bolhas

Claro: vivo numa bolha. Como estou aqui dentro, e bolhas se comportam como se fossem o universo inteiro, não sei qual é a minha… Talvez, a bolha de quem acredita em bolha.  Ou talvez a bolha (bloco com cordão mágico) do eu sozinho… Meu consumo de mídia varia muito pouco. Vou sempre nos mesmos sites, podcasts, blogs. Meu RSS tem pouco feed novo recente. Em tese, como é costume para nativos da minha bolha, eu deveria ter comportamento diferente: acionar o espírito aventureiro e explorar novas fontes, surpreendentes. Mas a preguiça é maior. O consolo é acreditar que essa minha dieta básica e acomodada de informação já me apresenta surpresas suficientes: coisas e assuntos que eu ignorava antes e que passam a ter centralidade em minha vida. Este blog está cheio dessas descobertas fundamentais. Como agora: no meu podcast velho querido de guerra, o Expanding Mind, apresentado por Erik Davis, que sempre reaparece por aqui, acabo de ficar encantado pelo pensamento de Bruce Damer. Sim, sou parte da bolha do Expanding Mind, uma daquelas duas mil pessoas que sempre fazem download de cada edição. Provavelmente a maioria delas já devia conhecer Bruce Damer. Eu não, o que talvez seja motivo suficiente para não ser da bolha tanto assim. Porém, ouvir ali a sua conversa com Erik me deu motivo para querer ter uma bolha de qualquer jeito. Dois motivos principais.

Primeiro. Bruce Damer desenvolveu uma nova teoria sobre a origem da vida que nos ensina que não estaríamos por aqui se não fossem as bolhas. Seus argumentos já foram até capa da Scientific American, mas não tinham capturado minha atenção até ouvir o podcast. Pois bem, resumo bem irresponsável: a vida não apareceu no mar e sim em poças de água térmica, que secavam e enchiam novamente, por séculos e séculos, em ciclos. Borbulhantes. Muito borbulhantes, com bolhas cada vez mais fortes, a cada ciclo. Nos seus interiores iam acumulando as moléculas matérias primas para a formação do código genético. “Surfando o ‘noise’, a segunda lei da termodinâmica” (que só prevê aumento da desordem, nunca surgimento da ordem) em três etapas fuzzy: primeiro encontrando maneiras de hackear a probabilidade, depois inventando uma técnica de comunicar conquistas anti-Caos para outras bolhas, e depois desenvolvendo uma memória de todo seu cíclico aprendizado. Tudo fascinante: o segredo é repetir, repetir, repetir. Uma hora aquilo que é interessante aparece. Teoria boa, bonita, como pensaria um meu tio onça de Guimarães Rosa.

Segundo. Descobri em Bruce Damer um aliado no meu gosto por conhecer gente que vive em outras bolhas (acho que por isso sou antropólogo). Erik descreve Bruce como um freak típico de San Francisco. Olhando as fotos de Bruce no Burning Man temos que concordar com esse elogio. O cara é realmente uma figura. Então Erik fica intrigado: como alguém assim convive com as normas bem mais caretas da comunidade científica? Ou com a formalidade da Nasa (onde apresentou – e como ele se diverte apresentando – seu projeto lindo de nave espacial que captura asteroides [bem diferente dos asteroides espaçonaves de Kim Stanley Robinson]). Bruce responde: “quando estou com eles, eu sou eles”. Sabe “trocar de pele”, desenvolveu técnicas para se transformar no Outro, simulando ser o Outro, e isso é estratégia para um “meta understanding”. Não é furar bolhas. Mas transitar entre bolhas. Tento ser assim também. Não quero trazer ninguém para minha bolha. Curto passar um tempo na bolha alheia. Descansa. Quando vou, por exemplo, em qualquer ritual religioso, não é meu objetivo fazer catequese. Naquele momento que estou ali, busco acreditar naquilo que as pessoas que estão ali acreditam. Tento entender sua crença. Respeito religiosamente suas regras. Já disse que sou cada vez mais relativista. Não tenho jeito para ser diferente. Claro que não visito qualquer bolha. Há limites. Afinal, fico com os versos de Kabir: “Eu / tudo o que procuro / é uma boa companhia”. Entenda quem quiser entender. Mas isso é papo pra lá de Marrakesh. Pra bem dentro de um souk de Clifford Geertz. Fronteiras do “local knowledge” e adiante.

Até porque o papo do Erik com o Bruce termina com indicações sobre uma nova teoria da consciência: “campo de intenções”; “sistema operacional do real”, “formatando probabilidade”. Tudo é consciente? Tudo iluminado? Consciência produz todo o resto, como parte de todo resto? Fico esperando as respostas no webminar adiado (“until further notice”) de Bruce Damer. O que ele vai pensar em seguida.

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