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identidades

19/05/2018

Sonhos foram terrenos férteis para o pensamento alegre de Clément Rosset. Houve aquele de uma noite de maio, que deu no livro sobre o desejo. Houve, antes, outro sonho importante, na manhã de 28 de janeiro de 1998. Nele, o próprio Clément Rosset falava para um círculo de conhecidos sobre a diferença entre seu eu oficial, dos documentos, e seu eu “real mas misterioso” – pregando portanto a existência de uma diferença entre a identidade social, falsa, e a identidade pessoal, verdadeira. O espanto de aparecer em seu próprio sonho pregando uma ideia que sempre repudiou foi motivo para, quando acordado, escrever um de seus livros que mais gosto, “Longe de mim“. São apenas 80 páginas, que defendem com clareza e firmeza a alegria de não existir identidade pessoal nenhuma, mas sim – e somente – processos de produção de identidades sempre sociais, muitos e mutantes para cada pessoa, a partir das relações com outras pessoas ou grupos de pessoas.

Nada, então, de unidade. Somos, como disse Montaigne, feitos de “peças remendadas”. O efeito de conjunto é uma ilusão, produto da vontade – verdadeira – de ilusão, desse tipo de ilusão fundamental, em sua tentativa desesperada de criar fundamentos sólidos onde não é possível existir solidez alguma. Tudo ganha a aparência de um filme de terror bem delicado: “A identidade pessoal é algo como uma pessoa fantasma que assombra minha pessoa real, frequentemente próxima mas jamais tangível nem atingível […] Meu fantasma o mais familiar sem dúvida, mas enfim meu fantasma; e um fantasma nunca é mais que um fantasma mesmo se ele o visita sempre e decide algumas vezes a tomar seu lugar”. Quem parece ter personalidade firme, previsível, tem um fantasma dominante, forte ou domesticado, sempre disponível, nos mais variados ambientes, circunstâncias e companhias. Gente talvez confiável, mas sem graça.

Pois identidade de gente normal, de carne e osso, é resultado de apropriação, remix, cut and paste de vários traços psicológicos, memes vindos de fora para colonizar seus (nossos) cérebros. Até virar algo “original”:  “Copie, e se assim copiando você permanecer você mesmo, é que você tem algo a dizer, esse é o conselho que dava Ravel para seus raros alunos. A fórmula parece poder ser tomada em sentido mais amplo e se aplica à psicologia em geral: copie, e se copiando você permanecer você mesmo, é que você conseguiu forjar uma personalidade, algo como a roupagem (pelo menos aparente) de um eu.”

Em determinadas situações é vantajoso ter essa fantasia ou fantasma de personalidade. Porém, nem sempre. Na conferência mexicana “Quem sou eu?”, que veio a fazer parte do livro “Tropiques“, Clément Rosset terminava falando da astúcia de Ulisses, que escapou do ciclope Polifemo dizendo: “eu sou ninguém”. Parece truque, enganação. Não é, apenas: “a trapaça é ao mesmo tempo um triunfo da verdade; pois Ulisses, como todos nós, não é outro, no seu foro íntimo, que ninguém.”

Toda a filosofia de Clément Rosset pode ser considerada um guia para todos nós enfrentarmos esse tipo de verdade radical. Sem empulhação, ou trapaça de outro nível. Com alegria de seguir a verdade. Preciso citar aqui o epitáfio de Martinus von Biberach, que aparece no final de “Longe de mim” (e que apareceu antes em “A força maior“):

Eu venho não sei de onde,

Eu sou não sei quem,

Eu morro não sei quando,

Eu vou não sei para onde,

Eu me espanto de ser tão alegre.

*****

Pulo, espantado e alegre, e sem saber de nada, de Clément Rosset para François Jullien, especialista francês no pensamento chinês, ou especialista no pensamento europeu a partir do pensamento chinês. Eu nunca, em meu foro íntimo, acreditei em identidade pessoal, nunca quis possuir uma, assim como nunca acreditei também em identidade cultural. Por isso fiquei alegre quando encontrei o livro, também de cerca de 80 páginas, “Não há identidade cultural” de François Jullien. Leva as verdades radicais de “Longe de mim” para outro ambiente, talvez mais ressonante diante de debates políticos de agora. Com propostas bem engenhosas para mudar o rumo da conversa…

Vamos ao que interessa. Primeiro, um resumo de todo o resto: “no lugar da diferença invocada, eu proponho abordar as diversas culturas em termos de afastamento; no lugar da identidade, em termos de recursos ou de fecundidade.” Se a diferença trabalha com distinção, classificação, criando mundos fixos, isolados, fechados uns para os outros, com fronteiras nítidas entre si, e regime de produção de sentido autossuficiente, o afastamento incentiva a exploração daquilo que ficou distante, a prospecção do território desconhecido, criando tensão entre o que está separado – é portanto uma figura mais aventureira, que não fica na defensiva. O “entre” que aparece no afastamento é ativo, convidativo. Na diferença identitária, cada um se vira para o seu lado, não se interessa pelo que ficou de fora. Tudo que está fora é uma ameaça. No afastamento, o distante está sempre visível, e atrai a atenção geral.

Difícil a posição afastada, claro. François Jullien lembra: não sabemos pensar o “entre”, aquilo que não é isso nem aquilo, o que não tem “em-si”, o que não tem essência. Os gregos pensaram o “ser” (fica mais bonito ou divertido em francês – a diferença entre “être” e “entre”), tinham horror ao indeterminado (aqui François Jullien simplifica o pensamento grego?) Talvez valha a pena o esforço. Sair do ser, ir para território desconhecido, arriscado. Estamos cercados pelas armadilhas do ser, cada vez mais assombrados por seus problemas bélicos. Como o Ulisses de Clément Rosset: seria outro triunfo da verdade: afinal, cultura vive em constante mudança e transformação: se não muda, se não tem ambiguidade, contradição, morre, desaparece sem deixar saudade.

Cultura é complexa, heterogênea. A simplificação – e a homogeneização forçada – é arma inútil para qualquer batalha, mesmo a mais bem intencionada. É preciso aceitar o desafio da complexidade. François Jullien: “como caracterizar a cultura francesa, fixando sua identidade? Sob a figura de La Fontaine ou de Rimbaud? Sob a figura de René Descartes ou de André Breton? A cultura francesa não é nem uma coisa nem outra, mas ela está, certamente, no afastamento entre as duas: na tensão das duas ou digamos no entre que se abre entre elas. É esse entre aberto entre elas – desmesurado, vertiginoso – que faz a riqueza da cultura francesa, ou diremos seu recurso.” Ou ainda, mais claro e importante: “o que faz a Europa, é que ela é ao mesmo tempo cristã e laica (e mais). É que ela se desenvolve no afastamento entre os dois: no grande afastamento da razão e da religião, da fé e do Iluminismo. No entre os dois, “entre” que não é compromisso, simples intermediário, mas coloca os dois em tensão, fortalecendo um e outro. Daí vem que a exigência de fé é afiada pelo afastamento com a exigência da razão (isso mesmo numa mesma mente: Pascal): daí vem a riqueza e o recurso que faz a Europa ou melhor que “faz Europa”. Diante do qual toda definição de cultura européia, toda abordagem identitária da Europa, não é apenas terrivelmente redutora ou preguiçosa. Mas ela também fragiliza, decepciona e desmobiliza.”

Afastamento não combina com pertencimento, divisão entre o que é meu e seu. Os recursos são criados muitas vezes em um ambiente específico (penso na maioria dos estilos musicais, quase sempre nascidos em cidades bem determinadas, ou mesmo em determinados bairros dessas cidades), mas depois se tornam disponíveis para todos (a house de Chicago nos EUA vai gerar o gqom de Durban na África do Sul e assim por diante). Sim, há necessidade de politicas culturais espertas: “defender os recursos, é prioritariamente ativá-los, mais que compreender esse “defender” apenas no modo amedrontado ou defensivo.” Os recursos param de existir, desaparecem, se não são ativados, promovidos, colocados em circulação.

Tudo tendo em vista a construção de um “comum”: “uma inteligência mútua pode emergir nesse entre tornado ativo.” Não se trata de relativismo fácil, de ignorar relações de poder (que torna todo afastamento ainda mais tenso). É sim a aventura de criação de estratégias ágeis, alertas (contra a inércia): “Nem misturando (confundindo) o diverso das culturas e das formas de inteligência, nem, o que dá no mesmo, o reduzindo a uma versão mais consensual e declarada mais “tolerante”: uma forma cultural é significativa por aquilo que ela produz de afastamento e de singular e, por conseguinte, de inventivo.”

Sendo assim, só resta uma saída: constante invenção.

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noites de maio

16/05/2018

Continuando a celebrar o pensamento alegre de Clément Rosset: há 10 anos ele publicou um livrinho de menos de 40 páginas chamado “A noite de maio“. Tudo começou com um sonho tido numa noite de maio de 2007, no qual chegava em Nice de avião, vindo de Paris, e ia direto para a casa de Agnès Varda (várias interrogações aparecem no texto, ao lado desse nome – não fica claro se Clément Rosset a conhecia na “vida real”). Lá descobre que terá que fazer uma palestra sobre o desejo. Sua primeira reação foi entrar em pânico, pois não tinha nada preparado para falar. Outra pessoa o acalma sugerindo um roteiro: seria preciso dizer que o desejo é algo muito complexo, citando Proust, passando por Deleuze e terminando com Balzac. Ao acordar, Clément Rosset começou imediatamente a escrever o texto do livro baseado nas instruções que recebeu no sonho.

Óbvio, o início é a madeleine de Proust, detonadora de um prazer “extraordinário” e “delicioso”. Mas “sem noção de causa”, pois não estava relacionado com um único acontecimento, ou objeto, mas sim com uma experiência múltipla, uma pluralidade de emoções experimentadas em Combray. Nenhuma alegria é solitária, sempre vem acompanhada. Nunca podemos descobrir o que sozinho nos deixou alegre. Há em cada momento alegre uma aprovação geral da existência. Pois, afirma Clément Rosset, como uma onça de Guimarães Rosa: “Se eu estou feliz é porque tudo vai bem e porque tudo é bom; se estou feliz mas ao redor desta felicidade certas coisas não estão indo bem, é porque eu não estou.” Gosto dessa radicalidade, dificílima, que vai contra tudo o que parece em voga hoje, quando perdemos mundos a cada dia.

Indo adiante, com coragem: alegria e desejo são “termos complementares”, que estabelecem entre si uma “quase-identidade” – o que se diz de um se pode também dizer do outro. Então uma pessoa alegre é uma pessoa que deseja, e “no limite deseja tudo”. Uma pessoa deprimida chega a não desejar nada. Ou deseja uma coisa só, como ideia fixa, que pode desaparecer a qualquer momento. Boa lição: “o objeto desejável só é desejado quando acompanhado da perspectiva, mesmo fugaz, de uma multidão de outros objetos desejáveis”. E ainda: “ele é móvel, sem conseguir parar em lugar nenhum, como o mercúrio.” O desejo é necessariamente plural.

Esses são elementos importantes para uma também (ou talvez ainda mais) mercurial teoria da identidade, ou da ausência/impossibilidade de identidade, proposta por Clément Rosset, onde eu quero chegar. Mas fica para um outro post, talvez em outra noite deste maio.

Clément Rosset

02/05/2018

Na capa da edição mais recente da Philosophie Magazine, há chamada para uma “homenagem excepcional de 14 páginas” para Clément Rosset. Inocente, fiquei me perguntando: o que ele fez para merecer tal honraria? Abri a revista e logo descubro chocado: morreu. No dia 27 de março. Como não soube disso antes? Acho que nenhum jornal brasileiro deu a notícia. Via Google, chego a obituários em jornais franceses, espanhóis, um argentino. A resenha de livro (já) póstumo publicada no “Le monde” tem o título perfeito: “Clément Rosset deixou o paraíso”. Sim, ele sempre reafirmava: não existe paraíso depois da vida; o paraíso é aqui: “aquilo que é mais antigo, em mim, é a alegria de viver, a alegria quase miraculosa de existir.” Claro que não é bobo alegre, pateta: “‘Alegria’ e ‘trágico’ são duas palavras para dizer a mesma coisa.” Ou: “a alegria e o sentimento do trágico são indissociáveis.” Ou ainda, mais didaticamente: “O ponto de partida de minha filosofia é a consciência do trágico da existência: tudo vai desaparecer, a morte nos envolve e nós estamos ameaçados por nossa própria inconsistência. Ou recusa-se o trágico e a morte. Por essa recusa do trágico, portanto do real, paga-se muito caro. Inversamente, a capacidade de se admitir a parte trágica do real é para mim a pedra de toque da saúde moral e da alegria.” E para evitar deturpações: “Ser realista, em política, não significa ser conservador ou reacionário. Eu penso apenas que só há o real e que é a partir dele que é preciso trabalhar, e não a partir da concepção ilusória de um mundo perfeito, se nós queremos ter a chance de produzir melhorias.”

Parece fácil, mas não é. É preciso muita força, constante exercício, para encarar o mundo (o real, sempre aleatório e irracional) como ele é, sem anteparos tranquilizantes de “duplos” e ilusões, ou sem cair na tentação do niilismo e da ausência de desejo. Ser alegre é trabalho pesado cotidiano, que precisa do acompanhamento implacável de mestres. Então, como Clément Rosset nos abandona, logo agora, quando tudo ao redor fica mais terrível, cansativo, desestimulante, quando produzir alegria exige muito mais energia e colaboração?

Percebo, no trabalho de luto, como Clément Rosset me acompanhou em todos meus afazeres, como grande mestre, mas de maneira silenciosa. Acho que nunca foi citado neste blog. Não aparece na bibliografia dos meus livros. Porém, de certa forma, tudo que pensei gira em torno de seus ensinamentos, de sua alegria contagiante (li alegre quase todos os seus livros de 1980 para cá). Fui mais fundo na pesquisa em meus escritos, espantado com essa ausência nunca antes constatada, e acabei encontrando seu nome e suas palavras na minha dissertação de mestrado. Por algum motivo, essa passagem – que defendia o direito de fazer festa por nada, sem motivo-consequência, e contra tudo – desapareceu na hora da publicação no livro “O mundo funk carioca”. Chegou a hora de reaparecer:

“a alegria é, na sua definição mesma, de essência ilógica e irracional. Se pretendesse ser séria ou coerente, a ela faltaria para sempre uma razão para ser que fosse convincente ou simplesmente assumida e enunciável. A língua corrente fala melhor disso que pensamos geralmente quando diz “louca alegria” ou declara que alguém está “louco de alegria”. Expressões semelhantes não são apenas imagens; ela exprimem a verdade mesma: só há alegria louca – todo ser humano alegre é necessariamente e a sua maneira irracional.”

verdade e pureza

11/02/2018

Minha última leitura de 2017 foi “Íon”, de Eurípedes. Conheço pouca coisa sobre tragédias gregas. Vi e li várias, para tentar ter contato mais próximo com aquele pessoal que estava formatando o sistema operacional dos cérebros ocidentais. Ou estava inventando o Ocidente (e a crítica do Ocidente). Mas não me aprofundei em nada. Então posso estar falando enorme bobagem ao identificar em “Íon” uma maneira diferente de ser trágico. Para ser mais ousado na minha ignorância: é talvez a menos trágica da tragédias (e não estou pensando na implicância de Nietzsche contra Eurípedes). Nos anfiteatros da Grécia Antiga, o mais comum era acompanhar trajetórias do ruim para o pior. Deuses e/ou o destino não tinham nenhuma pena de quem estava em cena. Vários raios costumavam cair nas mesmas personagens, sempre dilaceradas por sofrimentos – muitas vezes gratuitos – horripilantes. Em “Íon” esperamos castigos e desastres, mas tudo vai melhorando, melhorando… E o final é até feliz.

Fiquei espantado e curioso. Fui procurar sobre “Íon” na internet. Não há muita coisa. Mas encontrei link me lembrando que várias aulas do penúltimo curso de Michel Foucault no Collège de France foram justamente sobre essa peculiar tragédia. Está tudo publicado no livro “O governo de si e dos outros”. Sua leitura foi uma das minhas misturadas atividades nestas conturbadas primeiras semanas de 2018.

Sempre fiquei maravilhado com essas aulas de Foucault. Privilégio para quem podia acompanhar a evolução de seu pensamento, ali em tempo real. (Hoje seria ainda melhor: o Collège de France disponibiliza todos os seus cursos online, em vários formatos. Antes da internet, o acesso exigia viagem para Paris e a batalha para conseguir lugar numa sala apinhada [a venerável instituição francesa sempre foi adepta dos códigos abertos: qualquer pessoa pode frequentar suas salas de aula]. Muita gente documentava as falas de Foucault em gravadores cassettes, e as fitas circulavam por correio não virtual mundo afora. Tudo era bem mais trabalhoso.) Já ouvi relatos – nunca estive lá – dizendo que o estilo de apresentação era enfadonho, voz “meio metálica”. Era necessária muita atenção para acompanhar o que importava: a aventura das ideias, a paixão por descobertas de pesquisas dos dias anteriores, que nem Foucault sabia onde iam dar (no curso seguinte, e o último de sua vida, publicado em “A coragem da verdade”, encontramos: “gostaria de captar, de tentar mostrar para vocês e mostrar para mim mesmo”… Ou: “mas me deu vontade agora, um tanto excitado com o cinismo no decorrer destas últimas semanas, de propor o seguinte para vocês”… E ainda, de dar nó na garganta, por sabermos agora que ele morreria poucos meses depois desta aula: “são coisas que ainda não analisei, que seria interessante estudar em grupo, em seminário, poder discutir. Não, não tenho condições atualmente – pode ser que venha a ter um dia, talvez nunca – de dar um curso na devida forma sobre esse tema da verdadeira vida”). Bom ter tudo isso transcrito com tanto cuidado e várias notas em livros, que podem ser estudados com toda a calma. (Foucault voltou ao centro do debate intelectual agora por causa da publicação do quarto volume, inacabado, de sua “História da sexualidade”. Virou número especial da “Philosophie magazine” e chamada de capa em muitas outras revistas francesas. Em “L’histoire”, há entrevista com seu editor Pierre Nora que aborda seu veto para publicações póstumas. Sobre os cursos a posição não era tão categórica, apesar de modesta: ali “haveria pistas de trabalho suscetíveis de interessar, mas isso lhe parecia muito trabalho para pouca coisa”. Ainda bem que o muito trabalho foi feito.)

A reflexão sobre “Íon” ocupa cinco aulas, um quarto do curso inteiro. Até Foucault parece surpreso com isso. Ou envergonhado: pede desculpa por falar “tão demoradamente” sobre essa tragédia. Diz ainda: “não demora a deixá-la [a peça] de lado, fiquem sossegados”. E chega a comemorar no final de uma aula: “Pronto, terminamos ‘Íon’.” (Para depois ainda voltar a “Íon” na aula seguinte…) Que ninguém se deixe enganar por esses recursos retóricos: nada aqui é chato. Não vou tentar resumir a leitura de Foucault. Vale a pena todo mundo fazer sua própria leitura dessa leitura, acompanhar a argumentação detalhista, repetitiva para ficar totalmente clara, mas de tirar o fôlego por sua engenhosidade, e pelo prazer evidente que Foucault demonstra ao seguir seu próprio raciocínio. Prazer contagiante. Mas resumo (mais uma ousadia minha, conheço quase nada de filosofia grega ou francesa etc.): a peça é lida como a batalha de Íon para conquistar cidadania plena em Atenas, para estar “na primeira fileira” dos cidadãos atenienses, aqueles que têm “o direito político de exercer em sua cidade a fala franca, que é chamado de ‘parresía'”. “Fala franca” é um “#ProntoFalei”, mas não de forma impensada ou apenas impulsiva. É uma coragem de dizer a verdade, doa a quem doer, inclusive colocando sua própria cara a tapa. E “parresía”, para muitos gregos, rima bem com democracia. Uma não pode viver sem a outra.

A argumentação é complexa. Toda essa preocupação com a verdade em Foucault surpreendeu ou desagradou vários dos seus discípulos (os caminhos de seu pensamento tomavam rumos imprevisíveis – como antes, no curso de 1978-1979, transcrito no livro “O nascimento da biopolítica”, quase que inteiramente dedicado a uma genealogia do neoliberalismo – levando Hayek, Gary Becker ou mesmo Giscard D’Estaing muito a sério -, quando o debate central no mundo intelectual ainda era sobre algo em torno do eurocomunismo… Tudo passou a fazer sentido décadas depois). Importante constatar: Foucault não passou a defender o conceito de uma verdade objetiva. Vários momentos desses e de outros cursos dos últimos anos de sua vida lembram a canção de Marisa Monte: “Verdade, uma ilusão”. Exemplos: em “Íon”, “a verdade não é dita sem trazer com ela uma dimensão, eu diria um duplo de ilusão que é ao mesmo tempo seu acompanhamento necessário, sua condição e sua sombra projetada. Não há dizer-a-verdade sem ilusões” (página 84 da edição da Martins Fontes). Ou em poucas outras palavras: “um dizer-a-verdade que, por um lado, deixa reinar sobre a verdade toda uma parte de ilusão, mas, graças a essa ilusão, instaura a ordem em que a palavra que comanda poderá ser uma palavra de verdade e de justiça, uma palavra livre, uma ‘parresía’.” (p. 136)

Claro: pairando sobre tudo está a sombra de Nietzsche (ver o delicioso “Nietzsche e a verdade”, de Roberto Machado, que ganhou edição revista em 2017, de onde retiro a seguinte afirmação: “Se a arte tem mais valor que a ciência, e é sempre utilizada por Nietzsche como paradigma de sua crítica da verdade, é porque, enquanto a ciência cria uma dicotomia de valores que situa a verdade como valor supremo e desclassifica a aparência, na arte a experiência de verdade se faz indissoluvelmente ligada à beleza, que é uma ilusão, uma mentira, uma aparência.” E palavras de Nietzsche citadas por Roberto Machado: “A verdade é feia: temos a arte a fim de que a verdade não nos mate” ou “deve-se querer até a ilusão – isso é o trágico”.) Mas não ouso entrar nesse terreno complicado, que não domino nem como principiante. Quero pular logo para o momento de “O governo de si e dos outros” que mais chamou minha atenção nessa minha leitura descuidada de verão trepidante. Para Íon ter direito a “parresía” em Antenas, ele precisava provar que era ateniense puro. E aqui aparece algo que talvez me interesse mais do que o “valor da verdade”: o “valor da pureza” e a condenação de qualquer mistura.

Foucault mostra como “desde meados do século V, desde 450-451, uma legislação própria de Atenas […] não reconhecia o direito de cidadania aos filhos nascidos de um pai ateniense, mas de mãe não ateniense.” Mesmo sendo algo recente no tempo de Eurípedes, “seguindo um procedimento habitual nessas reelaborações lendárias, valorizasse essa lei como extremamente antiga”. Então Íon acredita piamente: “o povo autóctone e glorioso de Atenas é puro de toda mistura estrangeira.” No resto desse curso, e no próximo (o de “A coragem da verdade”), mesmo quando deixa Íon em paz, e analisa os argumentos divergentes tanto de Platão (e dos neoplatônicos cristãos) como dos cínicos, Foucault parece não se dar conta (posso estar errado, não li tudo com a devida atenção…) de que a valorização da pureza unifica tudo, para além do valor da verdade (e da vida verdadeira). Talvez os dois valores estejam confundidos (ou misturados): “Primeiro valor da palavra “alethés” (verdadeiro), não apenas o que não é dissimulado, mas o que não recebe nenhuma adição e suplemento, o que não sofre nenhuma mistura com outra coisa além de si mesmo”. “Alethés” é também o reto, o anti-barroco, contra rodeios e dobras, e nesse sentido mais uma vez “se opõe à multiplicidade e à mistura.” Então, mesmo no “escândalo da verdade”, no “teatro visível da verdade” dos cínicos (ou nos corpos dos filósofos cínicos), ou na sua dramaturgia de “pobreza ativa”, encontramos essa valorização de uma “vida sem mistura, da vida pura e autossuficiente”, “da vida independente de tudo”, mesmo que isso signifique feiura ou humilhação (e, no extremo, escravidão).

Estou, desde o início, rodeando quatro páginas de “A coragem da verdade” (de 163 a 166), o momento em que Foucault fala (e avisa: “Desculpem esses sobrevoos, são anotações, é trabalho possível”) – bem adequado para o dia de hoje – em tempos de folia nas ruas (não sei se esse tema aparece em outros de seus livros e cursos – li também o “Impressões de Michel Foucault”, que Roberto Machado lançou no ano passado, com vários trechos descrevendo as viagens de Foucault pelo Brasil – ali nada deixa transparecer um interesse especial pelo lado carnavalesco da vida brasileira…). O carnaval é visto como um veículo do “escândalo da verdade” no mundo medieval e cristão estudado por Bakhtin. O que desemboca na identificação do “problema das relações entre a festa e a vida cínica (a vida no estado nu, a vida violenta, a vida que escandalosamente manifesta a verdade).” Isso para pular rapidinho para o esboço de uma teoria da arte moderna como antiplatonismo, com sua “verdade bárbara” e sua “coragem de assumir o risco de ferir”.

E isso porque, na aula, Foucault pulou trecho do manuscrito (havia sempre um manuscrito como base para todas as aulas) que poderia servir de base para outro curso, talvez sobre o niilismo, tentando dar respostas para a seguinte pergunta: “qual a vida necessária a partir do momento em que a verdade não seria necessária?” Ou: “se nada é verdadeiro, como viver?” Foucault ensaia uma pista: “o cinismo não para de lembrar o seguinte: que muito pouca verdade é indispensável para quem quer viver verdadeiramente e que muito pouca vida é necessária quando se é verdadeiramente apegado à verdade.” Mas eu, metido, acrescento outra pergunta: essa vida verdadeira, da verdade pouca, tem que ser necessariamente uma vida pura, sem mistura? Que festa ou carnaval é possível sem mistura, sem rodeios e dobras? Festa pobre e reta, anti-Joãzinho-Trinta?

Se numa outra encarnação eu nascer erudito uma das minhas tarefas será produzir essa genealogia da pureza. Teria que citar aquele início das “Metamorfoses” de Ovídio onde imperam “as sementes discordantes de coisas desconexas”. Tempos primordiais onde “num mesmo corpo o frio guerreava o quente, o úmido lutava com o seco, o mole com o duro, o peso com a ausência de peso” – ou seja: estava tudo misturado. Foi preciso que divindade ou natureza mais benigna (para Ovídio) separasse as coisas para que o mundo existisse. E esse horror ao misturado, essa valorização da pureza, foi parar na Segunda Lei da Termodinâmica, segundo a qual sistemas misturados não produzem nada de interessante, e que mesmo informação precisa separar alhos e bugalhos para ser útil.

Contra tudo isso, teria que construir altar para o Eros de Diotima (descrito por Sócrates naquele estranhíssimo “Banquete” de Platão), um dos poucos seres misturados-híbridos-mestiços com real importância na história do pensamento ocidental, filho da Pobreza e do Recurso (sim havia uma mendiga chamada Pobreza e um cara chamado Recurso, esse por sinal filho da Prudência), ao mesmo tempo mortal e imortal, sempre “entre” todas as coisas.

Ou, se a necessidade do puro for condição para nosso pensamento demasiadamente humano, teria que construir uma inteligência artificial que conseguisse pensar de outra forma, fora da ordem (pois não precisa operar a partir de nenhuma ordenação) e capaz de processar um outro tipo de informação misturada que nem conseguimos imaginar qual seria ou como seria possível…

inteligência artificial antropófaga

21/10/2017

Em agosto, recebi surpreendente convite do laboratório brasileiro da IBM Research para participar de painel no seu Colloquium 2017, abordando os impactos culturais da inteligência artificial (IA) em nosso país.  Sempre me interessei por inteligência artificial, mas de forma totalmente diletante. Tive menos que dois meses para preparar minha fala. Foi uma correria. Mesmo assim, nem precisava me esforçar para encontrar material de pesquisa pois, quase que diariamente, o assunto estava nas manchetes de jornais e capas de revistas. Deixo aqui anotações que fui colecionando durante o aprendizado mais que intensivo. Como o convite era maluco (por que eu?), achei exigia uma intervenção maluca. Chegando lá – diante de seleta plateia de centenas de cientistas e engenheiros – amarelei. Fui bem comedido. Mas, aqui no blog, posso exagerar na maluquice irresponsável (ou talvez responsável demais, dependendo do ponto de vista):

No dia primeiro de setembro, Vladimir Putin proferiu uma “aula aberta” via satélite para abrir o ano letivo russo. Da lição científica presidencial, a frase mais retuitada foi a seguinte: “quem se tornar o líder nessa área [IA], dominará o mundo”. Parecia recado para seus coleguinhas, também viciados em testosterona, Donald Trump e Kim Jong-un. Como se dissesse, bancando o mais inteligente: “vocês perdem tempo brincando com mísseis, a batalha mais importante acontece em outro campo e usa outras armas…” Porém, o que mais me chamou a atenção foi algo pouco comentado nos artigos que repercutiram os ensinamentos do professor Putin: o objetivo principal da produção de conhecimento por uma nação não é algo vago como “contribuir para o aumento dos índices de felicidade geral” ou o “combate contra a injustiça” ou a “descoberta da verdade”, mas sim “dominar o mundo”. Eis o bê-a-bá do imperialismo.

Melhor deixar de lado esse tipo de especulação. Afinal, como descobrir o que realmente se passa na inteligência de Putin? Como se certificar se seus discursos não sejam apenas pistas falsas, escondendo seus verdadeiros planos de dominação global? Até porque, se há realmente uma corrida armamentista no campo da IA, a Rússia – ao que tudo indica… – não parece ocupar postos próximos aos primeiros colocados. EUA, China e talvez Índia estariam correndo na frente, quase isolados dos demais países.  O resto é o resto.

E o Brasil estaria no resto do resto. O que isso significa? Está tudo – para ser – dominado por IAs que não pensam em português, que vão nos impor – sem escapatória – seus vieses culturais, suas maneiras bem específicas de classificar ou enxergar ou manipular a realidade, o mundo ao redor? Penso na IA do Google que colocou pessoas negras sob a tag “gorila”, provavelmente por, no seu processo de aprendizado, só ter lidado com seres humanos brancos. Os brasileiros seremos invisíveis, meros ruídos incompreensíveis (ou insignificantes, ou desclassificados), fantasmas nas máquinas da nova ciber-ordem? A quem interessará o investimento em machine learning para tornar detectáveis nossas diferenças?

Fiquei assustado com o cenário apocalítico, mas descrito com frieza ou objetividade comercial espantosas, que aparece no artigo que Kai-fu Lee, poderoso investidor “venture” chinês (ex-diretor do Google na China), publicou este ano no New York Times. Em resumo: a corrida é entre EUA e China. A IA vai acabar com a maioria dos postos de trabalho. A única saída será alguma espécie de renda universal, com impostos sobre as empresas vencedoras. Maior problema: o que fazer com os países que não terão empresas vencedoras? Não haverá alternativa (a pregação da crença neoliberal do artigo resposta de colunista da Forbes não me deixou menos preocupado): teremos que virar colônias dos vencedores, como mercado do consumo, aceitando os quadrados ou bolhas nos quais os algoritmos de Washington ou Beijing nos colocaram.

Mais assustador ainda foi descobrir recente edição especial sobre IA da revista Science e tomar conhecimento do trabalho do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia (comandado pelo psicólogo superstar Martin Seligman) com algoritmos para identificar sinais de depressão e outros problemas bem humanos nas redes sociais. Tudo bem intencionado. Um dos projetos se chama Bem-estar Mundial. Não quero ser ranzinza e alertar apenas para os problemas éticos óbvios, que todos os “papers” assinados pelos pesquisadores dessa instituição fazem questão de identificar com alertas: nossa saúde mental vai ser agora diagnosticada sem nossa autorização? Esse é somente uma característica de nossa realidade big brother/data cada vez mais sofisticada. Questão mais sutil: que diagnóstico será esse? Sabemos que culturas diferentes classificam estados mentais de maneiras distintas. Depressão em distantes bairros de uma mesma cidade pode não significar a mesma coisa. Vamos aceitar os laudos de algoritmos, mesmo com vieses “positivos”, feitos na Pensilvânia?

Sei que não sou a primeira pessoa me preocupar com esses aspectos da dominação global da IA. Há importantes debates e instituições nos EUA que tentam encontrar saídas para vários desses impasses. Cito a FATML.org, que cuida de “fairness, accountability and transparency” (prefiro não traduzir, pois são conceitos – até eles – que funcionam melhor em inglês) em processos de machine learning. Ou a diversity.ai, que lida com “inclusion, balance, neutrality”. Muitas empresas, como a Autodesk, criam departamentos para combater várias espécies de vieses. Tudo bem, tentam fazer sua parte. Mas qual a nossa parte? Seremos apenas espectadores, mendigando por algumas migalhas de atenção para nossas especificidades culturais, ou queremos ter voz ativa na invenção da nova política global? Nem espero tanta atividade: uma pequena intervenção realmente original nesta conversa já me deixaria menos desanimado.

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Tudo bem, muito o que se fala atualmente sobre IA é hype. Mas o hype geralmente cria as tais “janelas de oportunidade” que podem ser aproveitadas por quem está de fora do debate principal, usando a confusão blá-blá-blá geral para dar pitaco na conversa para a qual não fomos chamados. Na minha opinião o Brasil perdeu a oportunidade da internet. Não inventamos um aplicativo original para o uso da Grande Rede, como o Skype criado por estonianos, suecos e dinamarqueses (mas talvez seja o único exemplo de algo que realmente se internacionalizou – junto ao Waze? – vindo de fora dos EUA… e que acabou sendo comprado pela Microsoft). Nem criamos versões locais de ferramentas globais capazes de em seguida terem impacto no resto do mundo, como os chineses conseguiram com o Alibaba ou o Baidu. Os brasileiros se contentaram basicamente com o papel de consumidores vorazes das novidades, campeões ou vice-campeões em uso de redes sociais, publicação de vídeos, números de mensagens instantâneas trocadas… Nosso comportamento foi cada vez mais adquirindo o padrão de servidão voluntária diante de grandes corporações como Facebook. Trocamos a liberdade do código aberto (ou da noção de que a informação quer ser livre) por condomínios fechados administrados por empresas cada vez mais espertas no uso e na venda de nossos dados privados. Desconfio que quando falam em desenvolvimento nacional, grande parte dos brasileiros (inclusive dos economistas brasileiros) está pensando apenas na compra de camisetas da Abercrombie via Amazon. E todos ficam felizes com os mesmos uniformes aparentemente cosmopolitas, ou descaradamente submissos.

Meu consolo: pode existir algo criativamente predatório nessa tendência apenas consumista. Muitos estudos e artigos (por exemplo este aqui) sobre os trabalhos em vias de desaparecer por causa da IA profetizam que as juventudes das periferias pobres serão as parcelas da população mais prejudicadas quando operários ou pessoal administrativo forem substituídos por computadores. Habilidades mais sofisticadas, ou menos “algoritmizáveis”, como a comunicação, seriam monopolizadas por gente mais rica, estudantes de MBAs caros. Olhando para o que aconteceu no Brasil, sinto alívio em descobrir furos interessantes nessa tese. Novos comunicadores das periferias parecem ser os mais bem sucedidos criadores de conteúdo online no país.

Pense no Whindersson, que apareceu recentemente no topo da lista dos maiores influenciadores do Brasil, acima de apresentadores e atores da “mídia tradicional”. Ele foi criado em Bom Jesus, interior do Piauí, e hoje lota estádios de todas as capitais brasileiras com seu show solo de comédia stand-up. Observe atentamente a plateia da gravação de seu DVD em Salvador: em sua maioria parece ser formada por gente que não costuma frequentar teatro, uma novidade no show business brasileiro. Está ali para ouvir um monólogo que mistura observações de cultura tradicional nordestina com cultura pop de jogos eletrônicos e mangás japoneses, um mash-up de referências que são sempre pensadas, em ambientes acadêmicos, como mundos sem conexão.

Outro exemplo importante: Kondzilla é hoje um dos principais empresários de música e audiovisual no país. Seu canal no YouTube tem mais de 20 milhões de assinantes. O conjunto de vídeos ali publicados já acumulou mais de 7 bilhões de visualizações. Nenhuma outra empresa da mídia brasileira tem o mesmo tipo de sucesso online, construído na marra, inventando estratégias de viralização originais. Kondzilla tinha apenas 18 anos quando, com o dinheiro do seguro recebido após o falecimento de sua mãe, comprou sua primeira câmera de vídeo e começou a publicar clipes de MCs do funk santista e paulistano na internet. Vários outros fenômenos das periferias das grandes cidades brasileiras, do tecnobrega paraense ao sertanejo do Centro-Oeste, tiveram trajetórias semelhantes, abrindo caminhos em nova realidade diante da qual grandes gravadoras fracassaram.

Mas claro: tudo isso acontece utilizando plataformas de novas grandes corporações, em nuvens que não habitam céus brasileiros. Continuamos totalmente dependentes de tecnologia estrangeira para estabelecer links entre produtores e público.

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Também considero tímidas as tentativas de reflexão crítica sobre essa situação por parte das ciências sociais brasileiras. Há esforços isolados, aqui e ali. Pouca continuidade entre as tentativas, que surgem e desaparecem ao sabor de mudanças das políticas científicas e institucionais.

Em 1995, fui convocado por Tadao Takahashi, então diretor da RNP (a instituição que criou a – e ainda cuida da – espinha dorsal da internet brasileira, na época com sede carioca numa sala de fundos do IMPA), para organizar seminário “sobre aspectos sócio-culturais da internet no Brasil”. Chamei meus colegas antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Jayme Aranha Filho para me ajudar na tarefa. Eram tempos bem “ingênuos”: não havia ainda internet comercial no país. Para quem não era de universidade e governo, a única porta de entrada para a rede era uma ONG, o Ibase. A RNP imaginava que haveria tempo para planejar qual seria a melhor maneira da abertura comercial. O seminário aconteceu nos dias 28 e 29 de agosto daquele ano, no auditório do LNCC. Pouco tempo depois, o ministro Sérgio Motta autorizava a criação de provedores, que gerou um boom (a internet era o único futuro para tudo) que não deu muito em nada.

Se não fosse o esforço pessoal do Jayme Aranha Filho provavelmente o material do seminário estaria perdido. Os anais podem ser lidos neste link e retratam tentativa de estabelecimento de diálogo entre cientistas sociais e “das exatas” que não teve sequência realmente consistente e profunda, mas que agora em tempos de IA deveria ser considerado prioritário.

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Sou antropólogo. Os antropólogos são seres estranhos, escolheram trabalhar não com big data, mas com small data: nosso método principal de pesquisa é o “trabalho de campo”, imersão por período longo de tempo na vida cotidiana de um grupo pequeno de pessoas, mesmo quando estudamos em grandes cidades, com suas culturas complexas e heterogêneas. O contato face a face é a ferramenta principal para nossas melhores descobertas. Obviamente um olhar big data pode nos ajudar em várias tarefas (até porque podemos pensar a cultura como a primeira inteligência artificial) – um dos aspectos mais fecundos da reflexão antropológica vem de seu pendor comparativo, quando estabelecemos conexões entre costumes de muitas culturas diferentes (fico imaginando se a IA ajudaria Lévi-Strauss na investigação sobre seus mitemas). Porém, é preciso desconfiar de gente que tenta nos vender a ideia de que tudo agora será resolvido com machine learning.

Aprendi a cultivar essa desconfiança com um sociólogo, para muitos o maior sociólogo americano vivo. Tive a enorme sorte, a partir da apresentação de Gilberto Velho, de ter Howard S. Becker como orientador no ano que passei com bolsa sanduíche na Northwestern University, entre os créditos e a defesa de tese do meu doutorado. Howie, como exige ser chamado pelos estudantes, se tornou um de meus principais interlocutores para conversas nas quais o tema principal era tecnologia, pois sempre esteve atento aos avanços de várias áreas ciberculturais, como comprova o texto pioneiro que escreveu sobre o hipertexto (e sua amizade com Michael Joyce) ou o outro sobre novas mídias e a web.

Quando cheguei na Northwestern, fiz, com Howie e o saudoso Dwight Conquergood, um curso sobre performance e ciências sociais. Não era teoria: em todas as aulas tínhamos que fazer performances artísticas baseadas em textos de sociologia e antropologia. Mas ele insistiu que eu me inscrevesse também no curso do professor Charles Ragin, que envolvia estatística pesada (hoje o trabalho de Ragin é bem conhecido pelo uso inovador que faz dos “fuzzy sets“, que também têm aplicações bem curiosas no campo da IA). Portanto, não pensei duas vezes antes de mandar para o Howie, em 2008, um dos primeiros artigos que li sobre pesquisas big data nas ciências sociais.

Eu tinha ficado empolgado com a abertura de novas possibilidades para nosso trabalho. Achei que meu orientador americano, hipster de 80 anos, vibraria também. A primeira mensagem de volta, sempre recebida com rapidez impressionante, foi uma ducha de água gelada. Howie dizia que não tínhamos conjuntos de dados massivos sobre as coisas que realmente nos interessam pesquisar. O exemplo que me deu era sobre o livro que estava escrevendo na época, em parceria com Robert Faulkner, que agora já foi publicado como “Do you know…?“, sobre como músicos que nunca antes trabalharam juntos decidem repertórios para tocar na noite ou em festas. Não há banco de dados com todas as música tocadas nessas ocasiões. Não interessa a ninguém e seria muito caro criar esses bancos de dados.

Insisti, maravilhado com a riqueza dos outros bancos de dados que estariam sendo formados a partir da interação de milhões de pessoas nas redes sociais então nascentes. Cito a resposta quase completa (pedi autorização, era apenas um email pessoal) para não ser infiel a nenhuma sutileza do argumento (palavras para mim fundamentais não apenas para cientistas sociais, mas para qualquer uso de big data):

I’m always a little (more than a little, really) suspicious when someone tells me about a way to find out all the things that fieldworkers are really interested without having to do all the work that it usually requires. In this case, everyone (not just you!) is telling me that I don’t have to do anything, the internet and social networking sites and so forth are more or less automatically accumulating mountains of information about all the things I’m interested in and it’s there for the taking. There’s usually a catch in all this, which is that there’s data about some things and not about others, and it’s only human to say to yourself, “Well, I might as well look at what’s available and see what we can do with that,” instead of saying, “Here’s what I’d like to know about, does this material tell me about that or not?”

To take what’s on my mind right now, which is the repertoire, the songs musicians play when they get on the bandstand, let’s even imagine that some site would accumulate information about all the music that anyone, anywhere, anytime is playing and has played, and who played it and in what kind of setting, etc. What would still be missing is the interchange among the players that led to them playing just those songs, and that’s the part that we’re convinced is crucial. The rest is interesting, nice and even helpful to know. But what tells the story decisively is what they talk about as they negotiate things.

Claro, há sempre a possibilidade – digamos que não temos mais custos de armazenamento – de gravar em vídeo 3D ou traquitana semelhante todas as negociações. Mas – e aqui eu Hermano acrescento – isso seria como o mapa de Borges, que fica inútil por ser do tamanho do território, ser uma cópia exata do território que queríamos representar. Teríamos que enviar antropólogos para fazer trabalho de campo nessa “second life” (antes que vire cartografia despedaçada, apodrecendo no “deserto do real”). Ou ensinar uma IA a ter olhar antropológico e mesmo os anthropological blues de Roberto da Matta. É isso realmente o que queremos? Podemos criar também IAs antropólogas brasileiras?

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Há uma maneira brasileira de pensar? Conseguiríamos aqui construir uma inteligência artificial realmente outra, alienígena para padrões dominantes, ou fora do projeto Putin de dominação mundial? O Brasil não acabou? Por que insisto nessa ideia de que o Brasil tem algo de original para propor para o mundo? A realidade recente toda não me contradiz?

Sou insistente, repetitivo, não consigo sair desse loop… Quando Cláudio Pinhanez me convidou para o colóquio da IBM brinquei com ele: temos que inventar uma inteligência artificial antropófaga, ou tropicalista. Lembrei os aforismos do Manifesto de Oswald: “nunca fomos catequisados, fizemos foi o carnaval”. E o carnaval é sim uma outra forma de inteligência, bem artificial. Mais um aforismo, este mais adequado ao tema em questão: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. Há inteligência artificial ilógica? Outra lembrança: admitimos sim, entre nós, o nascimento da lógica paraconsistente de Newton da Costa, e que poderia nos guiar no caminho para uma IA brasileira ambígua, não entre o sim e o não, mas acreditando piamente no sim e no não, tudo ao mesmo tempo agora, uma outra lógica talvez também chinesa (lembremos que – como Gilberto Freyre sonhava – o Brasil é a China Tropical).Uma IA que talvez nos ensine a lidar com a mistura não apenas como entropia, e sim como um sinal de que nada é puro. Pensar a bagunça, na bagunça – isso não deveria ser considerado tarefa impossível para seres inteligentes.

Outro caminho: fazer a IA virar escritora fan fiction de Guimarães Rosa (via também Eduardo Viveiros de Castro) se metamorfoseando em IA onça, não humana. Gosto da ideia de Close AIs e Far AIs. Quanto mais longe a gente conseguir ir, melhor, mais surpresas. Ir além de Wittgenstein: se um leão falar, vamos dar um jeito de entender o que ele diz. Remixagem xamânica de “formas de vida”, algumas naturais  (mas nem todas humanas), outras artificiais. Navegando contra a (in)sensatez de John Searle, seguindo trilha multinaturalista: pensamento é um só, corpo e perceptos/afectos são múltiplos. Ou não. Vamos descobrir. Ou não tão longe: que tal uma IA que fale as quase 200 línguas indígenas ainda vivas no Brasil? Sei que as IAs ainda engatinham no português. Mas por que se contentar com pouco?

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Durante o período em que fazia pesquisa em busca do que falar no colóquio da IBM, ouvi – como faço religiosamente – vários episódios do podcast do meu amigo Erik Davis. Foi assim que descobri o pensamento de Ken Goldberg. Não parei mais de devorar, como uma onça, suas ideias, que saio por aí replicando memeticamente. O texto que escreveu para o Wall Street Journal é um bom resumo. Gosto especialmente – eu empenhado deleuziano – de sua ordem para esquecermos a Singularidade e pensarmos a multiplicidade. Não um algoritmo único no final da História. mas um enxame de sistemas cognitivos, baseados em uma matilha de modelos diferentes, junto com humanos e outras formas de vida, não guerreando pela dominação total/mundial, mas estabelecendo múltiplas formas de colaboração entre si.

Assim, guiado por Ken Goldberg, cheguei ao conceito (já patenteado!) de random forest, ou florestas randômicas (explicação simples neste podcast). Tudo por aí me atraí, e tento juntar com o que acho interessante quando penso em IAs brasileiras: não um monólito 2001, copiado igual em todo o universo, mas um conjunto fuzzy de fragmentos muito diversos, cada um com sua experiência, e a soma das experiências produzindo um carnaval, ou carnavais. Mandei o artigo do Ken Goldberg para o Eduardo Viveiros de Castro. Ele me respondeu, sintético e preciso: “Sobretudo temos de colocar a floresta literal nesta multiplicidade… Fazer o salto, da Amazon à Amazônia…”

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Minhas melhores descobertas de livros não acontecem com o uso dos algoritmos da Amazon. Foi numa estante de livraria tradicional que encontrei “La France contre les robots” de Georges Bernanos. Contém textos escritos por volta de 1945, quando estava exilado no Brasil, cuidando de uma fazenda em Barbacena. Fiquei fascinado, imaginando Bernanos no seu cavalo, indo todo dia da fazenda para um café na cidade, onde escrevia em francês seus sermões desancando os imbecis. Digo isso como introdução pitoresca para citar um trecho que agora, com a IA, faz novo sentido: “O perigo não está nas máquinas, senão deveríamos realizar o sonho absurdo de destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, espatifando as imagens, pensavam aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número incessantemente crescente de homens habituados, desde sua infância, a desejar apenas aquilo que as máquinas podem dar.”

Lembrei-me então de outro europeu aqui exilado, o português Agostinho da Silva, em suas entrevistas publicadas no livro “Vida conversável”, que é um dos meus favoritos, sempre na cabeceira. Não era contra as máquinas. Achava que deveríamos prestar homenagens ao parque industrial que pode contribuir para a “libertação do homem”, se bem utilizado. Acreditava que a economia global já produz o suficiente para um regime de renda universal, onde só trabalharia quem quiser e gostar daquele trabalho específico. Mas o professor Agostinho da Silva escreveu o seguinte: “Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.”

Então com essa mistura improvável de Georges Bernanos com Agostinho da Silva ficam aqui minhas sugestões para um projeto realmente original de IA brasileira: vamos imaginar outros desejos, múltiplos? E outras máquinas que nos presenteiem com o imprevisível? Máquinas que produzam as transformações desejadas por Gilberto Gil em “Cibernética“, canção dos anos 1970:

Onde lia-se alfândega leia-se pândega
Onde lia-se lei leia-se lá-lá-lá


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