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CLAUN

27/04/2013

versão ampliada do texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/04/2013

Você só tem menos de 120 horas para ver o filme-piloto do “projeto CLAUN” na internet. Dia 30 sai do ar, e será preciso esperar por alguma exibição provavelmente em festival ou sala de cinema “de arte”. Então aproveite: os três capítulos de “Os dias aventurosos de Ayana” estão em cartaz, com qualidade HD “cortesia” do Vimeo, na página www.claun.com.br. Tudo ali me parece boa novidade, embalada no estilo pós-udigrudi-com-tempero-thai-ou-filipino já característico do diretor Felipe Bragança. (Estou zoando! Como diz a letra de um funk que aparece na trilha sonora do filme: “a vida foi feita para cantar e zoar”.) A estratégia de lançamento, primeiro na rede, é digna de ousadia mais fundamental: os clowns, ou clóvis, ou bate-bolas – figuras fascinantes do carnaval carioca – recebem finalmente tratamento de super-heróis. Meteorango-kids sofrem mutações em x-men justiceiros suburbanos. Como ninguém pensou nisso antes?

Para ser exato: o filme teve sua estreia em janeiro no Festival de Rotterdam. Depois houve sessão na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna. Sei de tudo isso pois acompanho seu desenvolvimento desde 2011 quando recebi email do Felipe (já posso tratá-lo assim, com intimidade, mesmo que nosso contato até agora tenha sido apenas virtual) cujo assunto era “conversa filme mascarados”. Porém, nunca se tratou somente da produção de um filme. Como está escrito na sua página da internet: “O projeto CLAUN pretende desenvolver a web-série, uma graphic novel e uma reunião de documentos sobre a cultura e a mitologia dos mascarados. Sete turmas reais de bate-bolas colaboraram na criação dos primeiros três capítulos-piloto aqui reunidos.”

Então o termo piloto é apropriado: início de uma longa, misteriosa e militante aventura. Na troca de emails, Felipe me contou que tem dez roteiros já escritos para a web-série e que em breve, com bolsa que ganhou para uma temporada em Berlim, desenvolverá a história em quadrinhos mesmo ainda sem editora. Essa novelização-gráfica do CLAUN é algo que aguardo com ansiedade. Sempre me interessou a maneira voraz com que os bate-bolas se apropriam do imaginário pop. Recentemente vi turma enorme que bordou personagens de jogos eletrônicos em seus mantos. Vou gostar de ver essa visualidade carioca transposta para o mundo HQ (vasto mundo: Felipe desde o início fala da vontade de absorver a linguagem japonesa dos animês e mangás) e depois sua volta para as ruas.

CLAUN já lançou outros subprodutos. Felipe, um pouco antes de me mandar aquele primeiro email sobre os mascarados, publicou no caderno Prosa, deste jornal, artigo intitulado “Meu último texto de cinema”. Ainda bem que não parou de escrever, pois é um dos observadores mais argutos (mesmo quando não concordo com ele) da cena cultural brasileira contemporânea. Recomendo enfaticamente a leitura, entre um capítulo e outro de “Os dias aventurosos de Ayana”, de “Eu, bate-bola”, texto que Felipe publicou no site Overmundo e que é um dos melhores ensaios culturais deste ano.

Felipe entrou de corpo e alma na realidade dos mascarados. O cineasta virou nativo e passou o carnaval 2013 batendo bolas nas ruas da cidade, enfrentando mesmo a violência policial que tenta tirar os bandos de clóvis das ruas. Seu artigo do Overmundo é uma reflexão sobre essa sua experiência particular/coletiva. Tudo fica com pingos em todos os is: “O glitter usado para fazer brilhar os tecidos […] é só a última camada de uma cultura toda feita de camadas, de uma cultura de confusão, sobreposições e colagens. Não há pureza em ser um bate-bola”.

Esse elogio da impureza envereda por territórios mais perigosos ao longo do texto e do filme-piloto, que defendem lado do Rio que nenhum choque de ordem vai conseguir domesticar. Há um trecho especialmente eloquente a esse respeito: “nós, os bate-bolas e clóvis representamos também o engano, o erro, o ruído, os Exus, os sacis, Loki, a batalha simbólica do homem com o imponderável, o inusitado e o que nos tira do repouso e do conforto e do planejado. As bombinhas estouradas nas ruas, a batida forte das bolas de plástico no chão quando passam correndo no meio da multidão, o mistério das máscaras e das sombrinhas que caminham em linhas projetadas como uma tropa de deuses entre foliões perdidos na festa – tudo ali fala também dos espíritos, do invisível e do imponderável – nos lembram dessa silenciosa certeza de estarmos ali para celebrar a vida. As potências da vida.”

Essa batalha carioca, Felipe vem travando há tempos. Seu texto “Monstruosidade maravilhosa”, publicado também aqui no jornal em 2011, é a defesa dos “monstros” da cidade (e para ele filmes também são monstros). Pensamento sintetizado em comentário sobre o curta que fez na Aldeia Maracanã, lançado no ano passado: “O que me interessa ali é a cidade mágica daqueles que se sustentam pelas brechas da cidade real. Nela vivem heróis corajosos e melancólicos que constroem identidades próprias e novas formas de organização social e poética para se manterem persistindo, sem se conformar com os planos meramente lógicos da eficiência urbana.”

Mandei para Felipe cópia de textos que escrevi depois de viajar pelo Brasil documentando brincadeiras chamadas de folclóricas. Nelas sempre encontramos palhaços, mateus, arlequins, caretas que são elementos ambíguos, ninguém sabe se do Bem ou do Mal. Mas sem essa incerteza não há festa. Como me disse um palhaço de guerreiro alagoano: “A barreira da frente é a gente. Porque se não tiver a nação de palhaço, a brincadeira fica parada. Se não for com as nossas figuras, ninguém fica animado. Nós somos a alegria. Por isso a brincadeira tem toda essa repartição de animação.”

zoom back camera 2!

20/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/04/2013

Alejandro Jodorowsky – estrela desta coluna desde a semana passada – foi apresentado para o público nova-iorquino por Lennon e Yoko. O casal da Plastic Ono Band, no final da exibição de seus curtas, convidou a plateia para ficar no Elgin Theatre e assistir a “El Topo”. Estavam presentes vários “formadores de opinião” da cidade, que ainda era o centro do mundo. Resultado: o sucesso foi tão grande que esse estranho filme de cowboy ficou em cartaz por um ano, inaugurando um novo gênero/horário, os Midnight Movies.

Era programa obrigatório. Andy Warhol adorava a cena do beijo entre duas mulheres. Peter Gabriel concebeu o show de “The lamb lies down on Broadway”, disco lançado quando era cantor do Genesis, sob a influência de “El topo”. Sergio Leone procurou Jodorowsky para obter informações sobre como conseguiu realizar aquelas cenas sem gruas. Carlos Castaneda propôs versão cinematográfica de suas aventuras com Don Juan, mas a conversa foi interrompida com o autor de “A erva do Diabo” saindo apressado alegando súbita diarreia (segundo Jodorowsky, ele fugiu com atriz de “A montanha sagrada”). Tudo gente fina. Todos inventores do espírito daquele tempo desbundado.

John Lennon também apresentou Jodorowsky para Allen Klein, que comprou os direitos de “El Topo” e conseguiu dinheiro para “A montanha sagrada”. Klein é figura fascinante e polêmica. Foi mais ou menos empresário do Sam Cooke, dos Rolling Stones, dos Beatles. Tomava conta da aplicação do dinheiro dos componentes dos Beatles quando eles se separaram. Foi quem mandou o roteiro de “A montanha mágica” para George Harrison, que quase aceitou ser o protagonista desse filme. Depois do lançamento em Cannes, continuava empolgado. Queria ganhar muito dinheiro com Jodorowsky entrando no filão de filmes quase ou pós-pornôs como “A garganta profunda”. O diretor parece que desapareceu com o adiantamento. Klein tirou “El Topo” e “A montanha sagrada” de circulação por mais de três décadas.

Jodorowsky é Polyanna num nível punk ou dionisíaco, não se deixa abalar por nenhum problema. Contra Freud ou mesmo Buda, ele afirma o tempo todo a maravilha de ter nascido. São suas palavras: “Não existe iluminação. Somos todos iluminados. Estamos vivos.” Como Caetano, ele se diz adolescente. E completa sua autodefinição: “Não sou místico, não sou artista. Sou alguém que joga jogos. Um apostador.” Detalhe importante: apostador que aposta alto, e queima rios de dinheiro com lances sempre surpreendentes.

Nasceu no Chile. Chegando na França de madrugada numa estação de trem a primeira coisa que fez foi ligar para André Breton. “Vim salvar o surrealismo.” Queria encontrá-lo imediatamente, mas Breton sugeriu a manhã seguinte. Jodorowsky ficou indignado com o adiamento, e foi procurar outra turma. Trabalhou com Marcel Marceau. E depois com Fernando Arrabal, com quem montou uma série de espetáculos chamados “Evento pânico” (em homenagem ao deus Pã), obrigatórios na Paris dos anos 1960 como foram as exibições de “El topo” na Nova York dos anos 1970 (ou como foi a apresentação de “O boi no telhado” na Paris dos anos 1920 – ver o livro de Manoel Aranha Corrêa do Lago, já elogiado aqui neste cantinho por José Miguel Wisnik). Muitos desses acontecimentos estão descritos em “A dança da realidade”, autobiografia de Jodorowsky lançada no Brasil pela editora Devir.

Banido por Allen Klein, Jodorowsky aproveitou para tocar com Moebius, sumidade da ilustração de novelas gráficas, seu projeto mais querido: um filme baseado em “Duna”, ficção científica de Frank Herbert. A Documenta de Kassel publicou no ano passado um caderno de Jodorowsky que traz a palavra Duna na capa, com estudo sobre o tarot como conteúdo, mas há material abundante – em muitos outros cadernos – com desenhos de todas a cenas que nunca sairam do papel. Tanto esforço para nada poderia ser encarado como grande derrota por outros criadores. Para Jodorowsky e Moebius foi incentivo para aquela que é talvez a obra prima da carreira dos dois: a publicação de “Incal”, que em 2012 ganhou edição integral no Brasil (reunindo os três volumes lançados separados anteriormente). É uma história de Tudo, uma explicação para Tudo.

Moebius, no documentário “A constelação Jodorowsky”, diz que o cérebro de seu parceiro de “Incal”, funciona como 3.000 computadores loucos. Uma das vítimas de sua loucura sagrada (para Jodorowsky as máquinas são sagradas) foi Louis Mouchet, diretor desse documentário, que teve que sair de trás das câmeras para virar o centro de uma sessão de psicomagia. Novamente o encantamento às avessas: “zoom back camera.” Para Jodorowsky a realidade dançante é sempre o melhor de Tudo.

zoom back camera!

13/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/04/2013

Desculpa a explicação talvez desnecessária, mas levo em consideração o fato de haver muita gente que chegou agora de outra galáxia: doodle é aquele enfeite com que o Google comemora data importante. O critério para escolha do que vai ser homenageado é tão misterioso quanto o algoritmo que torna eficiente sua ferramenta de busca. São raros os aniversários “redondos”. Este ano houve doodles celebrando os 119 e 146 anos dos nascimentos de, respectivamente, Victor Brecheret e Rubén Darío. Meu preferido de 2013 foi o que lembrava as 64 primaveras do recorde de pulo a cavalo de Alberto Larreguibel. Tento copiar o Google nesta coluna. Mas não sou tão livre. Prefiro datas com pelo menos um zero. Na semana passada escrevi sobre os 90 anos de Harry Smith. Hoje canto parabéns para os 40 anos de “A montanha sagrada” de Alejandro Jodorowsky.

Na verdade, poderia ser o quinto aniversário, pois seu produtor, brigado com o diretor, proibiu a exibição do filme por quase 35 anos. Isso só aumentou o fascínio que cerca a obra de Jodorowsky. Durante toda minha juventude ouvi falar maravilhas de “A montanha sagrada”, mas só consegui vê-lo quando me transformei no feliz proprietário da caixa de DVDs lançada em 2007 pela ABKCO Films nos EUA. Sei que há DVDs brasileiros lançados pela Silver Screen Collection. Não tenho certeza se incluem os comentários em áudio do diretor que são a principal fonte para o que vou escrever por aqui.

Quando aparecem as primeiras imagens de “A montanha sagrada”, Jodorowsky comenta: “filmei em outra vida”. Realmente, não é só outra vida do diretor, mas outra vida do mundo, que agora parece envergonhado quando se lembra do “desbunde” dos anos 1970, e tenta desqualificar tudo o que aconteceu por ali como ingenuidade. Hoje, somos irônicos demais para não ridicularizar alguém que diz algo como: “queria mudar a humanidade com meus filmes”; ou “acreditava que o cinema era melhor que LSD”. Comentando “El topo”, seu filme anterior, Jodorowsky lança pergunta que denuncia plenamente sua pretensão: “Por que no cinema não haveria algo tão importante quanto um texto sagrado?” Emenda: seu desejo é criar poderosa “aspirina metafísica”. Nestas últimas quatro décadas, fomos doutrinados a querer infinitamente menos da arte (quando muito achamos que ela pode melhorar a vida de alguns garotos da periferia, “se forem salvos do funk”).

Seria impossível, em 2013, alguém levar a sério um roteiro como o de “A montanha sagrada” a ponto de captar centenas de milhares de dólares para sua realização. No entanto, na “outra vida” imersa na fumaça de incensos hippies, até George Harrison queria atuar como o protagonista, que era inspirado no Louco do Tarot. Sua única condição: que fosse cortada cena em que teria a bunda lavada, com foco no limite da proctologia, pelo mago representado pelo diretor. Era mesmo um tempo diferente: Jodorowsky recusou o corte para manter sua integridade artística, e ainda hoje ri pensando no punhadão de dólares que perdeu com essa decisão.

Quem fez o filme não estava ali pela grana. As pessoas – atores, equipe técnica etc. – buscavam uma experiência mística que daria novo rumo para suas vidas e para o universo. Entre elas havia milionários, prostitutas, doidonas que ninguém sabia de onde vinham, o empresário do grupo Sly and The Family Stone (!), galãs do cinema mexicano, xamãs, ou Don Cherry (que compôs a trilha sonora). Era uma turma da pesada, que fazia tudo o que o diretor-guia-espiritual mandava, até viver seus piores pesadelos diante das câmeras – como o travesti nova-iorquino que tinha pavor de aranhas e deixou Jodorowsky colocar dezenas de tarântulas para passear sobre seu corpo.

Os dois terços iniciais de “A montanha sagrada” formam sequência de planos rigorosos, tudo estilizado. O final vira semidocumentário, com a câmera na mão acompanhando o elenco principal passando o maior perrengue para escalar de verdade a maior montanha do México. Quem não quer saber o final do filme que pare de ler agora. Vou entregar tudo. Quando pisaram no topo, os “atores” esperavam a iluminação prometida. Jodorowsky deixa de ser ator, e se revela como diretor do filme. Ele dá a ordem, com fórmula mágica às avessas: “zoom back camera!”. A imagem se distancia e vemos todo o aparato técnico ao redor da cena. Jodorowsky continua: “quebre a ilusão, adeus montanha sagrada, a vida real nos espera”. É como um monge zen batendo com bastão em nossas costas. Uma das grandes cenas do cinema, mesmo aparentemente contra o cinema.

Há momentos em que só penso em atualizar a ordem: “zoom back todas webcams”. Reaprendamos a ver o mundo com os olhos malucos-beleza de 40 anos atrás.

Harry Smith

06/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo no dia 05/04/1960

Harry Smith completaria 90 anos em maio. Ele morreu meses depois de receber o Grammy 1991 como homenagem a tudo de bacana que produziu durante sua vida. Na premiação, no palco do Radio City Music Hall, declarou: “Fico feliz em dizer que meus sonhos se tornaram realidade, que eu vi a América transformada pela música.” É discurso de um homem realizado, que – mesmo tendo enfrentado todas as dificuldades de um cotidiano muitas vezes miserável, sem dinheiro até para a comida – conhece muito bem sua importância para os bons destinos de nossa época histórica. Nem era preciso acrescentar que o tipo de música que transformou a América foi, em grande parte, revelado pelo (e só valorizada a partir do) seu trabalho.

Os três discos da “Anthology of American folk music” que compilou para a gravadora Folkways nos anos 1950 – reeditados em CDs pelo Smithsonian quatro décadas depois – criaram a base para o movimento de rock folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan. Fala-se mesmo de uma “Irmandade da Antologia”, formada por pessoas – por exemplo, o fotógrafo Robert Frank – que depois de escutar aquelas músicas passaram a ter em Harry Smith um mestre espiritual, guia para transformação cultural de grandes proporções, anunciadora de outra América, ancestral e futura.

Há anedota pitoresca sobre a veneração de Dylan por Smith. Certa vez Dylan passou na casa de Allen Ginsberg, onde Smith morava de favor, com problemas nos dentes e no esôfago que só permitiam ingestão de líquidos. Ginsberg queria tirar onda apresentando os dois. Smith nem se levantou da cama para cumprimentar o já ilustre cantor. O psiquiatra do poeta anfitrião recomendou a partida do hóspede irascível, pois aquela presença estava “elevando sua pressão arterial”.

Esse episódio está narrado no texto biográfico que Ed Sanders, da banda The Fugs, publicou no encarte do quarto volume da Antologia, lançado pelo selo Revenant de John Fahey (músico extraordinário, mais um – como Sanders – que merece coluna só sobre sua obra) depois da morte de Smith. Tal escrito e mesmo o disco que o acompanhava incluem muitos mistérios. O biografado fez questão de confundir amigos (como Sanders, que por anos foi dono de livraria frequentada quase que diariamente por Smith) e discípulos (como os que ouviram suas lições no Instituto Naropa, no Colorado, onde foi xamã-residente, cargo que permitiu algum conforto para seus últimos anos de vida), afirmando ser filho do mago Aleister Crowley ou que sua mãe era uma princesa filha de tzar russo.

O que se sabe com alguma certeza é que teve infância pobre nos arredores de Seattle, morando perto de reservas indígenas, onde eram praticados os potlachs, inspiração para o livro “A parte maldita” de Georges Bataille, que por sinal acaba de ganhar nova tradução brasileira. Cantos dessas cerimônias pré-punks foram gravados por um Harry Smith ainda adolescente, antes mesmo de iniciar o curso de antropologia na Universidade de Washington.

Uma carreira acadêmica não combinava com a inquietação frenética da mente de Smith. Logo ele partiu para San Francisco, atraído pelo clima boêmio que anunciava os anos da geração beat. Lá, ouvia jazz, estudava ciências ocultas, pintava, fazia cinema experimental (pintando na própria película) e colecionava muitas coisas, sobretudo compactos de 78 rpm, produtos do nascimento da indústria fonográfica, ainda muito fragmentada, sem o modelo de negócios concentrador adotado na sua época de ouro. Por incrível que pareça, apesar da novidade tecnológica, era muito mais fácil gravar e lançar discos no início do século XX. O mercado iniciante foi tomado por uma variedade incrível de estilos e músicos que nunca mais teriam chance de ser ouvidos quando as gravadoras passaram a se interessar principalmente por aquilo que pudesse entrar para o hit parade e para a rádio Top 40.

Devemos a Antologia a uma das inúmeras crises financeiras de Smith. Ele estava agora em Nova York, onde fazia gráficos para tentar desvendar (apenas para si mesmo) os padrões modernistas dos solos de Thelonious Monk (foi assim que Ginsberg o conheceu, desenhando na plateia do clube Five Spot), quando teve que se desfazer dos discos para pagar o aluguel e não ser despejado (como aconteceu anos depois, perdendo muitas pinturas e escritos). Moe Asch, o comprador e dono da Folkways, ficou impressionado com o conhecimento de Smith e encomendou a curadoria de uma seleção do material. Sorte da América, sorte nossa.

PS: Ainda quero fazer uma comparação entre os olhares modernistas de Harry Smith e Mário de Andrade diante do folk e do folclore. Tarefa bem insana, para futuro distante.


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