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escola

23/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/02/2013

Em edições recentes, esta coluna foi abduzida pelo óvni que faz a ponte aérea entre a abundância e o vazio. O assunto anterior era mais relevante: educação para o século XXI. Onde parei? Na recomendação megalomaníaca de que todos os estudantes completassem o Ensino Médio dominando a linguagem de computação C++. Isso seria passo para a criação de um Vale do Silício brasileiro. Minha meta: deixarmos de ser apenas – como já somos – campeões de consumo de internet; precisamos também inventar o futuro da rede global de informação. Meus leitores devem saber que sou como o cara da canção do Caetano: “eu nunca quis pouco, falo de quantidade e intensidade”.

Claro que “todo mundo com C++” é muito. No Reino Unido está acontecendo experiência educacional importante chamada Code Club, que quer dar para toda criança britânica oportunidade de aprender código. Seu objetivo é certamente mais modesto que o meu: estar presente em 25% das escolas primárias em 2015. E a linguagem ensinada é a Scratch, desenvolvida para crianças pelo MIT. Nada é moleza nesse campo. Que o diga Obama, que no State of the Union (principal discurso anual feito por presidentes dos EUA) da semana passada, na hora de falar em boa educação tecnológica, precisou recorrer ao exemplo da P-Tech, escola de Ensino Médio do Brooklyn que – com a colaboração da IBM e da City University of New York – só vai formar sua primeira turma em 2017.

Pedro Dória, em sua imperdível coluna na seção Digital & Mídia deste jornal, pegou carona na minha proposta delirante. Obviamente nem falou em C++: “Deveríamos ensinar linguagens de programação para as crianças. É um excelente início.” O que fazer depois do início? Suas recomendações são também certamente mais sensatas do que as minhas: uma universidade deveria liderar o movimento, bancado por venture capitalists, de criação de ambiente propulsor (com infraestrutura confiável de banda larga e eletricidade) para a inovação tecnológica.

Mas o que me fez mesmo baixar minha bola foi artigo de Rosely Saião na Folha. Ela nos lança a seguinte pergunta: “já perguntou aos responsáveis pela escola que seu filho frequenta qual o projeto pedagógico dela para o uso da internet pelos alunos?” Rosely afirma que é “urgentemente necessário” haver aulas semanais para os mais jovens aprenderem “a usar coletivamente a internet e a refletir sobre os usos e abusos que acontecem no mundo virtual.” Isso é bem menos que qualquer aprendizagem de código, mas muito a fazer diante da penúria da situação atual.

Já contei aqui minha aventura quando fui dar palestra sobre redes sociais para turmas de quinto ano de colégio carioca. Preparei fala tatibitate. Puro preconceito. Uma pirralha levantou a mão e me fez cair na real com a pergunta: “é possível rastrear IP?” Algum colega estava sendo acusado de usar perfis fakes para postar fotos pornograficamente manipuladas dos outros estudantes. Tenho quase certeza que a maioria dos seus professores não conhecia a língua que ela estava falando. Na disciplina proposta pela Rosely Saião, os alunos têm tudo para se tornar os mestres dos adultos. Estamos todos desbravando o admirável mundo novo eletrônico ao mesmo tempo. A gurizada leva vantagem: não precisa se desfazer de velhos hábitos analógicos para pensar o digital.

Na pesquisa para essa palestra encontrei várias organizações que investigam a relação entre infância e cultura eletrônica. Algumas tentam propor regras de conduta para auxiliar pais e professores. Continuo recebendo newsletters relacionadas com esse assunto, como a da organização Common Sense Media, que tem um time de conselheiros e apoiadores bem eclético: da Nickelodeon ao CEO do The San Francisco Giants, passando pelo diretor da Escola de Medicina de Stanford. No texto que anuncia sua missão está escrito: “existimos porque as crianças de nossa nação passam mais tempo com atividades digitais ou de mídia do que com suas famílias ou na escola”. Entre suas dez crenças: “acreditamos em ensinar as crianças a serem intérpretes, criadores e comunicadores de mídia experientes, responsáveis e respeitosos.”

Há bons conselhos para todos, inclusive um guia de apps para smartphones e tablets, classificadas por idade. Muita coisa me parece produzida para um mundo ideal. Exemplo: Twitter é recomendado para 15 anos. O que fazer quando todos os amigos do seu filho de 10 já usam os 140 caracteres como forma de comunicação frenética? Ou quando os próprios pais usam o Instagram para publicar fotos de suas filhas (e colegas) de 11 anos de biquíni?

O Monobloco já desfilou, as aulas recomeçaram. Bom momento para pensarmos seriamente sobre os cidadãos digitais que queremos formar.

vazio

16/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/02/2013

Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Sei que este meu otimismo desvaloriza meu passe. É mais chique falar mal de tudo. A maledicência nos garante aplausos calorosos em palestras. Atrai igualmente muitos seguidores no Twitter. Viramos heróis por causa de nossas opiniões do contra. Natural que assim seja: Lucien Jephargnon, historiador que já foi tema de uma coluna inteira por aqui, publicou um livro delicioso chamado “Era melhor antes”. Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal.

No século primeiro, Petrônio, autor de “Satyricon”, escreveu sem humor nenhum: “Fica pior a cada dia… Ninguém mais acredita que o céu é céu”. Plínio o Jovem não gostava dos jovens de seu tempo: “eles não respeitam ninguém, não imitam ninguém; são os modelos deles mesmos”. O poeta Juvenal afirmava que o problema vinha de longe: mesmo no tempo de Homero a raça humana já era decadente e “a terra só alimenta hoje homens perversos e atrofiados.” Temos sorte de estarmos vivos vinte e um séculos depois…

Vivos mas vazios? Penso que o vazio tem sido menosprezado nessas lamentações. Os budistas propõem conceito precioso para sairmos bem desse niilismo paralisante: Shunyata – quer dizer vazio, mas também interdependência e abertura. Como fala o monge coreano Misan (que descobri por causa de “Gangnam style”): “o mundo vazio que inclui tudo”. Tudo conectado. Talvez aí resida a chave para compreender a distância entre o modo como percebo o que há de importante na dinâmica cultural contemporânea e aquele que denuncia nossa perdição. Contra o “era melhor antes”, digo que não é melhor agora: é diferente; as coisas estão mais abertas e interdependentes. No lugar do regime da escassez que produz gênios, temos um regime de criatividade distribuída em rede, e o processo criativo é mais aberto, à procura de obras abertas, permanentemente inacabadas.

Por isso não é útil tentar convencer os apóstolos do vazio “não budista” de que não estamos tão decadentes assim, apresentando exemplos de vigor nas artes de agora. Não vou convencê-los: Tom Jobim ou Guimarães Rosa vão ser sempre “melhores” do que meus interesses atuais, até porque são produtos de um mundo onde fazia sentido ser “melhor” assim, quando todos os olhares/julgamentos podiam apontar para a mesma direção. No mundo pós-internet, tudo está junto e misturado: a retromania (todo o passado cultural a um clique), a xenomania (toda a diversidade cultural a um clique), a facilidade de produção (todo smartphone vai se tornar rapidinho estúdio cinematográfico, além de distribuidora).

Não estou dizendo que obras geniais não existam. Por exemplo (correndo o risco de fazer o que eu disse que é inútil): tenho certeza que “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá é um dos grandes momentos da criação nacional, em qualquer gênero – e demonstra claramente a maturidade das histórias em quadrinhos brasileiras, com muito mais gente desenvolvendo trabalhos originais e reconhecidos mundialmente. Porém, seu público é bem específico, e mesmo que estabeleça seu cânone particular, dificilmente vai adquirir status de conhecimento/reconhecimento geral. Não por falta de qualidade, é claro.

Pensei nisso ao abrir link que Ronaldo Lemos (ele deveria ser coautor desta coluna) me mandou para a lista de 100 melhores discos brasileiros de 2012, seleção do Rockinpress (que se diz “a página bege da música brasileira”): nunca nem tinha ouvido falar de metade dos artistas listados. Digo isso envergonhado, plenamente consciente da seriedade do trabalho de quem fez a escolha dos “melhores”, todos nas minhas bookmarks para tentar escutar suas músicas depois, um depois que talvez nunca chegue.

É a mesma sensação que tenho ao abrir a página do Carlito Azevedo no caderno Prosa deste jornal. Fico alegre só de saber que há tanta gente nova escrevendo poesia com tanta qualidade (e intuo o debate crítico que torna possível essa produção). Anoto nomes para ler mais, quando der. Não fico angustiado com tanta oferta. É assim mesmo. Êta vazio gostoso!

gerações

09/02/2013

texto publicaldo na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/02/2012

Outro dia tentei fazer uma adolescente (13 anos) compreender que não é bacana ser descuidada com seus pertences a ponto de ter que trocar de celular a cada 30 dias. Ela não entendia meus argumentos: “mas os celulares não são dados de graça pela operadora?” Expliquei pacientemente: “não existe boca totalmente livre neste mundo”; os custos do aparelho estão incluídos no plano de serviços ou são retirados dos pontos do programa de fidelidade (e não podem ser encarados como brindes). Não adiantou: eu mesmo não acreditava que minhas palavras iriam convencê-la a mudar de comportamento. Senti até vertigem ao contemplar o abismo geracional que causava ruído em nossa comunicação.

Já apontei, em vários textos desta coluna, a questão central para o desentendimento: fui criado num mundo da escassez; os novos adolescentes estão acostumados com a abundância. Não existe tradução fácil entre essas duas economias. Quem tem a minha idade se lembra do tempo em que fazer interurbano custava uma fortuna. DDDs só eram utilizadas em ocasiões solenes. Hoje qualquer pirralho pode deixar o Skype ligado 24 horas por dia para ficar em contato direto com primos que moram em Hong Kong. Ainda sinto leve pânico quando vejo isso acontecer, esperando a conta astronômica, ou encarando tudo como desperdício. Os novos habitantes deste planeta já são produtos de uma cultura do “ilimitado” (começando pelos SMSs), mesmo com bombardeio da publicidade do apocalipse ecológico.

Meu discurso “o aparelho é pago pelo plano” ainda faz algum sentido, mas qualquer pessoa pode constatar: objetos industrializados, mesmo com tecnologia de ponta, estão ficando muito mais baratos, e acessíveis para um número a todo instante maior de pessoas (portanto, não estou tratando de problema de crianças da antiga classe média – o abastamento virou característica transclasse). O mercado já sabe: pagamos cada vez mais por serviço e não por coisas. E esse barateamento daquilo que é “material” tende a se radicalizar.

Em sua coluna mais recente, publicada no jornal The Austin Chronicle (olha a abundância aí, gente: pouco tempo atrás seria impossível ter acesso rápido a essa publicação sem viajar para o Texas), meu guru Michael Ventura comenta a robotização avassaladora das fábricas de coisas palpáveis. Inclusive nas plantações, exércitos de “agribots” vieram para ficar e cortar custos na produção de alimentos. Mesmo os robôs são produzidos por outros robôs. Seus preços diminuem com velocidade espantosa, o que aumenta o número de empresas que podem utilizá-los.

Com a chegada das impressoras 3-D, nossas fábricas robotizadas particulares, outros custos desaparecem: distribuição, intermediários do comércio, manutenção de equipamento etc. O valor de todas as coisas vai se aproximar de zero? Então como ensinar para as novas gerações que as coisas (facilmente substituíveis) têm algum valor? O recurso mais óbvio é produzir escassez artificial (por exemplo: o custo de fabricação de uma mochila na China é US$5, mas ao ganhar marca “exclusiva” seu preço fica 25 vezes maior). Mas até quando esse truque simbólico vai funcionar?

Ventura se preocupa mais com outra consequência deste nosso estado “das” coisas: além do preço dos objetos, o número de empregos também encolhe (até os serviços são dominados por máquinas: você não sente um frio na espinha quando liga para a operadora do seu celular e o atendente virtual sabe sua identidade, ouve sua voz e ainda diz “entendi”?). Então: “o que as pessoas vão fazer?” Com apenas robôs trabalhando, que regime político e econômico dará sentido ao mundo da produção? Veredito: “Não há mecanismo para parar a nova revolução industrial (e não estou dizendo que deva haver). Mas a eliminação da maioria dos seres humanos dos meios de produção mudará, bem, tudo.” Outra pergunta de Ventura: estamos condenados a virar filósofos procurando resposta para a velha pergunta sobre a serventia dos seres humanos, que pelo que parece só causam problemas para um mundo que está descobrindo maneiras de se complexificar sem nossa presença?

Agostinho da Silva (ele sempre reaparece por aqui) resume assim a história da Humanidade: o desejo de cada vez mais coisas nos levou a inventar um parque industrial que agora, “se bem utilizado”, pode ser instrumento de nossa libertação, criando economia da quietação, “que não semeie em nós o desejo”. Em outras palavras: com tudo “de graça” descobriremos que não precisamos de tantas coisas, e poderemos cuidar melhor do que já temos.

Prego a quietação e desejo bom carnaval para todos. Não tão contraditório assim: a folia nos ensina que, com quase nada, podemos ser abundantemente alegres.

programadores

02/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/02/2013

Muita gente retuitou minha coluna da semana passada.  Isso me deixou animado para reafirmar, com petulância: então está combinado, os programadores de cibercódigos são mesmo os novos heróis culturais.  Sendo assim, onde estão os heróis programadores brasileiros? Li outro dia, na Folha, entrevista na qual Salim Ismail (um dos fundadores da Universidade da Singularidade, “encravada em um campus da Nasa, a agência espacial dos EUA, no Vale do Silício”) afirma que “o próximo Facebook deve nascer no Brasil ou em outro país emergente.” Alguém vê sinais desse nascimento por aí?

Quem já trabalhou com internet em território nacional deve compartilhar meu diagnóstico: bons programadores são cada vez mais raros e, portanto, disputados a tapa num congestionamento de serviços geralmente mal pagos (ficou convencionado que tudo no mundo on-line tem que ser barato). Temos muitos artistas e boas ideias, mas pouca gente para colocar a mão na massa do “desenvolvimento”, traduzido em bom código. Muitos projetos precisam comprar ciber-mão-de-obra na Índia ou outra terra com bom desempenho em lógica matemática.

Acabo de escrever orelha para o livro “Reflexões: ativismo, redes sociais e educação” – a ser publicado pela editora da UFBA – que reúne artigos e entrevistas de Nelson Pretto, um dos pioneiros dos estudos tecnoculturais que acontecem na Bahia desde quando a sigla WWW não havia sido criada. Concordo com proposta que reaparece em várias de suas páginas: as escolas brasileiras precisam urgentemente oferecer linguagem de programação digital como disciplina. Não estamos pirando: sabemos os problemas com tabuada ou conjugação são gigantescos. Mas não dá para esperar resolver isso e depois atacar o resto. Tudo precisa ser feito ao mesmo tempo agora.

Brasileiros já formam a segunda maior população no Facebook. Também somos vanguarda no Instagram, no Pinterest, no What’s Up. Maravilha. Só não podemos nos contentar apenas com consumo, por mais ativo que seja. O melhor dessa ciberbrincadeira é encontrar um jeito de fazer nossas próprias ferramentas (de buscas, de socialização, de comércio) e transformá-las em padrões mundiais, eternas enquanto durem. Para que ser campeão no Facebook dos outros se somos (assim esperamos) capazes de desenvolver uma rede social melhor, mais livre e tropicalista (como anunciou Gilberto Gil)?

Um Vale do Silício não aparece do nada. É resultado de anos de investimentos pesados em educação, produção científica e até mesmo criatividade anárquica (os hackers são herdeiros da contracultura hippie). O Brasil pode produzir algo parecido? O que estamos fazendo para que isso aconteça rápido? Não devemos pensar pequeno: temos que criar logo a escola do presente (nem falo em futuro). Devemos alfabetizar todas as crianças em português e C++ (repare bem: não escrevi HTML, que seria somente o mais básico dos básicos), aguçando suas curiosidades para que encarem as máquinas não como objetos fechados, que só podem ser concebidos em lugares distantes (não quero o “assembled in China”, quero o “designed in California”), e sim como instrumentos que podem ser fuçados e remixados no caminho para a invenção de outras máquinas, mais poderosas e necessárias.

O livro de Nelson Pretto me apresentou ao Plano Ceibal, do Uruguai (sou fã do presidente José “Pepe” Mujica, mas esse plano é herança do governo anterior), que caminha a passos bem largos para um ensino público onde todos os alunos e professores têm computadores conectados à internet, e são incentivados a se apropriar das máquinas e da rede de maneira crítica, “programadora”. Podemos aprender muito com a experiência corajosa de nosso pequeno e querido vizinho do Sul.

Tim Berners-Lee, um dos mais valentes heróis culturais que a Humanidade já teve, fez palestra sexta-feira passada no Fórum Econômico Mundial de Davos, ali pertinho dos laboratórios do CERN onde criou a arquitetura livre da web. Cito trecho que é resumo dos parágrafos anteriores. Clamando por mais e melhor educação computacional, Sir Tim lembrou o óbvio: “Eu não estou falando de um curso para lhe dizer que botões apertar. Quando você aprende a programar um computador, está […] se juntando a um grupo de pessoas que fazem coisas incríveis.” É isto: a escola deveria servir para estimular todo mundo a fazer coisas incríveis.

Para terminar, ou começar: desejo sucesso para o incrível Ginásio Experimental de Novas Tecnologias, na escola municipal André Urani, que começa a funcionar nas próximas semanas na Rocinha. Sucesso também para o Digitália, evento de música e cultura digital (programação incrível em digitalia.com.br) que começa hoje na CiberBahia.


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