Archive for the ‘Rússia’ Category

Sergei Paradjanov

04/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/04/2015

Sergei Paradjanov era considerado pessoa muito perigosa pelas autoridades soviéticas. Se vivesse na Rússia de hoje, provavelmente seria tratado da mesma maneira. Os regimes mudam, mas questões de fundo – como o nacionalismo dos povos que um dia formaram a URSS – permanecem sem solução. Há 50 anos, a première em Kiev de um de seus filmes, “As sombra dos antepassados esquecidos”, virou ocasião de protesto dissidente contra as prisões que as autoridades de Moscou decretavam contra intelectuais e artistas ucranianos. O lançamento quase não aconteceu porque seu diretor não aceitava a obrigação de ter que dublar seus diálogos em russo. Não preciso lembrar que antigos conflitos entre russos e ucranianos ganham hoje aterrorizante atualidade, reencenando uma Guerra Fria para muito além do antagonismo entre capitalistas e comunistas.

O protesto de 1965 foi protagonizado por Ivan Dziuba, autor de ensaio que denunciava o internacionalismo comunista oficial como máscara para a “russificação” de todos os povos da URSS, destruindo sua diversidade cultural. Paradjanov se tornou um nacionalista ucraniano honorário, mesmo sem ter nacionalidade ou antepassados ucranianos. Sua origem familiar era armênia, mas de armênios que viviam na Geórgia. Talvez seja mais acurado defini-lo como “transcaucasiano”, com referências estéticas e filosóficas produzidas naquela fascinante região do planeta (onde hoje fica a Geórgia, a Armênia e o Azerbaidjão), situada sempre “entre” – entre os impérios persa, turco e russo; entre o cristianismo e o islamismo; entre a Europa e a Ásia etc. – e formando identidades peculiares a partir de todas essas influências. A cadeia montanhosa da Cáucaso marca sua paisagem e cria visão de longo alcance. Paradjanov nunca foi artista de mundo pequeno. Sua primeira obra de sucesso foi justamente a que serviu de mote para o protesto nacionalista “alheio”, filmado em território da “tribo” Hutsul, tida como a essência da cultura da Ucrânia. Talvez só quem viva “entre” possa entender o que é estar plenamente “dentro”, sem ficar prisioneiro de nada. (Paradjanov ficou realmente encarcerado vários anos, a partir de acusações vagas, incluindo homossexualismo que era crime na URSS, o que o levou a dar a seguinte resposta quando Tarkovski lhe perguntou o que deveria fazer para ser melhor cineasta: passar uma temporada numa cadeia soviética de segurança máxima.)

Só depois de ir para “fora”, para o coração da Ucrânia, é que Paradjanov parece ter conseguido forças para mergulhar de volta em ambiente transcaucasiano. “A cor da romã” é seu filme armênio; “A lenda da fortaleza Surami”, georgiano; “Ashib-Kerib”, azeri (a nacionalidade do Azerbaidjão). Acho que o único lançado em DVD no Brasil é “A cor da romã” (coleção Lume Clássicos). Não tenho dúvida de que é uma das criações mais deslumbrantes/ousadas da história do cinema, e que ganha ainda mais densidade em 2015, cem anos depois do início do genocídio armênio.

“A cor da romã” foi produzido para revelar as fontes que nutriram a poesia de Sayat-Nova, trovador medieval armênio, mas que, como bom transcaucasiano (ou mesmo inventor de algo que poderia ser chamado de “transcaucasianidade”) sempre circulou bem igualmente entre tradições azeris e georgianas (e ao que tudo indica morreu em Tbilisi, durante ataque de tropas persas). Não é nem de longe uma biografia linear. E também, mesmo contendo tanto “folclore”, não é nada tradicionalista. Eu diria que não pode haver filme mais modernista, no sentido mais vanguarda contido na “orientação” moderna. A tradição – e o mais belo da arte popular armênia, com objetos autênticos – é plataforma para invenção de um presente “futurível”, com técnicas de edição desorientadoras, com cortes realmente radicais, fazendo a ponte entre Meliès e o videoclipe que ninguém ainda tinha visto. Poderia ser descrito como a antropofagia transcaucasiana do rigor do mais importante cinema russo.

Elemento fundamental em “A cor da romã” é a música. Quase não há fala: cada imagem é acompanhada por sons de instrumentos tradicionais como o “duduk” (viva Djivan Gasparian!), cantos religiosos, composições do próprio Satya-Nova e “field recordings” de várias procedências. O mais inovador é a maneira como isso tudo é editado, bem “cut-and-paste”. O compositor Tigran Mansurian reconhece sua dívida com, ao mesmo tempo, músicos concretos como Pierre Henry e a etnomusicologia pioneira de Komitas, realizador das “missões folclóricas” no Cáucaso e que acabou sua vida como vítima trágica do genocídio armênio. “A cor da romã”, como objeto de arte, aponta o caminho para o combate contra a intolerância, em nome da beleza e da liberdade.

 

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valores russos

25/10/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/10/2014

 

Quando tudo está confuso, e as pessoas ao redor parecem vítimas de crise histérica, muitas vezes vale a pena observar uma situação onde a confusão parece maior. Nossos miolos recebem tratamento de choque de atrapalhação e talvez daí possa surgir alguma lucidez, ou apenas momento de distração. Tenho pensado muito na Rússia ultimamente. Talvez influenciado por visitas às livrarias onde sempre encontro, entre os lançamentos, títulos como “Antologia do pensamento crítico russo” (Editora 34), organizado por Bruno Barreto Gomide, ou “Lições de literatura russa” (Três Estrelas), de Vladimir Nabokov, lembrando-nos que os russos, como os brasileiros, também sofrem com debates intermináveis sobre a identidade de seus “grotões”. As leituras mais “abstratas” são acompanhadas por outras bem mais “práticas”, em jornais que, desde a “reintegração” da Crimeia, e agora com o impasse ucraniano, assustam um Ocidente que pensava ter vencido o Kremlin com a queda do Muro de Berlim.

Salvo engano, o nome Vladimir Putin só apareceu nesta coluna uma vez, quando fiz comentários sobre o filme “Fausto”, de Sokurov. Citei declaração do produtor Andrey Sigle revelando como o apoio de Putin foi fundamental para o filme ser financiado com oito milhões de euros. Era 2008, final do seu segundo mandato como presidente, logo assumindo cargo de primeiro ministro. Tempos bem diferentes dos atuais. O desenvolvimento econômico criou uma enorme classe média que se imaginava cosmopolita, tanto em termos de ideias quanto de consumo, e podia conduzir suas vidas privadas sem controle rígido de patrulhas ideológicas.

O apoio de Putin para um filme de vanguarda, falado em alemão, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, mostrava uma abertura maior para o culturalmente arriscado, com o objetivo explícito de aproximação com a Europa. As palavras de Sigle: “O filme é um grande projeto cultural russo e para Putin isso é muito importante. Ele o vê como um filme que pode introduzir a mentalidade russa na cultura europeia; promover a integração entre as culturas russa e europeia. A Rússia não é apenas uma potência militar ou uma potência do petróleo e do gás, ela tem uma enorme herança cultural e o filme pode ajudar o povo europeu a enxergar melhor o rosto da Rússia.”

Esse projeto tinha raízes pessoais mais antigas. Putin passou cinco anos como agente da KGB na Alemanha do Leste. Voltou para a então Leningrado no momento em que a Alemanha reunida virava membro da Otan, fato encarado como uma vitória do Ocidente. Em entrevista dez anos depois, ele deixou transparecer a amargura ao lembrar de como “a União Soviética perdeu sua posição na Europa.” Nos seus dois primeiros mandatos como presidente parecia, como mostrou com “Fausto”, batalhar pela reconexão. Porém, a geopolítica planetária e a conjuntura interna russa mudaram muito desde 2008.

Crise econômica mundial. A Otan namorando com a Ucrânia (quase considerando a Rússia como periferia sem importância). As sanções econômicas da Europa e dos Estados Unidos contra empresas de amigos do Kremlin. A classe média nas ruas e a Pussy Riot na igreja contra sua decisão de concorrer por um terceiro mandato para a presidência (em 2012). Putin deve ter se sentido traído, humilhado. Sua reação tem sido se aproximar de movimentos ideológicos que tentam reconstruir os ideais de uma “Rússia Profunda” independente do Ocidente, muito ligados a um lado mais místico (e ao mesmo tempo pragmático) da Igreja Ortodoxa, que vive novo esplendor depois do fim do regime comunista (Putin foi batizado escondido, pois sua mãe era devota clandestina). Tanto que as integrantes do Pussy Riot cantaram que o patriarca ortodoxo “acredita em Putin e não em Deus” – e por isso foram presas por “vandalismo em grupo organizado animado por ódio religioso.”

David Remnick, em artigo na New Yorker sobre o “Putin imperial” (mas que trata até mais das improvisações da diplomacia dos EUA), fala de rumores que apontam Tikhon Shevkunov, sacerdote do mosteiro Sretensky (localizado quase ao lado do quartel-general da KGB), como conselheiro espiritual do presidente. Shevkunov apresentou e produziu um docudrama para a TV estatal chamado “A destruição de um império: a lição de Bizâncio”. O Ocidente, e não os turcos otomanos, foi responsável pela queda de Constantinopla em 1453. O Ocidente continuaria a ser o grande inimigo dos “valores tradicionais russos”.

Como cantou Cazuza ou escreveu Hobsbawn, nossos amores e nossas tradições “a gente inventa”. E reinventa o tempo todo. Por isso é bom ler, daqui do Brasil, Tolstoi (sobre crianças camponesas) ou Nabokov (sobre os filisteus), para buscar no perigo dos outros nossa salvação.

meteoros

09/03/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/03/2013

Vladimir Sorokin já foi chamado de Quentin Tarantino ou Marquês de Sade da literatura russa contemporânea. Prefiro chamá-lo de Fausto Fawcett de Moscou menos 40 graus. Quem me conhece sabe não tenho elogio melhor. Outras pessoas, menos exaltadas, decretam apenas que ele será o próximo Roberto Bolaño (isto é: obrigatório em rodas intelectuais chiques, assim como um caramelo com flor de sal). Os sinais de sua iminente celebridade global são claros. Em 2011, foi “escritor em residência” em Stanford. Este ano, concorre para o Man Booker International Prize que será anunciado dia 22 de maio, em jantar no museu Victoria & Albert, Londres.

Mas não foi instinto cool hunter que me levou a escrever agora sobre sua obra. O impulso veio de acontecimento pouco literário: a queda do meteoro sobre Chelyabinsk. Quando vi a fotografia do buraco na crosta de gelo do lago da região, aberto provavelmente por fragmento da estrela cadente, fiquei assustado: era imagem exatamente igual a que se formou em minha mente ao ler “Trilogia do Gelo”, de Sorokin. A farsa ficcional se repete em tragédia real?

“Trilogia do Gelo”, por sua vez, começa com a enorme explosão que ocorreu perto do rio Podkamennaya Tunguska, na Sibéria, em 1908 – e ficou conhecida como o “evento Tungus”, mote para tanta piração quanto o “incidente de Roswell”. Tem gente que acredita foi uma espaçonave alienígena que explodiu no ar. “Bro”, o primeiro livro da “Trilogia do Gelo” começa justamente com o efeito longínquo do “evento Tungus” no parto prematuro de Alexander Snegirev, em fazenda perto de São Peterburgo. Alexander, quando entra em contato com o Gelo, aprende que seu nome verdadeiro é Bro.

A trilogia, como outros livros de Sorokin, tem nível de bizarrice também explosivo. O meteoro seria uma grande bola de gelo que ficou escondida no fundo de lago siberiano. Bro descobre sua localização e utilidade: pedaços do Gelo acoplados a tiras de carne de cachorro viram martelos capazes de acordar os corações das 23 mil pessoas louras e de olhos azuis que formam a Irmandade da Luz Primordial, incumbida de preparar a destruição da Terra, cuja criação – com água instável, no lugar da ordem do Gelo – foi um grande erro e constitui anomalia maligna que, se não extirpada, vai acabar com a harmonia do resto do universo.

Olga Drobot, personagem decisiva no final da trilogia, pergunta se a Terra, por ser única, não é um milagre. Seu amigo alemão Ernest Wolf (que antes já tinha descrito a Rússia como um “buraco metafísico”) lhe responde com calma: “Milagres são anomalias, Olga. E qualquer anomalia é uma violação do equilíbrio, uma destruição da ordem. Uma linha reta pode ser traçada entre dois pontos, através de três, através de trinta e três. Mas não há sentido em traçar uma reta com um só ponto. Porque um ponto é só um ponto. Não é um caminho.”

É preciso suportar essa paródia séria, e muitas vezes irritante, de literatura new age, para atravessar as 694 páginas da trilogia. Há também debate na crítica russa sobre a especificidade da escrita de Sorokin: é uma volta ao absurdo? Tendo a concordar com outro partido, o que fala da volta do realismo, e de uma narrativa linear, depois das experimentações mais tipicamente pós-modernas dos seus primeiros livros. Tudo, mesmo os martelos de Gelo absurdos, são descritos com naturalidade, como se fossem as coisas mais normais do mundo, tão corriqueiras quanto um cachorro chamado Fidel (ou um poodle Arto), um executivo que usa isqueiro Gucci e só escuta Leonard Cohen, ou poster stalinista “Mulheres Soviéticas, Luta contra Preconceitos Burgueses” condenando manicures, batons, rouge e mesmo o costume de se raspar as axilas ou fazer as sobrancelhas. No fundo, a trilogia é um panorama realista dos absurdos da história do século XX, sob o ponto de vista de uma sociedade que tentou ser comunista.

Sorokin nasceu em 1955. Sua geração produziu os movimentos de arte “underground” dos anos 1980, que anteciparam – em clima punk – o final da União Soviética. A liberdade conquistada de repente, sobre os escombros de uma velha ordem que parecia eterna, logo revelou novos problemas no ritmo frenético de uma série de crises BRICs. Protestos e processos tentaram proibir a circulação de livros (sobretudo o que trazia cena de clone de Khrushchev sodomizando clone de Stalin) ou a estreia de ópera do Teatro Bolshoi escritos por Sorokin. É o fim da história, mas não como a vitória da paz capitalista. O autor da “Trilogia do Gelo” declarou para o New York Times: “O que está acontecendo agora não é estagnação, é destruição, é colapso.” Meteoros gelados não têm poder algum: nunca mais teremos a simplicidade e o repouso da ordem.


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