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Plano B

15/10/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/10/2011

Durante as férias desta coluna, o Plano B, da Lapa, realizou a série de eventos “Plano-sequência”. Terminou no sábado passado, com maratona de performances. Na base de todos debates, apresentações musicais, intervenções artísticas, exibições de vídeos e várias outras atividades pós-tudo, havia outro processo acontecendo: a criação de nova figura jurídica para o Plano B, que além de loja de discos passará a ser também associação cultural. Isso só vem estabelecer no papel algo que já acontecia na prática. O Plano B nunca foi apenas loja ou ponto de comércio. Quem presta atenção na vanguarda da vida artística do Rio de Janeiro já está careca de saber: desde 2004 ali funciona um dos melhores e mais importantes centros culturais da cidade.

Dizer isso não é uma forma de menosprezar o comércio que existe por lá. Em tempos de “serial killing” de outras lojas de disco, precisamos celebrar a existência de um estabelecimento que tem em suas paredes vinis de Arnold Schoenberg, Pierre Henry, Afrika Bambaataa e Topo Gigio. Conheço muita loja boa mundo afora e posso garantir que não há prateleiras mais ousadas ou inteligentes. Mesmo assim, nada se compara com o que acontece entre as prateleiras, geralmente nas sextas-feiras a partir das 8 horas da noite. Aqueles poucos metros cúbicos se transformam em zona autônoma temporária de criação estética radical, sempre em eventos gratuitos. Tudo parece e é precário, mas isso não impediu o Plano B de ter uma programação de dar inveja – pela sua consistência e durabilidade – a todos os outros centros culturais cariocas, virando até referência mundial para aquela música que já experimentou o experimental.

Há quatro alto-falantes, um deles pifou, os outros três apresentam vários problemas técnicos, mas juntos produzem som como nenhum outro do planeta. Através deles ouvi um dos shows mais perfeitos da minha vida, o do japonês Tetuzi Akiyama, um dos mais originais guitarristas do mundo, que parte de um minimalismo blues para chegar à multiplicação mágica de harmônicos. Suas mãos parecem dedilhar as cordas vocais dos cantores do povo Tuva, da Sibéria. No Plano B, durante o carnaval, também tive outra experiência provavelmente mística ao me encontrar no meio da performance insana dos suecos do Enema Syringe que tocavam uma versão electro-trash de Sex Pistols enquanto lá fora passava um bloco cantando “Mamãe eu quero” – acredite: a combinação funcionava de modo perfeitamente zen.

Essas são apenas duas lembranças, as primeiras que me vêm à mente quando pensei agora nas minhas visitas ao Plano B. Entre o Japão e a Suécia, aquele espaço da Lapa já programou música barulhenta (no sentido mais libertador que o barulho possa ter) do Peru, da Polônia, de Porto Alegre, além de revelar centenas de criadores do Rio de Janeiro que apesar de seus decibéis e choques sonoros permaneciam inaudíveis. Nos primeiros anos, era como se eu conhecesse pessoalmente todos os frequentadores, músicos e público. Mas com o passar do tempo foi aparecendo gente nova, banda nova, coletivos novos, malucos novos, audiências novas, mostrando que ali também é território de formação de novos ouvidos, e novo pensamento crítico para arte nova.

O Plano B foi diversificando suas atividades. Há alguns anos sedia um festival permanente de um cinema tão estranho e estimulante quanto a música de seus shows. Já foram exibidos por ali os filmes de Harry Smith (que também foi curador da Anthology of American Folk Music, de onde veio Bob Dylan), do pessoal do Vienna Action Group (houve algo mais extremo na história do modernismo?) e de Paradjanov. Há também um lado propriamente educativo, com várias oficinas de “circuit bending” – a arte de hackear máquinas para produzir surpresas – e da linguagem de programação Pure Data. Muita coisa feita na cara e na coragem, sem apoios oficiais ou patrocínios (que deveriam aparecer, imediatamente, sobretudo agora com sua formalização como associação cultural).

A pré-história do Plano B não é menos interessante, desbravadora ou surpreendente. Nos anos 70/80, Fernando Torres era um garoto que como eu amava o Can e o Coil. Se você não conhece essas bandas hoje, imagine a dificuldade de conseguir seus discos naquela época, muito antes da WWW. Para alimentar seu exótico vício por música, digamos assim, diferente, Fernando passou a importar LPs para revendê-los para amigos com mesmo gosto minoritário. No início, as vendas se davam de porta em porta. Depois montou banquinha no centro da cidade, que parecia uma miragem: no meio de muitos camelôs vendendo o sucesso do momento, havia um oásis “noise”, com eletroacústica e rock industrial.

Há 8 anos começou sua história no Plano B. Dizem que ele é o “B”, dos sonhos desarrumados. Fátima Lopes, sua mulher, é o “plano”, que cuida de organizar tudo, inclusive o blog e a lista de emails que funcionam como o “boca a boca” onde tomamos conhecimento da programação.

Há poucas regras na casa. Talvez a única seja: “não é permitido tocar bateria”. Para não incomodar os vizinhos. Os outros barulhos são tão estranhos que, quando as pessoas da rua se tocam, o show já terminou. Não faz muito sentido reclamar: o Plano B faz aquele trecho da Lapa aparecer nos jornais fora das páginas policiais. E faz o Rio aparecer como ponto central num circuito de música mundial no qual antes tínhamos apenas presença silenciosa.

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The Wire

09/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15-10-2010

Há poucas semanas, Arthur Dapieve, companheiro colunista das sextas-feiras aqui no Segundo Caderno, revelou seu espanto ao constatar que os artistas que enfeitam as últimas capas de sua revista de música pop favorita, a Mojo, têm em média 60 anos. Fui logo conferir as capas da minha revista de música favoritiva, a The Wire. A comparação aparentemente não faz muito sentido. Afinal, a The Wire  (não confundir com a Wired) não trata só de música pop. Em suas páginas lemos também sobre jazz, música clássica, world music, dub, metal e vários outros gêneros, sobretudo em suas fronteiras mais extremas. Mas por não ser novidadeira, como a Mojo, talvez a experiência comparativa possa dar o que pensar.

Este ano, a The Wire publicou capas com os seguintes artistas: Chris Watson, The Bug, Felix Kubin, Excepter, Konono No. 1, Alasdair Roberts, Wadada Leo Smith. Não sinta vergonha se não ouviu falar em nenhum deles. Isso é bem The Wire, uma revista de nicho, para quem tem gosto fora da norma. Mas procure por esses nomes no Google. Além de escutar música boa e supreendente, você descobrirá que a banda noise-improv Excepter foi fundada em 2002 e que Wadada Leo Smith vive na vanguarda do jazz desde os anos 60. Muitos grupos étnicos, gerações, orientações sexuais e filosofias artísticas convivem na revista. Para a música avançada, depois de tanto tempo de modernismo, idade não é mesmo documento. Terry Riley foi capa com barba de Papai Noel, aos 73 anos. Joanna Newson foi capa com vestidinho neo-folk, aos 24. O público da revista deve gostar dessas mudanças bruscas. Ou pelo menos eu gosto, e provavelmente por isso essa seja a única revista que assino. Outras revistas que leio têm similares. A The Wire é única.

A soma dos assinantes com quem compra a The Wire em bancas do mundo inteiro não lotaria o Maracanã (mas incluiria nomes como Matt Groening, criador dos Simpsons, e Thurston Moore, do Sonic Youth – os dois assinantes há mais de 15 anos). Tive oportunidade de conversar com Tony Herrington, editor da revista, no final de um recente debate sobre música experimental londrina. Ele me disse que o número de assinaturas se mantém constante há algum tempo, na marca de 85 mil. Esse público fiel paga as contas da revista e a excelência de seu jornalismo ousado, que não se importa com o que está na moda ou o que é conhecido. Com essa segurança, a revista nem pensa, como a maioria das outras publicações, em deixar de lado o impresso para virar apenas site na internet. É o papel que sustenta a empreitada toda. Adoro receber meu exemplar pelo correio, quando confirmo mensalmente que ajudo a financiar a produção daquele conteúdo de qualidade. Sinto que faço parte de um coletivo com responsabilidade global. Um mundo sem a The Wire seria um mundo bem mais pobre.

Falo tudo isso com segundas intenções, que não se resumem somente em fazer propaganda e conseguir mais algumas assinaturas para a revista. A lição pode ser mais geral: revista boa e jornal bom não vão acabar por causa da internet. Precisamos cada vez mais de filtros confiáveis que nos ajudem a navegar pelo maremoto informacional digital, com estonteante abundância de ofertas de todos os tipos de produtos, para todos os tipos de público. O que importa é encontrar esse público, o seu público. Não é preciso necessariamente pesquisa de marketing, para saber o que o público quer. No caso da The Wire, seu público quer o que não sabe, quer descobrir o novo radical. Se as capas viessem com tudo o que conheço e gosto, cancelaria minha assinatura. É claro que para ser assim, ninguém pode esperar ter sucesso estrondoso de vendas. O público vai ser pequeno, mas nunca vai trair seu “modelo de negócios”, pois sabe que em nenhum outro local poderá encontrar a seleção e o aprofundamento que sua publicação apresenta e garante. A ambição vem a reboque: o pequeno pode se tornar referência poderosa, como é a The Wire, que indiretamente acaba influenciando outras revistas e o modo como as pessoas vão ouvir música no futuro.

Sem ilusões: é claro que no futuro as massas não vão consumir Eliane Radigue – mas traços de Eliane Radigue estarão cada vez mais presentes em todas as músicas, assim como a música concreta influenciou o hip hop. Nesse sentido, o debate sobre música experimental em Londres, mediado por Tony Herrington, foi revelador. Eu até me senti superior, vindo do Rio, terra do Plano B, nosso templo experimental da Lapa. A mesma situação, aqui e lá. Apesar de cenas vibrantes, com muitos músicos talentosos, poucos lugares para tocar. Em Londres hoje praticamente só existe o Café Oto, e alguns espaços nas galerias de artes plásticas. Para radicalismos, as artes plásticas sempre tiveram mais grana, principalmente numa cidade onde a Tate Modern virou atração turística tão popular quanto o Big Ben. Então todo mundo se vira como pode. Kaffe Matthews, charmosa debatedora, disse que tem feito cada vez menos performances ao vivo com seu laptop. Em vez disso, se dedica à criação de “móveis sonoros”, que pelo menos por enquanto não podem ser copiados em redes P2P.

PS: Vivienne Westwood nos persegue. Agora está toda vanguarda sustentável na publicidade da DHL: ela “tem um dedo no pulso e um olho no planeta”. Just like us. Nós, quem, cara-punk-pálida?


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