Archive for the ‘Alemanha’ Category

sombra e luz

10/05/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/05/2014

“Alice nas cidades”, de Wim Wenders, foi lançado há 40 anos – tem portanto a idade de Leonardo DiCaprio e Victoria Beckham. Deve ser o filme que, junto com “Solaris”, vi mais vezes na minha vida. Na década 1970 houve muitos ciclos de Novo Cinema Alemão na Cinemateca do MAM e arredores. Eu não perdia uma única exibição. Depois, estranhamente, desapareceu de várias telas. Acompanhei o lançamento da obra de Wenders em DVD, mas nem sinal de “Alice”. Só agora, como por milagre, consegui comprar minha cópia. Foi reencontro bem especial, logo em data tão redonda, que torna evidente a passagem desorientadora do tempo.

Minha primeira reação, ao rever o filme neste mês, foi achar que era “de época”, que todos os objetos de cena – televisores sem controle remoto, telefones de discar, radinho pré-walkman etc. – tinham sido escolhidos pela direção de arte para sugerir nostalgia, ou culto ao passado, algo assim como exibir disco de vinil em filme ambientado nos dias de hoje. Talvez essa impressão tenha sido reforçada pela fotografia em preto e branco, por músicas “antigas” para 1974 (“Memphis Tennessee” ou “Under the boardwalk”), pela jukebox no café de Wuppertal. Aos poucos fui percebendo que tudo aquilo era quase documental, e retratava tecnologias que, mesmo quando vi o filme anos depois de seu lançamento, devem ter me impressionado – ainda adolescente – como elementos de um primeiro mundo futurista, inacessível aqui num Brasil que ainda atravessaria a reserva de mercado de informática.

O filme apresentava lado a lado a atualidade mais crua (a revista “Der Spiegel”, que o protagonista Philip Winter compra nas ruas de Nova York, deve ter sido publicada durante a filmagem, e traz na capa reportagem sobre a greve real de pilotos da Lufthansa que tem impacto na ficção) e aquilo que ainda era promessa (não falo do trem suspenso de Wuppertal, que reaparece em “Pina”, mas da máquina Polaroid que ainda não estava no mercado). Fui descobrindo, assustado, que aquilo que de início parecia “de época” era na verdade a minha época. Diagnóstico talvez cruel: sou tão antigo quanto aqueles defeitos nas imagens dos aparelhos de TV dos motéis de beira de estrada na Carolina do Sul? Ou quanto um jumbo 747 da Pan Am?

Wenders, em 1987, provavelmente no auge da sua influência, foi redator chefe do número 400 da revista Cahiers du Cinema, onde comenta cada um de seus filmes. São suas palavras: “É com ‘Alice nas cidades’ que encontrei minhas marcas próprias no cinema.” Sabemos como essas marcas se difundiram, virando maneirismos insuportáveis de cinema de arte. Mesmo os temas de “Alice” marcaram épocas vindouras, até a atual. Em 2014, no mundo Instagram, todas as pessoas são um pouco Philip Winter, fotografando tudo para provar sua existência, e a existência das coisas ao seu redor. Vivemos em várias épocas ao mesmo tempo, tantas que é difícil distinguir quais as sombrias e quais as luminosas.

Quando aparece pela primeira vez no filme, Philip Winter está sentado na areia, embaixo de um “bordwalk” (calçadão de madeira suspenso, típico de algumas praias dos EUA), e canta trecho de “Under the boardwalk” (canção que fez sucesso primeiro no repertório do grupo The Drifters, nome que combina perfeitamente com um filme que tem como eixo central a errância). Só agora noto outra estranheza: é uma das músicas mais solares que conheço, mas – descrevendo um daqueles dias em que o chão está tão quente que desejamos ter pés “à prova de fogo” – todo o chamego acontece na sombra, “out of the sun”. Quando para de cantar, Winter recolhe as fotos e sai de cena se distanciando da câmera, cruzando a sombra do “boardwalk”. Porém, durante todo o filme, nunca o vemos plenamente na luz. O preto e branco, escolha para os filmes realistas e mais pessoais de Wenders, é famoso e copiado por ser sempre meio borrado, sem limites precisos entre sombra e luz.

Coincidência (sempre suspeita): revi “Alice” enquanto lia pela primeira vez Tomas Tranströmer, o mais recente Prêmio Nobel para a poesia. Chamou minha atenção a repetição da palavra “sombra”, inúmeras vezes, em sua obra. Vou cometer aqui a maior imprudência desta coluna: traduzir alguns de seus versos (e, pior, do inglês, pois não sei uma palavra do sueco original). “Nós temos muitas sombras.”; “Sou carregado em minha sombra / como um violino / em seu estojo preto.”; “O sol está baixo agora. / Nossas sombras são gigantes. / Em breve tudo será sombra.” Lembro a cena em que Alice vê a foto da asa do avião e reclama de seu vazio. Então encontro o poema “Vermeer” (não por acaso pintor favorito de Wenders), de Tranströmer, que termina assim: “E o que é vazio vira o rosto para nós / e sussurra: / ‘Não sou vazio, sou aberto.'” Troco épocas sombrias e luminosas por épocas abertas. Fico inocente, como Alice, novamente.

nichos e multidões

08/04/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/04/2012

Deveria estar me preparando espiritualmente para comparecer à retrospectiva do Kraftwerk, que terá início terça-feira no MOMA de Nova York. Acredito que nunca um museu de tanta influência abriu as portas, de forma tão reverente, para uma banda de música pop. Banda? Música pop? A retrospectiva comprova que essa definição é apenas o início da verdade, ou sua embalagem mais conhecida. Já deveria ser evidente para todos que a obra do Kraftwerk é, antes de tudo, arte moderna. Seus componentes – incluindo o fundador Florian Schneider, que deixou a banda em 2008 – estão entre os artistas mais importantes do nosso tempo, determinando que tempo é este, como só o fizeram criadores muito especiais como Joseph Beuys, Robert Musil ou Fritz Lang, para ficar apenas em ambiente de língua alemã. Além dessas explicações “objetivas”, há o aspecto pessoal: o Kraftwerk faz os discos que mais amo, desde que ouvi “Autobahn” pela primeira vez em transmissão da Eldopop FM, aquele OVNI progressivo que enlouqueceu o dial carioca nos anos 70. Tudo que fiz depois foi consequência daquela audição.

Então fiz tudo para comprar ingressos para a retrospectiva, sem nem saber como me viraria para chegar no MOMA. A venda começou ao meio-dia na Quarta-Feira de Cinzas passada. Às 12 horas em ponto, entrei na fila virtual de compras. Seriam oito shows, um para cada disco desde “Autobahn”. Cada pessoa só conseguiria comprar dois ingressos. Ninguém poderá ver a retrospectiva completa. Sendo assim, com dó no coração, escolhi as apresentações – com imagens 3D – de “Trans-Europe Express” e “Computer World”. Estando em Nova York, pensei que iria ouvir “Trans-Europe Express” como se rezasse numa missa: afinal, sua faixa título, pirateada (ou apropriada, como diz o jargão dos curadores do MOMA) por Afrika Bambaataa, foi uma das pedras fundamentais do hip hop, cultura nascida na periferia daquela cidade. (Vou me repetir: fico sempre fascinado com a relação antropofágica entre a música negra do continente americano e as invenções sonoras alemãs: o hip hop apenas repetiu algo que já havia ocorrido com a polca no Século XIX, elemento básico na mistura que deu origem ao jazz, ao samba, ao tango etc.) “Computer World” foi escolhido por seu conteúdo profético totalmente cumprido, gravado antes da chegada dos primeiros PCs ou Macs ao mercado. O Kraftwerk já sabia que “it’s more fun to compute”, como todos nós acabamos descobrindo.

Divertido? Não foi nada divertido estar ali naquela fila virtual para comprar os ingressos. Um reloginho mudo na tela do meu computador me mandava ter paciência. A conexão com o site de vendas caiu várias vezes, mas outra mensagem robótica me dizia que meu lugar na fila continuava o mesmo – meu IP me identificava. Em paralelo eu checava o Twitter, onde “Kraftwerk” era trending topic mundial talvez pela primeira vez em sua carreira. O tempo passava e milhares de outras pessoas compartilhavam meu desespero. Alguns, bem-humorados, diziam que aquela espera seria já a performance, obra-prima eletrônica dos estúdios Kling Klang, que o Kraftwerk mantém em Dusseldorf. Passamos 1 hora e meia nessa situação ciberinfernal, até receber um comunicado com fundo vermelho dizendo que todos os shows estavam “sold-out”.

Imediatamente houve tsunami de fúria nas redes sociais. Mesmo funcionários do próprio MOMA escreveram contando que nenhum deles conseguiu comprar ingressos. No dia seguinte, o dono da empresa Showclix, que cuida da venda online de entradas para os eventos do museu, divulgou texto pedindo desculpas, revelando não ter se preparado para aquela procura. Um dado me impressionou: ele disse que havia ingressos apenas 1,2% das pessoas que entraram na fila ao meio-dia. Então eu fiquei entre os quase cabalísticos 99% (a base também do movimento Occupy Wall Street) de fora. E, se os computadores da Showclix trabalharam de forma ética, sem filas VIPs malocadas por baixo do pano virtual, devo ter perdido meus ingressos por questão de nanosegundos, pois entrei na fila meio-dia cravado.

Tenho certeza que o MOMA imaginava que haveria grande procura pelos ingressos. Porém, não levou em conta a nova realidade em que vivemos, quando o número de malucos fanáticos por qualquer coisa, capazes de fazer sacrifícios por seus ídolos a ponto de se programarem para estar na fila no instante em que ela abre, aumenta exponencialmente em escala global, não importa se é coisa “inteligente” como Kraftwerk ou fenômeno teen como o Justin Beeber. Isso deve ser boa notícia para artistas: de nichinho em nichinho forma-se uma multidão. Na internet há massa enorme para qualquer biscoito fino. É só saber encontrar e cultivar sua própria massa.

Outro sinal do Zeitgeist: o ingresso para cada show da retrospectiva custava 25 dólares, certamente um preço simbólico, de evento já pago por patrocinadores (nesse caso específico, como convém para artistas das autobahns alemãs, a Volkswagen). Estranho mundo das artes de elite, que não precisa mais do dinheiro do público, logo agora que o público cresceu assustadoramente, a ponto de haver muito mais demanda do que oferta para “eventos exclusivos”, já pagos de antemão. Mais sobre esse mistério Kraftwerk na próxima coluna.

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Sexta-Feira Santa. Amanhã é Sábado de Aleluia: quem nunca foi não deve perder a Benção do Fogo, início da Vigília Pascal (3-D à moda antiga, nada eletrônico), meia-noite, no Mosteiro de São Bento.


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