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Popismo

24/08/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/08/2013

Se, na vida, você só puder ler um livro sobre o pop, nem titubeio ao recomendar: gaste seu tempo/dinheiro na companhia de “Popismo – os anos sessenta segundo Warhol”. Temos finalmente uma recém-lançada tradução brasileira dessa obra prima. Não sou o primeiro a fazer elogio exagerado. Na época da publicação nos EUA, há mais de trinta anos, Calvin Tomkins (autor de biografia de Duchamp, entre outros novos clássicos que investigam a arte contemporânea) escreveu na New Yorker: “É sem dúvida o melhor trabalho que Warhol já nos deu, em qualquer mídia.” Acrescenta incentivo para leitores bissextos ou que têm medo de não ficção: “‘Popismo’ se lê como um romance. O diálogo é incrível, e a subnarrativa violenta cria suspense.”

Meu exemplar americano está todo sublinhado. Muitos trechos continuaram, em inúmeras releituras, a me iluminar, divertir, desconcertar. Andy Warhol foi um dos mais densos observadores da realidade pós-mercantilização-da-cultura (seu tom “superficial/deslumbrado” aprofunda a densidade). Adoro passar suas provocações adiante, quase sempre para contrariar aquele tipo de opinião que se acha inteligente/independente por atacar o pop (ou o gosto pelas coisas que todo mundo gosta), mas que é apenas outra maneira de ser “maria-vai-com-as-outras”. Com lucidez, “Popismo” decreta: “As massas queriam ser não conformistas, então isso queria dizer que o não conformismo tinha de ser fabricado em massa.” Progredimos: hoje as massas têm raivinha-rede-social.

Os capítulos de “Popismo” são divididos por anos. Meu preferido é 1965, cheio de eventos grandiosos e definidores do pop segundo Warhol. Como o blackout de Nova York: Andy estava na Filadélfia, mas voltou depressa para não perder Manhattan sem eletricidade. “A lua estava cheia, e era, de certa forma, como uma grande festa – atravessamos o Village e estava todo mundo dançando, acendendo velas.” Mais adiante um porém que desemboca em apologia apoteótica: “Havia lindos soldados da Guarda Nacional ajudando as pessoas presas no metrô e pensei que lá embaixo deveria ser o pior lugar para se estar – a única coisa que podia estragar uma bela ideia como aquela. Foi o maior happening, o mais pop dos anos 60, realmente – envolveu todo mundo.”

Fico com pena de não ter espaço aqui para citar todo o parágrafo (páginas 165/166 na tradução da editora Cobogó) descrevendo o dia do papa Paulo VI em Nova York. É tão pitoresco/estranho quanto o quadro com a sopa Campbell’s. Começa de manhã com a chegada do DC-8 da Alitalia no JFK. Descreve telegraficamente cada uma das atividades papais, até a missa para 90 mil pessoas no Yankee Stadium, dali se dirigindo “ao encerramento da World’s Fair para ver a Pietá de Michelangelo em seu contexto pop antes de a estátua voltar para o Vaticano, dali de volta para o Kennedy, para o avião da TWA, dizendo, quando os repórteres perguntaram o que havia achado de Nova York: ‘Tutto buono’ [Tudo bom], que era exatamente a filosofia do Pop. Estava de volta a Roma na mesma noite. Fazer tudo isso em tão pouco tempo com tamanho estilo – não consigo imaginar nada mais pop do que isso.”

Andy sempre gostou de muita gente e de festa (há inclusive um guia de comportamento para festas, também assinado por ele e sua assistente Pat Hackett, que precisa de lançamento brasileiro). Só andava com sua turma de “superstars”: “Eu estava ficando famoso por levar nunca menos que vinte pessoas a todo lugar que ia, inclusive – e principalmente – às festas. Era como se fosse uma festa inteira se encontrando com outra em qualquer lugar que fôssemos.” Na hora dos autógrafos, Edie Sedgwick assinava “Andy Warhol”. Allen Midgette o substituía em palestras: ele “fazia um Andy Warhol muito melhor do que eu – […] beleza radiosa e era 15-20 anos mais novo. […] Quer dizer, os verdadeiros Bonnie e Clyde não pareciam nada com Faye e Warren. Quem quer a verdade?”

Então está provado? Andy era uma fraude? Rebatendo fofocas contra a estilista Tiger Morse, há comentário que pode ser entendido como seu ideal de vida: “claro que era, mas ela era uma fraude verdadeira. Rendia mais matérias nos jornais do que eu.” Publicidade é estratégia de guerrilha para quem quer ser pop. Porém, vários momentos de “Popismo” deixam claro que Andy se surpreendia com o interesse que despertava na imprensa (ele preferia quando entrevistas não eram gravadas: “gostava porque quando saía escrito era diferente do que eu tinha dito de verdade”) e nas pessoas. Sua explicação/receita: “nós estávamos realmente interessados em tudo o que acontecia. A ideia pop, afinal, era que todo mundo podia fazer tudo, então naturalmente nós estávamos tentando fazer tudo.”

arte do barulho bonito

01/09/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/08/2012

Preciso comemorar, mesmo atrasado, os 150 anos de nascimento de Claude Debussy. Durante este tempo todo, com influência a cada dia mais poderosa não só no campo da música erudita, ele viveu apenas – em carne e osso – 55 anos. Quando morreu, no dia 25 de março de 1918, chovia em Paris, e a cidade estava sendo bombardeada pelos alemães. Não copiei essa informação da Wikipedia, mas sim da abertura do disco “The seduction of Claude Debussy”, da “banda” eletrônica Art of Noise. Isso acontece frequentemente comigo (e com outras pessoas próximas – minha sobrinha adolescente foi apresentada a Debussy pelos vampiros de “Crepúsculo”): o pop banal e efêmero (talvez por isso mesmo) tem sido meu melhor professor para o que existe de importante e profundo na vida (inclusive o próprio pop).

“The seduction of Claude Debussy” é disco conceitual.  Tem até narrador, como no “Viagem ao centro da Terra”, de Rick Wakeman (meu primeiro grande show internacional, no Maracanãzinho). Suas declarações são bombásticas. Por exemplo: “hoje, não é considerado apenas o maior compositor que a França já teve, é o revolucionário que deu o rumo para a música do Século XX.” Não se trata de um exagero completo. Às vezes, diante da suavidade de muitas obras de Debussy, nos esquecemos de seu amor pela ruptura. Ele soube como ninguém embalar a radicalidade em beleza tão etérea (“os sons e os perfumes girando no ar da noite”, apropriado de verso de Baudelaire, é título do seu Prelúdio 4, Livro 1). Resultado: chegou a ter melodia sampleada em bossa nova, perfeitamente assobiável, de Tom Jobim (outro radical que não perdeu a ternura jamais).

Sonho de antropólogo doido: viajar no tempo e pousar na Exposição Universal de Paris, a que inaugurou a Torre Eiffel em 1989, só para ficar do lado de Debussy ouvindo um gamelão javanês. Claro que o iniciante modernismo ocidental já havia colocado minhocas esteticamente revolucionárias na sua cabeça, mas a ficha das novas possibilidades caiu mesmo no contato com aquela maneira totalmente outra de se fazer/pensar a música. Sobre a experiência, Debussy escreveu: “costumava haver – na verdade, apesar dos problemas que a civilização trouxe, ainda há – alguns povos maravilhosos que aprendem música tão facilmente quanto se aprende a respirar…”

Hoje podemos levantar o dedo acusatório: “orientalista ingênuo!” Sabemos que o gamelão, mesmo sem músicos profissionais, exige aprendizado sofisticado. Não digo que os fins de vanguarda justifiquem sempre os enganos dos meios, mas nesse caso o resultado da “incompreensão” intercultural foi benéfico (e depois acabou nos ajudando a entender melhor as musicalidades não-ocidentais). Debussy se sentiu liberado para dar início a outro capítulo da arte sonora do Ocidente, contra regras dominantes.  Passa a se guiar por um método de composição não mais organizado como narrativa linear, que desenvolve uma ideia musical atrás da outra, para atingir determinado objetivo (um climax aqui, outro a seguir, uma tensão que é aliviada mais adiante). Propõe caminho diferente: música que se espalha no ambiente, sem noção de progresso, ou distinção entre periferias e centros sonoros. Algo assim como a música eletrônica contemporânea.

Não foi surpresa então a homenagem da Art of Noise (cujo nome é citação do manifesto futurista de Russolo, e cujos discos foram lançados pela gravadora ZTT, abreviação de Zang Tumb Tuum, de obra também futurista de Marinetti, poeta italiano que visitou o Morro da Providência) para o mestre modernista francês-que-sabia-compor-javanês. “The seduction of Claude Debussy” tem um lado kitsch carregado (afinal, foi criado pelos mestres britânicos-que-sabem-falar-digital e deram ao mundo tantas explosões de mentiras sinceras que nos interessam demais, como “Video killed the radio star”, do The Buggles, “Relax”, do Frankie Goes To Hollywood, “Buffalo gals”, de Malcolm McLaren, “Slave to the rhythm”, de Grace Jones, ou “Owner of a lonely heart”, do Yes) que pode desencadear beleza pop embaraçosa – sempre para muito além de qualquer vestígio de autenticidade.

Gosto também do encarte, provavelmente escrito por Paul Morley (o jornalista, não-músico, componente da “banda”, junto com Trevor Horn, Anne Dudley e mais ou menos muitos outros), que inclui extratos de “um índice para o mundo maravilhoso do mundo da Art of Noise”. Na letra C temos, entre outras pessoas e coisas, Cage, Cher, Cixous, Coltrane, cyberspace. Na letra S, Schoenberg, Sondheim, Sontag, Supremes. Tenho certeza que esse é um mundo, pop e erudito, que Debussy consideraria também tão maravilhoso quanto o gamelão à sombra da Torre Eiffel.

Saint Etienne

14/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06-05-2011

Saint Étienne, além de ser o nome françês para Santo Estêvão, protomártir da Igreja Católica, é também cidade da França, e o time de futebol dessa cidade. Atravessando o Canal da Mancha, e perdendo o acento agudo na viagem, vira nome de banda – provavelmente a banda mais chique da história da música pop (e a mais londrina depois do The Kinks?). Para não haver dúvidas de que foi uma homenagem ao time, seu primeiro disco, “Foxbase alpha”, de 1991, tem início com a vinheta “This is radio Etienne”, com narração de locutor futebolístico da terra de Étienne de La Boétie, que logo dá lugar a uma versão celestial e dançante (a Wikipedia classifica a banda como “alternative dance”) de “Only love can break your heart, canção de Neil Young. Preciso deixar logo claro: Saint Etienne é minha banda pop preferida, talvez a mais completa tradução da perfeição pop. Continuando exagerado: sua música é uma das melhores coisas da vida, talvez só comparável a um doce de caju bem feito. Infalivelmente, quando coloco um de seus discos para tocar, fico alegre. Uma alegria leve, mas potente, que aumentou recentemente quando soube que a banda voltou a viajar, primeiro para um show em Cingapura, e agora para uma excursão escandinava. Isso aumenta minha esperança de um dia vê-la tocando no Rio.

Sean O’Hagan, músico dos grupos Microdisney e The High Llamas, escreveu no jornal The Guardian que os componentes do Saint Etienne são “românticos urbanos”. Eu diria mais: ninguém pode amar tanto a vida na cidade – ou, especificamente, a vida em Londres – quanto eles. Sua mais recente compilação de sucessos é intitulada “London conversations”. Toda sua obra pode ser pensada como um hino de amor para essa cidade, compartilhável em outras realidades urbanas diferentes, sobretudo vistas por gente que não sente nenhuma vontade de trocar a confusão metropolitana por uma casa no campo. Em seu último álbum de estúdios, o concentual “Tales of Turnpike House”, lançado em 2005 e narrando a vida de condôminos de um edifício londrino, há a faixa “Relocate” cuja a letra é a enésima briga de um casal: a mulher que quer ar puro, porcos e galinhas; seu marido não dá o braço a torcer: “eu amo a cidade, sei que não é bonitinha, mas pelo menos tem vida”. Duas visões se mundo incompatíveis. Não preciso nem dizer de que lado a banda Saint Etienne está.

Eu andei pelas ruas de Londres em julho de 2005, na época em que a cidade sofreu vários atentados. Olhava para seus típicos ônibus de dois andares, vermelhos, e não podia deixar de pensar: “lá vem uma bomba”. Foi nessa viagem que comprei o DVD Finisterre, que trazia um documentário sobre Londres cujas imagens eram projetadas nos shows que o Saint Etienne fez para o lançamento do disco de mesmo título. Não pode haver mais sincero elogio para uma cidade e sua capacidade de se transformar, superando várias crises sem se fechar em tola xenofobia. Londres é o que é por ser ponto de encontro especial, de forte identidade, mesmo mutante. Costumo dizer que uma cidade não fica completa, satisfeita consigo própria, se não produz um estilo musical para chamar de seu. Londres produziu o drum’n’bass e as variantes do two-step garage. Aquilo é primeiro de Londres. Mas seus bairros também souberam absorver invenções sonoras de todos os continentes, do barroco alemão ao rhythm’n’blues norte americano (até chegar ao reggae de Kingston e ao house de Chicago), dando-lhes seus sotaques (pois são vários) inconfundíveis. O Saint Etienne processa – em seu estúdio-instrumento-musical – Burt Bacharach, Ennio Morricone, nothern souldisco italiano, dub e outras belezas/estranhezas e o resultado se tivesse GPS daria as coordenadas geográficas do mapa londrino.

Vários de seus discos têm o costume de apresentar vinhetas entre as canções – por sua vez sempre frágeis, algo tronchas, vaporosas que quase se desmancham na primeira audição (vide “London belongs to me”) até revelar sua já citada perfeição – e textos de escritores nos encartes. Douglas Coupland, autor do mais-que-influente romance “Generation X”, produziu uma mistura de ficção e juramento de fã para acompanhar o disco “Good humor” (o lançamento mais pop da gravadora “grunge” Sub Pop?). Para ele, mesmo as palavras “Saint Etienne” transmitem o sentimento de “um mundo onde as mulheres usam pérolas e podem cantar afinadas”, ou “um mundo onde a nostalgia é fora de propósito pois todos nós vivemos num presente glorioso”. (É preciso acrescentar: Sarah Cracknell, cantora do Saint Etienne se veste como uma senhora chique e tem voz afinadamente anti-expressionista de elegância bem britânica.)

Gosto também do texto de Simon Reynolds publicado no encarte de “Sound of water”, que lança a idéia de que o “adorável” – ou simplesmente a busca do belo – pode ser a nova vanguarda, e que o experimental não precisa ser chato ou “difícil”. Em cada canção do Saint Etienne, os mais belos lugares comuns da tradição pop convivem com um rigor eletroacústico produtor de esquisitice braba, audível só para quem se interessar por esse “dark side” do som.

Apenas uma coisa me incomoda no Saint Etienne (algo que também chega a me irritar em Londres): uma ditadura exagerada do bom gosto. A imagem, o som, a referência: tudo opressivamente certo. Mas é assim: não existe nada apenas perfeito. Nem na perfeição pop.

minha (anti)ideologia

09/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/10/2010

Entre as várias declarações inesquecíveis de Andy Warhol, gosto de citar esta aqui: “Não estou tentando educar as pessoas para verem coisas ou sentirem coisas em minhas pinturas; não há nelas nenhuma forma de educação.” Gosto sobretudo por encarnar uma contradição pessoal: Warhol continua sendo um dos meus mais exigentes educadores, com lições que marcaram profundamente a maneira como vejo o mundo ou como quero que o mundo seja. Foi isso que redescobri com a leitura de “Andy Warhol – o Gênio do Pop” (tradução torta, mas não absurda, para “Pop – the genius of Andy Warhol”), livro imagino que recém-lançado no Brasil, encontrado numa mesa de saldos da Livraria da Travessa.

É uma biografia dos anos mais importantes da carreira de Warhol, praticamente toda a década de 60, da sua entrada para mundo das galerias até o tiro de Valerie Solanas. Foi escrita por dois jornalistas mais ligados ao universo da música, Tony Scherman e David Dalton. Um deles, Dalton, foi fundador da revista Rolling Stone. A crítica do New York Times resume minha desconfiança ao ler essas informações na orelha, e depois o meu alívio ao reconhecer que tinha feito uma boa compra, apesar de impulsiva: “A idéia de dois connoisseurs do rock trabalhando na enésima biografia de Warhol não soa muito sedutora, mas eles de fato escreveram um livro excelente, um trabalho de grande clareza e concisão que dá novo frescor para Warhol (e os críticos de rock).”

Esse frescor não vem apenas de fofocas bem pesquisadas, várias delas reunindo até então muito esparsas informações sobre a vida sexual do biografado, ele mesmo um fofoqueiro convicto (“Uma das coisa que sempre gostei de fazer é ouvir o que as pessoas pensam uma das outras – você aprende tanto sobre a pessoa que fala quanto sobre a pessoa que está sendo esculachada. Isso é chamado fofoca, claro, e é uma das minhas obsessões.”) Mas confesso que não sou o melhor juiz para medir o grau de novidade de mexericos do meio das artes plásticas norte-americanas. Não sabia nem que Robert Rauschenberg namorava com Jasper Johns, formando casal abençoado por John Cage. Vivendo e aprendendo.

Para além dos detalhes apimentados, o que mais me interessou na biografia foi a quantidade exuberante de informações sobre o processo criativo de Warhol, com minúcias sobre a gênese das idéias que estão na base da maior parte dos trabalhos produzidos nessa época, das latas de sopa Campbell’s aos shows com o Velvet Underground. Se, mesmo para o samba, idéia é que nem passarinho (“é de quem pegar primeiro”), no Pop o ambiente incentivava constante criação coletiva, e o esvaziamento glamuroso da noção de autoria. Tudo bem assumido, com humor e densidade filosófica: “Eu nunca fiquei envergonhado ao perguntar para alguém, literalmente, ‘O que devo pintar?’ porque o Pop vem de fora”.

O gesto de Marcel Duchamp, que ainda produziu objetos únicos, entrou para a linha de produção de massa. Fazer mais do mesmo, como uma máquina, ou deixar que os outros cuidem do artesanato de cada obra, virou motivo de orgulho: “Eu fiz 50 telas com Elvis em um único dia!” A mesma coisa dita com outras palavras: “Todo mundo pode fazer o que eu faço.” Tudo fora. Plástico, artificial, não-original. Nada dentro. Ele mesmo dava a fórmula: “Se você quiser saber alguma coisa sobre Andy Warhol, olhe apenas para a superfície de meus quadros e filmes e de mim mesmo – e ali estou. Não há nada atrás disso.” No vazio, pop-zen, e no gosto pelas coisas do mundo (“tudo é bonitinho”) está a salvação. “Se eu vou me sentar e ver a mesma coisa que vi ontem, não quero que ela seja essencialmente a mesma – quero que seja exatamente a mesma. Quanto mais você olha para a mesma exata coisa, mais o sentido vai embora, e você se sente melhor e mais vazio.”

A estratégia de Warhol foi tão inteligente, e tão profissional, que a arte depois da Factory tem que partir de onde ele nos deixou, desamparados e iluminados no grande supermercado da vida, transformada num grande vazio, renovador da possibilidade de crítica. Qualquer ação artística que não leve esse golpe em consideração vira tentativa ingênua e burra de restauração de uma ordem caduca ou simplesmente fascista. Sempre considerei Warhol de esquerda, da melhor esquerda. Como lembra um componente do coletivo russo Chto Delat?: a pergunta da direita é “quem é o culpado?”, a da esquerda é “que fazer?”. O Pop, em seu momento de maior genialidade, era um plano de ação para um mundo sem nenhuma ilusão, sem boba “interioridade”, sem culpados (porque sem Culpa).

Fiquei animado ao reler essas coisas, parte essencial de minha (anti)doutrina, no meio desse tiroteio religioso-eleitoral, sob o qual o Rio vive um momento privilegiado em termos de exposições, com a série Apocalipse de Keith Haring (o melhor discípulo de Warhol junto com o Kraftwerk?) e William Burroughs (Warhol declarou querer viver dentro de uma cena de Naked Lunch) exposta até novembro, em algum lugar do Centro (a Caixa Cultural) entre o buraco na rede de pingue-pongue de Waltércio Caldas, os aviões-árvores de Nuno Ramos, as araras arrancadas da Tropicália de Hélio Oiticica (nunca mais penetraremos na obra completa?), o Islã do CCBB e qualquer mídia dos 2 RochaPittas. Muita coisa para fazer, e fazer novamente, para nos inspirar no dia da votação.


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