Archive for dezembro \29\UTC 2012

assunção

29/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/12/2012

Depois da coluna da semana passada, sobre declarações “birraciais” de Barack Obama, tive tempo para conferir algumas das listas de “melhores” que congestionam a internet nesta época do ano. No New York Times, entre os 100 livros notáveis de 2012, encontrei “American tapestry”, de Rachel L. Swarns. É uma investigação, a mais detalhada possível diante da precariedade documental, sobre “a história dos ancestrais negros, brancos e multirraciais de Michelle Obama“. Apesar de minha convicção de que somos todos mestiços, fiquei surpreso: percebi que sempre pensei a primeira dama dos EUA como puramente negra. Sua “condição racial” nunca era motivo para dúvida.

Lendo o artigo que deu origem ao livro, publicado também pelo New York Times em 08/10/2009, descobri que meu espanto foi compartilhado por outras pessoas. As atenções estavam voltadas para o encontro mais improvável dos pais do presidente – uma americana branca apaixonada por um estudante africano negro. A família de Michelle – há várias gerações apenas americana – seria bem mais comum, “sem interesse”. O modo dominante de se pensar raça nos EUA – como escreveu Caetano Veloso (para ler a letra completa, clique aqui, depois na capa do disco “Circuladô – Ao Vivo”, depois em “letras” e depois na segunda faixa “Americanos/Black or White”), “para os americanos, branco é branco, preto é preto (e a mulata não é a tal)” – classificaria todos seus membros como pura ou simplesmente negros. Toda ambiguidade ou complexidade estaria assim afastada de antemão.

A busca genealógica pelos ancestrais da primeira dama americana chegou até Melvinia Shields, escrava que quando tinha 6 anos foi avaliada em 475 dólares. Por volta de 15 anos, ela deu luz a um menino de pele muito clara, Dolphus, que é o tataravô de Michelle. Testes recentes revelaram que seu pai era branco. Ninguém tem certeza, mas – como sabemos baseados na experiência brasileira – estupros de escravas negras por senhores brancos eram comuns. Dolphus escolheu se identificar como negro, e parte de seus descendentes terminaram nos bairros negros (o “South Side”) de Chicago, onde Michelle foi criada. Outras pessoas com tons de pele igualmente claros podem ter escondido sua condição de filhos de ex-escravos e estão na origem de famílias depois classificadas como brancas.

Em comentário para o New York Times, Annete Gordon-Reed, professora da Escola de Direito de Harvard (e provavelmente classificada como negra), escreveu: “Certas pressuposições combinam bem com o programa racial histórico do país: colocar todo mundo no seu “lugar” racial para determinar como deve ser tratado. Que uma pessoa com a aparência da sra. Obama não seja “toda” negra desestabiliza as coisas, especialmente ao considerar as implicações. São as pessoas com aparência “toda” branca realmente brancas?” Henry Louis Gates Jr., também professor de Harvard e um dos intelectuais negros mais famosos e polêmicos, foi além nas implicações: “em desafio à convenção legal e social, uma enorme quantidade de mistura racial acontece há muito nos EUA, sobre a qual nós, como sociedade, também há muito vivemos em profunda negação.”

Se a escolha dos “americanos” for, a partir de agora, não mais negar esse fato, só me resta fazer a saudação: bem-vindos ao mundo crioulo. É bom se preparar, essa revelação não significa a conquista da paz “racial”. Novos problemas aparecem, não mais resultados da simplificação e sim da complexidade. Como outro comentador do artigo de Rachel L. Swarns, John McWhorter (“senior fellow” do Manhattan Institute), pergunta: “quem supõe que uma pessoa branca que abriga sentimentos anti-negros vai mudar sua maneira de pensar ao descobrir […] que ela provavelmente tem um pouco de “negro” por causa dessas interações no passado?” A experiência brasileira é resposta clara: identificar-se como mestiço não traz nenhuma garantia de erradicação do racismo.

Tive a sorte de, nesse meio tempo, receber do Cláudio Prado, grande animador e agente anti-caretice da nossa cultura digital, um excelente presente: seleção de textos assinados por Mário Lúcio Sousa, músico e ministro da cultura de Cabo Verde. O espaço desta coluna em 2012 está acabando. Voltarei a comentar o pensamento do Mário Lúcio em 2013 (mas adianto: ele diz que Obama é presidente crioulo; ou mais, só é presidente por ser Crioulo). Fica aqui um texto (que também me lembra a boa filosofia de vida de Dona Canô), conselho para “americanos”, que são também meus votos de feliz ano novo: “Mestiços somos todos, porque ser mestiço é uma contingência genética. Mas o Crioulo não é a mestiçagem, não olha para a cor da pele, nem dos olhos, não olha para regiões nem para religiões, é uma conduta e uma assunção. É a assunção da cultura de um novo mundo, em que o homem não é do lugar de origem, mas de onde se sente bem, pode ter várias raízes e ser o outro na diferença.”

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anjo moreno

22/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/12/2012

No domingo passado Sandra de Sá cantou “Olhos coloridos” no “Esquenta!” (sou um dos criadores desse programa). A canção, lançada em 1982, é cada vez mais atual. Paradoxalmente, pode também ser considerada datada. Sua letra diz: “a verdade é que você tem sangue crioulo”. O coro confirma enfático: “todo brasileiro tem!” Poderia ser hino de orgulho negro. O problema é que a palavra “crioulo”, para muitos ouvidos, é hoje classificada como xingamento. Além disso, ficamos sem saber se “Olhos coloridos” (com refrão “sarará-crioulo”) elogia a negritude ou a mestiçagem, ou mesmo equipara mestiçagem a negritude. Talvez, seu interesse mais atual resida nessa ambiguidade.

Regina Casé, antes de pedir para Sandra de Sá cantar essa música, fez o elogio de Barack Obama. A conexão, bem óbvia, foi ideia minha. Lembrei dois episódios do primeiro governo Obama, também carregados de intrigantes ambiguidades, confundindo categorias raciais e trazendo novamente para o discurso político palavras que muita gente gostaria de ver eternamente silenciadas. Regina falou o essencial no “Esquenta!”, aqui vai meu complemento.

Logo na primeira conferência de imprensa, antes da posse, Obama precisou abordar “questão de suma importância”: a escolha do cachorro que suas filhas levariam para a Casa Branca. Dois aspectos principais teriam que ser levados em consideração: o animal seria hipoalergênico (pois Malia, uma de suas filhas, é alérgica) e preferencialmente viria de “abrigo”. Nesse momento da entrevista, Obama lançou, como algo desimportante, comentário muito retuitado: sua família não estaria procurando uma raça específica, e o primeiro-cão poderia até ser “um ‘mutt’ como eu”. “Mutt” quer dizer vira-lata. “Primeiro presidente negro” soa imponente historicamente. Mas “primeiro presidente vira-lata”?

“Mutt” é termo ainda moderado, apesar de poder também ser traduzido como “estúpido”. Obama foi além, caindo em território racialmente mais “incorreto”. Na primeira entrevista que um presidente dos EUA concedeu para talk show matutino (o “The View”, da rede ABC, em 2010), Barbara Walters lhe lançou a seguinte provocação: por que se chama de negro e não de birracial (já que filho de negro com branca)? A resposta começou se referindo à “crise de identidade” vivida durante a juventude: “você sabe, parte do que compreendi foi que o mundo me via como afro-americano e isso não era algo do qual eu deveria fugir. Era algo que eu deveria chegar junto e abraçar.” Inesperadamente completou o raciocínio de forma perigosa: “E a coisa interessante sobre a experiência afro-americana neste país é que nós somos um tipo de povo ‘mongrel’. Quero dizer, somos todos meio misturados.”

Pronto, falou a palavra proibida. Talvez estivesse pensando novamente em “mutt”, mas saiu “mongrel”. Os dois vocábulos querem dizer a mesma coisa: “de raças misturadas”. Mas “mutt” tem ainda conotações fofas – “mongrel” é quase palavrão. Whoopi Goldberg, também no programa como entrevistadora, logo mandou um “yeah” de aprovação. Outros negros ficaram indignados. Glen Ford, editor executivo do site Black Agenda Report (“notícias, comentários e análises da esquerda negra”), chegou a falar em crime, afirmando que “mongrel” é um epíteto racial politicamente mais carregado do que “nigger”. Ninguém ligou muito para o complemento da fala de Obama, que expressava visão nova do ser humano como essencialmente mestiço: “Agora, isso é mesmo verdadeiro para a América branca também, mas nós [afro-americanos] sabemos mais sobre isso.”

Uma correção: a visão é nova para os americanos dos EUA. Nós, aqui, no Brasil, temos uma longa tradição de pensar positivamente a mestiçagem, chegando até ao orgulho de nossa condição crioula. Obama, em sua entrevista para o programa da ABC apenas repetiu a letra de “Olhos coloridos” ou remixou tese de Gilberto Freyre. Não devemos nos enganar pensando que era mais fácil combater o preconceito antimestiço em 1933, quando “Casa Grande e Senzala” foi lançado. Naquela época o pensamento dominante condenava a mistura racial como degeneração biológica. Porém, mesmo sem essa base “científica”, a reação contra a fala “mongrel” de Obama nos revela como ainda causa espanto a afirmação de nossa mistura essencial.

No Esquenta! que vai ao ar depois de amanhã, Regina e Fernanda Montenegro lerão poemas. Para Fernanda, “Poema de Natal” de Jorge de Lima; para Regina, “Natal” de Murilo Mendes. Escolhi o Murilo Mendes da versão 1959, não o original de 1935. Houve troca significativa, talvez influência de Gilberto: o “anjo sereno” virou “anjo moreno”. É o que desejo para o mundo: tudo, mesmo um anjo, é ainda mais sereno quando se reconhece moreno, “mutt” ou “mongrel”.

exemplo de Atenas

15/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/12/2012

Philip K. Dick, o autor literário com maior influência no ciberimaginário do século XXI, teve intensa experiência religiosa em 20 de fevereiro de 1974. Um raio cor-de-rosa o atingiu, transmitindo vasta quantidade de informação diretamente para sua mente. A Califórnia ao redor se revelou alucinação produzida por nossos algozes, agentes do Mal. PKD descobriu que ainda vivemos no Império Romano dos primeiros anos da era cristã. Isso resolvia um problema teológico central para o cristianismo. Jesus nos anunciou para breve a chegada do Reino de Deus, acabando com tudo de ruim que existe na Terra. Por que a demora da chegada do paraíso? Resposta do raio cor-de-rosa: a passagem do tempo, de lá para cá, é ilusão/prisão. Estamos ainda no Coliseu, jogados aos leões.

Sou otimista. Contra PKD acredito, com a ajuda de raios de Zeus: vivemos na Grécia (a antiga, não a atual da crise do Euro). Simplificando, ao modo gnóstico de PKD (sem levar em conta os ensinamentos de Paul Veyne ou Lucien Jephargnon): Roma teria nos ensinado o Império, o circo dos gladiadores e as catacumbas (sim, com a “Arte de amar” de Ovídio, mas esse é o outro lado de sua face sombria). A Grécia teria nos ensinado a democracia e o “conhece-te a ti mesmo” (sim, com a cicuta de Sócrates, mas esse é o outro lado de sua face iluminada). Encontro sinais contemporâneos da criatividade grega o tempo todo. Até em acontecimentos óbvios.

Neste verão, no quintal de uma casa de Ipanema (a Laura Alvim), podemos – bem queimados apenas pelos raios de sol da praia – ter contato direto com essa Grécia fundamental na bela encenação da “Oréstia”, trilogia de tragédias de Ésquilo (em cartaz até 27 de janeiro). Tudo no palco é – simultaneamente – junto e misturado, antigo e contemporâneo, ateniense e carioca, simples e sofisticado, embaralhando eras históricas aparentemente distantes, servindo de canal de transmissão para a mais potente poesia trágica, vinda lá do nascedouro do teatro.

Este ano ainda vi a “Antígona” do National Theatre, em Londres. Lá havia também a tentativa, com forte impacto cênico, de conectar o passado ao presente. Por exemplo, tudo começava no moderno palácio de Creonte, com equipe do rei reunida em momento de tensão, repetindo a imagem de Obama e companhia na Casa Branca conferindo on-line a morte de Osama. Nada contra essa estratégia estética de choque. Funciona igualmente. Entretanto, prefiro a sutileza da “Oréstia” carioca, onde – sem estranharmos mesmo o uso constante de microfones em cena, e de guitarras elétricas na trilha sonora – nos sentimos contemporâneos da pitonisa de Delfos. Gosto especialmente de ter o coro sempre presente, vários atores falando os mesmos versos ao mesmo tempo, e muitas vezes cantando, como os gregos faziam e ainda podemos fazer (claro que tudo fica mais bonito com as melodias que Rômulo Fróes e Cacá Machado fizeram para o espetáculo concebido por Malu Galli).

Karen Armstrong, no livro “A grande transformação”, diz que a “Oréstia” aborda o momento de invenção da democracia em Atenas, com a transição nada tranquila do caos tribal e da vendeta para uma “ordem relativa”, que incluía também a criação dos primeiros tribunais (seus debates eram “rudes e agressivos”, e “um julgamento era essencialmente batalha entre acusados e acusadores”). A trilogia termina com as deusas da vingança ganhando santuário na cidade. Era preciso “incorporar esse fardo doloroso, aceitá-lo, honrá-lo no coração sagrado da pólis e transformá-lo numa força benéfica.”

Boa coincidência: ver “Oréstia” no momento dos julgamentos do STF, que (pego carona bem livre em pensamento de José Marcelo Zacchi) ritualiza também sacolejo recente no judiciário brasileiro, o último dos três poderes a ser repaginado pelos ventos democráticos. Lição de Ésquilo: precisamos mirar sempre no exemplo daqueles atenienses. Eles já sabiam que democracia é um jogo onde o “ethos da força bruta” nunca é inteiramente domado. A virtude maior, para todos os “partidos”, é a moderação.

Antes da “Oréstia” em Ipanema, é bom saber que podemos assistir a outra trilogia formada pelos filmes “Electra”, “As troianas” e “Iphigenia” (a origem dos problemas de “Orestéia”) do diretor grego Michael Cacoyannis, recém-lançada em DVD no Brasil. Recomendo também o livro “A small greek world”, de Irad Malkin, para mim a maior revelação entre leituras de 2012. Malkin dá pistas novas para a explicação da atualidade renovada dos gregos antigos. Ao contrário dos romanos, centralizadores, a civilização grega (nenhuma cidade mandava em todas as outras [e algumas colônias eram tão importantes economica e culturalmente quanto suas metrópoles], e seu mapa – ao contrário do que mostra a maioria dos livros didáticos – não se resumia ao Mar Egeu) sabia que “o que apaga diferenças e consolida identidade não é a proximidade e a permanência, mas sim movimento, distância e conectividade.” Por isso, por incrível que pareça (e aqui vai meu mais improvável otimismo), tem mais a ver com o melhor de nossa realidade atual, fundamentada nos links da internet, do que o Império Romano de Philip K. Dick.

onças na W3

08/12/2012

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 07/12/2012

Marco Veloso – artista plástico e filósofo da arte – sempre me apresenta o que preciso conhecer. Faz isso há muito tempo, desde nosso encontro nas Ciências Sociais da UFF, mais especificamente nos cursos de Cláudio Ulpiano e Clauze Abreu (que saudade dos dois – ninguém os supera dentro da sala de aula: eram essencialmente professores, os melhores que se pode ter; seus alunos nunca esquecerão seus ousados ensinamentos). Mesmo diante de tantas novidades, Marco dava jeito de sozinho descobrir autores que na época quase ninguém comentava. Como Vilém Flusser ou Arthur Danto, hoje na última moda. Por isso, cada vez que me anuncia novo nome, encaro tudo como ordem: Leia! Não é bom adiar o dever de casa.

Nos tempos de universidade, atravessando diariamente a Baía da Guanabara de barca, era fácil receber suas lições. Hoje, a vida anda corrida, cheia de distrações e perturbações. Por isso foi maravilha reencontrar o Marco semanas atrás no tempo diluído de evento já bem comentado por aqui: as projeções de Brian Eno nos Arcos da Lapa. Era o lugar certo para colocar a conversa em dia, com toda a calma do mundo (sem desrespeito: Eno diz que suas obras podem ser usadas para realizarmos melhor tarefas cotidianas).

Naquele ambiente, eu me sentia onça segundo Guimarães Rosa, que “pensa só uma coisa – é que tá tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar.” Ainda assim, com distanciamento saudável, falei sobre teoria nova que anda ocupando espaço cada vez maior nesta coluna: a que diz que o mundo caminha para o beleléu. Marco, também sem niilismo (como convém para aluno de Ulpiano e Clauze), concordou, e logo deu rumo denso para nosso diálogo com apresentação típica: “você conhece Samuel Rawet?” Alerta: não conhecia, mas já sabia que seria necessário conhecer. Não precisaria de argumento adicional para me convencer, porém Marco, advogando que Rawet teria criado talvez a única filosofia original brasileira junto com a antropofagia de Oswald (mas agora já não tenho certeza de que isso não é adendo meu), citou sua tese mais impressionante: “as eras da violência já passaram. Vivemos uma nova era: a da cafajestice.” Também me disse que Rawet tentou inventar uma “estética da traição”. Pesado?

Ao voltar para casa, passei a madrugada no Google, buscando Rawet (depois Fernanda Montenegro, amiga dele desde suas adolescências, me ensinou a pronúncia correta: é “rávét”, oxítona leve e – Caetano pode ficar tranquilo – sem “r” retroflexo). Percebi, pela quantidade de teses sobre sua obra, que houve tentativa recente de “resgate”. Neste início de século foram editados livros – “Contos e novelas reunidos” e “Ensaios reunidos” – tornando acessíveis publicações antes desaparecidas das livrarias. Apesar desses indícios auspiciosos, logo descobri que nada é permanente: não foi fácil comprar esses lançamentos. Já parecem condenados a se tornar novamente raridades.

Pena. Rawet, fui aprendendo com cada vez mais espanto, é sem dúvida nenhuma um dos autores mais importantes e originais que tanto a literatura quanto o pensamento brasileiro já produziu. Se tivesse editora inglesa ou francesa, também não tenho dúvida, uma novela brilhante como “Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um que já passou porque sonhado”, que teve sua primeira edição em 1970, ou ensaio como “Walter Benjamin, o cão de Pavlov e sua coleira, e o universo dos rufiões”, publicado em 1978, seriam objeto de culto mundial exaltado (ou motivo para criação de seita mística) como um filme de Alejandro Jodorowsky ou um tratado de Terence McKeena.

Tudo em Rawet para mim é novidade interessante, formando conjunto muito estranho: judeu, homossexual (publicou ensaio pioneiro sobre o assunto em 1970), nasceu na Polônia em 1929, passou juventude no subúrbio carioca (atenção querido Marcus Faustini, se ainda não conhece, leia esse cara: há ali um guia afetivo [afeto da pá bem virada] da periferia, que inclui “a viagem de bonde do Largo da Cancela ao ponto de parada da Rua Uranos, perto de uma loja com o nome de Kramer”), depois engenheiro (fez sozinho os cálculos do prédio do Congresso Nacional), passou por tratamento com eletrochoques, morreu numa cidade satélite de Brasília.

Ninguém consegue imitar seu estilo. Os ensaios, por exemplo, dão saltos vertiginosos entre um assunto e outro. Por exemplo: logo depois de decretar que vivemos a era da cafajestice (quem pode negar?), ele pega um atalho candango: “E realmente, além da escala Richter dos terremotos, uma coisa me atemoriza: um possível passeio de todas as onças goianas e matogrossenses pela W-3.” Bom, bonito.  Fico devendo mais essa ao Marco.

paradas do Arto

01/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/11/2012

Arto Lindsay é tipo o Picasso da guitarra rítmica.” Gostaria de assinar essa frase. Mas seu autor é Glenn O’Brien, que na época escrevia a coluna Beat na revista Interview ainda editada por Andy Warhol. Glenn é um liquidificador furioso de referências díspares e mestre de afirmações estonteantes, mas invariavelmente verdadeiras. Sobre o DNA, grupo de Arto fundador da No Wave (estilo cuja influência estética é cada vez maior): “banda soul biometálica cubista.” Sobre Arto letrista: “ele está em algum lugar entre Tristan Tzara [o poeta dadaísta] e Johnny Mercer [autor de “Moon river”].” Sobre o Arto cantor: “ele está em algum lugar entre Yma Sumac [a diva peruana que se dizia princesa inca] e Hoagy Carmachael [mais conhecido como compositor de “Stardust”].”

Citei tudo isso para acordar o leitor. Sou menos criativo. Começaria este texto de forma sóbria, repetindo o que escrevi aqui três semanas atrás: Arto é nosso melhor embaixador. Deveria ter cargo vitalício no Ministério das Relações Exteriores. Seus serviços prestados para a divulgação da modernidade brasileira pelo mundo afora têm valor incalculável. Agora, pós-Brics, é bem mais fácil vender nossa cultura no exterior. Brasil, de Hélio Oiticica ao tecnobrega (o DJ alemão Daniel Haaksman – outro bom embaixador – acaba de lançar coletânea desse gênero amazônico na Europa, repetindo a estratégia abre-alas que usou para seu CD pioneiro de funk carioca fora de nossos bailes), é “cool”. Até outro dia, nossa imagem – quando havia alguma – era exótica. Arto me dizia: “tento mostrar que Caetano Veloso, Hélio Oiticica e Nelson Rodrigues são nomes centrais, e não periféricos, na arte moderna mundial.”

A credibilidade que Arto tinha (e continua a ter) na cena de vanguarda de Nova York (onde trabalhou com “todo mundo”, de Jean-Michel Basquiat a John Zorn), e depois de Berlim (onde colaborou com os dois Heiner, Muller e Goebbels) ou Tóquio (onde colaborou com Ryuichi Sakamoto ou com trilhas dos desfiles da Comme des Garçons) fazia com que suas lições brasileiras fossem levadas a sério (convencendo até Laurie Anderson a participar de espetáculo sobre Carmen Miranda), abrindo cada vez mais espaços para visões menos estereotipadas sobre nosso país. Suas intervenções por aqui, de produções de discos de Marisa Monte ao desfile carnavalesco organizado em Salvador em parceria com Matthew Barney e o Cortejo Afro, levaram suas atividades de mediador para outro patamar, contribuindo para cada vez mais saudáveis questionamentos sobre a localização das fronteiras entre o nacional e o global.

Quando fiquei fã do DNA (como Lester Bangs, eu queria ver essa banda tocando no Madison Square Garden), não sabia que Arto tinha conexão brasileira. Ele mesmo me contou sobre sua infância pernambucana quando nos encontramos no Rio, no início dos anos 80. Ficamos amigos (Arto me apresentou a muitos de seus amigos, como Caetano), mas permaneci tiete. Seus discos solos, com usos surpreendentes de percussão brasileira ou eletrônica pós-hip-hop sob melodias de pop perfeito, continuam a me maravilhar. Permaneço também aluno do Arto pensador/radar daquilo de mais interessante que acontece no planeta (este ano, por exemplo, ele já trabalhou até com o cineasta Apichatpong Weerasethakul na Tailândia). Tenho interesse especial em ideia que Arto vem desenvolvendo com a produção de paradas/procissões/passeatas/desfiles artísticos (já aconteceram em Veneza e Los Angeles, entre outras cidades). O Brasil tem longa tradição, desde o Triunfo Eucarístico colonial, de colocar arte para andar na rua. Gostaria de ver um dos desfiles de Arto em nosso solo.

Temos a sorte de ter Arto morando no Rio. Sua lista atual de atividades com base carioca impressiona: disco duplo (um CD retrospectivo com o melhor dos discos solos e outro CD ao vivo, com registro dos shows com voz e guitarra – o próximo será realizado hoje no New Museum em Nova York); participação na exposição com curadoria Hans Ulrich Obrist na casa de Lina Bo Bardi, em São Paulo; produção do disco novo da banda Tono; produção de DVD do Ilê Aiyê; reapresentação do desfile “Somewhere I read”, com música tocada em telefones celulares, na Noruega; reapresentação do projeto “36 years in 1 night”, inspirado em “Simão do deserto” de Buñuel (cada músico na sua torre de cinco metros com seu próprio sistema de som e um arrastão de 60 adolescentes) em Bolonha; planejamento de curadoria de um projeto de instalações e performances no Inhotim. Ufa! Mesmo assim, tenho a impressão que não estamos aproveitando devidamente a presença do Arto na cidade. Ele tem muito mais o que fazer por aqui.


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