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Arrastão!

07/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/12/2013

Parece que o espectro que ronda nossa cidade maravilhosa não é o do comunismo (anunciado por Marx e Engels naquela primeira frase enigmática de seu “Manifesto”), mas sim o do arrastão. Mês passado, ele reapareceu de sunga branca, fazendo búú nas praias (que, para infelicidade de alguns, não são tão chiques quanto as de Mônaco, mesmo em frente ao Fasano). Eu pensei: já vi esse filme trash antes, e não era cena do Gasparzinho. Voltando à minha filosofia marxista customizada: a história se repete em farsa da farsa da farsa, ad infinitum, como no loop eterno da instalação “Ão” de Tunga, com trecho repetido de “Night and Day” (não confundir com a saltitante “Day’n’Nite” de Kid Cudi) servindo de trilha sonora para passeio onde não há luz no fim do túnel (meu primeiro contato com sua película rastejante foi nos anos 1980 em galeria de Ipanema; hoje está exposta no Inhotim).

Recapitulando: em 1992, também no perigosíssimo Arpoador, houve tumulto animado, durante domingo de muito sol. No dia seguinte as manchetes dos jornais berravam irresponsáveis: Arrastão! Eu me arrependo de ter escrito artigo para o Jornal do Brasil tentando explicar que aquilo não fora assalto “serial” e em massa, mas sim (os dados policiais já confirmavam: quase ninguém roubado) a reencenação, nas areias escaldantes, de conflitos dançantes entre turmas de favelas diferentes que costumavam acontecer em baile funk. Resultado: os ataques se voltaram contra o funk. Quase todos os bailes de clube (Mackenzie, Cassino Bangu etc.) foram fechados. Deu origem a um atraso enorme na vida cultural da cidade, pois o desenvolvimento de sua nova música eletrônica teve que acontecer malocado em favelas patrulhadas por “comandos” cada vez mais armados. O poder público, com ajuda da imprensa, foi coinventor do “proibidão”.

21 anos depois, agora, depois do feriado da Consciência Negra, abro os jornais e as manchetes estão histéricas novamente: Arrastão! Parece flashback de viagem de droga muito ruim. Foi arrastão mesmo? Não importa: até o consulado dos EUA emitiu alerta falando em “roubos de massa”. Qual será o próximo bode expiatório? Qual será o próximo “proibidão”? Por que essa compulsão na “reincidência” interpretativa, que já se provou equivocada anteriormente?

O autosubversivo Albert O. Hirschman, um dos maiores pensadores do Século XX (ele teve ilustres discípulos/amigos brasileiros, que poderiam lucrar com doses mais generosas de autosubversão também), fez comentário absolutamente inspirador (no final de sua obra-prima “As paixões e os interesses” – que acaba de ter nova edição americana, com prefácio de Amartya Sen e posfácio de seu biógrafo Jeremy Alderman) sobre a máxima de Santayana: “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Essas palavras são tão citadas (recentemente foram inspiração para vários textos da Batalha das Biografias) que passamos a acreditar que fatos históricos se repetem mesmo.

Para Hirschman, a máxima tem maior probabilidade de “aplicar-se rigorosamente à história das ideias do que à história dos fatos”. Sua explicação, deliciosa: “Esta última, como sabemos, quase nunca se repete, porém, circunstâncias vagamente similares, ocorridas em dois diferentes e talvez distantes momentos do tempo, podem facilmente dar origem a pensamentos-respostas idênticos e identicamente imperfeitos se o episódio intelectual anterior for esquecido.” Na minha humilde opinião, foi isso que mais uma vez aconteceu com o tal arrastão. Fatos diferentes (e talvez somente espectrais), circunstâncias diferentes, mas desencadeando o mesmo pensamento-resposta, que educadamente podemos considerar “imperfeito”.

Sou cada vez mais cético (incluindo convicto relativismo fora de moda). Por isso fiquei comovido com a profissão de fé no valor da História que multidões externaram na Batalha das Biografias. Senti até uma ponta de inveja, a mesma que entristece meu coração quando, diante do delírio de torcida de time de futebol, percebo que nunca vou dar aqueles urros/pulos de felicidade.

Fui formado por livros errados, na idade errada.  Entre eles: “O inventário das diferenças”, com aula inaugural de Paul Veyne no Collège de France. Ali aprendi coisas horríveis que viraram bandeiras inconvenientes. Exemplo: “uma cultura está bem morta quando a defendem em vez de inventá-la.” Ou (crianças, tapem seus ouvidos!): “a verdade não é o mais elevado dos valores do conhecimento”, pois “é mais importante ter ideias do que conhecer a verdade”. Pior ainda: “a História é feita para divertir os historiadores, é tudo.” Que sina: não consigo nem ter raiva ou piedade daqueles que acreditam no espectro do arrastão.

sua história, nossa tragédia

13/07/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/07/2013

O MC Daleste – assassinado sábado enquanto se apresentava no palco de conjunto habitacional da Vila San Martin (periferia de Campinas, SP) – era um dos artistas mais populares do Brasil. Faça uma pesquisa no YouTube (atualmente o termômetro mais fiel da popularidade musical): contei agora 16 vídeos com mais de 2 milhões de visualizações, entre 750 mil resultados. Há de tudo, até reportagem sobre sua chegada ao aeroporto do Recife, recebido por representantes de fã-clube pernambucano. Provavelmente se não fosse outro vídeo, que documenta o instante do crime, sua morte brutal não teria sido noticiada pelos jornais. Entraria apenas para alguma estatística sombria de homicídios de garotos negros e pobres nas cidades brasileiras.

Mesmo assim não houve mensagens de pêsames da presidência ou do MinC, como ocorre habitualmente em caso de mortes de artistas populares. Se a mesma coisa tivesse acontecido com músico “de boa família” durante show realizado em bairros “nobres” não tenho dúvida: seria comoção nacional, com avalanche de tributos nos cadernos culturais. Não culpo jornalistas: a maioria não tinha a menor ideia do sucesso do MC Daleste. O funk paulistano é parte do mundo “invisível” da música mais popular hoje no país. Seu sucesso continua independente das instâncias tradicionais de consagração e divulgação que ainda vigoram na imprensa.

Só ouvi falar do MC Daleste recentemente, de forma bem pouco usual. Durante a exibição do “Esquenta!”, seus fãs organizavam mutirões no Twitter transformando hashtags pedindo a presença de seu ídolo no programa em TTs. Renato Barreiros, que é pesquisador do “Esquenta!” e meu guia para as novidades do funk de São Paulo, foi quem me deu a notícia do assassinato: “era hoje o maior ídolo da juventude de periferia de SP. Eu o conhecia bem, era um moleque bom, super alegre e que não tinha envolvimento com nada errado.”

Renato foi subprefeito da Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Na sua gestão começou a organizar festivais de funk na cidade, percebendo bem no inicio a importância que esse ritmo teria para a cultura paulistana. Foi momento de relação virtuosa entre poder público e música periférica, que não teve continuidade em governos posteriores. No Rio, o abandono/invisibilidade do funk foi o maior incentivo para a invenção do “proibidão”. Em São Paulo, onde a polícia passou a proibir bailes, há agora essa matança em série de MCs.

As letras de MC Daleste utilizavam procedimento comum em canções da Legião Urbana. Quando meu grande amigo Renato Russo cantava “eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar”, não falava sobre sua família. Os versos “a violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais”, de “Baader-Meinhof blues”, não devem ser interpretados como apologia ao terrorismo. Também eram muito variados os “eus” dos funks de Daleste. Em “Angra dos Reis” quem fala é adolescente em busca de “ostentação”. Em “Mãe de traficante” ouvimos: “oh meu filho, não faça mais isso pelo amor de Deus / não me faça passar por onde eu não preciso / siga meu exemplo, sou trabalhadora / mas infelizmente não fiz faculdade / foi dias e noites lutando e lutando / mas tudo o que eu tenho foi com dignidade”. Sempre retratos de gente que o compositor via ao seu redor. Não concordava necessariamente com o que estava cantando.

Daleste só foi explicitamente autobiográfico em versão improvisada de funk disponível no YouTube. O resultado é um dos depoimentos mais contundentes sobre a realidade brasileira contemporânea. Enorme vontade de viver. Transcrevo a letra, para que mais gente possa “passar adiante” sua história, nossa tragédia: “quando comecei / passava a maior dificuldade / e lá em casa era fora de realidade / é revoltante eu sei / senti o gosto do veneno / até os 13 anos de idade não tinha banheiro / e lá em casa as paredes eram de madeira / lembro como se fosse agora / quando abria a geladeira, não tinha nada para comer / a barriga vazia / mas amanhã eu vou pra escola / como na merenda / sábado e domingo é difícil / mas a gente aguenta / mas a fome não é nada / em relação ao principal / nunca entendi porque não tive a família normal / minha mãe e meu pai trabalhando / e meu irmão na escola / minha irmã mais velha na faculdade / mas a vida é foda / tudo ao contrário meu destino aconteceu / mas entreguei tudo isso na mão de Deus / e hoje estou aqui, passando adiante / cantando minha história pra quem gosta de funk / muito obrigado pela atenção de todos vocês / o resto dessa história venho cantar outra vez / eu sou vencedor na porra do bagulho / sou funkeiro sim e disso me orgulho / levo no peito as cicatrizes do preconceito”.

PS: sobre “apologia” é muito importante ver/ouvir com atenção os 10 minutos deste vídeo de 2011

funk paulistano

12/01/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/01/2013

A história do funk carioca continua me surpreendendo. Quando fiz pesquisa nos bailes para o mestrado, defendido em 1987, não havia funk eletrônico cantado em português e produzido no Rio. Depois do lançamento do LP “Funk Brasil” (1989), não demorou cinco anos para os bailes que tocavam 100% de música importada passarem a ser animados por quase 100% de música composta na cidade. Em seguida, nosso batidão penetrou em pistas de dança mundiais, e seu tamborzão digital foi parar em hits de Beyoncé ou Black Eyed Peas. No ano passado, mesmo ainda discriminado, ganhou status de música oficial, destaque no disco do Roberto Carlos ou em todos os momentos brasileiros das cerimônias olímpicas. Porém, nenhuma surpresa foi maior que ver cenas de funk carioca nascendo em outros estados brasileiros, com até mais sucesso que o produto “original”.

Quem diria: São Paulo é hoje epicentro nacional-popular do samba e do funk carioca. No samba, temos desde o megasucesso de um Exaltasamba, transferido para as carreiras solo de Péricles e Thiaguinho, até a exaltação “de raiz” de um Samba da Vela. No funk, o que era “carioca” ganha sotaque paulistano e vira “ostentação”, gerando milhões de views no YouTube e shows lotados em todo o Brasil, mesmo sem discos ou divulgação nas rádios.

Em 2012, o “Gangnam style” brasileiro foi “Plaque de 100”, do MC Guime. Seu clipe oficial, publicado na internet há apenas seis meses, tem 19 milhões de views. Se contarmos clipes produzidos por fãs e paródias, esse número fica muito maior. Procurando agora por “Plaque de 100” no YouTube, encontrei 6.470 resultados, que incluem de animações feitas com personagens do game GTA ou do desenho “Alvin e os esquilos” até – meus favoritos – versão rasta-música-para-acampamento tocada só com violão e voz ou hilária tradução da letra para inglês (100 bucks!). Tudo prova que o MC Guime atingiu algum recanto profundo do nosso imaginário coletivo.

(Depois da coluna coreana da semana passada, minha querida Gaby Amarantos me mandou link de paródia paraense de “Gangnam style”: “Vu para Cametá”, Banda Paranoia. Compartilho aqui a diversão. E sou obrigado a fazer pausa para outra reflexão: segundo a lei do direito autoral em vigência, todos esses clipes de fãs e paródias de “Gangnam style” ou de “Plaque de 100”, entre milhões de outras práticas corriqueiras da produção-brincadeira cultural on-line, são infrações que podem ser punidas com penas as mais variadas. O legalmente correto seria pedir autorização (comprovadas por contratos) dos autores antes de publicar qualquer nova obra baseada em suas criações. Ninguém faz isso. Ainda por cima, como muita gente descobriu com a mudança de termos de uso do Instagram, quando publicamos paródias “ilegais” nas redes sociais, muitas vezes transferimos direitos – até uso comercial – dessas nossas criações bastardas para os donos do Twitter, Facebook etc. Projetos como o Creative Commons e propostas de reformas da lei são tentativas para lidar com esse desafio, propondo novo pacto legal, no qual “samplear” não seja sinônimo de “roubar”, e todos ganhem com a inevitável conjuntura digital.)

Eu deveria aqui fazer a antropologia da “ostentação”, e da Classe C. Deveria analisar a pré-história do funk carioca em São Paulo, das noites pilotadas pelo DJ Marlboro no clube Lov.E, ou dos festivais organizados pelo Renato Barreiros quando comandava a subprefeitura da Cidade Tiradentes, periferia paulistana (mostrando como o poder público pode ter relação saudável com a inovação cultural). Não vou ter espaço. Quero apenas saudar um dos aspectos desse novo intercâmbio musical Rio-São Paulo: antes parecia que o hip hop no Brasil iria ficar dividido entre a galhofa do Rio (pois funk carioca é herdeiro legítimo, via Miami Bass, do hip hop) e a seriedade paulistana, com seu rap militante. Agora as coisas aparecem bem misturadas, e a confusão pode ser saudável para as artes brasileiras em geral.

Mano Brown, na sua importante entrevista para o aniversário de um ano da revista Rap Nacional, fala em vários momentos de seu “convívio com os caras do funk”, e pergunta: “Como é que você vai embarrerar o funk? Como é que embarrera o mar?” Do outro lado, o MC Guime se juntou com Everton Muleke e a escola Império da Casa Verde e lançou “Lar doce lar (favela)”, um samba-funk pós-ostentação que tem tudo para se transformar no “Rap da felicidade” (aquele do “eu só quero ser feliz”) paulistano. Diz a letra: “minha mãe sempre dizia: tenha esperança / Hoje para o Brasil inteiro, direto de Sampa / É carnaval, então já é, vamos cair pro samba.”

agradecimento

21/04/2012

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/04/2012

Peço desculpas, mas preciso repetir aqui o último parágrafo dos agradecimentos que abrem o meu livro “O mistério do samba”, de 1995: “sou grato a meu orientador, professor Gilberto Velho, pelo estímulo intelectual infalível, pela amizade inquebrantável, pelos prazos inevitavelmente rígidos, pelos telefonemas de madrugada (dez horas da manhã para mim é madrugada) e, principalmente, pelo pioneirismo com que instituiu os estudos da complexidade na antropologia. Ficaria muito honrado em ver meu trabalho considerado um pequeno desenvolvimento de algumas das ideias originais que integram sua obra.” Gilberto ficou um tanto constrangido, considerou minha declaração exagerada, e fora do tom academicamente correto. Não mudei nenhuma vírgula. Continuo tendo a certeza de que minhas palavras eram totalmente justas.

Ainda bem que expressei minha gratidão antes de sua morte, ocorrida no sábado passado. Não me interessam elogios póstumos. Porém, ao reler aquilo que escrevi anos atrás, percebo que fui até recatado, e tal constatação nada tem a ver com o doloroso luto: sei agora que tudo o que fiz depois, mesmo longe da antropologia, segue sua orientação, e procura olhar o mundo com as ferramentas que sua obra me forneceu. Se desconfio do simples, do homogêneo, e quero sempre revelar complexidade e heterogeneidade no mundo, a culpa é do Gilberto. Foi ele que treinou meu faro por mediadores, por pessoas que se alegram ao colocar estilos de vida diferentes em contato (e procuro ser uma delas em todos meus trabalhos, mesmo nesta coluna). Sua orientação me fortaleceu para encarar o desafio das cidades, das identidades nunca permanentes, das metamorfoses vibrantes da vida contemporânea, sem refúgio fácil naquilo que consideramos familiar.

No agradecimento de 1995, destaquei o “pioneirismo com que instituiu os estudos da complexidade na antropologia”. É isto mesmo: não estava falando da antropologia brasileira, e sim da antropologia mundial. Muitas vezes somos tacanhos por não reconhecer inovações produzidas ao nosso redor, em nosso país. Sendo claro: Gilberto não importou ideias estrangeiras, adaptando-as às necessidades nacionais. Seu trabalho principal foi o desbravamento de um novo campo de estudos dentro da antropologia, sem similar “lá fora”. Encontrou inspiração em conceitos e práticas de uma vertente da sociologia dos EUA (a turma de BeckerGoffman, herdeira de mestres alemães como Schutz e Simmel, talvez os autores mais amados por Gilberto) para inventar uma maneira de estudar antropologicamente a realidade urbana. Naquela época, final dos anos 60, era raro encontrar no mundo etnógrafos pesquisando em suas próprias cidades. Até hoje, em vários países, antropologia urbana é “tendência”. O Brasil, seguindo os passos pioneiros do Gilberto, acumula há décadas um rico corpo de investigação antropológica sobre suas metrópoles.

Pioneirismo não era apenas fazer “trabalho de campo” nas cidades. A escolha dos temas que seriam estudados também foi ousada. Gilberto falava em complexidade, muito antes que os chamados estudos da complexidade virassem moda na física, economia ou informática. E procurava o complexo onde menos se esperava: num prédio de conjugados de Copacabana ou entre aristocráticos consumidores de drogas. Desde o início de sua carreira como professor, passou a orientar muitas teses com objetos que nunca tinham sido alvo de atenção acadêmica, conectando arquitetura e antropologia, psiquiatria e antropologia e por aí afora. Olhando a lista de orientações de seu currículo Lattes, encontramos de heavy-metal suburbano carioca a lan-houses em Porto Alegre.

Foi esse olhar atento para o não convencional que me levou a fazer antropologia. E não pensei duas vezes ao propor meu tema de mestrado: baile funk. Se até hoje, depois de tanto sucesso, funk ainda é vítima de tanto preconceito, imagine em 1986. Com Gilberto, eu tinha incentivo para estudar algo considerado na época sem importância ou desprezível. E também para mudar radicalmente de assunto e abordagem logo depois no doutorado, quando fiquei fascinado por um encontro entre Pixinguinha e Gilberto Freyre em 1926 na Rua do Catete, o embrião de “O mistério do samba”. Gilberto (Velho) era sim controlador, estabelecendo regras detalhistas para a execução da pesquisa de seus orientandos (os telefonemas de manhã cedo checavam se já estávamos trabalhando). Mas seu controle era paradoxal: no lugar de buscar resultados previsíveis, a disciplina deveria produzir o inesperado.

Quando convidei Gilberto para conhecer um baile funk, ele respondeu que só iria dentro de um papamóvel (aquele carro usado pelo Papa). Claro que acabou indo conhecer as terras do DJ Marlboro sem proteção alguma. Esse humor era típico do Gilberto, estratégia sempre usada para tirar seus interlocutores da zona de conforto. Nunca dizia quem eram os outros convidados dos jantares em sua casa. Quando muito falava que esperava uma antropóloga húngara ou a rainha da Jordânia. Lá chegando encontrávamos pessoas totalmente diferentes das anunciadas. Uma vez ele disse que eu jantaria com antropólogas portuguesas que estudavam o hip hop de Lisboa. Para variar, conheci realmente especialistas em rap lusitano. Como vou sentir falta dessas surpresas. Minha missão é procurar maneiras de tornar o mundo cada vez mais alegremente imprevisível. Assim continuarei empenhado no desenvolvimento da obra do Gilberto.

conclusão?

17/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/03/2012

Para concluir esta série sobre direito autoral, vou piratear dois pensamentos alheios, resumos dos maiores problemas da economia da cultura contemporânea, pós-digitalização de tudo. A primeira citação é de Paul Tassi (obrigado, Pedro Mizukami, pelo link, via Google+), que escreve sobre a indústria de jogos eletrônicos na revista Forbes: “Compreenda que a pirataria é um problema de serviço”. Com minhas palavras: não culpe os piratas, a culpa é sua – você, produtor de conteúdo, que não sabe encontrar uma maneira barata e eficiente de vender seus produtos para seus consumidores, aproveitando as facilidades que a internet criou. Simples assim: no lugar de gastar dinheiro fazendo lobby para o governo aprovar leis mal formuladas, querendo eternizar modelos de negócios obsoletos, vá trabalhar de verdade.

A segunda citação é mais surpreendente. Vem de artigo de Michel Bauwens, fundador da Peer-to-Peer Foundation (o termo peer-to-peer, ou P2P, se popularizou primeiro entre desenvolvedores de redes de computadores, criando arquiteturas descentralizadas para compartilhamento de arquivos e tarefas – hoje se refere também ao compartilhamento descentralizado de cultura de maneira geral), publicado no site da Al Jazeera (obrigado, José Murilo, pelo link, também via Google+): “Os mercados são definidos como maneiras de alocar recursos escassos e o capitalismo é de fato não apenas um sistema de ‘alocação’ da escassez mas também um sistema de criação da escassez, que só pode acumular capital reproduzindo e expandindo as condições da escassez. Quando não há nenhuma tensão entre oferta e procura, não pode haver mercado e acumulação de capital. O que os “peer producers” estão fazendo […] é criar uma abundância de informação facilmente reproduzível […] Isso não pode ser diretamente traduzível em valor de mercado, pois não é de maneira nenhuma escasso – é superabundante.” (Bawens continua seu texto defendendo a opinião de que empresas como Facebook e Google não transformam diretamente essa produção coletiva em lucro – não tenho espaço aqui para seguir sua linha de raciocínio – para saber mais leia o texto completo).

Sempre repito nesta coluna: estamos reclamando de barriga cheia (que coisa mais feia, como canta Zeca Pagodinho) – nosso problema não é ter pouco, mas sim ter demais. Na base dessa fartura há ainda um novo relacionamento do público com o mundo cultural como um todo, situação que a indústria de entretenimento tradicional não sabe como encarar – ou não encontrou estratégia para se inserir no novo momento como elemento decisivo; do centro passa cada vez mais para a periferia do gosto público, ou da produção pública (já que o público agora é também produtor). Talvez suas músicas vendam menos, não por causa da pirataria, mas porque o público deixou de se interessar avidamente por elas, e encontrou outras maneiras divertidas de fazer/consumir arte.

Nessa nova cadeia produtiva, há dois aspectos que me parecem mais relevantes. O primeiro tem a ver com apropriações criativas da produção de outros autores. No ambiente “escasso” das artes plásticas, isso tem longa história, do bigode que Duchamp colocou na Mona Lisa ao processo contra Richard Prince pelo uso das fotos dos rastafaris. Hoje, o que era recurso erudito virou diversão de massas: com softwares gratuitos de edição de vídeo e som, e maneiras fáceis de copiar conteúdo dos outros, todo mundo pode produzir arte remixada e divulgar o resultado para o planeta.

E todo mundo pode também utilizar esses programas, que não exigem estudo anterior nenhum, para – continuando a usar música como exemplo – cantar, tocar e deixar que o computador afine ou coloque no ritmo o resultado. Suzanne Lainson, estrategista de marketing, já apontou as consequências dessa abundância em termos de negócios: “muitas pessoas fazendo alguma música, mas muito poucas pessoas com fãs pagantes em número suficiente para viver de música. Isso é OK, no entanto. Se todos puderem fazer música, é um mundo melhor.” Retornamos, por meios digitais, ao mundo folclórico, onde produzir arte e beleza era uma atividade de todos e não de uma classe especial de seres talentosos (esses sempre existirão, e darão um jeito para viver do seu talento especial).

Lembro o que escrevi na minha dissertação de mestrado sobre o funk carioca, lá no final dos anos 80: “Os dançarinos têm uma relação ainda mais descartável com as músicas que tocam no baile. Como já disse, eles não conhecem o nome dos sucessos nem dos artistas […] Geralmente não têm discos em casa […] O funk […] é a música que mais gostam de dançar. Não muito mais que isso.” Naquela época não havia funk de baile produzido no Rio. Hoje milhares de dançarinos também gravam seus pancadões. Porém a relação com essa produção continua funcional. É música para animar a festa, não para a eternidade. E isso não quer dizer que seja música pior do que aquela que os críticos consideram eternas.

Sites como o Megaupload serão cada vez mais necessários, não para armazenar conteúdos piratas, mas para fazer circular essa enorme produção: sem eles muitas novas cenas musicais contemporâneas, totalmente independentes das gravadoras, não existiriam. Ninguém vai conseguir parar esse processo. O pessoal da indústria de conteúdo precisa deixar seus escritórios e pesquisas de laboratório e ir para internet (a nova rua), onde o futuro já é.


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