Archive for the ‘Benin’ Category

ciberbahia

10/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 05/11/2010

Há uma década, Goli Guerreiro lançou “A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador” (Editora 34), leitura obrigatória para quem quiser falar qualquer coisa menos óbvia sobre o sucesso da revolução estética/industrial/social que ficou conhecida, primeiro pejorativamente, como “axé music”. Agora ela amplia e radicaliza sua análise dessa impressionante transformação com dois novos livros irmãos: “Terceira diáspora: o porto da Bahia” e “Terceira diáspora: culturas negras no mundo atlântico”, originados no blog www.terceiradiaspora.blogspot.com. São lançamentos, os livros, da editora Corrupio, que já nos brindou com, além de muita coisa essencial de Pierre Verger, alguns clássicos como “Carnaval ijexá”, de Antonio Risério, e “O país do carnaval elétrico”, de Fred Góes. É preciso sempre saudar sua resistência editorial-regional, fato raro (e a raridade é lamentável) em outros lugares do Brasil “fora do Eixo”.

“Terceira diáspora” é conceito para tentar entender o estado mutante das trocas culturais das culturas negras pós-internet. A primeira diáspora foi criada pelo tráfico negreiro. A segunda aconteceu quando populações descendentes de africanos negros se deslocaram novamente por vários continentes, mudando a cara de muitas cidades do mundo: haitianos em Nova York, senegaleses em Paris, surinameses em Roterdã e assim por diante. A terceira diáspora aconteceria agora, quando a comunicação entre todos esses mundos negros é facilitada por vídeos no YouTube, programas da rádio 1Xtra da BBC, arquivos torrent de cinema nigeriano, e muitos outros bytes.

Goli Guerreiro, mestre e doutora em antropologia pela USP, pós-doutora pela UFBA, percorre as infovias e os caminhos “reais” entre os portos da terceira diáspora com voracidade antropofágica, produzindo novas informações (em textos e imagens), sampleando pensamentos, compondo um panorama ricamente fragmentado de links transculturais recém-estabelecidos. Os livros não têm exatamente capítulos; são mais coleções de posts, todos com palavras-chaves, remetendo uns aos outros, incentivando o(a) leitor(a)/usuário(a) a continuar a navegação em outras mídias. No “Culturas negras no mundo atlântico”, podemos nos transportar do carnaval no casario Ginger Bread de Port of Spain, em Trinidad e Tobago, para o Festival de Vodun, em Uidá, no Benin, antes de mergulhar num maremoto de citações, com falas/escritos (muitas vezes saborosamente contraditórios) de gente com Cornel West e o DJ Thaíde.

“O porto da Bahia” é guia para a produção contemporânea, depois de Neguinho do Samba, de arte e ideologia negras em Salvador. Tem a união de big band com candomblé do Rumpilezz, tem o hip-hop-samba-de-roda do DJ Bandido, tem o design de carrinhos ambulantes e sonorizados de café, tem os programas de TV de Jorge Portugal.

Gosto dessa mistura, adoraria ver outras cidades do Brasil de hoje retratadas assim, de forma tão potente. Porém, já fico buscando novos navios ou servidores partindo/chegando/transmitindo dos portos mapeados por Goli Guerreiro. Dentro da “terceira diáspora”, com sua base na informática, não consegui parar de pensar, ao navegar alegre pelos livros e pelo blog, no pioneirismo baiano em termos de filosofia tecnocultural, com a formação de turma que inventou uma CiberBahia paralela, incluindo André Lemos, Marcos Palácios (lembro seus estudos sobre MOOs, os avós do Second Life, lá no início dos anos 90, até antes da web), Cláudio Manoel, Gilberto Monte, Messias Bandeira, André T, André Stangl e tanta gente boa mais.

Acho que é deformação de personalidade: gosto de ver gente diferente, com muitos tons de pele, em contato, colaborando para implodir guetos e identidades fixas. Sou discípulo de Édouard Glissant, um dos heróis do livro “Culturas negras no mundo atlântico”. Outro dia li mais uma de suas entrevistas sensacionais, desta vez publicada numa revista do Le Monde sobre o “Outre-Mèr” francês. Contra a fixidez identitária, ele propõe sempre a “identidade-relação”: devemos construir nossa personalidade na encruzilhada de nós mesmo com os outros. Essa é a receita para estarmos atentos ao incompreensível e à poesia que não é nossa. Glissant declara que só crê “nos pensamentos incertos de sua potência” – pensamentos do “tremor”, pensamentos mestiços, nunca fechados no seu mundo, por mais “atlântico” que seja. A mestiçagem das artes, e mesmo das línguas, produz o inesperado – não a uniformização, mas a difusão de novos sentidos, “maneiras de se transformar de modo contínuo, sem se perder”.

Claro, afirmar a negritude baiana, e reforçar suas conexões com o mais vibrante da terceira diáspora, é passo fundamental. Mas nunca ficar no mesmo circuito. Lembro sempre daquela música excelente da Sarajane: “abre a rodinha”. Chegamos ao limite do processo descrito por Agnes Mariano, no livro “A invenção da baianidade” (Editora Annablume). Ser baiano adquiriu outros sentidos. É preciso conectar, também e cada vez mais, a trama dos tambores da terceira diáspora com outros núcleos importantes de inovação cultural que não se situam dentro dos limites, mesmo fractais (como quer Paul Gilroy), do mundo negro. Só assim poderemos inventar novas maneiras de sermos dignos daquilo que Glissant, com Patrick Chamoiseau, chamou, em carta aberta para Barack Obama, da “intratável beleza do mundo” – todo o mundo.

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PercPan 2010

07/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01-10-2010

Não gosto de quem legisla em causa própria. E de quem utiliza sua coluna para fazer propaganda de seus próprios trabalhos…  Mas o texto hoje é utilidade pública. Este fim de semana em Salvador e no início da semana que vem aqui no Rio, com um show avulso em São Paulo, vai acontecer o festival PercPan. Junto a diretora Beth Cayres e com Carlos Galilea, jornalista do El País e um dos maiores conhecedores da música mundial e brasileira, fiz a curadoria desta edição. Já trabalhei em outros festivais. Sei como uma boa seleção de atrações é fruto de muita batalha, mas também questão de sorte. Depende daquela banda querer vir ao Brasil, aceitar o nosso cachê, nossas datas. A América do Sul nunca é prioridade no mercado de shows. Muitas vezes, fazemos planos perfeitos. No final do processo, chegamos a uma escalação totalmente diferente. Porém, neste PercPan, todos nossos melhores sonhos se tornaram realidade. Apesar de serem nomes desconhecidos do grande público (e é por isso que me sinto na obrigação de escrever este texto – os jornais ainda não publicaram artigos sobre quem vem tocar), não pode haver festival mais bacana, em qualquer lugar do mundo. Se você tem algum interesse por música, por favor – para o seu próprio bem – não perca nenhum show. É oportunidade rara para ver nomes que dificilmente se apresentarão no Brasil novamente.

Não estou exagerando. Sou o maior crítico do que faço, sem piedade: procuro defeitos em tudo. Mas é difícil encontrar algum detalhe que não gosto neste PercPan. Não saberia indicar a melhor noite, ou uma única atração. O conjunto é o mais interessante, a proximidade entre estilos diferentes. Vou passar a fazer comentários específicos sobre cada atração. Quem quiser escutar as músicas antes, tendo que escolher o que vai assistir, pode entrar no site do festival, onde encontrará áudio e vídeo, além de mais informações.

Jon Pareles, o chefe da crítica musical do New York Times, já resumiu de forma provocadora: “A Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin, pertence à lista muito pequena das melhores bandas de funk do mundo.” Completo: para mim é tão boa quanto a banda de James Brown no início do anos 70 ou a de Fela Kuti no final da mesma década. Era, até bem pouco tempo, um segredo africano. Foi preciso que um colecionador de vinil tenha visitado Cotonou à procura dos seus ídolos para descobrir que a banda continua na atividade, com a mesma força há quase 50 anos. Foi só em 2009 que fez seus primeiros shows na Europa e em 2010 nos Estados Unidos, para platéias eufóricas. Por aqui, este primeiro show tem significado especial por conta dos fortes laços culturais que unem as histórias do Brasil e do Benin, com tantas trocas no Século XIX (e antes) e poucas recentemente. O público brasileiro vai identificar elementos poderosos de candomblé e tambor de mina logo no início puramente percussivo do show. E depois, quando os instrumentos elétricos atacarem, vai cair num transe afrofunk de sofisticação absoluta.

O Hypnotic Brass Ensemble, de Chicago, é também uma das melhores bandas funk do mundo, apesar de tocar apenas com sopros e bateria. Não importa se toca num palco ou na rua, onde se apresenta sem microfones no meio do povo: seu suingue é irresistível, atraindo cada vez maior legião de fãs. Como os componentes do Gorillaz, que convidaram o Hypnotic para tocar em seu último disco e em sua próxima excursão. O repertório inclui versões para Fela Kuti, Outkast, Jay-Z e até Art of Noise.

Buraka Som Sistema é um coletivo luso-angolano que levou o kuduro, música eletrônica criada nas favelas de Luanda, para os mais influentes festivais do mundo e para fusões com house, dubstep e funk carioca, tendo gravado inclusive um grande sucesso com a nossa Deise Tigrona. O Nortec Collective reúne vários artistas baseados em Tijuana, na problemática fronteira México/EUA. A visão de mundo fronteiriça, inclusive a política de repressão/incentivo à imigração ilegal, influencia sua música, um cruzamento alucinado da eletrônica com o folclórico. O resultado muitas vezes parece um Kraftwerk de sombrero, embriagado pela dose certa de margaritas.

Não sei se a banda gosta desta comparação, mas é boa para atrair público: o Nova Lima está para a música afroperuana assim como o Bajofondo ou o Gotan Project estão para o tango. A combinação de pop e eletrônica com o tradicional é feita com elegância, sem perder a potência dançante jamais.  As Tucanas são mulheres que, em Portugal, misturam tradições musicais de todo mundo lusófono criando novos instrumentos de percussão e batucando também em seus próprios corpos. A Kocani Orkestar faz a festa misturando tradições ciganas e dos Balcãs.

Fui diminuindo os comentários sobre cada atração pois já estou na fronteira do espaço desta coluna. Não se trata de preferência. E ainda nem falei dos convidados brasileiros e dos apresentadores. A complexa fusão big-band-no-candomblé da Orkestra Rumpilezz, as novas big bands paulistanas reunidas no Movimento Elefantes, o pós-samba-duro-rap do EdCity, o carnaval indie do Bloco Cru: todos eles merecem colunas inteiras para comentar seus trabalhos. E os apresentadores são os bateristas Charles Gavin, João Barone e Igor Cavalera. Este último leva seu MixHell para a festa do Caneção.

O festival quer ser o MixCéu.  Bom rebolado, em todos os ritmos!


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