Archive for the ‘Portugal’ Category

LusoMuitaCoisa

12/07/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/07/2014

Logo nas primeiras horas de domingo, dia da final da Copa, a Praça do Comércio de Coimbra, Portugal, receberá o show de rap “Há palavras que nasceram para a porrada”, marcando o encerramento do Colóquio Internacional Epistemologias do Sul. Como o rap encontrou com a epistemologia? O colóquio foi organizado pelo “Alice – espelhos estranhos, lições insuspeitas”, projeto de pesquisa dirigido por Boaventura de Sousa Santos, professor catedrático da Universidade de Coimbra. Boaventura tem conexão antiga com o hip hop, com atenção especial para o rap em língua portuguesa. Esse interesse se fortaleceu recentemente. Ele se encontrou com vários rappers e sugeriu temas para composições, todos relacionados com debates do colóquio. Agora é a hora de ouvir os resultados.

Nomes que se apresentarão no show de Coimbra: LBC Souldjah, Hezbó MC, Chullage e Capicua. Os três primeiros têm famílias cabo-verdianas. Capicua é a única mulher na apresentação, e provavelmente a rapper mais criativa no uso do nosso idioma. Seu nome é Ana Matos, e vem de família que poderia ser classificada como elite branca, com pai professor de engenharia na Universidade do Porto. Na adolescência se cansou de grunge e “música triste” e passou a ouvir reggae. No bar Comix havia noite de improvisação, sua grande escola. Acaba de lançar seu segundo disco, chamado “Sereia louca”, que anda recebendo notas máximas em todas as resenhas da imprensa lusitana.

Merece. Procure na internet o clipe de “Vayorken” (palavra que quando criança usava quando precisava dizer que seus pais estavam em Nova York, e agora virou homenagem à cidade que inventou o hip hop). Tem clima de autobiografia sem medo de provocar vergonha alheia, narrando os conflitos de uma mãe que tentava impor um figurino de “mini comunista” para uma criança que sonhava ser professora de wind surf e se vestir com Jane Fonda em vídeo de ginástica. Logo os primeiros poemas e os elogios para a redação na escola indicam outro caminho, que vai dar no feminismo hoje militante. Outro clipe, o de “Mão pesada”, faz o elogio da força da mulher do norte de Portugal. Fala de “beijo à carioca”, mas é outro estilo de beijinho no ombro: “Grito sou guerreira, desnorteio, sou nortenha / E impero porque carrego o meu sonho convicta / Tripo, sou tripeira, de ferro sou ferrenha / E não nego que mantenho o meu trono invicta!”

Gosto especialmente da faixa “Soldadinho” que tem a participação especial de Gisela João. Incrível como Portugal anda produzindo novos grandes fadistas em série. Gisela João já é a grande revelação nesse ambiente que leva as lições de Amália Rodrigues adiante. Seu último disco foi eleito o melhor de música portuguesa de 2013 pela revista Blitz, que geralmente se dedica mais ao rock. Apesar do gosto musical eclético (cantores preferidos: James Blake, “o gajo dos xx”, Maria Bethânia, Lhasa de Sela, António Zambujo), sua maneira poderosa e extremamente emocional de cantar reverencia a tradição. Isso fica evidente no CD “Sem filtro”, que a Blitz lançou encartado em sua edição de março deste ano, com gravações ao vivo e quase caseiras, feitas em poucos canais, nas quais a voz de Gisela João é acompanhada apenas por guitarra portuguesa, viola de fado e viola baixo. Mesmo com tal minimalismo instrumental dá para perceber, pelo calor dos aplausos, que a reação do público (no Teatro do Bairro e no Centro Cultural de Belém) é maximalista, consagrando uma nova diva.

Esse mesmo número da Blitz, com Beck na capa, traz também longa reportagem sobre a banda Clã (que tive o prazer de entrevistar, para a série de TV “Além-mar”, quando lançavam o disco “LusoQualquerCoisa”), e uma matéria intitulada “Portugal 2014”, onde a revista aponta os nomes que “vão dar o que falar”. Fui escutar todos eles nas Soundclouds da vida. Impressiona a diversidade: do encontro de Nick Drake com Animal Collective na banda You Can’t Win, Charlie Brown (em inglês sim) ao folclore lusitano reprocessado por eletrônica do duo Ermo (discípulo das “recolhas” de Michel Giacometti, que mesmo tendo vindo da Córsega foi autor do melhor mapa das sonoridades rurais lusitanas).

Sempre que passo um curto tempo sem ler a imprensa portuguesa, quando retomo o contato sou surpreendido por uma enxurrada de lançamentos imperdíveis. Agora, talvez a crise econômica tenha acelerado a criatividade lusitana. Então a notícia de segunda edição garantida do Festival do Fado (em agosto, e com Gisela João) só pode ser recebida com alegria. Precisamos acabar com a impressão de que os dois lados do Atlântico se comunicavam melhor com caravelas.

batizado

15/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/02/2014

Amanhã só escutarei zouk bass para comemorar um ano do batismo desse “gênero musical”. Exatamente no dia 15/02/2013 a cerimônia aconteceu com toda solenidade dançante em clube de Lisboa. Mais importante: foi transmitida pela Boiler Room, a tv online autointitulada “o principal show de música underground do mundo”. Quem comandava a festa era o Buraka Som Sistema. Seu set começou com “Tarraxo na parede”, do DZC Deejay, coletivo baseado na cidade de Setúbal. O reverendo foi o MC Kalaf Ângelo, do Buraka (e uma das pessoas mais bacanas e inteligentes do planeta), que – ao som das primeiras batidas eletrônicas – celebrou ao microfone em inglês (sua audiência era global): “we call it zouk bass”. Pronto. Repercussão imediata em todos os continentes. O registro do batizado tem mais de 300 mil visualizações no YouTube.

Doze meses depois: já tenho material suficiente para passar as 24 horas deste sábado ouvindo apenas zouk bass. Em 2013, só o site da gravadora Mad Decent disponibilizou três compilações chamadas Zouk Bass, com faixas produzidas nas mais diferentes latitudes/longitudes. As previsões para 2014 indicam enxurradas de lançamentos. Semana passada o Público, jornal lusitano, decretou em manchete de matéria com lista enorme de estreantes: “Há um novo som a bater na cidade”. O DJ UMB, no blog referência Generation Bass (também selo musical e “instituição”), anunciou: “2014 vai ser um grande ano” com novas direções para o “gênero”.

Coloco aspas envolvendo a palavra gênero porque é difícil definir suas características propriamente musicais, apontando suas diferenças com relação a todas as outras novidades que confundem alegremente nossos passos nas pistas de dança mais avançadas. Na verdade, o MC Kalaf apenas criou “brand” bem sucedido para identificar a mais nova mutação numa longa história musical. O título da música que abriu o set do Buraka não era “tarraxo” à toa. Tarraxo, ou tarraxinha (que vem com tudo no próximo carnaval baiano, até em sucesso de Cláudia Leitte com Luiz Caldas), denomina a maneira angolana de se apropriar do zouk, música criada pelos antilhanos entre a França e Guadeloupe/Martinica, que fez retumbante sucesso na África nos anos 1980.

Acompanho com enorme interesse a trajetória do zouk desde aquela época. Cheguei até a publicar aqui no Segundo Caderno, em fevereiro de 1987, entrevista com Jocelyne Béroard depois da apresentação de seu grupo Kassav’ (inventor do zouk) no Recife. Foi incrível ver a reação da plateia que nunca tinha ouvido as músicas tocadas no palco. Todo mundo dançando lambada. Explicação fácil: a lambada brasileira nasceu com LPs piratas, lançados por gravadoras paraenses, de música caribenha, inclusive a cadence das Antilhas Francesas. O zouk era uma modernização pop (turbinada pelo baixo funk sublime de George Décimus) da cadence.

Quando visitei a África em 1988, o zouk era o ritmo do momento, com excursão triunfal do Kassav’ lotando inclusive o maior estádio de Luanda (há registros no YouTube). Não demorou muito para a criação de híbridos locais, assim como acontecera com a música cubana antes, elemento fundamental para o highlife de Gana ou para, obviamente, a rumba congolesa (que depois se misturou ao zouk). Essa interação cultural muito dinâmica no Atlântico Negro é fenômeno secular.

Nos anos 1990 passei em Cabo Verde e percebi que a música mais popular em todas as suas ilhas era a versão local do zouk mais romântico, o zouk love, cantada em crioulo. A RDP África, rádio de Lisboa que podia ser escutada no FM de todos os países africanos de língua portuguesa (em um de seus programas, ouvi também, andando por mercado de Bissau, entrevista com Paulo Coelho), cuidou de difundir o zouk caboverdiano em Angola. Ali, uma vertente mais percussiva deu no kuduro, outra mais melodiosa deu no tarraxo, para casais dançarem juntinhos. Os imigrantes africanos levaram esses sons para Portugal e lá fizeram novas misturas, agora com moombahton e trap. Deu no zouk bass.

O Buraka Som Sistema (tenho orgulho de ser responsável por sua primeira apresentação no Rio, começando pelas bordas: no festival Baile Skol eles só tocaram em Campo Grande e Duque de Caxias) atua na função de curadoria de todas essas novidades, com poder para transformá-las em tendências planetárias. Antes do zouk bass, o site Enchufada (quartel-general do Buraka) já tinha espalhado o tuki venezuelano pelo mundo. Esse tipo de circulação cultural agora é muito veloz. Não há mais nova cena artística, mesmo na periferia da periferia, que não ganhe visibilidade imediata. Outro candidato ao novo cool: “todo mundo antenado” só fala agora na “rasteirinha”, o tarraxo do funk carioca, antes de qualquer jornal brasileiro saudar devidamente a novidade.

Numa Ciro

14/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/12/2013

Numa Ciro termina a temporada do espetáculo (mais precisamente um monólogo cantante) “A peleja da voz com a língua” nas próximas terça-feira e quarta-feira (gosto muito de nossos dias de semana serem todos “feiras”, forma bem mais maluca – na origem eclesiástica tudo era feriado – do que as homenagens para deuses romanos/vikings de outras línguas; por isso insisto sempre no uso dos nomes completos) no teatro do Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema. Por mim, poderia continuar eternamente. Ter Numa Ciro se apresentando na cidade deveria ser algo tão garantido quanto o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento. O bom é ver repetidas vezes, religiosamente. Mas agora é quase tarde: quem perdeu só tem mais uma oportunidade. Até que a peleja de Numa Ciro encontre sua próxima morada.

Escrevi terça-feira e quarta-feira. Não seriam então duas oportunidades? Não: em cada feira (Numa Ciro vem de Campina Grande, cidade que tem – além do forródromo e da “tech city” – um dos melhores mercados de rua nordestinos; espero que ainda com aquela ala só de barbeiros) o repertório é diferente. Na terça-feira a peleja é chamada de “A viagem”; na quarta-feira encontramos “O amor”. Os dois monólogos – criação encomendada para homenagear os 50 anos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (não se espante: Numa Ciro é mestre radical na circulação entre mundos diferentes) – deveriam ter sido um só. Mas no seu bordado (desde criança, Numa Ciro aprendeu a bordar com linhas – tão preciosas “quanto um stradivarius” – da Ilha da Madeira), somando tudo que ia entrando de Portugal/Brasil/África (e ainda a interferência de outras línguas, mesmo o grego antigo), foi ficando cada vez mais complexo/quilométrico, e finalmente precisou ser dividido em dois. Quem puder ver só um, vai ter boa introdução ao universo de Numa Ciro. Porém, o melhor mesmo é assistir aos dois rounds dessa peleja.

Como disse, Numa Ciro cresceu na Serra da Borborema paraibana, aprendendo até a bordar para se tornar uma dona de casa perfeita. Casou bem cedo, ainda adolescente. Naquela época/cultura, era comum que mulher casada deixasse de estudar. Nos planos domésticos, apareceu um grande problema. Ela não engravidava. Disse para o marido: só terei filho se entrar para a universidade. Barganha feita, passou para psicologia, engravidou, mas inventou outro tipo de perfeição existencial. Seu nome era Maria do Socorro, em devir para psicanalista lacaniana, e também Socorro Brito, atriz. Apresentou os espetáculos “Escombros eletrônicos – um show de anormalidades” (com Selma Tuareg) e “Tangos e boleros punks” (com Diomedes), na Campina Grande do início dos anos 1980.

Chegando no Rio, ficou logo amiga do pessoal da Poesia Pornô e da Geração 80 (precisamos de algum estudo detalhado daquele momento cultural da cidade; outro dia procurei e não encontrei nada na internet sobre o Cabaret Voltaire de Ipanema – será que foi sonho meu? – lembro-me vagamente de gente pelada, filmes udigrudis e shows new wave – era a resposta carioca para os televisores da Gang 90 no Lira Paulistana e para a cítara de Alberto Marsicano [que o panteão hindu o tenha em bom lugar] no Carbono 14). Quase imediatamente foi parar na Academia Brasileira de Letras cantando “Subayara Johnny”, nua (Hidelbrando de Castro pintou uma explosão de bomba atômica no seu corpo, transformando-o em ameaçadora natureza viva). Totalmente demais?

Nas décadas seguintes, Numa Ciro foi desenvolvendo (com a colaboração de parceiros/artistas, como Tania Christal, inventora do nome Numa Ciro, ou Flaviola, cocriador do primeiro monólogo cantante, e sempre Hildebrando de Castro) um tipo de espetáculo muito particular, fundamentado no canto a capella. Tudo simples e delicado: um corpo e uma voz em cena, poucos bons adereços mais. Voz totalmente diferente daquele estilo que faz sucesso no The Voice. Voz que peleja com o canto e com as ideias.

Agora: uma voz que nos leva para uma viagem pela língua portuguesa (incluindo o crioulo de Cabo Verde), tentando descobrir o que ela pode, inventa, anuncia. Ao ouvir Numa Ciro cantar no minúsculo palco do Cândido Mendes, ali tão próxima dos nossos corpos e de nossas vozes, lembrei as palavras do poeta português Eugênio de Andrade, revelando que nossa língua tem “este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar das abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel corrosivo da melancolia.” No seu monólogo cantante, Numa Ciro processa e expande essas características (misturando Luiz Gonzaga com Renato Russo, Marianne Faithfull com Sophia de M.B. Andressen etc.) como um sampler sertanejo de muitos mares além.

sem Camões

04/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/01/2012

OBS: Que boa coincidência! No dia em que este texto foi publicado a IMCS anunciou a reabertura da Livraria Camões para breve (ver a notícia do jornal Público). Vitória de um grande movimento que lutou bastante para que isso acontecesse. Vamos ficar atentos para os planos para a nova Camões. Tomara que conquiste papel ativo na interação entre todos os povos que se expressam na língua portuguesa. Há muitos projetos importantes, quase todos pequenos, para aumentar a interação entre os nossos vários mercados editorais.  A Camões pode se tornar vitrine/laboratório decisivo para suas conquistas.

Se os protestos – reais e virtuais – não derem resultado, quando terminar este mês de janeiro serei um dos órfãos da Livraria Camões, que recebeu ordens para fechar suas portas no dia 31. Torço ainda para a situação ser revertida. Li que na semana passada o Partido Socialista português pediu esclarecimentos sobre a decisão ao governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Tomara que não vire briga inútil, mais para eleitor ver, entre situação e oposição. O assunto se transformou em questão partidária pois a Camões carioca é mantida pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), órgão governamental lusitano. Seu “director de marketing estratégico” (não tenho paciência para esses títulos nobres do mundo de negócios pós-MBAs), Alcides Gama, declarou para a Agência Lusa que “a livraria desempenhou um papel muito importante na divulgação dos livros dos autores portugueses no Brasil, só que os tempos mudam”. Ele acredita que, hoje. esse serviço pode ser prestado de forma mais eficaz através das novas tecnologias.

Poderia até concordar com o Gama. Como os leitores desta coluna sabem, sou fã das tais novas tecnologias, a ponto de já ter sido acusado de apoio acrítico ou deslumbrado para qualquer cibercoisa. Só que nesse caso fico bem desconfiado: onde o serviço novo e tecnológico está sendo prestado? Entrei agora na loja do site (ou sítio, como os portugueses preferem chamar) da INCM e descobri um ambiente bem menos acolhedor ou de fácil consulta que a loja física do Edifício Central. Não há nada equivalente às ferramentas de descoberta de uma Amazon, como “pessoas que compraram este livro também compraram aqueles”. Se o visitante não tiver um objetivo claro de compra, vai sentir dificuldade para passear pelo acervo da loja virtual. Na Camões eu sempre entrava com espírito aventureiro, queria ser surpreendido pelas novidades de Lisboa que as editoras brasileiras não lançavam. Sempre saia de lá – mesmo recentemente quando era evidente a falta de renovação do acervo nas prateleiras – com livros que reforçaram meu orgulho de ser parte do mundo da língua portuguesa.

Então repito minha pergunta: quais são os planos da INCM para o Brasil? O que vai substituir a Camões? Por que a notícia do fechamento da loja física não veio acompanhada pelo anúncio dos planos para melhor distribuição da produção editorial lusitana no Brasil? Falar que as novas tecnologias estão aí para serem usadas é fácil; difícil é colocá-las para nos ajudar na prática.

Mais uma pergunta: por que os planos virtuais (caso existam) precisam descartar a existência de uma sede física? A loja da vida real poderia passar a ser farol/chamariz para a navegação e consumo na internet. Quando novas grandes livrarias físicas são inauguradas com sucesso na cidade é estranho ouvir que um ponto e um “brand” (para usar termos marqueteiros) tão tradicional quanto os da Camões não tenham mais nenhum valor e possam ser jogados no lixo, sem nenhuma reciclagem.

Tenho certeza: com o fechamento da Camões a distância entre o Rio e Lisboa aumentará muito – e não seria prudente empossar o iTunes e a Amazon como nossos únicos embaixadores editoriais transatlânticos. Um exemplo bem real: ando querendo ler Teixeira de Pascoaes. Já vasculhei muitas livrarias da cidade e não encontrei nada de sua autoria. Não tive tempo de passar na Camões, mas não achava que isso seria urgente. Agora é.

Minha curiosidade sobre os escritos de Teixeira de Pascoaes foi instigada por um livro que talvez se torne minha última compra na Camões, feita em dezembro do ano passado. Atravessei a porta da loja sem nenhum desejo especial. Quase comprei uma monografia sobre o compositor Luigi Nono, obra que namoro há anos, mas que considero um pouco cara (os livros na Camões não são exatamente baratos – se a INCM fosse realmente esperta, um plano de barateamento das obras importadas seria mais que bem-vindo e eficaz). Acabei fascinado pelo índice de um livro (é preciso investigar a fundo todos eles, pois as capas que a INCM lança não são muito sedutoras – pelo contrário: elas até trabalham para nos afastar das páginas internas – disso seu “marketing estratégico” deveria cuidar melhor), que tive que trazer para casa, sobretudo depois que fui surpreendido por um bom desconto: era o “Do Finistérreo Pensar”, de Paulo Alexandre Esteves Borges, um discípulo de Teixeira de Pascoaes.

Estou penetrando no livro aos poucos; é muito denso, lotado de boas ideias e referências para mim até então desconhecidas. Tenho vergonhosas lacunas na minha formação: assim como nunca li Teixeira de Pascoaes, também não tinha prestado atenção em Nikolai Berdiaev ou Stanislas Breton, autores que servem de base para momentos possantes de “Do Finistérreo Pensar”. Há também um capítulo – agora mais atual, com o sonho europeu acabado – intitulado “Do Brasil no imaginário escatológico ao imaginário escatológico brasileiro”.

Paulo Alexandre Esteves Borges (depois do livro passei a acompanhar seu blog) faz parte de uma linhagem de pensadores visionários portugueses que – como nosso eterno professor Agostinho da Silva, ou o padre Antônio Vieira – têm a ousadia (também mística) de pensar um futuro menos periférico para o mundo da língua portuguesa. Sem a Livraria Camões a conquista desse futuro se torna ainda mais quixotesca.

Dr. Bakali

30/04/2011

testo publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22-04-2011

Dr. Bakali escreve a coluna “Viagens na minha linha”, na Blitz, revista portuguesa de música pop. Seu título é ciberbrincadeira com “Viagens na minha terra”, livro de Almeida Garrett que se tornou clássico, com sua mistura de realidade e ficção, para a definição da identidade romântica lusitana. Na coluna do Dr. Bakali, minha terra, ou pátria, deixa de ser minha língua, para ser minha linha, ou o mesmo minha onda “wireless”, que me conecta ao mundo, cuja paisagem mistura agora o on-line e o off-line (onde o “on” é muitas vezes garantia de existência do “off”). Descobri “Viagens na minha linha” lá na sua origem mais remota, em 1994. Tive oportunidade me encontrar duas vezes com o próprio Dr. Bakali no século passado. Garanto: ele existe fora da linha. Mas perdemos o contato. Incrível como ele desaparece, sem rastros, via internet. Esta semana, quase como uma miragem, deparei-me com o número de dezembro de 2010 da Blitz misteriosamente recém-chegado às bancas do Rio. Acho que nunca tinha visto a revista por aqui antes. Fui folhear e lá continuava a “Viagens na minha linha” – para mim, uma viagem no tempo.

Claro, comprei a revista, que tem preço de publicação brasileira talvez como forma de se desculpar pela demora de sua chegada no além-mar (veio de caravela?). Não teria comprado pela capa, com mais uma foto da banda Arcade Fire em reportagem “melhores do ano” passado, bem passado. Mas eu tinha que conhecer quais viagens o Dr. Bakali anda fazendo ultimamente lá na linha dele. Foi uma surpresa vê-lo ainda viajando. Pois sabia que tinha deixado a Blitz, acho que quando a revista ainda era jornal semanal, estilo NME, conhecido como “o” Blitz. Agora, bisbilhotando a internet, percebi que sua volta aconteceu em 2006. Perdi muitas colunas. Não importa: o texto publicado sob a capa do Arcade Fire, resume viagens anteriores e merece ser lido com atenção por quem tem algum carinho por sua própria linha.

Diz a lenda que a Blitz foi a primeira revista européia a ter um cantinho na internet. Por sorte gravei seu lay-out primitivo, quase só texto que assustava os leitores: “Seja bem-vindo ao web-site do Blitz! A partir de agora está por sua conta e risco. Arrisque-se, pois, que a vida são dois bits. Zero e um. O Blitz está, calmamente, a brincar com seu código genético de modo a reproduzir-se num clone eletrônico”. Depois pedia opiniões, até se o leitor se interessaria por mais imagens, que na época demoravam uma eternidade para baixar. Quem estava por trás da experiência era o webmaster Dr. Bakali. Na sua coluna de dezembro passado, ele não esconde a saudade: “Twitter, Facebook (FB), Hi5, MySpace, etc., roubaram-nos o prazer do HTML 1 […] A Web não era lá coisa bonita de se ver, mas dizia muita coisa sobre quem falava”. Hoje tudo mudou: “Não somos donos da nossa própria sintaxe ou gramática. Somos autênticos papagaios.” Trabalhamos de graça na “grelha” dos outros. Por exemplo: os 140 caracteres do Twitter, para o qual alegremente tanta gente licencia – sem nunca ler o contrato – seu “conteúdo”. Dr. Bakali pensa que o design pós-2.0 da rede “condiciona não só a forma de expressão […] mas igualmente nossas escolhas do que queremos ou devemos exprimir”. As empresas donas das redes sociais podem fazer praticamente tudo com o que publicamos por lá.

Crianças, há “muito” tempo “atrás”, eu e o Dr. Bakali viajamos em linhas diferentes das que existem agora. Cada site era um site diferente, ninguém sabia ainda como um site deveria ser. E todos os sites conversavam uns com os outros, ninguém precisava ir no Twitter para estabelecer os links. Lembro quando apresentei o Dr. Bakali ao Dr. Mabuse, que diretamente do Recife criava o Manguetronic, talvez o primeiro programa de rádio (antes do aparecimento do podcast) realmente interessante da internet brasileira (Mabuse: não encontrei o texto que Bakali escreveu para o Manguetronic com as 10 razões para não deixar Portugal – aquilo tudo está armazenado em algum lugar?).

Lembro também de encontrar, em carne e osso, quase “todo mundo” da internet portuguesa em reunião marcada num bar cubano do Bairro Alto de Lisboa, onde as pessoas bebiam rum, ouviam pré-doom-metal e jogavam Magic, aquelas cartas RPG. Tudo em busca de novas viagens. Dr. Bakali saiu do Blitz, ajudou a fundar o Terra à Vista, que foi uma espécie de Geocities lusitano, com muitos brasileiros a bordo. Participou também da aventura do Lugar Comum, galeria/centro criativo situado em Cascais, que teve papel fundamental para a carreira de muitos produtores de arte digital portuguesa com certeza. Com todo esse passado, “Viagens na minha linha” desconfia das grelhas atuais. Mas sem cair na tentação de voltar à terrinha, onde só temos atenção para o familiar. Dr. Bakali recomenda desconfiança também para com “amigos” das redes sociais que podem ser “sereias atraindo-nos para a perdição e o esquecimento”, confirmando apenas o que já sabemos e fortalecendo preconceitos.

Tomara que a Blitz continue a aparecer assim milagrosamente em nossas bancas. Sinto falta de tudo que nos coloque em contato com Portugal (e neste número da revista li também sobre o Camané, incrível fadista, e descobri a música transmontana da banda Galandum Galundaina). Que o Dr. Bakali possa continuar viajando por aqui, na nossa linha de passe tropical.


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