Archive for outubro \29\UTC 2011

Cláudio Lenz Cesar

29/10/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/10/2011

Cláudio Lenz Cesar é um dos meus melhores amigos. Escrevo isso, no início deste texto, para deixar claro que o que vem a seguir não tem a ver com objetividade científica, mesmo sendo o Cláudio meu amigo mais comprometido com o que há de mais fundamental na realidade objetiva. No início deste mês, ele ganhou o título de professor titular do Instituto de Física da UFRJ. Esta semana, está em Genebra, trabalhando no acelerador de partículas do CERN. Mas costumo apresentá-lo (é a pessoa que mais gosto de apresentar, sobretudo em festas barulhentas) usando outras credenciais: “este aqui é o Cláudio, ele produz antimatéria.” A reação das pessoas é assustada, pensam que é brincadeira. Pior que não é: Cláudio ganha sua vida casando antiprótons com antielétrons para fazer anti-hidrogênio.

Claro que tenho que explicar melhor o que são essas anticoisas. Aqui é que a conversa, depois da apresentação, quando nosso interlocutor não muda de assunto ou sai de fininho, fica boa. O antielétron é igualzinho a um elétron, só que tem carga positiva. Já o antipróton tem carga negativa. Em tese, o big bang teria produzido tanto partículas quanto antipartículas. Mesmo uma tempestade de raios pode produzir antielétrons. Então resta a grande dúvida: onde foi parar a antimatéria? Sumiu, se escafedeu? Vive escondida? Foi parar nos quintos do universo? Foi criar um antiuniverso?

Há muitas hipóteses para explicar o desaparecimento das anticoisas. Mas nenhuma delas foi comprovada experimentalmente pois até agora ninguém conseguiu estudar as propriedades da antimatéria pois ela se aniquila ao encontrar qualquer matéria. (Por isso algumas pessoas dizem que o big bang deve ter produzido um pouquinho mais de matéria do que antimatéria, e existiríamos por causa desse abençoado “plus a mais”.) Então muitos físicos passaram a queimar seus neurônios procurando uma maneira de aprisionar antiprótons e antielétrons em “garrafas” magnéticas evitando seu encontro com a matéria circundante e podendo assim realizar experiências para conhecer melhor as tais partículas com cargas do contra.

Recentemente um grupo internacional de cientistas do qual Cláudio fazia parte reuniu um antipróton e um antielétron e produziu átomo de anti-hidrogênio de baixa energia. No ano passado, seu novo grupo, chamado Alpha, conseguiu aprisionar o antihidrogênio por frações de segundo. Esse feito foi considerado pela revista Physics World como o maior avanço da física em 2010. Este ano o tempo de aprisionamento passou para vários minutos o que torna possível, no ano que vem, a realização de uma experiência decisiva: a “excitação” – praticamente simultânea e por um mesmo raio laser – de um átomo de hidrogênio e outro de anti-hidrogênio para medir, com precisão absurda, se há alguma diferença entre seus níveis de energia. Se houver, além de encontrarmos uma pista para descobrir o esconderijo da antimatéria (e utilizações práticas para ela – o leitor nerd deve se lembrar que as espaçonaves de “Jornadas nas estrelas” são movidas a antimatéria), leis fundamentais da física precisarão ser revisadas.

Um dado importante para a conversa: o dinheiro para a tecnologia laser que vai ser usada na experiência é brasileiro. Mais do que isso: grande parte dos equipamentos (e do arranjo entre os equipamentos) que vão produzir o laser está sendo desenvolvida num laboratório da Ilha do Fundão. Quem nunca viu física experimental avançada in loco pode se espantar ao encontrar o Cláudio em seu habitat natural de trabalho, aqui do outro lado do Atlântico, longe da grandiosidade do CERN. Tudo é minúsculo e muito do dia a dia é consumido com chave de fenda ou soldando circuitos eletrônicos. Como ali se trabalha na fronteira do conhecimento humano, não há onde comprar os equipamentos essenciais da experiência (que nunca foi feita antes). É preciso construi-los (quando não inventá-los) também. Aqui entra muita criatividade. E, no caso do Cláudio, o jogo de cintura brasileiro, capaz de baratear processos que no primeiro mundo custariam fortunas.

O passado acadêmico do Cláudio ajuda. Formado na Universidade Federal do Ceará, com mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (o que mostra que ninguém precisa estudar no “sul maravilha” ou “lá fora” para ter futuro brilhante), só depois teve contato com abundância de verbas para laboratórios ao fazer doutorado no MIT. Seu orientador americano (que já orientou dois laureados com o Prêmio Nobel – uma das noites mais memoráveis da minha vida foi quando, durante um pouco noticiado congresso de física realizado no Rio, levei Cláudio, esse orientador e 5 premiados com o Nobel para a Academia da Cachaça – foi divertido ver tanta inteligência lubrificada com batida de pitanga) recusou um convite e o indicou para seu lugar, acaso que foi sua entrada no mundo da antimatéria depois de ter sido pioneiro na espectrografia a laser de átomos (normais, não anti) de hidrogênio. Hoje, nesta sexta-feira, ele está lá no CERN, testando novamente a pontaria dos seus lasers. Tomara que acerte na antimosca.

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Parabéns também para o grupo de físicos da Universidade Federal do ABC, “periferia” de SP, que mediu à temperatura ambiente, pela primeira vez no mundo, a simpática “discórdia quântica”. A ciência experimental brasileira está decolando em todos os lugares.

Gaby Protasio Fela

22/10/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/10/2011

Gaby Amarantos foi apelidada de Beyoncé do Pará. Isso é tudo que muita gente sabe sobre sua carreira musical. Precisa ser conhecida melhor. Sim, ela lançou versão de “Single ladies”. Versões são comuns na cena tecnobrega, onde Gaby impera. Em meu primeiro texto – de 2003 – sobre esse gênero musical eletrônico de Belém escrevi que tudo parecia um “Kraftwerk de palafita”. O que na Alemanha era fruto da tecnologia industrial mais avançada, ali na Amazônia funcionava na base da gambiarra e da tecnoantropofagia. Mas aquilo foi só o início. Basta ver o videoclipe de “Xirley”, que Gaby postou no YouTube na semana passada, para entender como tudo mudou, e para onde ainda vai mudar, da palafita em direção ao show business do futuro.

“Xirley” é um dos melhores clipes de todos os tempos. Fiquei até nostálgico do tempo em que os clipes tinham realmente importância. Há clima de superprodução, direção de arte criativa, muitos atores e figurantes. E parte de uma excelente ideia: a repetição de um mesmo plano sequência, que retrata a ascensão de uma estrela pop da periferia (ou será a ascensão da tal Classe C? ou sonho psicodélico de Mangabeira Unger?), driblando a mídia tradicional. A cada repetição, a cantora torna-se mais rica, e todo cenário evolui: parte das barraquinhas de CDs piratas e chega aos discos de platina. Mesmo a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, que protege o estúdio de gravação, ganha adereços cada vez mais feéricos.

O clipe termina com uma advertência, como aquela do FBI que acompanha produtos audiovisuais legítimos: “pirataria é pecado”. Bom arremate para uma música despudorada (composição de Zé Cafofinho, diretamente do bioma pós-mangue pernambucano) que tem refrão-ameaça para qualquer Beyoncé: “eu vou samplear, eu vou te roubar”. O melhor: o clipe está publicado sob uma licença Creative Commons que permite obras derivadas. Isso significa: pode samplear, não é crime, não é pecado. Está tudo legalizado. Que apareçam muitas Xirleys, Brasil e mundo afora.

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Falando em clipes: todo mundo sabe que sua linguagem (clipada?) também foi sampleada em muitos outros territórios audiovisuais. O uso que considero mais promissor foi aquele apelidado de “nub” por Charlie Tims, pesquisador de novas tendências da comunicação. Nub é vídeo-clipe que divulga não uma música, mas uma ideia: pode ser explicação filosófica, aula de física, manifesto político. A internet está cheia de experiências nesse sentido. Descobri recentemente e atrasado o blog LudoBardo, do Arthur Protasio, dedicado a “narrativa, games e arte”, onde há excelentes exemplos de como pequenos vídeos podem condensar uma quantidade enorme de ideias de forma divertida.

Já conhecia o trabalho do Arthur no Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV carioca, onde coordena o grupo de estudos sobre games. Mas nem imaginava que ele possuía também um avatar de apresentador de TV nerd, especializado em desbravar a área pouco explorada da análise dos jogos eletrônicos a partir de seus elementos propriamente narrativos. No LudoBardo, desde o início de 2011, Arthur já publicou 8 vídeos, cada um com cerca de 10 minutos de duração. Parece pouco, mas quando prestamos atenção na quantidade de imagens editadas (muitas vezes uma para cada palavra chave) podemos ter noção do número de horas necessárias para sua edição, sem falar em pesquisa e roteiro. O resultado já é uma das mais sérias (sem perder a diversão jamais) reflexões sobre a estética dos games, que pode ser útil para jogadores ou para quem quer investigar os caminhos mais populares da arte contemporânea.


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Descubro na agenda do Overmundo que amanhã, sábado, vai ser Fela Day pela primeira vez em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, celebrando a data de nascimento do grande músico nigeriano Fela Kuti (tem festa carioca também, com B-Negão, o pessoal da Makula e do Rumpilezz no Teatro Rival). Interessante ver o nascimento dessa nova conexão iorubá transatlântica. Interessante acompanhar a evolução do mito Fela e a cada vez maior popularidade – em todos os continentes – do estilo musical que inventou, o afro-beat, mais de uma década depois de sua morte.

Tive o privilégio de conhecer Fela pessoalmente, durante as gravações do programa African Pop, em 1988. Foi meu primeiro trabalho para TV e minha primeira viagem africana. Uma noite depois do vôo Varig Rio-Lagos (sim havia Varig e vôo sem escala Brasil-Nigéria naquela época), nossa equipe já estava no Shrine, o clube de Fela, para ver sua apresentação e negociar sua participação no nosso documentário. A platéia estava quase vazia, mas a banda teve performance sublime e quando Fela subiu no palco, já de madrugada, aquilo se transformou numa das noites mais perfeitas de minha vida (nunca escrevi coluna tão superlativa!) Nos dias seguintes fui algumas vezes em sua casa tentando diminuir o preço que nos cobrava por uma entrevista. Participei de algo como uma audiência real, onde Fela – só de sunga mínima e cercado por dois saxofones, um empresário e várias de suas mulheres – recebia quem queria falar com ele, todos esperando sua vez numa fila. Nada disso diminuiu minha admiração e a alegria que sua música continua me dando. Feliz Fela Day para todo mundo. E tomara que Cachoeira ganhe o melhor Fela Day do mundo, virando atração tão popular quanto outros carnavais baianos.

Plano B

15/10/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/10/2011

Durante as férias desta coluna, o Plano B, da Lapa, realizou a série de eventos “Plano-sequência”. Terminou no sábado passado, com maratona de performances. Na base de todos debates, apresentações musicais, intervenções artísticas, exibições de vídeos e várias outras atividades pós-tudo, havia outro processo acontecendo: a criação de nova figura jurídica para o Plano B, que além de loja de discos passará a ser também associação cultural. Isso só vem estabelecer no papel algo que já acontecia na prática. O Plano B nunca foi apenas loja ou ponto de comércio. Quem presta atenção na vanguarda da vida artística do Rio de Janeiro já está careca de saber: desde 2004 ali funciona um dos melhores e mais importantes centros culturais da cidade.

Dizer isso não é uma forma de menosprezar o comércio que existe por lá. Em tempos de “serial killing” de outras lojas de disco, precisamos celebrar a existência de um estabelecimento que tem em suas paredes vinis de Arnold Schoenberg, Pierre Henry, Afrika Bambaataa e Topo Gigio. Conheço muita loja boa mundo afora e posso garantir que não há prateleiras mais ousadas ou inteligentes. Mesmo assim, nada se compara com o que acontece entre as prateleiras, geralmente nas sextas-feiras a partir das 8 horas da noite. Aqueles poucos metros cúbicos se transformam em zona autônoma temporária de criação estética radical, sempre em eventos gratuitos. Tudo parece e é precário, mas isso não impediu o Plano B de ter uma programação de dar inveja – pela sua consistência e durabilidade – a todos os outros centros culturais cariocas, virando até referência mundial para aquela música que já experimentou o experimental.

Há quatro alto-falantes, um deles pifou, os outros três apresentam vários problemas técnicos, mas juntos produzem som como nenhum outro do planeta. Através deles ouvi um dos shows mais perfeitos da minha vida, o do japonês Tetuzi Akiyama, um dos mais originais guitarristas do mundo, que parte de um minimalismo blues para chegar à multiplicação mágica de harmônicos. Suas mãos parecem dedilhar as cordas vocais dos cantores do povo Tuva, da Sibéria. No Plano B, durante o carnaval, também tive outra experiência provavelmente mística ao me encontrar no meio da performance insana dos suecos do Enema Syringe que tocavam uma versão electro-trash de Sex Pistols enquanto lá fora passava um bloco cantando “Mamãe eu quero” – acredite: a combinação funcionava de modo perfeitamente zen.

Essas são apenas duas lembranças, as primeiras que me vêm à mente quando pensei agora nas minhas visitas ao Plano B. Entre o Japão e a Suécia, aquele espaço da Lapa já programou música barulhenta (no sentido mais libertador que o barulho possa ter) do Peru, da Polônia, de Porto Alegre, além de revelar centenas de criadores do Rio de Janeiro que apesar de seus decibéis e choques sonoros permaneciam inaudíveis. Nos primeiros anos, era como se eu conhecesse pessoalmente todos os frequentadores, músicos e público. Mas com o passar do tempo foi aparecendo gente nova, banda nova, coletivos novos, malucos novos, audiências novas, mostrando que ali também é território de formação de novos ouvidos, e novo pensamento crítico para arte nova.

O Plano B foi diversificando suas atividades. Há alguns anos sedia um festival permanente de um cinema tão estranho e estimulante quanto a música de seus shows. Já foram exibidos por ali os filmes de Harry Smith (que também foi curador da Anthology of American Folk Music, de onde veio Bob Dylan), do pessoal do Vienna Action Group (houve algo mais extremo na história do modernismo?) e de Paradjanov. Há também um lado propriamente educativo, com várias oficinas de “circuit bending” – a arte de hackear máquinas para produzir surpresas – e da linguagem de programação Pure Data. Muita coisa feita na cara e na coragem, sem apoios oficiais ou patrocínios (que deveriam aparecer, imediatamente, sobretudo agora com sua formalização como associação cultural).

A pré-história do Plano B não é menos interessante, desbravadora ou surpreendente. Nos anos 70/80, Fernando Torres era um garoto que como eu amava o Can e o Coil. Se você não conhece essas bandas hoje, imagine a dificuldade de conseguir seus discos naquela época, muito antes da WWW. Para alimentar seu exótico vício por música, digamos assim, diferente, Fernando passou a importar LPs para revendê-los para amigos com mesmo gosto minoritário. No início, as vendas se davam de porta em porta. Depois montou banquinha no centro da cidade, que parecia uma miragem: no meio de muitos camelôs vendendo o sucesso do momento, havia um oásis “noise”, com eletroacústica e rock industrial.

Há 8 anos começou sua história no Plano B. Dizem que ele é o “B”, dos sonhos desarrumados. Fátima Lopes, sua mulher, é o “plano”, que cuida de organizar tudo, inclusive o blog e a lista de emails que funcionam como o “boca a boca” onde tomamos conhecimento da programação.

Há poucas regras na casa. Talvez a única seja: “não é permitido tocar bateria”. Para não incomodar os vizinhos. Os outros barulhos são tão estranhos que, quando as pessoas da rua se tocam, o show já terminou. Não faz muito sentido reclamar: o Plano B faz aquele trecho da Lapa aparecer nos jornais fora das páginas policiais. E faz o Rio aparecer como ponto central num circuito de música mundial no qual antes tínhamos apenas presença silenciosa.


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