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inteligência artificial antropófaga

21/10/2017

Em agosto, recebi surpreendente convite do laboratório brasileiro da IBM Research para participar de painel no seu Colloquium 2017, abordando os impactos culturais da inteligência artificial (IA) em nosso país.  Sempre me interessei por inteligência artificial, mas de forma totalmente diletante. Tive menos que dois meses para preparar minha fala. Foi uma correria. Mesmo assim, nem precisava me esforçar para encontrar material de pesquisa pois, quase que diariamente, o assunto estava nas manchetes de jornais e capas de revistas. Deixo aqui anotações que fui colecionando durante o aprendizado mais que intensivo. Como o convite era maluco (por que eu?), achei exigia uma intervenção maluca. Chegando lá – diante de seleta plateia de centenas de cientistas e engenheiros – amarelei. Fui bem comedido. Mas, aqui no blog, posso exagerar na maluquice irresponsável (ou talvez responsável demais, dependendo do ponto de vista):

No dia primeiro de setembro, Vladimir Putin proferiu uma “aula aberta” via satélite para abrir o ano letivo russo. Da lição científica presidencial, a frase mais retuitada foi a seguinte: “quem se tornar o líder nessa área [IA], dominará o mundo”. Parecia recado para seus coleguinhas, também viciados em testosterona, Donald Trump e Kim Jong-un. Como se dissesse, bancando o mais inteligente: “vocês perdem tempo brincando com mísseis, a batalha mais importante acontece em outro campo e usa outras armas…” Porém, o que mais me chamou a atenção foi algo pouco comentado nos artigos que repercutiram os ensinamentos do professor Putin: o objetivo principal da produção de conhecimento por uma nação não é algo vago como “contribuir para o aumento dos índices de felicidade geral” ou o “combate contra a injustiça” ou a “descoberta da verdade”, mas sim “dominar o mundo”. Eis o bê-a-bá do imperialismo.

Melhor deixar de lado esse tipo de especulação. Afinal, como descobrir o que realmente se passa na inteligência de Putin? Como se certificar se seus discursos não sejam apenas pistas falsas, escondendo seus verdadeiros planos de dominação global? Até porque, se há realmente uma corrida armamentista no campo da IA, a Rússia – ao que tudo indica… – não parece ocupar postos próximos aos primeiros colocados. EUA, China e talvez Índia estariam correndo na frente, quase isolados dos demais países.  O resto é o resto.

E o Brasil estaria no resto do resto. O que isso significa? Está tudo – para ser – dominado por IAs que não pensam em português, que vão nos impor – sem escapatória – seus vieses culturais, suas maneiras bem específicas de classificar ou enxergar ou manipular a realidade, o mundo ao redor? Penso na IA do Google que colocou pessoas negras sob a tag “gorila”, provavelmente por, no seu processo de aprendizado, só ter lidado com seres humanos brancos. Os brasileiros seremos invisíveis, meros ruídos incompreensíveis (ou insignificantes, ou desclassificados), fantasmas nas máquinas da nova ciber-ordem? A quem interessará o investimento em machine learning para tornar detectáveis nossas diferenças?

Fiquei assustado com o cenário apocalítico, mas descrito com frieza ou objetividade comercial espantosas, que aparece no artigo que Kai-fu Lee, poderoso investidor “venture” chinês (ex-diretor do Google na China), publicou este ano no New York Times. Em resumo: a corrida é entre EUA e China. A IA vai acabar com a maioria dos postos de trabalho. A única saída será alguma espécie de renda universal, com impostos sobre as empresas vencedoras. Maior problema: o que fazer com os países que não terão empresas vencedoras? Não haverá alternativa (a pregação da crença neoliberal do artigo resposta de colunista da Forbes não me deixou menos preocupado): teremos que virar colônias dos vencedores, como mercado do consumo, aceitando os quadrados ou bolhas nos quais os algoritmos de Washington ou Beijing nos colocaram.

Mais assustador ainda foi descobrir recente edição especial sobre IA da revista Science e tomar conhecimento do trabalho do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia (comandado pelo psicólogo superstar Martin Seligman) com algoritmos para identificar sinais de depressão e outros problemas bem humanos nas redes sociais. Tudo bem intencionado. Um dos projetos se chama Bem-estar Mundial. Não quero ser ranzinza e alertar apenas para os problemas éticos óbvios, que todos os “papers” assinados pelos pesquisadores dessa instituição fazem questão de identificar com alertas: nossa saúde mental vai ser agora diagnosticada sem nossa autorização? Esse é somente uma característica de nossa realidade big brother/data cada vez mais sofisticada. Questão mais sutil: que diagnóstico será esse? Sabemos que culturas diferentes classificam estados mentais de maneiras distintas. Depressão em distantes bairros de uma mesma cidade pode não significar a mesma coisa. Vamos aceitar os laudos de algoritmos, mesmo com vieses “positivos”, feitos na Pensilvânia?

Sei que não sou a primeira pessoa me preocupar com esses aspectos da dominação global da IA. Há importantes debates e instituições nos EUA que tentam encontrar saídas para vários desses impasses. Cito a FATML.org, que cuida de “fairness, accountability and transparency” (prefiro não traduzir, pois são conceitos – até eles – que funcionam melhor em inglês) em processos de machine learning. Ou a diversity.ai, que lida com “inclusion, balance, neutrality”. Muitas empresas, como a Autodesk, criam departamentos para combater várias espécies de vieses. Tudo bem, tentam fazer sua parte. Mas qual a nossa parte? Seremos apenas espectadores, mendigando por algumas migalhas de atenção para nossas especificidades culturais, ou queremos ter voz ativa na invenção da nova política global? Nem espero tanta atividade: uma pequena intervenção realmente original nesta conversa já me deixaria menos desanimado.

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Tudo bem, muito o que se fala atualmente sobre IA é hype. Mas o hype geralmente cria as tais “janelas de oportunidade” que podem ser aproveitadas por quem está de fora do debate principal, usando a confusão blá-blá-blá geral para dar pitaco na conversa para a qual não fomos chamados. Na minha opinião o Brasil perdeu a oportunidade da internet. Não inventamos um aplicativo original para o uso da Grande Rede, como o Skype criado por estonianos, suecos e dinamarqueses (mas talvez seja o único exemplo de algo que realmente se internacionalizou – junto ao Waze? – vindo de fora dos EUA… e que acabou sendo comprado pela Microsoft). Nem criamos versões locais de ferramentas globais capazes de em seguida terem impacto no resto do mundo, como os chineses conseguiram com o Alibaba ou o Baidu. Os brasileiros se contentaram basicamente com o papel de consumidores vorazes das novidades, campeões ou vice-campeões em uso de redes sociais, publicação de vídeos, números de mensagens instantâneas trocadas… Nosso comportamento foi cada vez mais adquirindo o padrão de servidão voluntária diante de grandes corporações como Facebook. Trocamos a liberdade do código aberto (ou da noção de que a informação quer ser livre) por condomínios fechados administrados por empresas cada vez mais espertas no uso e na venda de nossos dados privados. Desconfio que quando falam em desenvolvimento nacional, grande parte dos brasileiros (inclusive dos economistas brasileiros) está pensando apenas na compra de camisetas da Abercrombie via Amazon. E todos ficam felizes com os mesmos uniformes aparentemente cosmopolitas, ou descaradamente submissos.

Meu consolo: pode existir algo criativamente predatório nessa tendência apenas consumista. Muitos estudos e artigos (por exemplo este aqui) sobre os trabalhos em vias de desaparecer por causa da IA profetizam que as juventudes das periferias pobres serão as parcelas da população mais prejudicadas quando operários ou pessoal administrativo forem substituídos por computadores. Habilidades mais sofisticadas, ou menos “algoritmizáveis”, como a comunicação, seriam monopolizadas por gente mais rica, estudantes de MBAs caros. Olhando para o que aconteceu no Brasil, sinto alívio em descobrir furos interessantes nessa tese. Novos comunicadores das periferias parecem ser os mais bem sucedidos criadores de conteúdo online no país.

Pense no Whindersson, que apareceu recentemente no topo da lista dos maiores influenciadores do Brasil, acima de apresentadores e atores da “mídia tradicional”. Ele foi criado em Bom Jesus, interior do Piauí, e hoje lota estádios de todas as capitais brasileiras com seu show solo de comédia stand-up. Observe atentamente a plateia da gravação de seu DVD em Salvador: em sua maioria parece ser formada por gente que não costuma frequentar teatro, uma novidade no show business brasileiro. Está ali para ouvir um monólogo que mistura observações de cultura tradicional nordestina com cultura pop de jogos eletrônicos e mangás japoneses, um mash-up de referências que são sempre pensadas, em ambientes acadêmicos, como mundos sem conexão.

Outro exemplo importante: Kondzilla é hoje um dos principais empresários de música e audiovisual no país. Seu canal no YouTube tem mais de 20 milhões de assinantes. O conjunto de vídeos ali publicados já acumulou mais de 7 bilhões de visualizações. Nenhuma outra empresa da mídia brasileira tem o mesmo tipo de sucesso online, construído na marra, inventando estratégias de viralização originais. Kondzilla tinha apenas 18 anos quando, com o dinheiro do seguro recebido após o falecimento de sua mãe, comprou sua primeira câmera de vídeo e começou a publicar clipes de MCs do funk santista e paulistano na internet. Vários outros fenômenos das periferias das grandes cidades brasileiras, do tecnobrega paraense ao sertanejo do Centro-Oeste, tiveram trajetórias semelhantes, abrindo caminhos em nova realidade diante da qual grandes gravadoras fracassaram.

Mas claro: tudo isso acontece utilizando plataformas de novas grandes corporações, em nuvens que não habitam céus brasileiros. Continuamos totalmente dependentes de tecnologia estrangeira para estabelecer links entre produtores e público.

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Também considero tímidas as tentativas de reflexão crítica sobre essa situação por parte das ciências sociais brasileiras. Há esforços isolados, aqui e ali. Pouca continuidade entre as tentativas, que surgem e desaparecem ao sabor de mudanças das políticas científicas e institucionais.

Em 1995, fui convocado por Tadao Takahashi, então diretor da RNP (a instituição que criou a – e ainda cuida da – espinha dorsal da internet brasileira, na época com sede carioca numa sala de fundos do IMPA), para organizar seminário “sobre aspectos sócio-culturais da internet no Brasil”. Chamei meus colegas antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Jayme Aranha Filho para me ajudar na tarefa. Eram tempos bem “ingênuos”: não havia ainda internet comercial no país. Para quem não era de universidade e governo, a única porta de entrada para a rede era uma ONG, o Ibase. A RNP imaginava que haveria tempo para planejar qual seria a melhor maneira da abertura comercial. O seminário aconteceu nos dias 28 e 29 de agosto daquele ano, no auditório do LNCC. Pouco tempo depois, o ministro Sérgio Motta autorizava a criação de provedores, que gerou um boom (a internet era o único futuro para tudo) que não deu muito em nada.

Se não fosse o esforço pessoal do Jayme Aranha Filho provavelmente o material do seminário estaria perdido. Os anais podem ser lidos neste link e retratam tentativa de estabelecimento de diálogo entre cientistas sociais e “das exatas” que não teve sequência realmente consistente e profunda, mas que agora em tempos de IA deveria ser considerado prioritário.

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Sou antropólogo. Os antropólogos são seres estranhos, escolheram trabalhar não com big data, mas com small data: nosso método principal de pesquisa é o “trabalho de campo”, imersão por período longo de tempo na vida cotidiana de um grupo pequeno de pessoas, mesmo quando estudamos em grandes cidades, com suas culturas complexas e heterogêneas. O contato face a face é a ferramenta principal para nossas melhores descobertas. Obviamente um olhar big data pode nos ajudar em várias tarefas (até porque podemos pensar a cultura como a primeira inteligência artificial) – um dos aspectos mais fecundos da reflexão antropológica vem de seu pendor comparativo, quando estabelecemos conexões entre costumes de muitas culturas diferentes (fico imaginando se a IA ajudaria Lévi-Strauss na investigação sobre seus mitemas). Porém, é preciso desconfiar de gente que tenta nos vender a ideia de que tudo agora será resolvido com machine learning.

Aprendi a cultivar essa desconfiança com um sociólogo, para muitos o maior sociólogo americano vivo. Tive a enorme sorte, a partir da apresentação de Gilberto Velho, de ter Howard S. Becker como orientador no ano que passei com bolsa sanduíche na Northwestern University, entre os créditos e a defesa de tese do meu doutorado. Howie, como exige ser chamado pelos estudantes, se tornou um de meus principais interlocutores para conversas nas quais o tema principal era tecnologia, pois sempre esteve atento aos avanços de várias áreas ciberculturais, como comprova o texto pioneiro que escreveu sobre o hipertexto (e sua amizade com Michael Joyce) ou o outro sobre novas mídias e a web.

Quando cheguei na Northwestern, fiz, com Howie e o saudoso Dwight Conquergood, um curso sobre performance e ciências sociais. Não era teoria: em todas as aulas tínhamos que fazer performances artísticas baseadas em textos de sociologia e antropologia. Mas ele insistiu que eu me inscrevesse também no curso do professor Charles Ragin, que envolvia estatística pesada (hoje o trabalho de Ragin é bem conhecido pelo uso inovador que faz dos “fuzzy sets“, que também têm aplicações bem curiosas no campo da IA). Portanto, não pensei duas vezes antes de mandar para o Howie, em 2008, um dos primeiros artigos que li sobre pesquisas big data nas ciências sociais.

Eu tinha ficado empolgado com a abertura de novas possibilidades para nosso trabalho. Achei que meu orientador americano, hipster de 80 anos, vibraria também. A primeira mensagem de volta, sempre recebida com rapidez impressionante, foi uma ducha de água gelada. Howie dizia que não tínhamos conjuntos de dados massivos sobre as coisas que realmente nos interessam pesquisar. O exemplo que me deu era sobre o livro que estava escrevendo na época, em parceria com Robert Faulkner, que agora já foi publicado como “Do you know…?“, sobre como músicos que nunca antes trabalharam juntos decidem repertórios para tocar na noite ou em festas. Não há banco de dados com todas as música tocadas nessas ocasiões. Não interessa a ninguém e seria muito caro criar esses bancos de dados.

Insisti, maravilhado com a riqueza dos outros bancos de dados que estariam sendo formados a partir da interação de milhões de pessoas nas redes sociais então nascentes. Cito a resposta quase completa (pedi autorização, era apenas um email pessoal) para não ser infiel a nenhuma sutileza do argumento (palavras para mim fundamentais não apenas para cientistas sociais, mas para qualquer uso de big data):

I’m always a little (more than a little, really) suspicious when someone tells me about a way to find out all the things that fieldworkers are really interested without having to do all the work that it usually requires. In this case, everyone (not just you!) is telling me that I don’t have to do anything, the internet and social networking sites and so forth are more or less automatically accumulating mountains of information about all the things I’m interested in and it’s there for the taking. There’s usually a catch in all this, which is that there’s data about some things and not about others, and it’s only human to say to yourself, “Well, I might as well look at what’s available and see what we can do with that,” instead of saying, “Here’s what I’d like to know about, does this material tell me about that or not?”

To take what’s on my mind right now, which is the repertoire, the songs musicians play when they get on the bandstand, let’s even imagine that some site would accumulate information about all the music that anyone, anywhere, anytime is playing and has played, and who played it and in what kind of setting, etc. What would still be missing is the interchange among the players that led to them playing just those songs, and that’s the part that we’re convinced is crucial. The rest is interesting, nice and even helpful to know. But what tells the story decisively is what they talk about as they negotiate things.

Claro, há sempre a possibilidade – digamos que não temos mais custos de armazenamento – de gravar em vídeo 3D ou traquitana semelhante todas as negociações. Mas – e aqui eu Hermano acrescento – isso seria como o mapa de Borges, que fica inútil por ser do tamanho do território, ser uma cópia exata do território que queríamos representar. Teríamos que enviar antropólogos para fazer trabalho de campo nessa “second life” (antes que vire cartografia despedaçada, apodrecendo no “deserto do real”). Ou ensinar uma IA a ter olhar antropológico e mesmo os anthropological blues de Roberto da Matta. É isso realmente o que queremos? Podemos criar também IAs antropólogas brasileiras?

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Há uma maneira brasileira de pensar? Conseguiríamos aqui construir uma inteligência artificial realmente outra, alienígena para padrões dominantes, ou fora do projeto Putin de dominação mundial? O Brasil não acabou? Por que insisto nessa ideia de que o Brasil tem algo de original para propor para o mundo? A realidade recente toda não me contradiz?

Sou insistente, repetitivo, não consigo sair desse loop… Quando Cláudio Pinhanez me convidou para o colóquio da IBM brinquei com ele: temos que inventar uma inteligência artificial antropófaga, ou tropicalista. Lembrei os aforismos do Manifesto de Oswald: “nunca fomos catequisados, fizemos foi o carnaval”. E o carnaval é sim uma outra forma de inteligência, bem artificial. Mais um aforismo, este mais adequado ao tema em questão: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. Há inteligência artificial ilógica? Outra lembrança: admitimos sim, entre nós, o nascimento da lógica paraconsistente de Newton da Costa, e que poderia nos guiar no caminho para uma IA brasileira ambígua, não entre o sim e o não, mas acreditando piamente no sim e no não, tudo ao mesmo tempo agora, uma outra lógica talvez também chinesa (lembremos que – como Gilberto Freyre sonhava – o Brasil é a China Tropical).Uma IA que talvez nos ensine a lidar com a mistura não apenas como entropia, e sim como um sinal de que nada é puro. Pensar a bagunça, na bagunça – isso não deveria ser considerado tarefa impossível para seres inteligentes.

Outro caminho: fazer a IA virar escritora fan fiction de Guimarães Rosa (via também Eduardo Viveiros de Castro) se metamorfoseando em IA onça, não humana. Gosto da ideia de Close AIs e Far AIs. Quanto mais longe a gente conseguir ir, melhor, mais surpresas. Ir além de Wittgenstein: se um leão falar, vamos dar um jeito de entender o que ele diz. Remixagem xamânica de “formas de vida”, algumas naturais  (mas nem todas humanas), outras artificiais. Navegando contra a (in)sensatez de John Searle, seguindo trilha multinaturalista: pensamento é um só, corpo e perceptos/afectos são múltiplos. Ou não. Vamos descobrir. Ou não tão longe: que tal uma IA que fale as quase 200 línguas indígenas ainda vivas no Brasil? Sei que as IAs ainda engatinham no português. Mas por que se contentar com pouco?

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Durante o período em que fazia pesquisa em busca do que falar no colóquio da IBM, ouvi – como faço religiosamente – vários episódios do podcast do meu amigo Erik Davis. Foi assim que descobri o pensamento de Ken Goldberg. Não parei mais de devorar, como uma onça, suas ideias, que saio por aí replicando memeticamente. O texto que escreveu para o Wall Street Journal é um bom resumo. Gosto especialmente – eu empenhado deleuziano – de sua ordem para esquecermos a Singularidade e pensarmos a multiplicidade. Não um algoritmo único no final da História. mas um enxame de sistemas cognitivos, baseados em uma matilha de modelos diferentes, junto com humanos e outras formas de vida, não guerreando pela dominação total/mundial, mas estabelecendo múltiplas formas de colaboração entre si.

Assim, guiado por Ken Goldberg, cheguei ao conceito (já patenteado!) de random forest, ou florestas randômicas (explicação simples neste podcast). Tudo por aí me atraí, e tento juntar com o que acho interessante quando penso em IAs brasileiras: não um monólito 2001, copiado igual em todo o universo, mas um conjunto fuzzy de fragmentos muito diversos, cada um com sua experiência, e a soma das experiências produzindo um carnaval, ou carnavais. Mandei o artigo do Ken Goldberg para o Eduardo Viveiros de Castro. Ele me respondeu, sintético e preciso: “Sobretudo temos de colocar a floresta literal nesta multiplicidade… Fazer o salto, da Amazon à Amazônia…”

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Minhas melhores descobertas de livros não acontecem com o uso dos algoritmos da Amazon. Foi numa estante de livraria tradicional que encontrei “La France contre les robots” de Georges Bernanos. Contém textos escritos por volta de 1945, quando estava exilado no Brasil, cuidando de uma fazenda em Barbacena. Fiquei fascinado, imaginando Bernanos no seu cavalo, indo todo dia da fazenda para um café na cidade, onde escrevia em francês seus sermões desancando os imbecis. Digo isso como introdução pitoresca para citar um trecho que agora, com a IA, faz novo sentido: “O perigo não está nas máquinas, senão deveríamos realizar o sonho absurdo de destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, espatifando as imagens, pensavam aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número incessantemente crescente de homens habituados, desde sua infância, a desejar apenas aquilo que as máquinas podem dar.”

Lembrei-me então de outro europeu aqui exilado, o português Agostinho da Silva, em suas entrevistas publicadas no livro “Vida conversável”, que é um dos meus favoritos, sempre na cabeceira. Não era contra as máquinas. Achava que deveríamos prestar homenagens ao parque industrial que pode contribuir para a “libertação do homem”, se bem utilizado. Acreditava que a economia global já produz o suficiente para um regime de renda universal, onde só trabalharia quem quiser e gostar daquele trabalho específico. Mas o professor Agostinho da Silva escreveu o seguinte: “Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.”

Então com essa mistura improvável de Georges Bernanos com Agostinho da Silva ficam aqui minhas sugestões para um projeto realmente original de IA brasileira: vamos imaginar outros desejos, múltiplos? E outras máquinas que nos presenteiem com o imprevisível? Máquinas que produzam as transformações desejadas por Gilberto Gil em “Cibernética“, canção dos anos 1970:

Onde lia-se alfândega leia-se pândega
Onde lia-se lei leia-se lá-lá-lá

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1995 novamente

18/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/04/2015

Há sete dias, escrevi por aqui: “precisamos de uma boa história das cibercomunicações nacionais”. Naquela manhã de sexta-feira, a psicóloga Daniela Romão gentilmente me enviou mensagem avisando que temos a dissertação de mestrado “A trajetória da internet no Brasil”, defendida em 2006 por Marcelo Sávio de Carvalho na Engenharia da UFRJ. Eu conhecia a tese de doutorado da própria Daniela Romão, sobre cibersubjetividades contemporâneas, intitulada “Brincando de ser na realidade virtual”. (Em campo de estudo dominado pela negatividade, é admirável sua “visão positiva”, demonstrando que os “múltiplos eus” de nossa experiência online podem não ser encarados como patologia.) Por isso logo segui sua dica e baixei a dissertação do Marcelo Sávio de Carvalho, disponível em vários recantos da rede. Este meu texto de hoje tomou novo rumo a partir do muito que aprendi com sua leitura.

Claro, outros autores podem produzir histórias da internet no Brasil com mais detalhes. Porém, o básico, com seus momentos mais significativos, já está narrado por Marcelo Sávio de Carvalho. Começando pela origem mais remota das políticas públicas para telecomunicação no país, desde o Conselho Nacional de Telecomunicações de Jânio Quadros ou o Código Brasileiro de Telecomunicações de João Goulart. Mesmo antes de 1964, os militares, através de recomendações de estudos do Estado Maior das Forças Armadas, já inspiravam essas iniciativas, mostrando o embrião do perigoso link entre informática e segurança nacional que vai se fortalecer nas décadas seguintes. A Embratel foi criada em 1965, desprivatizando o setor, com foco em integração territorial. No início dos anos 1970, no auge da ditadura, surgiu a Coordenação de Assessoria ao Processamento Eletrônico (CAPRE), ligada à Presidência da República. Em 1978, a CAPRE foi substituída pela Secretaria Especial de Informática, tudo com vínculos tanto com o SNI quanto com o Conselho de Segurança Nacional, criando espaço inclusive para a reserva de mercado de informática e defendendo “controle governamental sobre os sistemas de informação de cada país” (alguma semelhança com a posição chinesa atual?).

A década de 1980 viu aparecer redes de dados como o Cirandão da Embratel, ou o projeto paulista de videotexto (a Telesp chegou a propor o “olhão”, terminal público que iria substituir o “orelhão”), e o avanço acadêmico para conectar as universidades, construindo os caminhos que formariam a espinha dorsal da rede que utilizamos até agora. Marcelo Sávio de Carvalho também dedica várias páginas para revelar o papel que o IBASE, pioneira ONG com sede carioca, teve na abertura do uso da internet para toda a população brasileira.

1995 foi realmente ano crucial nesta história. A Norma 004/1995 do Ministério das Comunicações comandado por Sérgio Motta, no início da onda de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, serviu de anúncio claro para a mudança, definindo a internet como “um serviço de valor adicionado, sobre o qual não haveria nenhum monopólio”. Logo depois, Sérgio Motta determinou que a Embratel “teria que encerrar suas atividades como provedora de acesso a pessoas físicas.” Em 1996, o ministro sentiu necessidade de reafirmar nos jornais: “O que o governo tem que fazer com os usuários da internet é deixá-los em paz.”

Gostaria de ter mais notícias sobre os bastidores dessa queda de braço entre o Ministério das Comunicações e a Embratel. Marcelo Sávio de Carvalho cita depoimentos de funcionários da estatal tentando se defender de acusações de voracidade monopolista. Outros futuros estudos também podem nos revelar melhor o pensamento sobre informática produzido por órgãos de “informação” na ditadura (talvez situando-o no panorama internacional da Guerra Fria, e pós-Guerra Fria, já que a palavra informação continua a ter poderosas relações com serviços “secretos” e tentativas de controle, como as denúncias de Snowden confirmam).

Ainda outros pesquisadores precisam se debruçar sobre a história da internet no Brasil depois de 2006, quando Marcelo Sávio de Carvalho defendeu sua dissertação. Ali foi ano de outra virada, aquela da viralização das redes sociais, quando a população brasileira toma gosto pelo Orkut, já tendo sido campeã ou vice-campeã (um pouco antes ou um pouco depois de 2006) de uso mundial em ferramentas/sites/comunidades como ICQ, YouTube, MSN e, recentemente, Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp. A afinidade do Brasil com a comunicação eletrônica está mais que comprovada. Precisamos de política para incentivar a conversão dessa apropriação frenética em invenção de nossas próprias ferramentas para o resto do mundo usar. A Estônia criou o Skype. Qual invenção brasileira vai ter impacto no ciberespaço?

1995

11/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/04/2014

A internet comercial brasileira está completando duas décadas. Até 1995, nossa conexão com a rede mundial de computadores só era possível a partir de universidade, de órgãos governamentais e do Ibase, com seu pioneiro Alternex. No início daquele ano, ninguém ainda conseguiria prever qual o modelo de acesso que seria adotado no Brasil. A Embratel chegou a pretender ser provedor único. Seus planos monopolistas não deram certo, numa virada surpreendente, que ainda não foi bem investigada. Aliás, precisamos de uma boa história das cibercomunicações nacionais. Anoto aqui informações pitorescas para ajudar quem se dispor a realizar essa tarefa.

Em novembro de 1994, o caderno de informática do Jornal do Brasil publicou a lista de “todos os WWWs brasileiros”. Eram apenas 28 endereços, 26 de universidades mais o do Ibase e o da Caixa Econômica Federal. A matéria era didática, mas incompreensível para o leitor comum: “Com os WWWs, o usuário pode ‘visitar’ museus, instituições de pesquisa, a Casa Branca ou até assistir ao show dos Rolling Stones. A forma de apresentação do Web são as páginas.” Já em outubro de 1995, uma matéria d’O Globo tinha como manchete “Garanta seu espaço na Net” e trazia a lista dos 14 provedores de acesso cariocas e paulistas, quase todos BBSs que passaram a permitir conexões com a internet. Meses antes, Tadao Takahashi – então coordenador da Rede Nacional de Pesquisas (RNP), órgão que construiu a espinha dorsal da rede brasileira – anunciava que em 1997 esses provedores teriam 150 mil usuários.

Eram cálculos modestos. Computadores não eram itens de consumo exatamente populares. Modems faziam menos sucesso ainda. Conheci Tadao nessa época, quando a RNP tinha escritório no IMPA. Ele me procurou para organizar um estudo sobre os usos sociais que a internet poderia ter no Brasil, tentando planejar que tipo de acesso seria mais relevante. Eu, Jayme Aranha Filho e Eduardo Viveiros de Castro organizamos, a pedido da RNP, um evento com nome pomposo, mas bem precavido: Seminário Preparatório sobre Aspectos Socioculturais da Internet no Brasil, realizado nos dias 28 e 29 de agosto de 1995 no auditório do LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), na Praia Vermelha. O objetivo era apenas elaborar recomendações para um macroprojeto de pesquisa que nortearia a abertura comercial da internet em território nacional. A RNP ainda pensava que isso seria feito com calma. Claro que a realidade atropelou a tentativa de planejamento. Quando a ciberporteira abriu, os brasileiros demonstraram que se sentem tão em casa na internet quanto em bloco de carnaval de rua.

Eu já tinha acesso Altenex desde o tempo em que para mandar um email era necessário decorar vários comandos Unix. Lembro minha emoção ao descobrir, quase secretamente, que durante a Rio 92, nosso acesso ao novíssimo WWW foi liberado. Por isso ficava sempre procurando maneiras mais estáveis e velozes de conexão. Recebi uma daquelas cartas, em maio de 1995, anunciando: “A EMBRATEL tem a satisfação de disponibilizar para V. Sa. o acesso à Internet na modalidade IP discado.” Deixava claro que era um “projeto piloto” e apresentava dois números de telefone, um para velocidades de acesso até 14.4 Kbps e o outro para 28.8 Kbps (facilitando a comparação: 1 mega de banda larga é quase 35 vezes mais veloz que 28.8 Kbps, e temos que incluir aí os perrengues com ruídos nas linhas telefônicas de 20 anos atrás). No “piloto” a vantagem seria conexão de dados gratuita; o usuário só pagaria pela ligação telefônica. Era mesmo uma tentativa de se tornar a única porta de entrada para a internet no Brasil. Acho que não durou nem até o final de 1996. Quando outros provedores foram autorizados a comercializar acesso, a Embratel dançou.

Guardei um encarte da revista “Internet Brasil” de setembro de 1996. É um “guia de home-pages e provedores de acesso do Brasil”. Não dá mais para contar. São cerca de 4 mil URLs, quase 150 vezes mais do que o número de menos de dois anos antes. São algo em torno de 300 provedores.

Que ninguém pense que o Brasil estava atrasado. A explosão popular da internet nos EUA aconteceu também em 1995. Em julho de 1994 a revista Time publicou capa sobre “o estranho mundo novo da internet”. Em novembro de 1994 a Business Week explicava “como a internet vai mudar a maneira como você faz negócios”. Em janeiro de 1995 a PC World – publicação mais especializada em nerds impossível – trazia na capa a seguinte manchete: “como se conectar à internet”. Nós brasileiros mergulhamos fundo e convictos na novidade estranha. Pena que até hoje mais como usuários do que como criadores de serviços. Assunto para a coluna da semana que vem.

FabTudo

07/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/03/2015

Neil Gershenfeld faz o futuro. Bem naquele sentido de quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Ou acompanhando o movimento maker, que sempre reaparece aqui na coluna. Acompanhando não: Gershenfeld está na vanguarda fazedoura. Pode até ser considerado o pai fundador do atual tsunami faça-você-mesmo, versão século XXI, pós-cibercultura.

Tudo começou na sua sala de aula do MIT, no curso “Como fazer (quase) tudo”. Quando propôs a ementa, Gershenfeld tinha em mente uma turma de poucos nerds. Para sua surpresa, nos anos seguintes, houve superlotação de alunos, com as mais variadas formações: cientistas da computação (como Jason Taylor, que cuida da infraestrutura do Facebook, e Rafi Krikkorian, infraestrutura do Twitter) ao lado de artistas. Por isso seus ensinamentos foram viralizados em vários ambientes, e se transformaram num movimento/atitude/estratégia de vida e produção das coisas necessárias para a vida. Deu na revista “Make” e nas feiras Maker, que são cada vez maiores, e mais influentes. Tanto que no ano passado uma delas foi realizada, com Gershenfeld na organização, nos jardins da Casa Branca, Obama presente e entusiasta.

A metodologia e as máquinas fazedoras utilizadas no curso “Como fazer (quase) tudo” formaram a base para a criação, também por Gershenfeld e o pessoal do seu departamento do MIT (chamado Centro para Bits e Átomos, justamente por trabalhar na convergência dos territórios “digital” e “real”), dos Fab Lab, que são pequenos laboratórios/fábricas públicos capazes de produzir quase tudo (equipamentos comuns: cortadoras a laser; cortadoras de vinil; prensadoras; impressoras 3D). O primeiro Fab Lab foi aberto em 2001. Rapidamente uma rede fazedora se espalhou pelo mundo, de Jalalabad ao Rio de Janeiro, passando por áreas rurais africanas.

Em palestra recente publicada no site “edge.org”, Gershenfeld explica o caminho do Fab Lab para a Fab Academy, utilizando a rede de labs e aulas online para formar novos fazedores, capazes de criar até máquinas que criem máquinas e assim por diante. É uma nova proposta pedagógica: as universidade tradicionais, como o MIT, seriam como um computador mainframe, pesado, e a Fab Academy funcionaria como a internet, conectando milhares de pequenos computadores. O futuro nos transportaria para uma organização de saberes pré-Renascença, época na qual – Gershenfeld acredita – houve a ruptura perniciosa entre artesãos – fazedores, os que colocam a mão na massa – e cientistas – pensadores, que criam conceitos abstratos. Hoje, e cada vez mais no futuro, pensar e fazer devem ser atividades simultâneas, misturadas. Mais interessante ainda: a Fab Academy concede diplomas que estão em vias de serem reconhecidos por ministérios da educação de todo mundo. As matrículas para os vários cursos de 2015 ainda estão abertas. Bom aproveitar.

No Rio de Janeiro, o “Olabi”, em Botafogo, e o SENAI FabLab, em Benfica, são nossas portas de entrada para esse admirável mundo novo da manufatura digital e personalizada, que é muitas vezes descrito já como a mais recente etapa da revolução industrial. Os computadores pessoais e a internet descentralizaram a produção de bits, agora chegou a hora de fazer a mesma coisa com os átomos dos objetos físicos, incluindo máquinas e seres vivos. A cidade que parece estar na dianteira neste processo tecnocultural é Barcelona, que planeja ter fablabs em cada um de seus bairros e trabalha com meta bem ousada: produzir (quase) tudo que consome dentro do seu perímetro urbano.

O “Olabi” realizou na semana passada seu primeiro evento de biohack. Essa é uma tendência também global. O próprio Neil Gershenfeld tem trabalhado com George Church – geneticista, engenheiro molecular – na elaboração de novo curso, que promete ser também popular: agora o objetivo é “Como cultivar (quase) tudo”. O “tudo” inclui novos organismos biológicos, dos mais simples aos mais complexos. Claro que as questões éticas levantadas pela proliferação de laboratórios públicos capazes até de modificar DNA devem ser tratadas com enorme cuidado, pois evidentemente os perigos são enormes. Mas não há caminho de volta: os conhecimentos científicos de ponta, e os aparelhos para produção desses conhecimentos, são cada vez mais acessíveis para toda a população. Ninguém mais conseguirá escondê-los em tubos de ensaio de grandes universidades ou grandes empresas. Assim como para as indústrias culturais (fonográfica, cinematográfica etc.) nada será como antes desde a popularização da internet, agora todas as outras indústrias (farmacêutica, automotiva, construção etc.) vão ter que se reinventar se quiserem continuar relevantes no nosso fab-futuro-aqui-agora.

 

Paul Virilio

24/01/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/01/2015

 

Tenho o costume bem estranho, talvez compartilhado por outros viciados em informação, de periodicamente – mas cada vez mais raramente – zapear um por um todos os canais do cabo, esperando que algo chame realmente minha atenção. Na maioria das vezes chego ao final sem parar em nada. Porém, nas duas últimas tentativas, ainda em 2014, empaquei no canal “Curta!”. Fui seduzido pelo rosto redondo – e sua fala mansa apesar de transmissora de mensagens totalmente apocalípticas – do pensador francês Paul Virilio. Nunca esperei encontrá-lo na tela do cabo brasileiro. Ainda mais duas vezes seguidas. Considerei que era ordem do Destino para escrever novamente sobre Virilio na coluna. Estou aqui obedecendo.

Era um documentário de 2012, e se chamava “Paul Virilo, pensar a velocidade”. Dá para ver no YouTube, com legendas em espanhol (não sei se é publicação pirata que pode ser retirada do ar a qualquer momento). Está à venda na loja do canal francês “Arte”. Mas tomara que continue a passar sempre no “Curta!”, quase como uma reza cotidiana (o pensamento de Virilio nunca escondeu suas raízes cristãs).

Na primeira zapeada peguei o documentário no final. Na segunda vez estava exatamente no início. Fiquei mais impressionado ainda com a quantidade de gente que admiro, por uma diversidade alucinante de motivos, em cena: Jacques Attali (preciso escrever sobre sua vasta obra aqui), Dominique Wolton (analista interessante das transformações da mídia pré e pós-internet), Jean Nouvel (o arquiteto, que trabalhou com Virilio). Há também o ministro da Defesa do governo francês da época.

Para o seu amigo criador de histórias em quadrinhos Enki Bilal, Virilio diz a frase que mais me incentivou a recomendar o documentário: “Bilal, somos trágicos, mas não tristes, o que falamos é excitante, como em ‘Antígona’.” (E “Antígona” é peça que também anda me perseguindo.) Mas adiante, a mesma coisa ainda mais resumida: “pensar não é triste”. Preciso acordar repetindo isso todos os dias.

Também foi impactante ver a obra mais escandalosa de outro amigo de Virilio, o arquiteto Claude Parent, classificado pela revista “032c” como supermodernista. É a igreja de Santa Bernadete de Banlay, edificada entre os anos 1963-1966 na cidade de Nevers. Antes eu só conhecia fotos, mas no documentário, Virilio dá entrevista em seu interior. Agora posso entender a razão para as pessoas se recusarem a se casar lá dentro. Parent e Virilio são fascinados pelos bunkers que os alemães construíram na França durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente aqueles que protegiam a costa do Atlântico e hoje desceram ribanceiras impulsionados pelas tempestades de inverno, ficando tortos e assim impedindo distinção entre chão, paredes e teto (o que deu outra ideia-provocação para Parent, que passou a inclinar o solo de seus edifícios). Pois bem (ou pois mal): a arquitetura da igreja tem essa inspiração catastrófica. (Parent depois projetará shopping centers e usinas nucleares.)

Tudo tem a ver com a filosofia ou a maneira de ver o mundo contemporâneo proposta por Virilio. Trágica-alegre, mas não pessimista. Ponto de partida: todo desenvolvimento tecnológico inventa também um novo acidente. Por exemplo: Santos Dumont, sem ter sido esta sua intenção (ele só queria fazer o homem voar), poderia ser pensado igualmente como pai do acidente na aviação. Agora, com a aceleração do ritmo das invenções, a aparição de acidentes para os quais temos inevitavelmente menos controle se torna cada vez mais veloz. O que seria o equivalente de uma queda de avião para totalidade da internet, com sua troca de “big data” (cada vez mais big), em velocidades tão altas que se tornam próximas da instantaneidade,  colocando tudo em conexão com tudo em tempo real? Daí a sensação constante de claustrofobia, como se estivéssemos dentro de um bunker, esperando o próximo ataque.

Virilio cita Churchill: otimismo é ver oportunidade na calamidade. Como vamos sair desta: desacelerar radicalmente ou acelerar ainda mais? Dominique Wolton declara, no documentário, que o ser humano vive tentando equilibrar dois impulsos contraditórios: adora a instantaneidade, mas vive na duração. Hoje a alternativa gera novas tendências comportamentais, que devem se multiplicar nos próximos anos, imagino que girando em torno de dois movimentos: de um lado tudo o que é slow (food, design etc.), do outro o aceleracionismo (para o qual o único antídoto para os problemas atuais é mais do mesmo, muito mais). Provavelmente este seja o debate mais importante travado atualmente. O decrescimento é desejável? Uma outra ciência é possível? Qual o sentido do progresso? Explorações animadas para as próximas sextas-feiras.


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