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Alberto Mussa

11/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Era para a revista Boca Coletiva, que parece que encerrou suas atividades. Então publico aqui atrasado. Com atualização no final, pois saiu este ano um novo volume do “compêndio mítico sobre o Rio de Janeiro”, assinado por Alberto Mussa. Talvez o correto fosse reescrever tudo. Mas não tenho tempo agora. Vai assim, com remendo:

Alguns livros de ficção provocaram efeitos concretos, talvez até biologicamente transformadores, na minha maneira de estar no mundo ou processar informações do mundo, incluindo upgrade na interface corpo/mundo. Não foi sempre assim. É fenômeno recente na minha relação com a literatura, percebido depois de cinco décadas de vida. Lembro ter ficado transtornado com a leitura de “Os três estigmas de Palmer Eldrich” (aqui a edição brasileira mais recente), de Philip K. Dick, no início dos meus vinte anos, ao absorver cada uma de suas palavras geralmente no ônibus no Aterro ou na barca atravessando a Baía de Guanabara (eu estudava na UFF e morava em Copacabana). Parecia que vivia overdose da droga intergaláctica traficada na ficção. Pensei que nunca mais voltaria ao “normal”. Mas voltei, com poucas sequelas, algum tempo depois de atingir a última página.

Coisa diferente, e surpreendente, aconteceu quando descobri Kim Stanley Robinson, lendo “2312” três anos atrás. Tenho certeza: não piso mais na Terra da mesma forma. Agora, a não ser quando estou muito distraído, tenho plena consciência de estar a bordo de um planeta totalmente especial, neste sistema solar. Aprendi a concordar, de maneira visceral, com a reflexão da personagem central de “Aurora“, seu lançamento de 2015: “Talvez a resposta adequada para ficar de pé na superfície de um planeta, ao ar livre na sua atmosfera, bem próximo de sua estrela local, é sempre terror. Talvez tudo o que os humanos fizeram ou planejaram fazer foi projetado para se esquivar desse terror.” Mesmo agora, em fevereiro de 2016, quando vejo Júpiter pairar bem brilhante sobre as águas de Copacabana, eu permaneço, por longos instantes, aterrorizado (e também de certa forma maravilhado) com a sensação física opressiva (e também de certa forma leve) de estar preso/viajando aqui neste canto do universo. Ando com o Google Sky Map ligado. Nem saberia que aquele brilho ali vem de Júpiter se meus neurônios e o resto das células do meu corpo não tivessem passado pelo tratamento radioativo da ficção de Kim Stanley Robinson.

Neste canto do universo: Rio de Janeiro, sensação térmica beirando os 50 graus. (Escrevo em pleno carnaval.) Minha maneira de pisar nos asfaltos, morros, areias e pós-manguezais da cidade se transformou radicalmente e visceralmente depois que li Alberto Mussa. Não consigo mais atravessar o Aterro sem pontadas constantes de terror/maravilhamento lembrando o delta formado pela foz do rio Carioca, terreno quase impossível de ser cruzado por terra para chegar ao Castelo há 400 anos. Em cada caminho passei a carregar todas as épocas superpostas, sem ordem cronológica, tudo junto e misturado, ficção e realidade, seguindo as lições trans-históricas do projeto de cinco romances policiais que Mussa está publicando, um para cada século do Rio, mas não lançados na ordem “certa” (o primeiro foi “O trono da rainha Jinga“, ambientado no século XVII, o segundo foi “O senhor do lado esquerdo“, século XX, o terceiro “A primeira história do mundo“, século XVI – o próximo está prometido para o século XIX).

Terror sim, basicamente, isto é, na base de tudo, todo o resto. O narrador de “O senhor do lado esquerdo”, cujo subtítulo é “O romance da Casa de Trocas”, deve anunciar o projeto de Mussa para o “compêndio mítico”, “projeto absurdo”, formado por cinco volumes cariocas: “o que define uma cidade é a história dos seus crimes”, e não arquitetura, geografia, heróis, costumes, poesia. E faz questão de explicar melhor: “Falo dos crimes fundadores, dos crimes necessários; e que seriam inconcebíveis, que nunca poderiam ter existido a não ser na cidade a que pertencem.” Não é exatamente uma teoria ufanista, mas ao mesmo tempo não é inventada ou investigada por alguém que despreza a cidade. Há certamente um amor febril, trágico, na descrição desse fundamento cruel, assustador, aterrorizante.

Cada um dos povos que passaram por aqui, sobretudo os que mais ajudaram a formar a cara da cidade, deixou sua receita para tornar a crueldade mais requintada, mais específica, sem paralelo em outras cidades. Há algo da pá virada no feng shui de seus bairros. Tudo sangue quente. Muito quente. Em “A primeira história do mundo” encontramos a descrição da mais dura lição/contribuição tupi: “essa categoria metafísica fundamental, causa última de todos os fenômenos da natureza e da cultura: a vingança.” Consequência prática: a vida é uma guerra de tudo contra tudo. Mesmo na relação entre vivos e mortos: “Porque os mortos, na verdade, cantam. Descrevem como, quando e por quem morreram. Não dizem a causa, apenas, porque esta é única, é universal: a vingança. É o canto dos mortos que os sacis aprendem e reproduzem para os pajés, durante o sono, para exigir que sejam vingados – e não termine nunca o pêndulo que move o mundo.” Dá para imaginar o terror dos portugueses, holandeses, franceses, piratas ou não, que aqui também guerrearam, diante de práticas/teorias da crueldade tão diferentes das suas. Era preciso rachar a cabeça dos inimigos mortos, para ganhar um nome e poder ter filhos. Portanto, sem inimigos não havia reprodução da vida, biológica e social: “quando os parentes eram muitos, e havia poucos inimigos, se dividiam em metades que passavam a se matar.” Quem era comido por inimigos ia direto para a “terra sem mal”. A crueldade era também piedade, uma forma alienígena de bondade, incompreensível para europeus cristãos e também cruéis.

Em “O trono da rainha Jinga” somos apresentados a uma seita de africanos com sua peculiar maneira de lidar com e explicar a existência do mal no mundo. Haveria desde sempre e para toda a eternidade, uma quantidade finita de maldade para ser cometida. Por isso, nos crimes que praticavam nas ruas do Rio de Janeiro do início do século XVII, com a cidade fundada há pouco mais de cinquenta anos, não bastava matar inimigos. Era necessária uma morte com crueldade horripilante. Na verdade, quem morria, ou era torturado em meio aos mais violentos rituais e piores venenos, nem precisava ser inimigo. Aquela irmandade comandada por gente de Angola praticava atos de maldade aleatória. Cada ato mais cruel que o anterior, para dar baixa na cota de mal, e o resto do mundo – principalmente os membros da irmandade – poder ficar em paz: “quer o máximo de mal sobre os outros, para que nada lhes reste.” (Estranha semelhança com a tese central de um dos sete romances que compõem “7”, de Tristan Garcia: para cada rosto belo que existe, há um rosto horrível – a cota de beleza no mundo também é finita.)

Então, no compêndio mítico de Mussa, a cidade se converte em campo de batalha para todas essas metafísicas conflitantes sobre a origem e o destino do mal no mundo. Ou laboratório onde novas possibilidades de crimes fundadores são testados, atraindo gente de todos os cantos do planeta, como o polonês de “O senhor do lado esquerdo”, que chega no Rio para realizar experiências pré-Wilhelm-Reich ou pós-Marquês-de-Sade da sexualidade humana, logo na casa que foi da Marquesa de Santos. Gente que acredita que a vida tem que ter necessariamente dois lados, não exatamente espelhados no par yin-yang chinês, mas em “velhas tradições africanas que associam o homem à luz, aos números ímpares, às florestas e ao lado direito. Femininos são, portanto, a noite, os números pares, as profundezas aquáticas e o lado esquerdo. Trata-se, como se vê, de mundos incomunicáveis.” Assim como não havia possibilidade de comunicação entre um pajé tupinambá e um jesuíta catequizador. A cidade é resultado dessa falta de comunicação em série. Ainda que tenha produzido alianças inesperadas, ou possivelmente esperadas demais. Um exemplo: “Herdeiros imediatos da filosofia tupi – já incorporada à cidade -, segundo a qual o indivíduo só se torna pleno se tiver um inimigo, os capoeiras passaram a se dividir em maltas, com territórios definidos e emblemas específicos (como fitas de cor, assobios e espíritos tutelares).” Origem bem diferente das congêneres da Bahia, de Cuba, da Venezuela, onde tudo começou como “brincadeira e jogo de piruetagens”. No Rio, explica o narrador de “O senhor do lado esquerdo” o fundamento é “tática de guerra”.

Nesse sentido é possível entender o elogio que esse mesmo narrador faz para o prefeito que resolveu derrubar o morro do Castelo, algo impensável (e quando vi pela primeira vez as tais fotografias da derrubada achei que contemplava Serra Pelada) em qualquer cidade que cultiva sua memória em modo linear: “Para mim, todavia, Carlos Sampaio foi um místico: primeiro, porque – ao destruir os sítios de fundação – ratificou a condição atemporal do Rio de Janeiro, cidade que existe desde sempre, não apenas a partir de 1565.” Por isso sua opção de estabelecer mito de fundação “fora da cronologia” (opção também de Mussa), pois “o conceito de cidade independe da noção de tempo”.

Herdamos assim uma eternidade urbana cruel. Mussa, com seus novos mitos cariocas, escreve a biografia (as biografias) desse nosso coração das trevas particular, e – nas entrelinhas – aponta as linhas de fuga e túneis secretos (inclusive ligando os cinco romances), para quem quiser enxergar, virar onça, e fugir para frente.

*****

REMENDO 2017: apenas alguns trechos de “A hipótese humana“, que reforçam/expandem os diagnósticos – transétnicos, transclasses, transtudo… – do Rio de Janeiro (em qualquer século de sua história) e os objetivos ontológicos/metafísicos da literatura de Alberto Mussa descritos acima:

  • “era uma criminalidade essencialmente endógena: capoeiras vitimavam capoeiras, membros de grupos rivais” (p. 24)
  • “homens de verdade não se importam com justiça; apenas com vingança” (p. 40)
  • “a morte natural é logicamente impossível.” (p. 135)
  • “O transe não constitui uma perda dos sentidos: é precisamente o fenômeno inverso; a conquista de uma plenitude cognitiva, perceptiva e perspectiva, relativamente às várias configurações do mundo.” (pp. 136-137)
  • “Um homem triste não pode ser inteligente” (p. 142)
  • “não pode haver literatura , no sentido mais essencial do termo, se se prescindir do Mal. Porque 0 Mal é a exceção; o Mal é o Outro – elemento contrastivo necessário que cria em nós a noção de humanidade.” (p. 70)
  • “Embora eu mesmo tenha escrito o livro, não sei tudo. Presumo apenas.” (p. 89)
  • “E todas as versões, mesmo as mentirosas, contribuem para a composição da verdade.” (p. 130)
  • “o que não é segredo, não se pode descobrir.” (p. 137)
  • “nem todas as verdades podem ser provadas.” (p. 151)
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exemplo de Atenas

15/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/12/2012

Philip K. Dick, o autor literário com maior influência no ciberimaginário do século XXI, teve intensa experiência religiosa em 20 de fevereiro de 1974. Um raio cor-de-rosa o atingiu, transmitindo vasta quantidade de informação diretamente para sua mente. A Califórnia ao redor se revelou alucinação produzida por nossos algozes, agentes do Mal. PKD descobriu que ainda vivemos no Império Romano dos primeiros anos da era cristã. Isso resolvia um problema teológico central para o cristianismo. Jesus nos anunciou para breve a chegada do Reino de Deus, acabando com tudo de ruim que existe na Terra. Por que a demora da chegada do paraíso? Resposta do raio cor-de-rosa: a passagem do tempo, de lá para cá, é ilusão/prisão. Estamos ainda no Coliseu, jogados aos leões.

Sou otimista. Contra PKD acredito, com a ajuda de raios de Zeus: vivemos na Grécia (a antiga, não a atual da crise do Euro). Simplificando, ao modo gnóstico de PKD (sem levar em conta os ensinamentos de Paul Veyne ou Lucien Jephargnon): Roma teria nos ensinado o Império, o circo dos gladiadores e as catacumbas (sim, com a “Arte de amar” de Ovídio, mas esse é o outro lado de sua face sombria). A Grécia teria nos ensinado a democracia e o “conhece-te a ti mesmo” (sim, com a cicuta de Sócrates, mas esse é o outro lado de sua face iluminada). Encontro sinais contemporâneos da criatividade grega o tempo todo. Até em acontecimentos óbvios.

Neste verão, no quintal de uma casa de Ipanema (a Laura Alvim), podemos – bem queimados apenas pelos raios de sol da praia – ter contato direto com essa Grécia fundamental na bela encenação da “Oréstia”, trilogia de tragédias de Ésquilo (em cartaz até 27 de janeiro). Tudo no palco é – simultaneamente – junto e misturado, antigo e contemporâneo, ateniense e carioca, simples e sofisticado, embaralhando eras históricas aparentemente distantes, servindo de canal de transmissão para a mais potente poesia trágica, vinda lá do nascedouro do teatro.

Este ano ainda vi a “Antígona” do National Theatre, em Londres. Lá havia também a tentativa, com forte impacto cênico, de conectar o passado ao presente. Por exemplo, tudo começava no moderno palácio de Creonte, com equipe do rei reunida em momento de tensão, repetindo a imagem de Obama e companhia na Casa Branca conferindo on-line a morte de Osama. Nada contra essa estratégia estética de choque. Funciona igualmente. Entretanto, prefiro a sutileza da “Oréstia” carioca, onde – sem estranharmos mesmo o uso constante de microfones em cena, e de guitarras elétricas na trilha sonora – nos sentimos contemporâneos da pitonisa de Delfos. Gosto especialmente de ter o coro sempre presente, vários atores falando os mesmos versos ao mesmo tempo, e muitas vezes cantando, como os gregos faziam e ainda podemos fazer (claro que tudo fica mais bonito com as melodias que Rômulo Fróes e Cacá Machado fizeram para o espetáculo concebido por Malu Galli).

Karen Armstrong, no livro “A grande transformação”, diz que a “Oréstia” aborda o momento de invenção da democracia em Atenas, com a transição nada tranquila do caos tribal e da vendeta para uma “ordem relativa”, que incluía também a criação dos primeiros tribunais (seus debates eram “rudes e agressivos”, e “um julgamento era essencialmente batalha entre acusados e acusadores”). A trilogia termina com as deusas da vingança ganhando santuário na cidade. Era preciso “incorporar esse fardo doloroso, aceitá-lo, honrá-lo no coração sagrado da pólis e transformá-lo numa força benéfica.”

Boa coincidência: ver “Oréstia” no momento dos julgamentos do STF, que (pego carona bem livre em pensamento de José Marcelo Zacchi) ritualiza também sacolejo recente no judiciário brasileiro, o último dos três poderes a ser repaginado pelos ventos democráticos. Lição de Ésquilo: precisamos mirar sempre no exemplo daqueles atenienses. Eles já sabiam que democracia é um jogo onde o “ethos da força bruta” nunca é inteiramente domado. A virtude maior, para todos os “partidos”, é a moderação.

Antes da “Oréstia” em Ipanema, é bom saber que podemos assistir a outra trilogia formada pelos filmes “Electra”, “As troianas” e “Iphigenia” (a origem dos problemas de “Orestéia”) do diretor grego Michael Cacoyannis, recém-lançada em DVD no Brasil. Recomendo também o livro “A small greek world”, de Irad Malkin, para mim a maior revelação entre leituras de 2012. Malkin dá pistas novas para a explicação da atualidade renovada dos gregos antigos. Ao contrário dos romanos, centralizadores, a civilização grega (nenhuma cidade mandava em todas as outras [e algumas colônias eram tão importantes economica e culturalmente quanto suas metrópoles], e seu mapa – ao contrário do que mostra a maioria dos livros didáticos – não se resumia ao Mar Egeu) sabia que “o que apaga diferenças e consolida identidade não é a proximidade e a permanência, mas sim movimento, distância e conectividade.” Por isso, por incrível que pareça (e aqui vai meu mais improvável otimismo), tem mais a ver com o melhor de nossa realidade atual, fundamentada nos links da internet, do que o Império Romano de Philip K. Dick.

cyber/steampunk

08/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08-10-2010

William Gibson acaba de lançar “Zero history”, o terceiro livro de sua terceira triologia. Parece número cabalístico. Três vezes três dão nove romances de – na falta de rótulo mais abrangente – ficção científica. É tudo que lançou até agora, fora contos, ensaios e colaborações com outros autores. Para quem publica desde o final dos anos 70, não são muitas páginas. Mas formam uma obra e tanto, com influência decisiva no modo como pensamos o mundo hoje, cada vez mais assustadoramente semelhante ao que Gibson cria. Você pode não ter lido nada do que ele escreveu, mas certamente terá convivido – até bem intimamente – com alguma de suas idéias, espalhadas muito além do campo artístico. Por exemplo: o ciberespaço, palavra inventada em seu conto “Burning chrome” (1982), era ambiente central de “Neuromancer” (1984), primeiro livro de sua primeira triologia, e só se transformou em realidade banal planetária no início dos anos 90.

No século XXI, Gibson deixou de lado o futuro e passou a escrever sobre o presente. É bem o nosso presente, não há nenhuma tecnologia que não exista hoje. Mesmo um pingüim biônico flutuante, encarregado de vigilância, já pode ser conhecido até em vídeos no YouTube. Numa de suas declarações mais citadas, Gibson disse: “O futuro já está aqui – só não está equilibradamente distribuído.” Realmente: muitas das coisas já presentes, que serão determinantes em nossos futuros, são apenas tendências embrionárias, que somente gente esperta pode identificar como promissoras. Por isso o personagem mais poderoso da triologia que agora se finaliza com “Zero history” é Hubertus Bigend, dono de uma agência de caça ao cool, às viralidades, aos segredos, daqueles que ainda causam pequenas marolas no underground, mas que estão na iminência de virar tsunamis consumistas ou modo de vida globalizado. Como sugere uma personagem: “Eu era uma espécie de coolhunter também, antes que isso tivesse um nome, mas agora é difícil encontrar quem não o seja.”

Em “Reconhecimento de padrões”, o primeiro volume dessa triologia pós-marqueteira (e o único até agora lançado no Brasil), Bigend quer encontrar os criadores de vídeos que geraram uma espécie de culto na internet. Para revelar o mistério, é contratada Cacey Pollard, que tem alergia radical a etiquetas e marcas, costumando inclusive a pagar ferreiros para retirar letras e desenhos dos botões de seus jeans. No segundo livro, “Spooky country”, uma ex-cantora de banda pós-punk se mete numa trama policial que envolve arte locativa (baseada em coordenadas de GPS) e contrabandos em containers de navios talvez pirateados na Somália. A mesma ex-cantora reaparece em “Zero history”, agora com a missão de revelar quem lança uma marca secreta de jeans, que justamente por ser totalmente anti-fashion – não é vendida em nenhuma loja, não tem etiqueta, não faz desfiles nem publicidade – virou o sonho de consumo de todo fashionista que realmente sabe das “coisas” ou que quer algo verdadeiramente exclusivo e fascinante.

Para saborear bem a escrita de Gibson, é preciso ter algo do espírito coolhuntista, ou ser acometido por um grau mediano de vício de informação. São muitas referências a cada parágrafo. Uns russos de ternos escuros “parecem extras daquele filme de Cronenberg”. Ou: “Ela cuidadosamente manteve a ampliação do retrato de Corbijn fora de seu campo de visão enquanto chegava ao segundo andar do Salon du Vintage.” Detalhes de lugares muito precisos também congestionam a narrativa: como o Caffé Nero, “um Starbucks de realidade-alternativa”, que fica em frente ao Vidal Sassoon, numa esquina dos Seven Dials, em Covent Garden, Londres.

O ainda raro convive com o já comum, diagnosticado com perspicácia: “Uma muito considerável parte da linguagem gestual dos lugares públicos, que antes pertencia aos cigarros, hoje pertence aos telefones.” Então todos os personagens acariciam as telas de seus iPhones o tempo inteiro. O que dá uma sensação engraçada para a leitura. Os iPhones são tão ano passado, não são? Hoje os candidatos a coolhunters usariam android? Mas no intervalo entre a escrita e a publicação do livro o android já estaria ultrapassado, e o presente retratado ganharia inevitavelmente pátina de antiguidade. O livro, de cyberpunk, viraria steampunk.

Ironia: Gibson é um dos maiores responsáveis pela popularização da onda steampunk, tendo publicado o livro “The difference engine” – uma parceria com Bruce Sterling – em 1990. Os enredos steampunks acontecem num passado alternativo, geralmente era vitoriana que já inventara computador a vapor ou tecnologia semelhante. Esse subgênero de literatura tem cada vez mais adeptos, incluindo leitores que frequentam simpósios onde muitos comparecem com fantasias de época e adereços retrofuturistas. Romeu Martins, um dos maiores conhecedores e divulgadores da produção de ficção científica brasileira, tem um bom texto no Overmundo sobre o steampunk nacional, organizado sobretudo em torno do site Conselho Steampunk. Talvez, porque o futuro e o presente já nascem datados, seja mais fácil encontrar horizontes futuristas no passado.

PS: Esta coluna é uma homenagem à editora Aleph, que publica Gibson (e Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin etc.) no Brasil, e acaba de lançar “O fim da infância”, de Arthur C. Clarke, em edição inédita no mundo.


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