Archive for the ‘cibercultura’ Category

literatura e história

22/06/2020

Ouvi falar pela primeira vez no podcast Literature and History ouvindo outro podcast, o Arts and ideas da BBC, que embala muitas de minhas atividades há muito tempo. Era um episódio em que Philip Dodd entrevista até Larry Summers, ex-presidente de Harvard e secretário do Tesouro americano na presidência de Clinton etc., sobre o futuro das universidades, com atenção especial para o “declínio catastrófico” das Humanidades, cada vez com menos alunos e fundos. Dodd citou o exemplo contrastante do sucesso de Literature and History, com mais de 1 milhão de downloads, como elemento para apimentar o debate. Se um podcast que dedica quatro episódios, cada um com mais de 1 hora de duração, para a Eneida de Virgílio consegue atrair tantos ouvintes, por que os cursos universitários sobre os mesmo assuntos estão cada vez mais à míngua?

Não quero aqui entrar nesse debate muito complicado. Nem conheço bem esses números “catastróficos”. Quero apenas aumentar um pouquinho o número de downloads dos episódios de Literature and History. Doug Metzger, seu apresentador, certamente fala pelos cotovelos (mais de 2 horas sem parar sobre O Asno de Ouro!), mas é um contador de histórias literárias encantador. Como aprendo coisas novas (e a coisa que mais gosto na vida é aprender coisas novas) ouvindo sua voz nos fones. Foi assim, que descobri, por exemplo, que faço aniversário no dia em que a Oréstia foi encenada pela primeira vez. Isso deve explicar algumas de minhas maluquices cognitivas. Mas de qualquer forma: é sempre reconfortante ser lembrado, em tempos de pandemia, que a humanidade já enfrentou eras nas quais a barra pesou tanto quanto agora. O episódio mais recente é sobre a Judeia sob Herodes…

E no podcast descubro outros podcasts, ao infinito. Doug Metzger já recomendou, por exemplo, The Mirror of Antiquity ou Trojan War. Muita gente bacana compartilhando conhecimentos preciosos.

nova dramaturgia popular

14/06/2020

Entre os inúmeros e excelentes talentos do meu amigo, e parceiro de trabalhos na quarentena, Renan Bianco, o que tem me proporcionado mais alegrias é sua capacidade de descobrir muita gente criativa na internet, revelando muita coisa que para mim já indica o nascimento de uma nova dramaturgia popular brasileira. Posso estar deprimido, mas quando chega algum de seus sempre surpreendentes links sei que vou ficar animado novamente. Foi assim que ontem, por exemplo, eu me apaixonei pelos vídeos produzidos por Faela Maya, que no Instagram se descreve como blogueira fracassada, digital sem influência, e produtora de “humor made in Interior”, mais especificamente na cidade de Jaguaribe, Ceará. Para dar uma ideia, dois links: este e mais este. São tantas as informações importantes sobre o quotidiano confinado nas periferias brasileiras que o conjunto da obra poderia ser saudado como uma tese de antropologia visual. E também é impressionante o domínio, intencionalmente tosco, da construção dramatúrgica via novas tecnologias.

Claro: essas coisas lembram os primeiros vídeos do Carlinhos Maia ou tudo o que me interessa no Whindersson Nunes. Mas obviamente há uma tradição mais antiga alimentando cada frame de cada vídeo publicado descentralizadamente em tantas redes sociais (o Tik Tok é território lotado por gente trilhando caminhos semelhantes, muito difícil acompanhar tudo ou ter uma visão geral do fenômeno – “problemas” da abundância). Penso nas encenações teatrais que integravam os shows musicais diários que Tonico e Tinoco faziam no início de suas carreiras (uma vertente que iria dar no cinema com Mazzaropi). Penso mais: nos teatros de mamulengos, ou nas inúmeras encenações folclóricas que o povo brasileiro chama de brincadeiras, e que são constantemente remixadas em sua longa história criativa (e que depois são remixadas em ambientes mais oficialmente reconhecidos como Arte – li recentemente, maravilhado, as peças A pena e a lei e As conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna – como são atuais!). Outro link, desta vez cortesia generosa de Gustavo Nogueira, outro amigo parceiro de trabalhos de quarentena: esta família que faz paródias das coreografias das comissões de frente de escola de samba. É muita ideia boa.

Certamente: o humor é traço comum. Bakhtin explica. E via humor conseguimos entender melhor as transformações recentes da sociedade brasileira, que as interpretações mais sérias têm muita dificuldade de compreender, e até de enxergar. Acompanho com muito interesse, igualmente, a evolução do humor evangélico brasileiro, algo que parece que nem entra no radar de muitos comentadores preconceituosos (que acreditam que o neopentecostalismo não tem humor nenhum), das paródias do Pastor Jacinto Manto (procure no GloboPlay uma entrevista que o Pedro Bial fez com ele há vários anos, o que mostra como não é algo que apareceu ontem) aos memes produzidos pelo perfil Instagram gospelmente (“#HumorCristão, edificação e Entretenimento!” – outra dica do Renan Bianco). E muito mais.

É preciso prestar MUITA atenção nessas novidades, e nas conexões dessas novidades com a história da cultura brasileira. Não adianta: nada é simples, ou fácil de entender: o Brasil é MUITO complexo.

blogues

02/06/2020

Bruce Sterling anunciou o final do seu blog depois de 17 anos de publicação constante: “vítima colateral” da pandemia, que também ataca empresas, além de humanos. O post de despedida é longa reflexão interessante também sobre as mudanças da internet como um todo, pré-2020.

Porém, o que me chamou mais a atenção foi constatar que meu uso da ferramenta blogueira é bem atípico (e o fato de voltar a postar recentemente, para – falando de coisas boas, fazendo exercícios contra o niilismo – tentar não ficar maluco, lança este meu território no WordPress para trajeto mais fora da curva ainda…). Bruce Sterling usava seu blog para rascunhos, anotações, escritos que não teriam espaço na imprensa tradicional. Em mão contrária, eu comecei esta aventura aqui republicando textos que tinham aparecido primeiro nas páginas de papel de jornal. Tudo para colocar links nos textos, que poderiam ser clicados por leitores curiosa(o)s para saber mais sobre cada assunto. Muitas vezes eu escrevia uma coluna só para divulgar um link que considerava importante para conhecimento geral. Por isso tenho até preguiça, ou não me lembro, de programar os links para serem abertos em outras abas do browser. Não me incomoda que visitantes não permaneçam no meu espaço, gosto mesmo que se percam em outros ciberlugares, sem volta – meu link cumpriu sua missão. Depois de cinco anos de coluna no jornal pedi demissão, mas continuei a publicar links “necessários” por aqui, de caju em caju.

O que mostra como sou antiquado, ser do passado: blog, link. Logo constatei, pois estudo as estatísticas das visitas, que pouquíssima gente clica em qualquer link. Pode ser problema meu, que não consigo seduzir quase ninguém para conhecer o que me encanta ou interessa. Mas desconfio que seja também um problema geral da arquitetura dos novos apps, baseados em feeds que cultivam passividades, que não incentivam fugas para fora do que chega nos perfis, que quase proíbem errâncias, impedem surpresas desconcertantes e passeios ao léu hipertextuais. Mas não me importo, finjo que nem é comigo, continuo linkando, linkando, linkando. Mas lanço pergunta escolástica: link sem clique continua sendo link? Os errinhos de Aristóteles

E para não perder o costume, seguindo o impulso, dois links bem interessantes: as reflexões sobre a pandemia da Long Now Foundation e esta conversa entre Brian Eno e Hans-Ulrich Obrist (com as dicas de Eno para dois livros sobre construção de valor econômico – para além do mercado).

fundo de quintal no Maranhão e em Bali

29/04/2020

Vladimir Cunha é grande mestre. Sempre me apresentando novidades importantes. MUITO importantes. Foi a pessoa que me fez escutar tecnobrega pela primeira vez. Antes, num show de sua banda Mangabezo, trouxe Mestre Laurentino para o palco (um tesouro que guardo como medalha: uma camisa que Mestre Laurentino me deu, cheia de desenhos brilhosos, bem característica de sua elegância nos palcos e fora dos palcos). Hoje reapareceu num email com pergunta com sotaque paraense: “Tás acompanhando os vídeos do Fundo de Quintal? Lembrei de ti. Seria o tipo da coisa que tu colocaria no Música do Brasil.” Música do Brasil foi o projeto que me aproximou de Vlad.

Não sei em que planeta eu estava vivendo. Fundo de Quintal para mim ainda era banda que revolucionou o samba carioca. Fui pesquisar, pois dica de Vlad não se ignora. Logo descobri o mais que mega repentino sucesso do Fundo de Quintal de Santo Antônio dos Lopes, Maranhão. Aqui o vídeo preferido do Vlad, e meu também. Os vídeos são até mais interessantes (mesmo com condenável ausência de distanciamento social na pandemia – afinal há casos fatais entre adolescentes brasileiros) que a música. Tem algo de teatro de vanguarda pós-tropicalista, pós-Oficina, pós-Asdrúbal.

Tem algo deste vídeo do Gabber Modus Operandi, minha banda preferida no momento (teve mega sucesso igualmente repentino, mas em festivais de música de vanguarda de todo o mundo). Montagem de imagens reais de rituais de fundo de quintal em Bali. Fui pesquisar também: os rituais se chamam jathilan. Ficaram pop e populares entre adolescentes recentemente. Parece que têm origem numa especie de cavalhada javanesa, onde eram encenadas batalhas contra colonizadores holandeses.

Mundo doidinho este nosso, produtor de vontade sempre renovada de rave pura.

girafas, Buster Keaton e cia.

25/04/2020

Indicação para quem tem algum tempo em tempos de pandemia (e para quem entende inglês): ouvir as 509 aulas de filosofia, cada uma com cerca de 20 minutos de duração, disponíveis no site historyofphilosophy.net. É uma grandiosa obra em progresso realizada por Peter Adamson desde 2010. Para mim representa o melhor do espírito dos pioneiros da internet, antes da maluquice das redes sociais: o conhecimento tem que ser livre e ser facilmente compartilhado/compartilhável de preferência de graça. A aula mais recente – escrevo no dia 26 de abril de 2020 – foi publicada sete dias atrás. Peter Adamson não tem pressa: está ainda na Renascença. Mas já passou por 62 aulas sobre a história da filosofia indiana, outras 65 sobre filosofia islâmica, e desenvolve uma série em paralelo chamada Africana, sobre filosofia produzida no continente africano e na diáspora africana. É uma pretensão saudavelmente enciclopédica, que respeita a diversidade e a complexidade do pensamento humano. Por isso o subtítulo da empreitada é “sem nenhum gap”.

Muitas das aulas foram publicadas em livro, pela Oxford University Press. Mas gosto da experiência de poder ouvir cada uma delas nas situações mais improváveis. Já corri muito ouvindo a reflexões sobre o Bem em Plotino. Hoje de manhã estava varrendo a casa aprendendo sobre mente e memória, e a Trindade, em Santo Agostinho.

Alguma alma caridosa poderia traduzir essas aulas para português. Mas pensando bem: seria melhor imaginar um outro curso como esse em português. Pois Peter Adamson tem um estilo não exatamente intraduzível mas muito peculiar de ensinar. Faz sempre o mesmo tipo de piadas, que são charmosas por não terem graça nenhuma. Certamente ficariam sem sentido na boca de outras pessoas. Imagino que tudo seja escrito antes e lido (mas há também entrevistas com outros filósofos, algumas das maiores autoridades em vários temas): entre um “thus” e um “futhermore” lá vem um exemplo que envolve algo sobre girafas e Buster Keaton, ou o bordão “eu sei o que você está pensando” destinado diretamente para o aluno/ouvinte (nunca é o que eu estava realmente pensando). O que no início me irritava agora, muitas aulas depois, virou uma zona de conforto. E Peter Adamson passou a ter uma das vozes que me são mais familiares. Sou só agradecimento pelo tesouro que ele coloca a nosso dispor.


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