Archive for the ‘quadrinhos’ Category

A Bolha

08/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/02/2014

No último dia de novembro do ano passado, Ronaldo Bressane publicou, no Guia Folha, microresenha de “Forming”, novela gráfica de Jesse Moynihan. Descrição: “uma épica e absurda batalha entre deuses alienígenas, titãs gregos, androides interplanetários e até mesmo humanos.” Nem falou em metafísica dogon, mas não precisava. Suas palavras foram suficientes para ter início minha batalha em busca desse estranho objeto. Passei em várias queridas livrarias e não havia nada sobre o lançamento nos registros. Fui parar no site de sua editora carioca (mais precisamente: de Santo Cristo, do teto da Bhering), A Bolha. Não tenho nada a ver com a doença do “eu vi primeiro”, identificada por outro Ronaldo, o Lemos. Então posso confessar: não sabia de sua existência. Fiquei horas conferindo o catálogo. Só nomes que desconhecia. Isto é o que mais gosto na vida: o súbito descortinar de diverso e vasto novo universo.

Escrevi para o contato da editora, perguntando onde poderia comprar “Forming” e os outros livros. Rapidinho recebi resposta. Reconheci a assinatura: era Rachel Gontijo Araujo, a editora pessoa física que agora – depois que Stephanie Sauer, artista plástica e a outra metade fundadora d’A Bolha, voltou para os EUA – virou toda a editora, cuidando – sem outros funcionários – de cada etapa de produção/comercialização, da primeira conversa com autores à correspondência com a clientela. Comprovei imediatamente tudo que havia lido em suas entrevistas disponíveis no site. Não era marketing indie, era a realidade cotidiana da empresa.

Rachel me falou da dificuldade das relações entre pequenas editoras e grandes livrarias. Por isso eu não encontrei “Forming” em lugar nenhum (honrosa exceção: todos os livros d’A Bolha podem ser encontrados, descobri depois, na Blooks, livraria que sempre deu força para quadrinhos independentes). Não repito sua explicação para transformar as lojas em vilãs, mas para sugerir diálogo que fortaleça a “ecologia livreira” nacional, que vai precisar cada vez mais de independentes para satisfazer nichos vorazes (o futuro do mercado?) de leitores (é decepcionante entrar em ambiente gigantesco, como o da Cultura da Cinelândia, e não encontrar muito além do que espaços bem menores já vendem). Rachel, sem ressentimento algum, faz o diagnóstico citando condições comuns das “grandes”: pedidos de descontos de 50% no preço de capa; preferência por consignação e não por compra de exemplares; pagamento de fretes pelas “pequenas”. Em resumo: “para uma editora independente, esse relacionamento não faz muito sentido.”

Pena. Grande parte dos compradores de livros acaba não tendo acesso ao catálogo incrível já lançado por essa valente empresa do Santo Cristo. Isto é o mais importante para ser destacado: Rachel (antes em conjunto com Stephanie) faz o trabalho de uma verdadeira casa das letras: criação de linha editorial com grande personalidade. Não segue o jogo dos poderosos agentes literários internacionais nas grandes feiras de livro, não está preocupada com relançar por aqui o que ganha os principais prêmios lá fora. Nada contra os best-sellers, nada contra os prêmios, nada contra as feiras. Mas alguém precisa publicar apenas o que ama ler, olhando para outros lados, fazendo outras descobertas, para formar novos públicos com novos olhares, capazes de produzir outras novidades.

Só por causa d’A Bolha fui conhecer Jesse Moynihan (e a apresentação se deu em grande estilo: capa dura, impressão belga – o independente não significa falta de cuidado ou de luxo, mas mesmo assim consegue ser mais barato que outras edições do mesmo nível). Só depois fui parar no seu blog, onde lançou cada página de “Forming” em diferentes posts, com acompanhamento do público nos comentários. Isso é prova que publicar antes e de graça na internet não é barreira para vender papel em seguida. Por exemplo: eu já li “Forming 2” no blog, mas vou comprar sua edição em livro assim que A Bolha lançar (o livro inglês deve sair agora em março). Recomendo também a parceria de Moynihan com Dash Shaw (o autor de “Umbigo sem fundo”, lançado pela Quadrinhos na Cia.) na revista The Believer. Ou “Adventure time”, desenho animado escrito por Moynihan, exibido no Cartoon Network.

Isso aconteceu com os outros livros d’A Bolha. Depois da leitura ia procurar mais na internet, e tudo virava outra grande aventura. Como eu era ignorante sem conhecer CF, autor do excelente Powr Mastrs (A Bolha já lançou dois de seus volumes), talvez o “Incal” de nossos dias (se não concorresse com “Forming”…), certamente mais misticamente delirante que Rudy Rucker ou Philip K. Dick. E assim vai, até chegar na tradução/publicação de Hilda Hilst em inglês, parceria A Bolha/Nightboat. Conexões diretas estourando várias bolhas editoriais do mundo.

***

Eduardo Coutinho: precisamos ver logo seu próximo filme, “Palavra”. E fazer mais e melhores documentários, para honrar seu legado. Para recomeçar é obrigatória a leitura deste texto de Carlos Nader.

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CLAUN

27/04/2013

versão ampliada do texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/04/2013

Você só tem menos de 120 horas para ver o filme-piloto do “projeto CLAUN” na internet. Dia 30 sai do ar, e será preciso esperar por alguma exibição provavelmente em festival ou sala de cinema “de arte”. Então aproveite: os três capítulos de “Os dias aventurosos de Ayana” estão em cartaz, com qualidade HD “cortesia” do Vimeo, na página www.claun.com.br. Tudo ali me parece boa novidade, embalada no estilo pós-udigrudi-com-tempero-thai-ou-filipino já característico do diretor Felipe Bragança. (Estou zoando! Como diz a letra de um funk que aparece na trilha sonora do filme: “a vida foi feita para cantar e zoar”.) A estratégia de lançamento, primeiro na rede, é digna de ousadia mais fundamental: os clowns, ou clóvis, ou bate-bolas – figuras fascinantes do carnaval carioca – recebem finalmente tratamento de super-heróis. Meteorango-kids sofrem mutações em x-men justiceiros suburbanos. Como ninguém pensou nisso antes?

Para ser exato: o filme teve sua estreia em janeiro no Festival de Rotterdam. Depois houve sessão na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna. Sei de tudo isso pois acompanho seu desenvolvimento desde 2011 quando recebi email do Felipe (já posso tratá-lo assim, com intimidade, mesmo que nosso contato até agora tenha sido apenas virtual) cujo assunto era “conversa filme mascarados”. Porém, nunca se tratou somente da produção de um filme. Como está escrito na sua página da internet: “O projeto CLAUN pretende desenvolver a web-série, uma graphic novel e uma reunião de documentos sobre a cultura e a mitologia dos mascarados. Sete turmas reais de bate-bolas colaboraram na criação dos primeiros três capítulos-piloto aqui reunidos.”

Então o termo piloto é apropriado: início de uma longa, misteriosa e militante aventura. Na troca de emails, Felipe me contou que tem dez roteiros já escritos para a web-série e que em breve, com bolsa que ganhou para uma temporada em Berlim, desenvolverá a história em quadrinhos mesmo ainda sem editora. Essa novelização-gráfica do CLAUN é algo que aguardo com ansiedade. Sempre me interessou a maneira voraz com que os bate-bolas se apropriam do imaginário pop. Recentemente vi turma enorme que bordou personagens de jogos eletrônicos em seus mantos. Vou gostar de ver essa visualidade carioca transposta para o mundo HQ (vasto mundo: Felipe desde o início fala da vontade de absorver a linguagem japonesa dos animês e mangás) e depois sua volta para as ruas.

CLAUN já lançou outros subprodutos. Felipe, um pouco antes de me mandar aquele primeiro email sobre os mascarados, publicou no caderno Prosa, deste jornal, artigo intitulado “Meu último texto de cinema”. Ainda bem que não parou de escrever, pois é um dos observadores mais argutos (mesmo quando não concordo com ele) da cena cultural brasileira contemporânea. Recomendo enfaticamente a leitura, entre um capítulo e outro de “Os dias aventurosos de Ayana”, de “Eu, bate-bola”, texto que Felipe publicou no site Overmundo e que é um dos melhores ensaios culturais deste ano.

Felipe entrou de corpo e alma na realidade dos mascarados. O cineasta virou nativo e passou o carnaval 2013 batendo bolas nas ruas da cidade, enfrentando mesmo a violência policial que tenta tirar os bandos de clóvis das ruas. Seu artigo do Overmundo é uma reflexão sobre essa sua experiência particular/coletiva. Tudo fica com pingos em todos os is: “O glitter usado para fazer brilhar os tecidos […] é só a última camada de uma cultura toda feita de camadas, de uma cultura de confusão, sobreposições e colagens. Não há pureza em ser um bate-bola”.

Esse elogio da impureza envereda por territórios mais perigosos ao longo do texto e do filme-piloto, que defendem lado do Rio que nenhum choque de ordem vai conseguir domesticar. Há um trecho especialmente eloquente a esse respeito: “nós, os bate-bolas e clóvis representamos também o engano, o erro, o ruído, os Exus, os sacis, Loki, a batalha simbólica do homem com o imponderável, o inusitado e o que nos tira do repouso e do conforto e do planejado. As bombinhas estouradas nas ruas, a batida forte das bolas de plástico no chão quando passam correndo no meio da multidão, o mistério das máscaras e das sombrinhas que caminham em linhas projetadas como uma tropa de deuses entre foliões perdidos na festa – tudo ali fala também dos espíritos, do invisível e do imponderável – nos lembram dessa silenciosa certeza de estarmos ali para celebrar a vida. As potências da vida.”

Essa batalha carioca, Felipe vem travando há tempos. Seu texto “Monstruosidade maravilhosa”, publicado também aqui no jornal em 2011, é a defesa dos “monstros” da cidade (e para ele filmes também são monstros). Pensamento sintetizado em comentário sobre o curta que fez na Aldeia Maracanã, lançado no ano passado: “O que me interessa ali é a cidade mágica daqueles que se sustentam pelas brechas da cidade real. Nela vivem heróis corajosos e melancólicos que constroem identidades próprias e novas formas de organização social e poética para se manterem persistindo, sem se conformar com os planos meramente lógicos da eficiência urbana.”

Mandei para Felipe cópia de textos que escrevi depois de viajar pelo Brasil documentando brincadeiras chamadas de folclóricas. Nelas sempre encontramos palhaços, mateus, arlequins, caretas que são elementos ambíguos, ninguém sabe se do Bem ou do Mal. Mas sem essa incerteza não há festa. Como me disse um palhaço de guerreiro alagoano: “A barreira da frente é a gente. Porque se não tiver a nação de palhaço, a brincadeira fica parada. Se não for com as nossas figuras, ninguém fica animado. Nós somos a alegria. Por isso a brincadeira tem toda essa repartição de animação.”

zoom back camera 2!

20/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/04/2013

Alejandro Jodorowsky – estrela desta coluna desde a semana passada – foi apresentado para o público nova-iorquino por Lennon e Yoko. O casal da Plastic Ono Band, no final da exibição de seus curtas, convidou a plateia para ficar no Elgin Theatre e assistir a “El Topo”. Estavam presentes vários “formadores de opinião” da cidade, que ainda era o centro do mundo. Resultado: o sucesso foi tão grande que esse estranho filme de cowboy ficou em cartaz por um ano, inaugurando um novo gênero/horário, os Midnight Movies.

Era programa obrigatório. Andy Warhol adorava a cena do beijo entre duas mulheres. Peter Gabriel concebeu o show de “The lamb lies down on Broadway”, disco lançado quando era cantor do Genesis, sob a influência de “El topo”. Sergio Leone procurou Jodorowsky para obter informações sobre como conseguiu realizar aquelas cenas sem gruas. Carlos Castaneda propôs versão cinematográfica de suas aventuras com Don Juan, mas a conversa foi interrompida com o autor de “A erva do Diabo” saindo apressado alegando súbita diarreia (segundo Jodorowsky, ele fugiu com atriz de “A montanha sagrada”). Tudo gente fina. Todos inventores do espírito daquele tempo desbundado.

John Lennon também apresentou Jodorowsky para Allen Klein, que comprou os direitos de “El Topo” e conseguiu dinheiro para “A montanha sagrada”. Klein é figura fascinante e polêmica. Foi mais ou menos empresário do Sam Cooke, dos Rolling Stones, dos Beatles. Tomava conta da aplicação do dinheiro dos componentes dos Beatles quando eles se separaram. Foi quem mandou o roteiro de “A montanha mágica” para George Harrison, que quase aceitou ser o protagonista desse filme. Depois do lançamento em Cannes, continuava empolgado. Queria ganhar muito dinheiro com Jodorowsky entrando no filão de filmes quase ou pós-pornôs como “A garganta profunda”. O diretor parece que desapareceu com o adiantamento. Klein tirou “El Topo” e “A montanha sagrada” de circulação por mais de três décadas.

Jodorowsky é Polyanna num nível punk ou dionisíaco, não se deixa abalar por nenhum problema. Contra Freud ou mesmo Buda, ele afirma o tempo todo a maravilha de ter nascido. São suas palavras: “Não existe iluminação. Somos todos iluminados. Estamos vivos.” Como Caetano, ele se diz adolescente. E completa sua autodefinição: “Não sou místico, não sou artista. Sou alguém que joga jogos. Um apostador.” Detalhe importante: apostador que aposta alto, e queima rios de dinheiro com lances sempre surpreendentes.

Nasceu no Chile. Chegando na França de madrugada numa estação de trem a primeira coisa que fez foi ligar para André Breton. “Vim salvar o surrealismo.” Queria encontrá-lo imediatamente, mas Breton sugeriu a manhã seguinte. Jodorowsky ficou indignado com o adiamento, e foi procurar outra turma. Trabalhou com Marcel Marceau. E depois com Fernando Arrabal, com quem montou uma série de espetáculos chamados “Evento pânico” (em homenagem ao deus Pã), obrigatórios na Paris dos anos 1960 como foram as exibições de “El topo” na Nova York dos anos 1970 (ou como foi a apresentação de “O boi no telhado” na Paris dos anos 1920 – ver o livro de Manoel Aranha Corrêa do Lago, já elogiado aqui neste cantinho por José Miguel Wisnik). Muitos desses acontecimentos estão descritos em “A dança da realidade”, autobiografia de Jodorowsky lançada no Brasil pela editora Devir.

Banido por Allen Klein, Jodorowsky aproveitou para tocar com Moebius, sumidade da ilustração de novelas gráficas, seu projeto mais querido: um filme baseado em “Duna”, ficção científica de Frank Herbert. A Documenta de Kassel publicou no ano passado um caderno de Jodorowsky que traz a palavra Duna na capa, com estudo sobre o tarot como conteúdo, mas há material abundante – em muitos outros cadernos – com desenhos de todas a cenas que nunca sairam do papel. Tanto esforço para nada poderia ser encarado como grande derrota por outros criadores. Para Jodorowsky e Moebius foi incentivo para aquela que é talvez a obra prima da carreira dos dois: a publicação de “Incal”, que em 2012 ganhou edição integral no Brasil (reunindo os três volumes lançados separados anteriormente). É uma história de Tudo, uma explicação para Tudo.

Moebius, no documentário “A constelação Jodorowsky”, diz que o cérebro de seu parceiro de “Incal”, funciona como 3.000 computadores loucos. Uma das vítimas de sua loucura sagrada (para Jodorowsky as máquinas são sagradas) foi Louis Mouchet, diretor desse documentário, que teve que sair de trás das câmeras para virar o centro de uma sessão de psicomagia. Novamente o encantamento às avessas: “zoom back camera.” Para Jodorowsky a realidade dançante é sempre o melhor de Tudo.

Guy Delisle

30/03/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29/03/2013

Guy Delisle ocupa há tempos o topo da lista de artistas sobre os quais preciso escrever nesta coluna. Estava esperando a tradução brasileira de “Crônicas de Jerusalém”. Depois de vários meses anunciada para breve pela Zarabatana Books, ela finalmente pode ser encontrada em nossas livrarias (boa leitura para a Semana Santa). O lançamento aconteceu quase que simultaneamente à viagem de Obama pelo Oriente Médio. Em seu discurso “para o povo de Israel”, em Jerusalém, o presidente dos EUA, referindo-se aos palestinos, falou como professor de antropologia: “Coloquem-se no lugar deles. Vejam o mundo com os olhos deles.” Eu amplio o conselho, não só para judeus e árabes: “Vejam o mundo também com os olhos de Guy Delisle.”

Os olhos de Delisle enxergam e nos mostram o mundo através de histórias em quadrinhos. Não querem nos revelar a Verdade sobre o mundo, mas tentam – através de descrições densas e muitas vezes poéticas – mapear o jogo de verdades entre diferentes experiências humanas. Mais importante: os olhos (o ponto de vista do autor, a maneira peculiar com a qual se insere no mundo retratado) estão visíveis, nunca se escondem por trás de narrativa “objetiva”. Delisle está sempre ali, nunca tentando se passar por nativo, ou por observador sem preconceitos. Tudo é narrado/desenhado em primeiríssima pessoa. Por isso, aprendemos tanto e podemos formar nosso próprio olhar para aquela realidade.

Não conhecemos apenas Jerusalém, mas igualmente Delisle em Jerusalém. É assim na melhor antropologia: Bronislaw Malinowski nas Ilhas Trobriand, Clifford Geertz na briga de galos em Bali. A objetividade científica – se pode existir, se é interessante que exista – é efeito dessa relação entre diferenças. Não dá para ser de outra maneira: então, o importante é apresentar todos os detalhes. Delisle viveu em Jerusalém, por um ano, acompanhando sua mulher que faz parte da organização “Médicos sem fronteiras”, e cuidando de seus dois filhos, crianças. “Crônicas de Jerusalém”, de certa forma, é também a etnografia dessa nova tribo planetária formada por cada vez mais gente que trabalha em ONGs internacionais e órgãos da ONU – pessoas de todas as nacionalidades, mas que estão criando rica cultura comum.

Muitos dos grandes momentos do livro se passam em festas e encontros desses expatriados, com trocas de dicas sobre as melhores maneiras para lidar com os problemas cotidianos de sua nova terra temporária. E que terra: um labirinto formado por muros e checkpoints, com muitos projetos políticos e religiões em conflitos armados (e onde ver gente armada na rua é mais comum do que em favela carioca pré-UPP).

Viajar com a família – tendo que lidar com creches, feriados escolares e babás locais – fez bem a Delisle. Suas primeiras histórias viajantes em quadrinhos, sobre Pyongyang, na Coréia do Norte, e Shenzhen, na China, foram resultados de experiências solitárias, quando era contratado por estúdios de animação para coordenar equipes de desenhistas locais. Seu olhar era mais impaciente, irritado. Delisle nasceu em Quebec, estudou perto de Toronto, mas começou a trabalhar em Montreal. Não sei direito se os canadenses de língua materna francesa bufam como os parisienses, mas nesses livros – mesmo com um evidente olhar carinhoso para detalhes que só observadores de muita boa vontade percebem, como a latinha de bala Ricola que o caixa do banco chinês usa para guardar os trocados (e foi isso que me transformou em leitor assíduo de sua obra) – há um mau-humor típico de quem não consegue viver muito tempo longe do rio Sena. O que gera observações engraçadas. Por exemplo, no hotel: “Pela manhã, quando a funcionária do andar me vê saindo do quarto, ela corre para chamar o elevador para mim. Só é preciso apertar o botão uma vez… mas ela continua a apertar sem parar, até que o elevador chegue.” Com os desenhos, isso fica hilário.

O primeiro livro com a família foi “Crônicas birmanesas”. Sua atitude é mais relaxada. A companhia de crianças faz até com que vizinhos tenham comportamentos mais amistosos na rua, e a vida em casas, não em hotéis, cria possibilidade de maior imersão na cultura local, mesmo com a reclamação frequente sobre o calor dos trópicos (ou sobre as baratas e os copos mal lavados no avião da Myanmar Airways – afinal toda tolerância cultural tem limite).

“Crônicas de Jerusalém” é o melhor livro de Delisle. Não foi à toa que ganhou o principal prêmio do festival de Angoulême 2012, uma espécie de Oscar dos quadrinhos. Nenhum outro livro ou documentário me fez compreender melhor, com doçura e crítica, os problemas atuais daquele local tão importante para a história e o futuro do mundo.

vazio

16/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/02/2013

Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Sei que este meu otimismo desvaloriza meu passe. É mais chique falar mal de tudo. A maledicência nos garante aplausos calorosos em palestras. Atrai igualmente muitos seguidores no Twitter. Viramos heróis por causa de nossas opiniões do contra. Natural que assim seja: Lucien Jephargnon, historiador que já foi tema de uma coluna inteira por aqui, publicou um livro delicioso chamado “Era melhor antes”. Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal.

No século primeiro, Petrônio, autor de “Satyricon”, escreveu sem humor nenhum: “Fica pior a cada dia… Ninguém mais acredita que o céu é céu”. Plínio o Jovem não gostava dos jovens de seu tempo: “eles não respeitam ninguém, não imitam ninguém; são os modelos deles mesmos”. O poeta Juvenal afirmava que o problema vinha de longe: mesmo no tempo de Homero a raça humana já era decadente e “a terra só alimenta hoje homens perversos e atrofiados.” Temos sorte de estarmos vivos vinte e um séculos depois…

Vivos mas vazios? Penso que o vazio tem sido menosprezado nessas lamentações. Os budistas propõem conceito precioso para sairmos bem desse niilismo paralisante: Shunyata – quer dizer vazio, mas também interdependência e abertura. Como fala o monge coreano Misan (que descobri por causa de “Gangnam style”): “o mundo vazio que inclui tudo”. Tudo conectado. Talvez aí resida a chave para compreender a distância entre o modo como percebo o que há de importante na dinâmica cultural contemporânea e aquele que denuncia nossa perdição. Contra o “era melhor antes”, digo que não é melhor agora: é diferente; as coisas estão mais abertas e interdependentes. No lugar do regime da escassez que produz gênios, temos um regime de criatividade distribuída em rede, e o processo criativo é mais aberto, à procura de obras abertas, permanentemente inacabadas.

Por isso não é útil tentar convencer os apóstolos do vazio “não budista” de que não estamos tão decadentes assim, apresentando exemplos de vigor nas artes de agora. Não vou convencê-los: Tom Jobim ou Guimarães Rosa vão ser sempre “melhores” do que meus interesses atuais, até porque são produtos de um mundo onde fazia sentido ser “melhor” assim, quando todos os olhares/julgamentos podiam apontar para a mesma direção. No mundo pós-internet, tudo está junto e misturado: a retromania (todo o passado cultural a um clique), a xenomania (toda a diversidade cultural a um clique), a facilidade de produção (todo smartphone vai se tornar rapidinho estúdio cinematográfico, além de distribuidora).

Não estou dizendo que obras geniais não existam. Por exemplo (correndo o risco de fazer o que eu disse que é inútil): tenho certeza que “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá é um dos grandes momentos da criação nacional, em qualquer gênero – e demonstra claramente a maturidade das histórias em quadrinhos brasileiras, com muito mais gente desenvolvendo trabalhos originais e reconhecidos mundialmente. Porém, seu público é bem específico, e mesmo que estabeleça seu cânone particular, dificilmente vai adquirir status de conhecimento/reconhecimento geral. Não por falta de qualidade, é claro.

Pensei nisso ao abrir link que Ronaldo Lemos (ele deveria ser coautor desta coluna) me mandou para a lista de 100 melhores discos brasileiros de 2012, seleção do Rockinpress (que se diz “a página bege da música brasileira”): nunca nem tinha ouvido falar de metade dos artistas listados. Digo isso envergonhado, plenamente consciente da seriedade do trabalho de quem fez a escolha dos “melhores”, todos nas minhas bookmarks para tentar escutar suas músicas depois, um depois que talvez nunca chegue.

É a mesma sensação que tenho ao abrir a página do Carlito Azevedo no caderno Prosa deste jornal. Fico alegre só de saber que há tanta gente nova escrevendo poesia com tanta qualidade (e intuo o debate crítico que torna possível essa produção). Anoto nomes para ler mais, quando der. Não fico angustiado com tanta oferta. É assim mesmo. Êta vazio gostoso!


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