Archive for julho \30\UTC 2011

shangaan-eletrificação do mundo

30/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22-07-2011

Richard “Nozinja” Methethwa, também conhecido por “Dog”, fez agradecimento público a Wills Glasspiegel, o responsável pelo lançamento de sua música fora da África do Sul: “ele me tirou da aldeia e me colocou no lugar ao qual eu pertenço.” Que lugar é esse? O palco do Rich Mix, novo centro cultural londrino – localizado no bairro vendido como o mais trendy da cidade – no qual Nozinja se apresentava pela primeira vez em solo britânico? Ou é lugar mais abstrato, aquele ocupado por celebridades mundiais, adoradas por platéias de todos os continentes? Óbvio: Nozinja estava em casa, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida além tocar sua música pelo mundo afora, ou como se tivesse se preparado a vida inteira para aquele momento, com sentimento claro de que sua aldeia era pequena e que inevitavelmente iria se tornar influente cidadão planetário.

A transformação foi repentina. Até 2010 – apesar de produzir cerca de 50 mil discos por ano para a sua gravadora – era um nome a mais na cena musical do povo shangaan (ou tsonga – falante de uma das 11 línguas oficiais da África do Sul), ouvida apenas em aldeias pobres da fronteira com Moçambique ou nas áreas shangaan de Soweto, favela de Joanesburgo onde vivem muitos grupos étnicos que abandonam o campo para caçar dinheiro na selva urbana. Como aconteceu em tantas outras periferias globais, essa gente animada também descobriu no YouTube um espelho. Ali colocaram vídeos de suas festas de rua, inicialmente somente para comunicação aldeias-favelas. Mas não se fabrica mais isolamentos culturais como antigamente. As imagens estão na rede e podem ser consumidas por outros povos. Foi através do YouTube que Wills Glasspiegel, no seu apartamento do Brooklyn nova-iorquino, entrou em contato com a produção musical de Nozinja, que por sua vez estava criando uma nova roupagem, século XXI, para o pop shangaan.

Ninguém sabe ao certo como essas microtendências viram “virais”. Talvez Wills Glasspiegel tenha uma boa rede de amigos-formadores-de-opinião-mundial, ou talvez exista por trás de tudo uma campanha de marketing poderosa, de nova empresa secreta. Os vídeos toscos de gente dançando a rapidíssima batida (no show, Nozinja não parava de anunciar os BPMs de cada música, até chegar aos impossíveis 185) totalmente eletrônica sul-africana passaram a ser recomendados nos sites de música “antenada” mais influentes, em meados de 2010. Logo depois foi lançado, com muitos elogios na imprensa on-line e off-line, a compilação “Shangaan Electro”, destaque em várias listas de “melhores do ano”. Gosto especialmente da crítica de Bruno Silva, publicada no ótimo site português “bodyspace.net”. Repare o adorável sotaque lusitano (como gostaria de escrever assim!), que encontra justificativa estonteante mesmo para a monotonia das bases sonoras de todas as faixas, excessivamente repetitivas, ou tolas: “É um facto que todas as malhas assentam arraiais numa instrumentação idêntica, mas dada a frescura de tudo isto, acaba por nem se revelar pernicioso. Trata-se de música de dança, no sentido mais verdadeiro da palavra, onde a repetição é via para a comunhão entre o corpo que não se cansa e uma mente ao abandono. Esbatem-se as diferenças, mas permanece um corpo de obra importantíssimo, cujo entusiasmo se revela sem parcimónia.”

Agora, neste verão de 2011 no Hemisfério Norte, Nozinja excursiona triunfal por vários festivais europeus, levando platéias ao delírio (como comentou Chico Dub aqui no Segundo Caderno, em sua cobertura sobre o Sonar, de Barcelona, plataforma de lançamento para muitas modas). Ao se apresentar no anfiteatro da Fundação Calouste Gulbekian, em Lisboa, foi alvo de resenha ainda mais apoteótica do nosso querido “bodyspace.net”: “Pode-se até começar por dizer que terá sido o melhor Domingo de 2011. Ou por referenciar o ambiente familiar (em todos os sentidos) que se fazia sentir no anfiteatro da Gulbenkian. Ou mesmo que, por momentos, este país se tornou um sítio um pouco melhor para se estar. Mais do que tudo isso, foi prova cabal de que a música tem mesmo a capacidade de inflamar corações.” (Gosto de pensar na vingança do colonizado, colonizando mentalmente o ex-colonizador: a favelização do povo shangaan, povo comandante do Império de Gaza, foi obra do colonialismo português que derrotou o Imperador Gugunhana, cujo nome era também Reinaldo Frederico e morreu exilado nos Açores.)

No Rich Mix londrino, eu percebia o mesmo entusiamo na platéia. Não era platéia afropolita, como a da festa do museu Victoria & Albert comentada aqui na coluna da semana passada. Era maioria branca, mas não menos chique e dava para perceber que não podia haver público mais caçador de tendências na cidade. Todos – o show lotou dias antes – pareciam contentes por se imaginarem os primeiros a ter acesso não virtual e exclusivo ao fino da próxima bossa (se Lady Gaga for mesmo esperta fará um remix shangaan electro de “Judas”, aquela faixa harley-davison de seu disco mais recente). Mas tudo isso não deixa de ser bem estranho. A transposição do vídeo de rua para o palco europeu funciona de maneira divertida, mas capenga. Tudo bem: vivemos época de microtextos, microtendências, microcenas – e também microentusiasmos. Nada é falso, e é bom enquanto dura. Tudo é pop-up, mesmo a alegria. Sejamos bem-vindos ao lugar ao qual Nozinja pertence.

afropolita

23/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15-07-2011

Taiye Selasi, ou Taiye Tuakli-Wosornu, parece personagem criada por alguma campanha de marketing viral-fake. Mas vale o lugar-comum: se não existisse, precisaria ser inventada, urgentemente. A primeira página do seu site contém apenas uma foto do que parece ser uma porta de metal, metade de seu rosto de mulher linda, e uma microbiografia sem pontuação ou letras maiúsculas: “nascida em londres criada em boston vive nova york nova delhi roma escreve estórias ensaios roteiros + livros faz imagens parada + em movimento”. As palavras “estórias”, “ensaios” e “livros” são as únicas clicáveis – “livros”, por exemplo, nos conduz apenas a uma matéria – suspeita? – do jornal New York Observer falando que, com apoio de nada menos que Salman Rushdie e Toni Morrison, Taiye assinou contrato com a Penguin para publicação de “Ghana must go”, seu romance de estréia, que ainda não terminou de escrever. Já seria um dos lançamentos literários mais aguardados de 2012. Quem sabe ela não vem para a próxima FLIP e confirmaremos se existe em carne e osso?

Mesmo que não exista: sua influência não poderia ser mais real. Sim, escreveu – acho que apenas – um conto, intitulado “A vida sexual das garotas africanas” e selecionado para o mais recente número de verão da Granta. Mas foi um artigo, intitulado “Bye-bye Barbar”, que apareceu em 2005 na revista inglesa Lip, especializada na publicação de textos de estudantes (na época Taiye fazia mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Oxford, depois de ter cursado Estudos Americanos em Yale), que virou seu passaporte para a celebridade pop-intelectual. O primeiro parágrafo descrevia a pista de dança do Medicine Bar, em Londres, animado ao som de Fela Kuti. O segundo lançava uma pergunta para os dançarinos: “de onde você é?” Todos, como Taiye, titubeavam ao responder: “este mora em Londres mas cresceu em Toronto e nasceu em Accra; aquele trabalha em Lagos mas cresceu em Houston, Texas”. Conclusão inconclusiva: “eles não pertencem a uma geografia única, mas se sentem em casa em muitas.” O artigo dava nome a essa identidade híbrida: “Eles (leia: nós) são afropolitas.”

Cada vez mais pessoas se reconhecem na palavra inventada (ou pelo menos popularizada) por Taiye, com sua mistura de “africano” e “cosmopolita”. E o “conceito” se infiltra em lugares surpreendentes. O museu Victoria & Albert, de Londres, realiza na útima sexta-feira de cada mês um evento chamado “Friday Late”, quando suas galerias ficam abertas para visitação até 10 horas da noite. O tema da “Friday Late” de junho era “Afropolitan”. Os africanos londrinos mais chiques (certamente alguns dos africanos mais chiques do mundo) marcaram presença. Foi uma das mais interessantes festas da minha vida.

A entrada do museu foi transformada num boteco árabe pelo fotógrafo e designer marroquino Hassan Hajjaj. Esqueça a tradição: engradados de coca-cola formavam a base dos bancos e a música ambiente era uma mistura de kuduro com coupé-décalé. Minha primeira parada da noite (depois de conferir a exposição do Yohji Yamamoto, a galeria medieval e aquela roupa de plumas usada pelo Brian Eno na época do Roxy Music) foi um debate divertidíssimo (e olha que acho a maioria dos debates chatérrimos) sobre o significado do “afropolitismo”.

O moderador – o poeta/escritor/jornalista Tolu Ogunlesi – abriu a conversa fazendo para os debatedores a mesma pergunta dos primeiros parágrafos do artigo de Taiye Selasi: “de onde você é?” As respostas foram outras microbiografias transculturais/geográficas. Minna Salami, coordenadora do MsAfropolitan (autodefinido como “blog cultural-analítico de estilo de vida”) nasceu na Finlândia. Lulu Kitololo, artista/designer (a dificuldade de encontrar um rótulo profissional também é característica desse povo), nasceu no Quênia, mas seu pai era da Tanzânia e aí começou sua vida errante. Hannah Pool (segundo o programa do evento: “jornalista, personalidade da TV e do rádio”) nasceu na Eritréia, foi adotada por pais noruegueses que moraram em Cartum e estudou no interior da Inglaterra em época que não era “cool” ser africano – ela se definia apenas como “black”. O produtor musical Yemi Alade-Lawal, fundador da AfroPop Live (plataforma de lançamento para novos artistas africanos), o único londrino no palco (mas que tem família em Ifé, local sagrado para o candomblé, e iniciou sua carreira em Nova York e Los Angeles), declarou que a moda do “afropolitismo” é muito bem-vinda: “tudo que me faz “cool”, eu gosto.” Algumas pessoas da platéia cobraram militância política. Um médico que trabalha jovens de famílias pobres de imigrantes denunciou as tendências elitistas dos componentes da mesa: “vocês tiveram sorte, estudaram nas melhores universidades…” Tolu Ogunlesi, o moderador, escapou com filosofia de Andy Warhol: “não estamos propondo um movimento político, o afropolitismo é uma lente – mais uma no supermercado das lentes – para olhar para a identidade.”

Saindo do debate, ninguém mais conseguia entrar na galeria em que ficam os enormes desenhos de Rafael (os moldes da tapeçaria da Capela Sistina), totalmente lotada e festiva, onde seria realizado o desfile de moda com curadoria de Minna Salami. Fui comer galinha africana apimentada nos jardins, ao som kwaito-punk ao vivo de Spoek Mathambo, sob frio e chuva do verão londrino.

Eliane Radigue e Santo Estevão

16/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08-07-2011

Eliane Radigue, que completará 80 anos em 2012, apareceu nesta coluna na semana passada, entre Brian Eno e Luc Ferrari, e como compositora pioneira de música eletrônica/concreta, além de parceira de xadrez de Marcel Duchamp. Ela merece muito mais espaço. O melhor seria realizar no Rio de Janeiro uma retrospectiva de sua obra, como a que aconteceu em Londres, entre 12 e 26 de junho. Tive a sorte de estar nas margens do rio Tâmisa num desses dias e fui ouvir a apresentação de “Jetsun Mila”, uma de suas criações mais amadas, na igreja de St. Stephen Walbrook. Adoraria poder ter a mesma experiência dentro da Igreja de São Francisco da Penitência, ali no Convento de Santo Antônio, deslumbrantemente restaurada, um dos lugares mais bonitos do mundo.

“Jetsun Mila” é composição de 1986, já da fase budista de Eliane Radigue, feita em sintetizador ARP. Inspirada na vida de Milarepa, iogue e poeta tibetano do século XI, a música tem 84 minutos. Na igreja londrina o som estava distribuído em seis alto-falantes, cuja fonte era um único laptop, comandado por assistente da compositora. Interessante notar a simplificação recente dos concertos de música eletrônica, ou eletro-acústica, ou concreta. Ainda nos anos 90 vi apresentações com muitos equipamentos no palco, sobretudo gravadores de rolo. Já neste século, estive num concerto de Pierre Henry, de quem Eliane Radigue foi assistente, que tinha início com a introdução de um CD numa máquina, gesto realizado com solenidade. A banalidade tecnológica da situação – um clique de mouse no laptop – não faz o ritual perder sua pompa. O público reage como se estivesse diante de uma orquestra e seu maestro genial.

A igreja de St. Stephen Walbrook (nosso querido Santo Estevão, que também já foi homenageado em coluna passada, quando escrevi sobre a banda St. Etienne) reforça o clima solene. Mesmo sendo o templo mais racional, limpo, exato no qual já estive presente (por isso gostaria de ouvir a mesma música em ambiente barroco carioca), as vibrações místicas são evidentes (a razão é também portal para a iluminação…) Seu arquiteto foi Christopher Wren, que ali experimentou várias idéias que depois ficariam mais grandiosas na Catedral de St. Paul. Em St. Stephen tudo tem escala reduzida, e a simetria é muito mais rigorosa, sem ornamentos excessivos. Tal limpeza incomodou gerações de fiéis que tentaram embelezar o ambiente com pinturas, madeiras e até vidros coloridos nas janelas. Só depois da reconstrução da igreja, que foi vítima dos bombardeios da Segunda Guerra, é que suas características originais reapareceram. Com uma adição fundamental/monumental, mas totalmente harmônica com os planos de Wren: um altar do escultor Henry Moore.

O altar é uma enorme pedra redonda de mármore (vindo da Itália, do mesmo local onde Michelangelo se abastecia), que pesa várias toneladas – e o peso é bem “visível”. Sua localização também mudou: não fica mais num dos lados da igreja, mas no centro, e os bancos para os fiéis, de design igualmente moderno, formam vários polígonos (palavra que tem lugar de destaque em Crystalline, nova excelente música da Bjork) em torno da obra radicalmente moderna de Moore. Deus está no centro e não em um dos cantos do edifício sagrado.

Escutamos a música de Eliane Radigue sentados nos bancos da igreja, virados para o altar central, sem padre para celebrar a cerimônia. A música vinha de nossas costas, ou dos alto-falantes colocados no outro lado da igreja. À nossa frente o bloco de mármore de Henry Moore, que apesar de branco, lembrava (na minha imaginação sempre surpreendente, até para mim mesmo) o monólito negro de 2001, de Kubrick. Contei quantos éramos no público: 62 pessoas, entre elas 17 mulheres e um homem de terno preto, camisa preta e gravata vermelha. Quase todos com os olhos fechados (o cara do meu lado não moveu um único músculo durante os 84 minutos da música). Eu me sentia meio traidor por estar olhando os outros, em vez de meditar no meu cantinho. Mas garanto que estava meditando de olhos abertos e andando, com consciência certamente alterada, tendo que encontrar meu não-lugar entre duas tradições religiosas: aquela visualmente cristã, mesmo com o contraste clássico-moderno Wren-Moore, com a outra auditivamente budista Milapera-Radigue, talvez tudo unido por uma terceira (sub)corrente, absolutamente moderna, Radigue-Moore.

O resultado psicodélico de tudo isso (peço desculpa mais uma vez pela minha imaginação destrambelhada): era como nós, o público, fossêmos aqueles hippies que nos anos 60 tentaram fazer o Pentágono levitar. O altar pesadão de mármore, que ganha beleza de seu peso, agora – sob efeito da música – parecia leve, sua concretude se esvaziava com o toque da varinha de condão sonora tibetana-eletrônica. A pedra, duplamente abençoada (pelas rezas cristãs e budistas), tornava-se milagrosamente vazia.

Brian Eno acaba de lançar um novo disco, chamada “Drums between the bells”, que pode ser escutado na íntegra no site da revista Wired. É uma colaboração de Eno com o poeta Rick Holland. A música acompanha a poesia falada por muitas vozes diferentes (e uma capa com foto de São Paulo, não a catedral, mas nossa vizinha de ponte aérea – segundo Eno “a cidade mais cidade-esca do mundo ocidental” [“the most city-ish city in the Western world”]). Quando ouvi a primeira faixa, fui transportado novamente para a igreja de St. Stephen: seu título é “Abençoe este espaço”. Só posso responder: amém.

Eno Radigue Ferrari

09/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01-07-2011

Brian Eno lançou o termo “ambient music” no texto que acompanhava seu LP “Music for airports”, de 1978. Partidário de processos artísticos generativos, cuja evolução não é controlada por seus “autores”, ele gosta de dizer que apenas lançou uma semente. Virou uma floresta. “Ambient” hoje é um bioma musical, emaranhado de estilos, com muitas sonoridades e atitudes diferentes. Como a do grupo Bang on a Can, que conseguiu transcrever as faixas de “Music for airports” para instrumentos clássicos (e não tanto), possibilitando sua execução ao vivo. A versão DVD desse trabalho – incorporando as imagens que Frank Scheffer fez no aeroporto de Amsterdam para projetar durante o concerto – foi lançada recentemente no Brasil dentro do catálogo estranhíssimo (que inclui Justin Bieber e Julio Iglesias) da Music Brokers.

Scheffer fez documentários sobre Cage e Boulez. O DVD de “Music for airports” inclui também o filme “In the ocean”, sobre a trajetória do Bang on a Can, que nasceu tentando unir o experimentalismo mais pop e americano da downtown com a erudição mais pomposa e européia da uptown de Nova York. Por exemplo: Julia Wolfe, integrante desse grupo, é compositora de “Lick”, a melhor tradução de James Brown para o palco do Lincoln Center. Incrível, no filme, ver Steve Reich falando dessa música, batendo uma mão na outra quase como se fosse Sid Vicious. Ele, para mim, foi a surpresa do filme. Nunca tinha visto Reich falando. Cheguei a estar na platéia de um de seus concertos – no Lincoln Center… – mas nada ali indicava que tinha tanta energia corporal ao falar sobre música. Imaginava um monge budista. Ou pessoa mais tímida, como Eno.

Segundo o encarte do “Music for airports” original, a ambient music tem como objetivo produzir calma e um espaço para pensar. A palavra espaço é importante. Podemos mergulhar dentro dos sons. Eno queria fazer música para local bem determinado, com características acústicas singulares. Aquela composição foi criada para tocar em aeroportos mesmo, “acomodando todos os barulhos que um aeroporto produz”, podendo ser interrompida pelos anúncios dos voos, trabalhando em frequências diferentes daquelas usadas pelas falas das pessoas etc. Interessante ver isso transportado para outro edifício, a sala de concerto, diante de uma platéia que não fala enquanto os músicos tocam: ambiente que nos mostra uma outra beleza da ambient. Um texto de 1996 sobre “Music for airports” (publicado neste livro), Eno revela o outro lado da calma, e dos aeroportos: a música buscava “ter alguma coisa a ver com onde você está e para quê está ali – voar, flutuar e, secretamente, flertar com a morte”. Eno pensava: “Quero fazer um tipo de música que prepare você para morrer – que não fique toda luminosa e alegre fingindo que você não está apreensivo, mas que faça você dizer para si mesmo, ‘realmente, não é lá grande coisa se eu morrer’.”

Lendo essas palavras pensei em “Kyema, estados intermediários”, provavelmente uma das mais belas músicas já criadas, dedicada por sua compositora, Eliane Radigue, para o filho, Yves Arman, que havia acabado de morrer em acidente de automóvel. (O pai de Yves era Arman, artista fundamental, da turma de Yves Klein e parceiro, com Eliane, de Marcel e Teeny Duchamp em partidas de xadrez.) Radigue trabalhou com dois Pierres, o Schaeffer e o Henry, os inventores da música concreta. Aprendeu com eles a criar espaços sonoros dentro dos quais os ouvintes podem passear (isso é comum em concertos de música contemporânea: caixas de som são posicionadas em lugares diversos, dando tridimensionalidade para a emissão sonora). Mas seguiu caminho único, bem diferente dos abertos por seus mestres. Henry saiu de um de seus concertos reclamando: “Você foi minha melhor assistente, e olha o que acabou fazendo.” Um crítico de jornal no ínicio dos anos 70 tentou descrever o que ela fazia: “Nada acontece, e mesmo o nada é muito para descrever aquilo.”

Não é que não aconteça nada. Mas na música de Radigue, tudo acontece e muda muito devagar. E esse é um de seus encantos, que nos abre um espaço onde podemos aprender a ser unos com o som. Experiência mística? Não foi por acaso que Radigue quase deixou a música para se dedicar aos estudos e práticas do budismo tibetano. Os estados intermediários de “Kyema” são aqueles seis que constituem o “contínuo existencial” do ser, segundo o “O Livro Tibetano dos Mortos”, onde o som está no íntimo de tudo. Vale a pena comparar a música de Radigue com aquela que Pierre Henry fez para “O Livro dos Mortos” do Egito Antigo, cheia de fúria e dinâmica bombástica. São dois modos inteiramente diferentes de encarar a vida e a morte.

Há horas em que só a fanfarra de Henry pode nos acalmar. Mas tenho preferência cada vez mais estável por música que não fica toda exibida procurando minha atenção, ou que – como bem diz Eno – “pode acomodar muitos níveis de atenção” (inclusive o total esquecimento do está tocando). Tente fazer o teste ao viajar por terra: coloque Presque Rien n. 1 (isso mesmo, a tradução é “quase nada n.1”, e é compostas com sons ambientes do amanhecer numa aldeia de pescadores ex-iugoslava) de Luc Ferrari para tocar no som do automóvel. O mais legal é quando a música dos alto-falantes, de um mundo já passado (da ex-Iugoslávia), se confunde com os sons da estrada, um mundo bem presente, por onde estamos trafegando. O mundo inteiro vira música, morte-vida, estranha e calma música.

Taniguchi Toussaint

02/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24-06-2011

Jiro Taniguchi cria mangás diferentes daqueles publicados na maioria das revistas de história em quadrinhos japonesas (peço desculpas a quem sabe que mangá é estilo japonês de quadrinhos; tenho que me policiar para encontrar maneiras de repetir esse tipo de informação, pois sempre encontro leitores queixosos de não ter familiaridade com assuntos que trato aqui como se fossem de conhecimento geral; meu objetivo é tirar esse tipo de informações valiosas de seus guetos nerd-otakus, espalhando-as para outras pessoas que queiram delas se apropriar para renovar suas visões de mundo). O mangá é mais conhecido por sua linguagem veloz, com lutas e monstros, ou romances semi-eróticos para meninas. Se os criadores comerciais estão mais para a Ilíada, ou filme de Peckinpah, Taniguchi se parece mais com haiku de Bashô, ou imagem captada por câmera dirigida por Ozu (cineasta sempre citado como uma de suas principais influências). Frédéric Boilet, cartunista (ou mangaká, criador de mangás) francês, já lançou até um manifesto dando nome a esse outro estilo: “nouvelle manga”, ou simplesmente “la” mangá, a versão “feminina” de “le” mangá, como o gênero é mais conhecido em países francófonos, grande mercado editorial para quadrinhos inovadores.

No Brasil, Taniguchi tem publicados poucos livros. “Gourmet”, lançado em 2009 pela Conrad, é uma obra-prima – o caminho zen em busca da comida perfeita, no restaurante mais improvável. A editora Panini, em sua coleção Planet Manga, publicou “O livro do vento” (história de samurai, entre o “le” e o “la” mangá – mangá andrógino?) e “Seton”, sobre o naturalista inglês Ernest Thompson Seton, do qual ainda espero o segundo volume. Em português temos também belo e radicalmente contemplativo (na verdade um tratado sobre a contemplação) “O homem que caminha”, lançado como encarte do jornal lusitano Correio da Manhã, e encontrado apenas com muita sorte em algum sebo. Irmão de “O homem que caminha” é “Le promeneur”, publicado na Bélgica pela tradicionalíssima Casterman, que popularizou Tintin pelo mundo. A tradução em português seria “O passeador”? Palavra estranha, passeador. Prefiro “O homem que passeia”, e declaro que é minha obra preferida de Taniguchi, até segunda ordem.

Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida. Começa com uma visita à casa de um amigo, que termina às 3 da madrugada. Nosso querido passeador resolve voltar para casa a pé, caminhada que levará uma hora e quinze minutos. Há algum suspense no ar: pepinos amargos e a travessia de ruas desertas. Mas nada de ruim acontece. Apenas reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta em haiku mais que perfeito e tranquilo. Essas qualidades de Taniguchi, mais sua sensibilidade diante daquilo que existe de poesia na banalidade do cotidiano (tanto na natureza quanto na cidade), já produziram uma legião de admiradores para sua obra, como o cineasta belga Sam Garbarski, que levou para as telas – em 2010 – uma de suas mangás, Bairro Distante.

Há indícios de que os belgas são vítimas alegres e preferenciais do desenho fascinante de Taniguchi. A edição de “O homem que passeia” da Casterman também brinda o leitor com uma entrevista com seu autor e perguntas formuladas pelo escritor (belga, claro) Jean-Philippe Toussaint. A conversa gira em torno de uma possível filosofia do passeio, definida por Taniguchi como atividade sem objetivo e limite de tempo, que desencadeia um “estado de disponibilidade”, gerando descobertas por acaso e “um dever de ser uma liberdade”. Toussaint fala de uma “doce curiosidade”, com pitadas de nostalgia e melancolia, nos desenhos de seu entrevistado mangaká. Talvez esteja falando mais de seus próprios escritos, que nos últimos anos perderam grande parte das características mais irônicas de seus primeiros livros e se tornaram cada vez mais contemplativos e asiáticos. Seu “Autoretrato (no estrangeiro)”, de 2000, começa em Tóquio e, depois de visitar Berlim, Quioto, o Vietnam e a Tunísia, retorna a Quioto, para diante de uma estação de trem abandonada, com a chuva molhando o rosto no lugar das lágrimas que não consegue chorar, descobre que a escrita era uma forma de resistir ao “brusco testemunho da passagem do tempo”, com sua corrente que leva tudo.

Estranho. Essa nostalgia, ou melancolia, tem cara européia, não japonesa. Os caminhantes de Taniguchi colocam a “interioridade” à flor da pele, em cada passo que diz sim ao mundo, e a tudo de novo que o tempo traz para o mundo. Toussaint, na entrevista para seu editor chinês que foi publicada na edição de bolso de Fugir (seu livro que ganhou o Prêmio Medicis 2005 e teve edição brasileira pela Bertrand), declara: “como escritor, eu não julgo, eu pego aquilo que vem, com a idéia de que o contemporâneo é sempre apaixonante.” Por isso a cena central de Fugir é uma ligação celular, mesmo que seu autor não use celular. Há um conflito ali, que não aparece em Taniguchi. A vida tem menos lágrimas para quem aprendeu a passear bem.


%d blogueiros gostam disto: