iniciar nova investigação. Esta coluna traz apenas suas primeiras anotações.

O disco de 1969 foi composto quase todo na prisão ou no período entre a prisão e o exílio londrino. Portanto, é quase um milagre que tenha sido produzido e lançado. Começa com “Cérebro eletrônico” e termina com “Objeto semi-identificado”, depois de passar por “Volks-Volkswagen Blue” e “Futurível”. “Objeto semi-identificado” é consequência das conversas entre Gil e Rogério Duarte (que fez a capa do disco, uma das mais ousadas do design gráfico nacional, com poema-desenho na capa e quadrinhos “Gil versus Solaries” na contracapa) no pré-exílio, semi-prisão de Salvador. A conversa ganhou forma de texto e foi gravada, apenas com as vozes dos dois amigos. Depois, como no resto do disco, a música foi acrescentada em São Paulo. Só que no caso de “Objeto semi-identificado”, o acompanhamento posterior não foi feito por instrumentos “normais”: era uma colagem sonora extremista com forte inspiração concreta e eletroacústica.

Quem comprou o disco em 1969, ao ouvir “Objeto semi-identificado” deve ter se lembrado de “Revolution 9”, lançado naquele álbum branco dos Beatles um ano antes. Não era uma cópia, mas sim duas trajetórias diferentes, a dos Beatles e a de Gil (com suas respectivas turmas), desembocando num mesmo lugar (quântico). O namoro entre tropicalistas e as estratégias sonoras barulhentas da música contemporânea era antigo. Vinha pelo menos dos Seminários Livres de Música da UFBA, com Koellreutter a frente, que trouxe até David Tudor para tocar John Cage em Salvador.

Djalma Correa, aluno dos Seminários junto com Tom Zé, participou do show “Nós por exemplo” (que apresentou Gil, Caetano, Bethânia e Gal [ainda Maria da Graça] para o público de Salvador), assinando a sonoplastia e apresentando número musical, segundo Gil, com “osciladores valvulados e outros trecos”. Caetano lembra da ocasião: “A plateia, que gostava do que fazíamos, não reagia nem com estranheza nem com impaciência.” Assim, quando Gil e Caetano encontraram Julio Medaglia, Rogério Duprat e a turma da Música Nova paulistana (vários integrantes tiveram aulas com Stockhausen na Alemanha), ou quando ouviram Charles Ives na casa de Augusto de Campos, ou quando encontraram Stockhausen na capa de “Sgt. Pepper’s” dos Beatles (e se depararam com aquele final em loop, pós “A day in life”, desse disco), já tinham réguas e compassos para entender e incorporar aquilo em suas próprias obras (E “Objeto semi-identificado” tropicalizava “Revolution 9” com seu discurso sebastianista sobre o Espírito Santo e neoconcretista sobre o desobjeto, o Deus-objeto).

Incrível como o pessoal dos anos 1960 conseguia fazer esse tipo de colagem sonora apenas com gravadores de poucos canais e overdubs. “Objeto ainda menos identificado”, de 1997, foi gravado com samplers e computadores comandados por Chico Neves, a partir de pedaços de muitos discos, inclusive da Nação Zumbi (Quanta é dedicado in memoriam para Chico Science, também outro discípulo do sampler). Gil e Rogério Duarte continuam falando os textos, mas a  composição é de Moreno Veloso e Lucas Santtana, com linguagem bem mais matemática, ou científica (afinal Moreno é físico), mas mantendo a defesa da mágica.

Agora, em 2012, o processo de desidentificação ainda é mais profundo. As conexões entre a canção e a experimentação são mais inteligíveis, onipresentes, mesmo em Lady Gaga. Gil declarou, em entrevista para a Folha de S. Paulo, que quer se desvencilhar da sua biografia. Sobrou para nós, em regime software livre. Os (des)objetos de Gil nos iluminam e contêm todas as coordenadas para seguirmos em frente, sempre para frente.

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efêmero eterno

23/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/06/2012

Cedric Price foi arquiteto que construiu quase nada. E mesmo que tivesse construído, teria se alegrado com o desaparecimento de todos seus edifícios, para darem lugar a outras obras. Tentaram tombar o Inter-Action Centre, de Kentish Town, periferia de Londres, um de seus poucos projetos que saíram do papel. CP, como era conhecido, fez campanha contra o tombamento. O Inter-Action Centre, formado por estruturas modulares móveis para se adequar ao uso que a comunidade ia criando para cada um deles (inclusive – pioneiramente – contêineres, hoje onipresentes em projetos pós-pós-modernos), apresentava instruções para sua demolição. Em outras palavras: tinha prazo, também a ser definido por seus usuários, de validade. Seu criador foi o principal proponente de uma quarta dimensão para a arquitetura: além de comprimento, largura, altura, cada edifício deveria ter seu tempo.

CP venceu. Hoje, para ser moderninho, qualquer projeto tem que ter algo pop-up. Todo planejamento urbanístico, para se vender, precisa ser também “não-plano”, título de artigo-manifesto que CP assinou em 1969 junto com o pessoal da New Society, revista britânica. Ninguém quer ser tachado de arquiteto ou urbanista autoritário, como foram nossos ancestrais modernos, que – dizem os críticos – queriam impor o caminho da felicidade para toda humanidade. Claro, na apropriação atual, muitas das ideias de CP perdem grande parte de seu radicalismo. Há até um shopping center pop-up, “o primeiro do mundo”, em Shoreditch, o bairro ex-mais-cool de Londres: é chamado BoxPark e formado – óbvio – por contêineres. O mercado é esperto, tem necessidade do radical para legitimar as vendas em tempos de consumo consciente Rio + 20. No BoxPark, a loja da Calvin Klein convive com a da Anistia, a livraria da Phaidon fica embaixo do Frae Frozen Yogurt. Tudo junto e misturado.

Essa mania pop-up vai ser cada vez mais onipresente. Começou devagarinho, como samba de Martinho da Vila. A Comme des Garçons, grife japonesa, lançou sua primeira “guerrilla store” em Berlim, 2004, longe dos bairros da moda (os guerrilheiros economizavam em aluguel e também arquitetura – o “conceito” exigia um ambiente com aparência “caindo aos pedaços”), aberta apenas por um ano. Dali para frente, o pop-up pipocou por todos os lados. O chique virou temporário: de museus (como o Guggenheim Lab, de Nova York, patrocinado pela BMW) a boates (como o Double Club, que o artista plástico Carsten Holler criou em Londres, patrocinado pela Prada, cuja fundação adora eventos efêmeros, tanto que no início deste ano lançou um museu 24h em Paris, assinado pelo artista plástico Francesco Vezzoli e o pessoal do Rem Koolhaas, por sinal um fã confesso de CP). É muita gente “formadora de opinião” mundial junta.

Talvez o Pritzker não seja o maior prêmio da arquitetura contemporânea. Cada vez mais prestigioso é o convite para projetar um dos pavilhões que a Serpentine Gallery apresenta anualmente, desde 2000, nos Kesington Gardens de Londres. Mais uma vitória indireta de CP: cada pavilhão tem prazo de validade, só dura de junho a outubro. Parece ironia, mas é sinal de tempos dominados pelo pop-up: os arquitetos mais importantes do mundo, de Oscar Niemeyer a Zaha Hadid, acabam competindo entre si para edificar algo que desaparecerá poucos meses depois de inaugurado. Isso é o que torna o pavilhão mais interessante: aprendemos a preferir o flexível ao duro, o inconstante ao permanente, a mudança ao eterno.

O pavilhão de 2012, que acaba de ser inaugurado ao lado da Serpentine Gallery, vai além: é meta-pop-up, preocupado em “resgatar” (a obsessão pelo resgate é o outro lado da moeda do culto do transitório) a memória dos pavilhões anteriores. Sua criação já foi processo que combina bem com o Zeitgeist: aconteceu basicamente via Skype, conectando os arquitetos suiços Herzog & De Meuron (autores da Tate Modern e do Estádio Nacional de Beijing) e o artista plástico chinês Ai Weiwei (que continua com o passaporte confiscado pelo seu governo comunista – ou pós-capitalista?). O texto que explica a obra ao lado do pavilhão (não encontrei cópia na internet) é brilhante: junta arqueologia e fantasmagoria urbanas para nos incentivar a entrar numa “escavação”, situada abaixo de uma plataforma “flutuante” baixinha, coberta por lençol d’água que pretende refletir o céu da cidade.

Quando emburacamos, fica aquela sensação característica que toma conta de nossos neurônios em muitos eventos hypados: mas é só isso? Melhor seria ler o texto e ficar imaginando o lugar, ou criando nossas próprias narrativas a partir das ideias chino-suiças. Ainda bem que é estrutura temporária. Depois que desaparecer, poderemos contar para quem não foi como era incrível.

Desaparecer? Algo dali não vai desaparecer: as paredes, chão, lugares para sentar são todos de cortiça. Prepare-se: cortiça vem com tudo em termos de material arquitetônico. Daqui a pouco haverá uma loja no seu shopping (pop-up ou não) preferido toda de cortiça também. Mas haverá permanência mais concreta: o pavilhão foi patrocinado e comprado pelo casal Usha e Lakshmi N. Mittal (bilionário indiano do aço, mais rico que o Eike Batista) e segundo o site da Serpentine Gallery “entrará para sua coleção particular”. Nunca tinha ouvido falar em coleções particulares de pavilhões pop-up. Não importa minha ignorância: a gente se acostuma com tudo nesta vida, mesmo com o efêmero eterno.

metal

16/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/06/2012

Slayer foi a banda que me fez gostar de heavy metal. Claro, antes eu já admirava Led Zeppelin ou Black Sabbath. Mas pensava as músicas “Black Dog” e “Paranoid” apenas como rock. Quando, no final dos anos 1970, Jimmy Page ou Tony Iommi passaram a ser considerados precursores de um estilo de rock que já era chamado de metal, toda minha atenção estava voltada para o punk, cuja cartilha anarquista me colocava em extremo oposto estético: avisem a seus discípulos que solos de guitarra não vão me conquistar, nem bate cabeças com chicotadas de cabelos longos. Até que o Slayer lançou “Reign in Blood”, sua obra prima de 1986. De lá pra cá o jogo virou: heavy metal é a única vertente, com inúmeras subdivisões cada vez mais esquisitas, que acompanho com entusiasmo no rock contemporâneo.

Tudo isso se confirmou, e ficou mais claro, quando tive o privilégio de ver o Slayer tocando todas as faixas de “Reign in Blood” ao vivo em Londres poucas semanas atrás, comemoração um pouco tardia dos 25 anos do lançamento deste disco. Era noite de gala para a comunidade heavy metal mundial. Fãs vieram até do Japão especialmente para a ocasião única (ao que tudo indica não haverá repetição deste show especial em nenhum outro palco). Para quem não tem familiaridade com o estilo: era ocasião equivalente a um concerto com Bob Dylan tocando todo “Bringing It All Back Home” ou Ornette Coleman com todo “Free Jazz”, discos que inauguraram novos universos sonoros, abrindo espaço para muitas outras inovações posteriores. O metal contemporâneo, do grindcore ao doom, não seria o mesmo sem “Reign in Blood”. Vou além: a música mais inovadora atual, de qualquer ramo, tem nesse disco um de seus mais sólidos fundamentos.

O Slayer que tocou “Reign in Blood” em Londres não era a mesma banda de 25 anos atrás, não apenas por causa da substituição de um dos guitarristas (Jeff Hanneman foi picado por uma aranha e ainda está se recuperando de algo que em inglês se chama “necrotizing fasciitis”, provocado por uma bactéria que literalmente come a carne humana – e poderia, ironia macabra, ser título de álbum de death metal. No show londrino, quem tocou em seu lugar foi o não menos sensacional Gary Holt, da banda Exodus – seus solos absurdos, em dueto com Kerry King, pareciam ser produzidos por um theremin descontrolado.) O resultado sonoro no palco não podia deixar de levar em consideração tudo o que aconteceu na história do metal, depois – e por causa – do lançamento do disco, quando peso e barulho atingiram intensidades radicalíssimas. Então “Reign in Blood” ficou mais atual do que já seria se tivesse sido tocado exatamente como foi gravado em 1986 (naquela época sua novidade vinha principalmente de um encontro entre metal e punk abençoado pela produção de Rick Rubin, que estava também ajudando a inventar a sonoridade mais pesada do hip hop).

Outro elemento tornava o show mais especial: era a noite de abertura da edição 2012 de I’ll Be Your Mirror (IBYM), um dos eventos da família de festivais All Tomorrow’s Parties (ATP), conhecida por suas escalações vanguardistas, livres da obrigação de apresentar os sucessos do momento. Os organizadores das ATP geralmente convidam músicos, como os componentes do Sonic Youth ou do Portishead, para serem curadores. A segunda noite deste IBYM foi programada pelo Mogwai (não assisti pois do Mogwai quero ficar apenas com a memória de seu show no cais do porto do Rio em 2002, com aquela santa barulheira na qual submergi em algum lugar da platéia entre a Paula Toller e o Daniel Galera). Então o convite para o Slayer tocar no festival também significava uma declaração como esta: metal é música de qualidade, arte prafentex – é mundo que deve conviver bem com o resto da vanguarda musical contemporânea.

Dava para perceber esse novo status artístico olhando para o público. Longe está o tempo em que era possível identificar um fã de metal pela sua roupa ou seu cabelo. No IBYM havia calça skinny (muita, ainda) ao lado do x-large hip hop/skatista, ao lado do coturno punk e assim por diante, como se toda a história da cultura juvenil inglesa se reunisse ou embaralhasse num mesmo tempo. Cabelos brancos e curtos também eram encontrados facilmente em cabeças balançando agitadas ao som de “Angel of Death”. Afinal, o adolescente que tinha 15 anos quando escutou “Reign in Blood” em 1986 agora tem um pouco mais de 40. Eu tenho 52 e não me senti velho no local (como tenho me sentido em vários outros shows, onde pareço ter o dobro da idade do mais velho da platéia e do palco – é o preço que pago por manter minha curiosidade afiada como a de um garoto que está descobrindo o mundo agora). Sensação interessante de constatar que o que era antes marca de conflito geracional agora pode ser link entre todas as faixas etárias e os velhos se comportam de forma mais “doidona” que os novinhos. E todos usam essas bolsas de pano onipresentes nos “looks descolados” [como detesto essas duas palavras, “look” e “descolado”] deste início de verão olímpico inglês.

O ecletismo também era evidente nas estampas das camisetas: Deicide, Agnostic Front, Mastodon e até Burial. Cheguei atrasado, mas consegui ver o pré-doom do Sleep e o pós-doom do Wolves in The Throne Room. Um blog de metal só fez uma reclamaçõa:o vinho recém-lançado pelo Slayer, chamado – é claro – Reign in Blood, não estava a venda. Não senti falta: havia uma barraca com chá verde.

caixa de vida parte 2

09/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/06/2012

Recapitulando: na semana passada publiquei o início da apresentação de RudyRucker, um de meus escritores favoritos, cuja obra é problematicamente classificada como ficção científica (FC). Mesmo o autor não sabe como enquadrar sua literatura. A própria trajetória de Rucker aumenta a confusão. No início ele queria ser matemático. Trabalhou como professor ou pesquisador em institutos de matemática, incluindo o da Universidade de Heidelberg. A temporada na Alemanha foi encarada como prêmio de consolação. Rucker já desistira da carreira ao não ser aceito como pós-doutor no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, santuário máximo do saber contemporâneo, onde antes teve encontro com Kurt Gödel, sumo sacerdote dos teoremas (ou antiteoremas) mais esotéricos da matemática. Gödel classificou as ideias de Rucker como “muito estranhas” ou “bizarras”. Era um elogio. Para o resto do Instituto, a bizarrice não era suficientemente brilhante.

Comentário sobre a negativa de Princeton: “Meu artigo com Ellentuck [seu orientador, na Universidade de Rutgers] e meu trabalho na tese, embora publicáveis, não eram convincentes o bastante para que eu aterrissasse na posição de um lógico todo-poderoso. Comecei a sentir que os mais altos escalões da realização matemática ficariam inacessíveis para mim.” Ele não se contentava com pouco, nem com Heidelberg (terra de 55 prêmios Nobel, segundo a Wikipedia). Ainda bem: talvez não tivesse continuado a escrever ficção se mantivesse uma vida restrita às universidades, onde sempre continuou trabalhando e mesmo publicando, mais como divulgador do que como criador central. (Nessas reviravoltas da vida, um de seus livros de não-ficção, “O infinito e a mente”, teve suas últimas edições publicadas por Princeton, depois de ter sido lançado nos anos 80 pela editora Bantam, mais conhecida por seu catálogo de FC, incluindo a série “Jornada nas estrelas”.)

O fundamento científico e a curiosidade com relação aos avanços mais radicais da ciência atual são elementos marcantes dos livros de Rucker. Eles se passam em universos com leis diferentes daquelas que governam nossa realidade. Seu método: “Esse é realmente um estilo de pensamento que aprendi como matemático. Você começa com um conjunto de axiomas e vê o que pode deduzir. Engenharia de software procede mais ou menos da mesma maneira. Você cria um pequeno programa e vê o que aparece na tela quando o programa é rodado. Minha escrita de FC é como isso também. Eu faço algumas assunções incomuns sobre meu mundo imaginário, ponho dentro umas poucas personagens, e vejo o que acontece na estória que escrevo.” É o que Rucker chama de transrealismo. Regras: “as personagens devem ser baseadas em pessoas reais”; “o artista transrealista não pode prever a forma final de seu trabalho.” Então nada é pura piração. Tudo começa com a realidade, mas ninguém sabe onde vai parar.

A ficção de estreia de Rucker se chamava “Donuts do espaço-tempo”. Em 1979 começou a planejar “Software”, primeiro lançamento da tetralogia Ware. Ainda usava máquina de escrever. Software era palavra pouco conhecida, retirada de um artigo da revista Scientific American. Rucker só comprou seu primeiro computador em 1985 quando iniciou “Wetware”. Os robôs de “Software” comem o cérebro de seu inventor, para torná-lo imortal. Já em “Wetware”, os robôs começam a construir seres humanos. Os dois livros ganharam o Prêmio Philip K. Dick. Em “Freeware”, humanos e robôs têm relações sexuais, e precisam lidar com raios cósmicos alienígenas.

Esse estilo de maluquice encantou os primeiros cyberpunks. Em 1985, Rucker estava hospedado na casa de Bruce Sterling (que iria lançar “Mirrorshades”, a primeira antologia cyberpunk, no ano seguinte). Outro hóspede era John Shirley, mais um cyberpunk “canônico”. Rucker abriu os olhos uma manhã e se deparou com Shirley bem perto, observando seu rosto. Pego no flagra, ele se explicou: “estava analisando as vibrações do meu mestre.” Gente fina e doida.

Talvez meus livros preferidos de Rucker sejam dois mais recentes, que se passam num universo onde já aconteceu a “singularidade” (difusão explosiva de superinteligências artificiais por toda a realidade). Tanto que o primeiro volume se chama “Postsingular”. Já em “Hylozoic”, sua sequência, os humanos desenvolvem a telepatia generalizada (não existe mais privacidade nenhuma, pois não mais controlamos quem tem acesso a nossos pensamentos), e descobrem que todos objetos, de pedras a guarda-chuvas, são conscientes.

Enquanto escreve sua obra, Rucker também atua como um dos observadores mais perspicazes da nossa tecnocultura. Dá para fazer um jogo “Onde está Rudy Rucker?” para encontrá-los em alguns dos acontecimentos definidores do Zeitgeist. Ele colaborou com a edição da Mondo 2000 (revista que foi a Wired, muito mais radical, antes da Wired), da Semiotext(e) (onde organizou, com Peter Lamborn Wilson, coletânea além-cyberpunk) e do Boing Boing (quando era apenas um fanzine, antes de se tornar o blog mais influente). Trabalhou como programador de softwares (os primeiros a popularizar os autômatos celulares) para a Autodesk. Etc.

Como disse, os livros não foram lançados no Brasil. Mas dá para ter acesso a muitos escritos de Rucker pela internet. Por exemplo: as notas de “Hylozoic” podem ser baixadas em PDF de 385 páginas. É testemunho de uma das mentes mais bacanas do universo em pleno trabalho.

caixa de vida

08/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/06/2012

Rudy Rucker é um dos meus escritores preferidos. Poucos outros me deram tantas alegrias literárias, ou desafiaram minha imaginação com invenções ficcionais a cada livro mais desconcertantes. Penso que ele gostaria de ouvir essa declaração que classifica sua obra apenas como literatura. Geralmente os elogios que recebe são mais específicos: seus livros já ganharam prêmios importantes, mas quase todos só conhecidos por fãs de ficção científica (FC). Rucker cita o exemplo de Kurt Vonnegut como escritor que escapou do “gueto”, e conquistou respeito de críticos “sérios”, muitos dos quais tratam, quando estão com boa vontade, quem escreve ou lê FC como adolescentes nerds. Ao fazer esse tipo de reclamação em casa, sua mulher cai na gargalhada: “Não é FC? Você está escrevendo sobre robôs e lulas falantes e discos voadores e viagens para a quarta dimensão! Do que você espera que as pessoas chamem seus livros?”

Sylvia Rucker não acalma o marido. Ele quer encontrar legitimidade artística para sua literatura: “Os beats prezavam o gênero como uma forma de arte vanguardista e singularmente americana, um pouco como o jazz. Para mim, é assim como continuo a pensar sobre a FC quando estou escrevendo: como um surrealismo do mercado de massas, como uma literatura experimental, como a ficção de nosso tempo.”

Retirei essas citações de “Nested scrolls”, autobiografia de Rudy Rucker publicada recentemente. Como todos os seus livros, se não me engano, este também não foi publicado no Brasil. O que é sinal de problemas maiores: ninguém sabe direito o que fazer com sua obra, muito maluca até para padrões nada caretas. Rucker reconhece seu descolamento em qualquer lugar: “eu levo meus efeitos para novos níveis de esquisitice, minhas personagens são humanos realistas e sofredores – e não sou muito popular entre típicos fãs de FC.” Os não típicos também ficam inseguros. No prefácio que escreveu para a introdução da “Tetralogia Ware” – quando os alucinantes “Software”, “Wetware”, “Freeware” e “Realware” foram lançados em um só volume -, mesmo William Gibson ficou na defensiva: “A ficção de Rudy [os dois são íntimos e Rucker foi uma espécie de irmão mais velho para os melhores escritores cyberpunks] é provavelmente um pouco forte demais […] para alguns leitores […] O cara é sui generis.” Gibson amarelou. Afinal ele também quer ser considerado um escritor importante. Não deve pegar bem ser associado a companhias muito doidas.

Como não me interessa ser considerado crítico sério, posso elogiar rasgadamente todos meus ídolos (incluindo desenvolvedores de games, artistas de mangá e tantos outros que são habitués desta coluna). Rucker é gênio. Mas concordo com Gibson: um gênio sui generis. Para o leitor avaliar o quilate da maluquice santa do cara, preciso dizer que “Nested scrolls” é mais que autobiografia. Rucker acredita piamente que em pouco tempo poderemos “uploadar” o conteúdo de nossas consciências para a nuvem ciberespacial, e continuaremos vivendo por lá depois que nossos corpos físicos forem para o beleléu. Em outras palavras: seremos imortais. Mesmo agora, com as ferramentas já disponíveis online, há atalhos concretos para a imortalidade virtual.

Rucker criou o conceito de “life box”. Cada pessoa pode começar sua caixa de vida até com um blog, no qual depositaria todas suas recordações, pensamentos, fotos, vídeos, falas. Depois precisaria criar um mecanismo de busca dentro do blog, que é uma forma ainda primitiva de interação com o conteúdo ali disponibilizado, por caminhos não imaginados pelo seu autor. Algumas buscas já são feitas com voz. Logo as respostas também serão falas, imitando a voz do dono daquela “life box”. Tudo ficará parecido com uma conversa, a partir das memórias de alguém que pode até já estar morto. No momento em que novas memórias, post-mortem, forem acrescentadas ao conteúdo “original”, algo bizarro acontecerá: a caixa ganhará uma fagulha de “vida” própria.

“Nested scrolls” foi escrito como uma “life box”, não interativa. Por isso tantos detalhes, do nome de seus professores nas escolas primárias do Kentucky aos piolhos que seus filhos pegaram dos primos décadas depois. Quem não é tiete de Rucker vai ficar até constrangido com tanta intimidade, mesmo tendo oportunidade de conhecer tão profundamente o cotidiano de uma família americana nos últimos 70 anos. Mas quem quiser pode pular a infância e adolescência para chegar logo ao que tem mais interesse geral, a partir da pós-graduação em matemática, com direito até a um encontro com Kurt Gödel (para muitos o ser humano mais inteligente que já existiu). Diante de seu herói matemático, Rucker tem coragem de expor suas especulações sobre os paradoxos da viagem no tempo. Gödel responde: “Essa é uma ideia muito estranha. Uma ideia bizarra.” O pupilo fica orgulhoso. É uma espécie de Prêmio Nobel de bizarrice, vindo justamente do sumo sacerdote de um mundo bem esquisito: “De todas as subculturas exóticas com as quais eu eventualmente me envolvi, os matemáticos ganham a coroa de estranheza – e nem ligue para os hippies, escritores de FC, roqueiros punks, programadores de computador, e cibermalucos de Berkeley.”

Não acredito que o espaço desta coluna já chegou ao fim… Estou destrambelhado, escrevendo pelos cotovelos. Semana que vem: o cyberpunk, a Mondo 2000, os autômatos celulares. Enfim: o melhor de Rudy Rucker só na próxima sexta-feira.


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