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inteligência artificial antropófaga

21/10/2017

Em agosto, recebi surpreendente convite do laboratório brasileiro da IBM Research para participar de painel no seu Colloquium 2017, abordando os impactos culturais da inteligência artificial (IA) em nosso país.  Sempre me interessei por inteligência artificial, mas de forma totalmente diletante. Tive menos que dois meses para preparar minha fala. Foi uma correria. Mesmo assim, nem precisava me esforçar para encontrar material de pesquisa pois, quase que diariamente, o assunto estava nas manchetes de jornais e capas de revistas. Deixo aqui anotações que fui colecionando durante o aprendizado mais que intensivo. Como o convite era maluco (por que eu?), achei exigia uma intervenção maluca. Chegando lá – diante de seleta plateia de centenas de cientistas e engenheiros – amarelei. Fui bem comedido. Mas, aqui no blog, posso exagerar na maluquice irresponsável (ou talvez responsável demais, dependendo do ponto de vista):

No dia primeiro de setembro, Vladimir Putin proferiu uma “aula aberta” via satélite para abrir o ano letivo russo. Da lição científica presidencial, a frase mais retuitada foi a seguinte: “quem se tornar o líder nessa área [IA], dominará o mundo”. Parecia recado para seus coleguinhas, também viciados em testosterona, Donald Trump e Kim Jong-un. Como se dissesse, bancando o mais inteligente: “vocês perdem tempo brincando com mísseis, a batalha mais importante acontece em outro campo e usa outras armas…” Porém, o que mais me chamou a atenção foi algo pouco comentado nos artigos que repercutiram os ensinamentos do professor Putin: o objetivo principal da produção de conhecimento por uma nação não é algo vago como “contribuir para o aumento dos índices de felicidade geral” ou o “combate contra a injustiça” ou a “descoberta da verdade”, mas sim “dominar o mundo”. Eis o bê-a-bá do imperialismo.

Melhor deixar de lado esse tipo de especulação. Afinal, como descobrir o que realmente se passa na inteligência de Putin? Como se certificar se seus discursos não sejam apenas pistas falsas, escondendo seus verdadeiros planos de dominação global? Até porque, se há realmente uma corrida armamentista no campo da IA, a Rússia – ao que tudo indica… – não parece ocupar postos próximos aos primeiros colocados. EUA, China e talvez Índia estariam correndo na frente, quase isolados dos demais países.  O resto é o resto.

E o Brasil estaria no resto do resto. O que isso significa? Está tudo – para ser – dominado por IAs que não pensam em português, que vão nos impor – sem escapatória – seus vieses culturais, suas maneiras bem específicas de classificar ou enxergar ou manipular a realidade, o mundo ao redor? Penso na IA do Google que colocou pessoas negras sob a tag “gorila”, provavelmente por, no seu processo de aprendizado, só ter lidado com seres humanos brancos. Os brasileiros seremos invisíveis, meros ruídos incompreensíveis (ou insignificantes, ou desclassificados), fantasmas nas máquinas da nova ciber-ordem? A quem interessará o investimento em machine learning para tornar detectáveis nossas diferenças?

Fiquei assustado com o cenário apocalítico, mas descrito com frieza ou objetividade comercial espantosas, que aparece no artigo que Kai-fu Lee, poderoso investidor “venture” chinês (ex-diretor do Google na China), publicou este ano no New York Times. Em resumo: a corrida é entre EUA e China. A IA vai acabar com a maioria dos postos de trabalho. A única saída será alguma espécie de renda universal, com impostos sobre as empresas vencedoras. Maior problema: o que fazer com os países que não terão empresas vencedoras? Não haverá alternativa (a pregação da crença neoliberal do artigo resposta de colunista da Forbes não me deixou menos preocupado): teremos que virar colônias dos vencedores, como mercado do consumo, aceitando os quadrados ou bolhas nos quais os algoritmos de Washington ou Beijing nos colocaram.

Mais assustador ainda foi descobrir recente edição especial sobre IA da revista Science e tomar conhecimento do trabalho do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia (comandado pelo psicólogo superstar Martin Seligman) com algoritmos para identificar sinais de depressão e outros problemas bem humanos nas redes sociais. Tudo bem intencionado. Um dos projetos se chama Bem-estar Mundial. Não quero ser ranzinza e alertar apenas para os problemas éticos óbvios, que todos os “papers” assinados pelos pesquisadores dessa instituição fazem questão de identificar com alertas: nossa saúde mental vai ser agora diagnosticada sem nossa autorização? Esse é somente uma característica de nossa realidade big brother/data cada vez mais sofisticada. Questão mais sutil: que diagnóstico será esse? Sabemos que culturas diferentes classificam estados mentais de maneiras distintas. Depressão em distantes bairros de uma mesma cidade pode não significar a mesma coisa. Vamos aceitar os laudos de algoritmos, mesmo com vieses “positivos”, feitos na Pensilvânia?

Sei que não sou a primeira pessoa me preocupar com esses aspectos da dominação global da IA. Há importantes debates e instituições nos EUA que tentam encontrar saídas para vários desses impasses. Cito a FATML.org, que cuida de “fairness, accountability and transparency” (prefiro não traduzir, pois são conceitos – até eles – que funcionam melhor em inglês) em processos de machine learning. Ou a diversity.ai, que lida com “inclusion, balance, neutrality”. Muitas empresas, como a Autodesk, criam departamentos para combater várias espécies de vieses. Tudo bem, tentam fazer sua parte. Mas qual a nossa parte? Seremos apenas espectadores, mendigando por algumas migalhas de atenção para nossas especificidades culturais, ou queremos ter voz ativa na invenção da nova política global? Nem espero tanta atividade: uma pequena intervenção realmente original nesta conversa já me deixaria menos desanimado.

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Tudo bem, muito o que se fala atualmente sobre IA é hype. Mas o hype geralmente cria as tais “janelas de oportunidade” que podem ser aproveitadas por quem está de fora do debate principal, usando a confusão blá-blá-blá geral para dar pitaco na conversa para a qual não fomos chamados. Na minha opinião o Brasil perdeu a oportunidade da internet. Não inventamos um aplicativo original para o uso da Grande Rede, como o Skype criado por estonianos, suecos e dinamarqueses (mas talvez seja o único exemplo de algo que realmente se internacionalizou – junto ao Waze? – vindo de fora dos EUA… e que acabou sendo comprado pela Microsoft). Nem criamos versões locais de ferramentas globais capazes de em seguida terem impacto no resto do mundo, como os chineses conseguiram com o Alibaba ou o Baidu. Os brasileiros se contentaram basicamente com o papel de consumidores vorazes das novidades, campeões ou vice-campeões em uso de redes sociais, publicação de vídeos, números de mensagens instantâneas trocadas… Nosso comportamento foi cada vez mais adquirindo o padrão de servidão voluntária diante de grandes corporações como Facebook. Trocamos a liberdade do código aberto (ou da noção de que a informação quer ser livre) por condomínios fechados administrados por empresas cada vez mais espertas no uso e na venda de nossos dados privados. Desconfio que quando falam em desenvolvimento nacional, grande parte dos brasileiros (inclusive dos economistas brasileiros) está pensando apenas na compra de camisetas da Abercrombie via Amazon. E todos ficam felizes com os mesmos uniformes aparentemente cosmopolitas, ou descaradamente submissos.

Meu consolo: pode existir algo criativamente predatório nessa tendência apenas consumista. Muitos estudos e artigos (por exemplo este aqui) sobre os trabalhos em vias de desaparecer por causa da IA profetizam que as juventudes das periferias pobres serão as parcelas da população mais prejudicadas quando operários ou pessoal administrativo forem substituídos por computadores. Habilidades mais sofisticadas, ou menos “algoritmizáveis”, como a comunicação, seriam monopolizadas por gente mais rica, estudantes de MBAs caros. Olhando para o que aconteceu no Brasil, sinto alívio em descobrir furos interessantes nessa tese. Novos comunicadores das periferias parecem ser os mais bem sucedidos criadores de conteúdo online no país.

Pense no Whindersson, que apareceu recentemente no topo da lista dos maiores influenciadores do Brasil, acima de apresentadores e atores da “mídia tradicional”. Ele foi criado em Bom Jesus, interior do Piauí, e hoje lota estádios de todas as capitais brasileiras com seu show solo de comédia stand-up. Observe atentamente a plateia da gravação de seu DVD em Salvador: em sua maioria parece ser formada por gente que não costuma frequentar teatro, uma novidade no show business brasileiro. Está ali para ouvir um monólogo que mistura observações de cultura tradicional nordestina com cultura pop de jogos eletrônicos e mangás japoneses, um mash-up de referências que são sempre pensadas, em ambientes acadêmicos, como mundos sem conexão.

Outro exemplo importante: Kondzilla é hoje um dos principais empresários de música e audiovisual no país. Seu canal no YouTube tem mais de 20 milhões de assinantes. O conjunto de vídeos ali publicados já acumulou mais de 7 bilhões de visualizações. Nenhuma outra empresa da mídia brasileira tem o mesmo tipo de sucesso online, construído na marra, inventando estratégias de viralização originais. Kondzilla tinha apenas 18 anos quando, com o dinheiro do seguro recebido após o falecimento de sua mãe, comprou sua primeira câmera de vídeo e começou a publicar clipes de MCs do funk santista e paulistano na internet. Vários outros fenômenos das periferias das grandes cidades brasileiras, do tecnobrega paraense ao sertanejo do Centro-Oeste, tiveram trajetórias semelhantes, abrindo caminhos em nova realidade diante da qual grandes gravadoras fracassaram.

Mas claro: tudo isso acontece utilizando plataformas de novas grandes corporações, em nuvens que não habitam céus brasileiros. Continuamos totalmente dependentes de tecnologia estrangeira para estabelecer links entre produtores e público.

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Também considero tímidas as tentativas de reflexão crítica sobre essa situação por parte das ciências sociais brasileiras. Há esforços isolados, aqui e ali. Pouca continuidade entre as tentativas, que surgem e desaparecem ao sabor de mudanças das políticas científicas e institucionais.

Em 1995, fui convocado por Tadao Takahashi, então diretor da RNP (a instituição que criou a – e ainda cuida da – espinha dorsal da internet brasileira, na época com sede carioca numa sala de fundos do IMPA), para organizar seminário “sobre aspectos sócio-culturais da internet no Brasil”. Chamei meus colegas antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Jayme Aranha Filho para me ajudar na tarefa. Eram tempos bem “ingênuos”: não havia ainda internet comercial no país. Para quem não era de universidade e governo, a única porta de entrada para a rede era uma ONG, o Ibase. A RNP imaginava que haveria tempo para planejar qual seria a melhor maneira da abertura comercial. O seminário aconteceu nos dias 28 e 29 de agosto daquele ano, no auditório do LNCC. Pouco tempo depois, o ministro Sérgio Motta autorizava a criação de provedores, que gerou um boom (a internet era o único futuro para tudo) que não deu muito em nada.

Se não fosse o esforço pessoal do Jayme Aranha Filho provavelmente o material do seminário estaria perdido. Os anais podem ser lidos neste link e retratam tentativa de estabelecimento de diálogo entre cientistas sociais e “das exatas” que não teve sequência realmente consistente e profunda, mas que agora em tempos de IA deveria ser considerado prioritário.

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Sou antropólogo. Os antropólogos são seres estranhos, escolheram trabalhar não com big data, mas com small data: nosso método principal de pesquisa é o “trabalho de campo”, imersão por período longo de tempo na vida cotidiana de um grupo pequeno de pessoas, mesmo quando estudamos em grandes cidades, com suas culturas complexas e heterogêneas. O contato face a face é a ferramenta principal para nossas melhores descobertas. Obviamente um olhar big data pode nos ajudar em várias tarefas (até porque podemos pensar a cultura como a primeira inteligência artificial) – um dos aspectos mais fecundos da reflexão antropológica vem de seu pendor comparativo, quando estabelecemos conexões entre costumes de muitas culturas diferentes (fico imaginando se a IA ajudaria Lévi-Strauss na investigação sobre seus mitemas). Porém, é preciso desconfiar de gente que tenta nos vender a ideia de que tudo agora será resolvido com machine learning.

Aprendi a cultivar essa desconfiança com um sociólogo, para muitos o maior sociólogo americano vivo. Tive a enorme sorte, a partir da apresentação de Gilberto Velho, de ter Howard S. Becker como orientador no ano que passei com bolsa sanduíche na Northwestern University, entre os créditos e a defesa de tese do meu doutorado. Howie, como exige ser chamado pelos estudantes, se tornou um de meus principais interlocutores para conversas nas quais o tema principal era tecnologia, pois sempre esteve atento aos avanços de várias áreas ciberculturais, como comprova o texto pioneiro que escreveu sobre o hipertexto (e sua amizade com Michael Joyce) ou o outro sobre novas mídias e a web.

Quando cheguei na Northwestern, fiz, com Howie e o saudoso Dwight Conquergood, um curso sobre performance e ciências sociais. Não era teoria: em todas as aulas tínhamos que fazer performances artísticas baseadas em textos de sociologia e antropologia. Mas ele insistiu que eu me inscrevesse também no curso do professor Charles Ragin, que envolvia estatística pesada (hoje o trabalho de Ragin é bem conhecido pelo uso inovador que faz dos “fuzzy sets“, que também têm aplicações bem curiosas no campo da IA). Portanto, não pensei duas vezes antes de mandar para o Howie, em 2008, um dos primeiros artigos que li sobre pesquisas big data nas ciências sociais.

Eu tinha ficado empolgado com a abertura de novas possibilidades para nosso trabalho. Achei que meu orientador americano, hipster de 80 anos, vibraria também. A primeira mensagem de volta, sempre recebida com rapidez impressionante, foi uma ducha de água gelada. Howie dizia que não tínhamos conjuntos de dados massivos sobre as coisas que realmente nos interessam pesquisar. O exemplo que me deu era sobre o livro que estava escrevendo na época, em parceria com Robert Faulkner, que agora já foi publicado como “Do you know…?“, sobre como músicos que nunca antes trabalharam juntos decidem repertórios para tocar na noite ou em festas. Não há banco de dados com todas as música tocadas nessas ocasiões. Não interessa a ninguém e seria muito caro criar esses bancos de dados.

Insisti, maravilhado com a riqueza dos outros bancos de dados que estariam sendo formados a partir da interação de milhões de pessoas nas redes sociais então nascentes. Cito a resposta quase completa (pedi autorização, era apenas um email pessoal) para não ser infiel a nenhuma sutileza do argumento (palavras para mim fundamentais não apenas para cientistas sociais, mas para qualquer uso de big data):

I’m always a little (more than a little, really) suspicious when someone tells me about a way to find out all the things that fieldworkers are really interested without having to do all the work that it usually requires. In this case, everyone (not just you!) is telling me that I don’t have to do anything, the internet and social networking sites and so forth are more or less automatically accumulating mountains of information about all the things I’m interested in and it’s there for the taking. There’s usually a catch in all this, which is that there’s data about some things and not about others, and it’s only human to say to yourself, “Well, I might as well look at what’s available and see what we can do with that,” instead of saying, “Here’s what I’d like to know about, does this material tell me about that or not?”

To take what’s on my mind right now, which is the repertoire, the songs musicians play when they get on the bandstand, let’s even imagine that some site would accumulate information about all the music that anyone, anywhere, anytime is playing and has played, and who played it and in what kind of setting, etc. What would still be missing is the interchange among the players that led to them playing just those songs, and that’s the part that we’re convinced is crucial. The rest is interesting, nice and even helpful to know. But what tells the story decisively is what they talk about as they negotiate things.

Claro, há sempre a possibilidade – digamos que não temos mais custos de armazenamento – de gravar em vídeo 3D ou traquitana semelhante todas as negociações. Mas – e aqui eu Hermano acrescento – isso seria como o mapa de Borges, que fica inútil por ser do tamanho do território, ser uma cópia exata do território que queríamos representar. Teríamos que enviar antropólogos para fazer trabalho de campo nessa “second life” (antes que vire cartografia despedaçada, apodrecendo no “deserto do real”). Ou ensinar uma IA a ter olhar antropológico e mesmo os anthropological blues de Roberto da Matta. É isso realmente o que queremos? Podemos criar também IAs antropólogas brasileiras?

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Há uma maneira brasileira de pensar? Conseguiríamos aqui construir uma inteligência artificial realmente outra, alienígena para padrões dominantes, ou fora do projeto Putin de dominação mundial? O Brasil não acabou? Por que insisto nessa ideia de que o Brasil tem algo de original para propor para o mundo? A realidade recente toda não me contradiz?

Sou insistente, repetitivo, não consigo sair desse loop… Quando Cláudio Pinhanez me convidou para o colóquio da IBM brinquei com ele: temos que inventar uma inteligência artificial antropófaga, ou tropicalista. Lembrei os aforismos do Manifesto de Oswald: “nunca fomos catequisados, fizemos foi o carnaval”. E o carnaval é sim uma outra forma de inteligência, bem artificial. Mais um aforismo, este mais adequado ao tema em questão: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. Há inteligência artificial ilógica? Outra lembrança: admitimos sim, entre nós, o nascimento da lógica paraconsistente de Newton da Costa, e que poderia nos guiar no caminho para uma IA brasileira ambígua, não entre o sim e o não, mas acreditando piamente no sim e no não, tudo ao mesmo tempo agora, uma outra lógica talvez também chinesa (lembremos que – como Gilberto Freyre sonhava – o Brasil é a China Tropical).Uma IA que talvez nos ensine a lidar com a mistura não apenas como entropia, e sim como um sinal de que nada é puro. Pensar a bagunça, na bagunça – isso não deveria ser considerado tarefa impossível para seres inteligentes.

Outro caminho: fazer a IA virar escritora fan fiction de Guimarães Rosa (via também Eduardo Viveiros de Castro) se metamorfoseando em IA onça, não humana. Gosto da ideia de Close AIs e Far AIs. Quanto mais longe a gente conseguir ir, melhor, mais surpresas. Ir além de Wittgenstein: se um leão falar, vamos dar um jeito de entender o que ele diz. Remixagem xamânica de “formas de vida”, algumas naturais  (mas nem todas humanas), outras artificiais. Navegando contra a (in)sensatez de John Searle, seguindo trilha multinaturalista: pensamento é um só, corpo e perceptos/afectos são múltiplos. Ou não. Vamos descobrir. Ou não tão longe: que tal uma IA que fale as quase 200 línguas indígenas ainda vivas no Brasil? Sei que as IAs ainda engatinham no português. Mas por que se contentar com pouco?

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Durante o período em que fazia pesquisa em busca do que falar no colóquio da IBM, ouvi – como faço religiosamente – vários episódios do podcast do meu amigo Erik Davis. Foi assim que descobri o pensamento de Ken Goldberg. Não parei mais de devorar, como uma onça, suas ideias, que saio por aí replicando memeticamente. O texto que escreveu para o Wall Street Journal é um bom resumo. Gosto especialmente – eu empenhado deleuziano – de sua ordem para esquecermos a Singularidade e pensarmos a multiplicidade. Não um algoritmo único no final da História. mas um enxame de sistemas cognitivos, baseados em uma matilha de modelos diferentes, junto com humanos e outras formas de vida, não guerreando pela dominação total/mundial, mas estabelecendo múltiplas formas de colaboração entre si.

Assim, guiado por Ken Goldberg, cheguei ao conceito (já patenteado!) de random forest, ou florestas randômicas (explicação simples neste podcast). Tudo por aí me atraí, e tento juntar com o que acho interessante quando penso em IAs brasileiras: não um monólito 2001, copiado igual em todo o universo, mas um conjunto fuzzy de fragmentos muito diversos, cada um com sua experiência, e a soma das experiências produzindo um carnaval, ou carnavais. Mandei o artigo do Ken Goldberg para o Eduardo Viveiros de Castro. Ele me respondeu, sintético e preciso: “Sobretudo temos de colocar a floresta literal nesta multiplicidade… Fazer o salto, da Amazon à Amazônia…”

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Minhas melhores descobertas de livros não acontecem com o uso dos algoritmos da Amazon. Foi numa estante de livraria tradicional que encontrei “La France contre les robots” de Georges Bernanos. Contém textos escritos por volta de 1945, quando estava exilado no Brasil, cuidando de uma fazenda em Barbacena. Fiquei fascinado, imaginando Bernanos no seu cavalo, indo todo dia da fazenda para um café na cidade, onde escrevia em francês seus sermões desancando os imbecis. Digo isso como introdução pitoresca para citar um trecho que agora, com a IA, faz novo sentido: “O perigo não está nas máquinas, senão deveríamos realizar o sonho absurdo de destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, espatifando as imagens, pensavam aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número incessantemente crescente de homens habituados, desde sua infância, a desejar apenas aquilo que as máquinas podem dar.”

Lembrei-me então de outro europeu aqui exilado, o português Agostinho da Silva, em suas entrevistas publicadas no livro “Vida conversável”, que é um dos meus favoritos, sempre na cabeceira. Não era contra as máquinas. Achava que deveríamos prestar homenagens ao parque industrial que pode contribuir para a “libertação do homem”, se bem utilizado. Acreditava que a economia global já produz o suficiente para um regime de renda universal, onde só trabalharia quem quiser e gostar daquele trabalho específico. Mas o professor Agostinho da Silva escreveu o seguinte: “Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.”

Então com essa mistura improvável de Georges Bernanos com Agostinho da Silva ficam aqui minhas sugestões para um projeto realmente original de IA brasileira: vamos imaginar outros desejos, múltiplos? E outras máquinas que nos presenteiem com o imprevisível? Máquinas que produzam as transformações desejadas por Gilberto Gil em “Cibernética“, canção dos anos 1970:

Onde lia-se alfândega leia-se pândega
Onde lia-se lei leia-se lá-lá-lá

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Sergei Paradjanov

04/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/04/2015

Sergei Paradjanov era considerado pessoa muito perigosa pelas autoridades soviéticas. Se vivesse na Rússia de hoje, provavelmente seria tratado da mesma maneira. Os regimes mudam, mas questões de fundo – como o nacionalismo dos povos que um dia formaram a URSS – permanecem sem solução. Há 50 anos, a première em Kiev de um de seus filmes, “As sombra dos antepassados esquecidos”, virou ocasião de protesto dissidente contra as prisões que as autoridades de Moscou decretavam contra intelectuais e artistas ucranianos. O lançamento quase não aconteceu porque seu diretor não aceitava a obrigação de ter que dublar seus diálogos em russo. Não preciso lembrar que antigos conflitos entre russos e ucranianos ganham hoje aterrorizante atualidade, reencenando uma Guerra Fria para muito além do antagonismo entre capitalistas e comunistas.

O protesto de 1965 foi protagonizado por Ivan Dziuba, autor de ensaio que denunciava o internacionalismo comunista oficial como máscara para a “russificação” de todos os povos da URSS, destruindo sua diversidade cultural. Paradjanov se tornou um nacionalista ucraniano honorário, mesmo sem ter nacionalidade ou antepassados ucranianos. Sua origem familiar era armênia, mas de armênios que viviam na Geórgia. Talvez seja mais acurado defini-lo como “transcaucasiano”, com referências estéticas e filosóficas produzidas naquela fascinante região do planeta (onde hoje fica a Geórgia, a Armênia e o Azerbaidjão), situada sempre “entre” – entre os impérios persa, turco e russo; entre o cristianismo e o islamismo; entre a Europa e a Ásia etc. – e formando identidades peculiares a partir de todas essas influências. A cadeia montanhosa da Cáucaso marca sua paisagem e cria visão de longo alcance. Paradjanov nunca foi artista de mundo pequeno. Sua primeira obra de sucesso foi justamente a que serviu de mote para o protesto nacionalista “alheio”, filmado em território da “tribo” Hutsul, tida como a essência da cultura da Ucrânia. Talvez só quem viva “entre” possa entender o que é estar plenamente “dentro”, sem ficar prisioneiro de nada. (Paradjanov ficou realmente encarcerado vários anos, a partir de acusações vagas, incluindo homossexualismo que era crime na URSS, o que o levou a dar a seguinte resposta quando Tarkovski lhe perguntou o que deveria fazer para ser melhor cineasta: passar uma temporada numa cadeia soviética de segurança máxima.)

Só depois de ir para “fora”, para o coração da Ucrânia, é que Paradjanov parece ter conseguido forças para mergulhar de volta em ambiente transcaucasiano. “A cor da romã” é seu filme armênio; “A lenda da fortaleza Surami”, georgiano; “Ashib-Kerib”, azeri (a nacionalidade do Azerbaidjão). Acho que o único lançado em DVD no Brasil é “A cor da romã” (coleção Lume Clássicos). Não tenho dúvida de que é uma das criações mais deslumbrantes/ousadas da história do cinema, e que ganha ainda mais densidade em 2015, cem anos depois do início do genocídio armênio.

“A cor da romã” foi produzido para revelar as fontes que nutriram a poesia de Sayat-Nova, trovador medieval armênio, mas que, como bom transcaucasiano (ou mesmo inventor de algo que poderia ser chamado de “transcaucasianidade”) sempre circulou bem igualmente entre tradições azeris e georgianas (e ao que tudo indica morreu em Tbilisi, durante ataque de tropas persas). Não é nem de longe uma biografia linear. E também, mesmo contendo tanto “folclore”, não é nada tradicionalista. Eu diria que não pode haver filme mais modernista, no sentido mais vanguarda contido na “orientação” moderna. A tradição – e o mais belo da arte popular armênia, com objetos autênticos – é plataforma para invenção de um presente “futurível”, com técnicas de edição desorientadoras, com cortes realmente radicais, fazendo a ponte entre Meliès e o videoclipe que ninguém ainda tinha visto. Poderia ser descrito como a antropofagia transcaucasiana do rigor do mais importante cinema russo.

Elemento fundamental em “A cor da romã” é a música. Quase não há fala: cada imagem é acompanhada por sons de instrumentos tradicionais como o “duduk” (viva Djivan Gasparian!), cantos religiosos, composições do próprio Satya-Nova e “field recordings” de várias procedências. O mais inovador é a maneira como isso tudo é editado, bem “cut-and-paste”. O compositor Tigran Mansurian reconhece sua dívida com, ao mesmo tempo, músicos concretos como Pierre Henry e a etnomusicologia pioneira de Komitas, realizador das “missões folclóricas” no Cáucaso e que acabou sua vida como vítima trágica do genocídio armênio. “A cor da romã”, como objeto de arte, aponta o caminho para o combate contra a intolerância, em nome da beleza e da liberdade.

 

valores russos

25/10/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/10/2014

 

Quando tudo está confuso, e as pessoas ao redor parecem vítimas de crise histérica, muitas vezes vale a pena observar uma situação onde a confusão parece maior. Nossos miolos recebem tratamento de choque de atrapalhação e talvez daí possa surgir alguma lucidez, ou apenas momento de distração. Tenho pensado muito na Rússia ultimamente. Talvez influenciado por visitas às livrarias onde sempre encontro, entre os lançamentos, títulos como “Antologia do pensamento crítico russo” (Editora 34), organizado por Bruno Barreto Gomide, ou “Lições de literatura russa” (Três Estrelas), de Vladimir Nabokov, lembrando-nos que os russos, como os brasileiros, também sofrem com debates intermináveis sobre a identidade de seus “grotões”. As leituras mais “abstratas” são acompanhadas por outras bem mais “práticas”, em jornais que, desde a “reintegração” da Crimeia, e agora com o impasse ucraniano, assustam um Ocidente que pensava ter vencido o Kremlin com a queda do Muro de Berlim.

Salvo engano, o nome Vladimir Putin só apareceu nesta coluna uma vez, quando fiz comentários sobre o filme “Fausto”, de Sokurov. Citei declaração do produtor Andrey Sigle revelando como o apoio de Putin foi fundamental para o filme ser financiado com oito milhões de euros. Era 2008, final do seu segundo mandato como presidente, logo assumindo cargo de primeiro ministro. Tempos bem diferentes dos atuais. O desenvolvimento econômico criou uma enorme classe média que se imaginava cosmopolita, tanto em termos de ideias quanto de consumo, e podia conduzir suas vidas privadas sem controle rígido de patrulhas ideológicas.

O apoio de Putin para um filme de vanguarda, falado em alemão, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, mostrava uma abertura maior para o culturalmente arriscado, com o objetivo explícito de aproximação com a Europa. As palavras de Sigle: “O filme é um grande projeto cultural russo e para Putin isso é muito importante. Ele o vê como um filme que pode introduzir a mentalidade russa na cultura europeia; promover a integração entre as culturas russa e europeia. A Rússia não é apenas uma potência militar ou uma potência do petróleo e do gás, ela tem uma enorme herança cultural e o filme pode ajudar o povo europeu a enxergar melhor o rosto da Rússia.”

Esse projeto tinha raízes pessoais mais antigas. Putin passou cinco anos como agente da KGB na Alemanha do Leste. Voltou para a então Leningrado no momento em que a Alemanha reunida virava membro da Otan, fato encarado como uma vitória do Ocidente. Em entrevista dez anos depois, ele deixou transparecer a amargura ao lembrar de como “a União Soviética perdeu sua posição na Europa.” Nos seus dois primeiros mandatos como presidente parecia, como mostrou com “Fausto”, batalhar pela reconexão. Porém, a geopolítica planetária e a conjuntura interna russa mudaram muito desde 2008.

Crise econômica mundial. A Otan namorando com a Ucrânia (quase considerando a Rússia como periferia sem importância). As sanções econômicas da Europa e dos Estados Unidos contra empresas de amigos do Kremlin. A classe média nas ruas e a Pussy Riot na igreja contra sua decisão de concorrer por um terceiro mandato para a presidência (em 2012). Putin deve ter se sentido traído, humilhado. Sua reação tem sido se aproximar de movimentos ideológicos que tentam reconstruir os ideais de uma “Rússia Profunda” independente do Ocidente, muito ligados a um lado mais místico (e ao mesmo tempo pragmático) da Igreja Ortodoxa, que vive novo esplendor depois do fim do regime comunista (Putin foi batizado escondido, pois sua mãe era devota clandestina). Tanto que as integrantes do Pussy Riot cantaram que o patriarca ortodoxo “acredita em Putin e não em Deus” – e por isso foram presas por “vandalismo em grupo organizado animado por ódio religioso.”

David Remnick, em artigo na New Yorker sobre o “Putin imperial” (mas que trata até mais das improvisações da diplomacia dos EUA), fala de rumores que apontam Tikhon Shevkunov, sacerdote do mosteiro Sretensky (localizado quase ao lado do quartel-general da KGB), como conselheiro espiritual do presidente. Shevkunov apresentou e produziu um docudrama para a TV estatal chamado “A destruição de um império: a lição de Bizâncio”. O Ocidente, e não os turcos otomanos, foi responsável pela queda de Constantinopla em 1453. O Ocidente continuaria a ser o grande inimigo dos “valores tradicionais russos”.

Como cantou Cazuza ou escreveu Hobsbawn, nossos amores e nossas tradições “a gente inventa”. E reinventa o tempo todo. Por isso é bom ler, daqui do Brasil, Tolstoi (sobre crianças camponesas) ou Nabokov (sobre os filisteus), para buscar no perigo dos outros nossa salvação.

meteoros

09/03/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/03/2013

Vladimir Sorokin já foi chamado de Quentin Tarantino ou Marquês de Sade da literatura russa contemporânea. Prefiro chamá-lo de Fausto Fawcett de Moscou menos 40 graus. Quem me conhece sabe não tenho elogio melhor. Outras pessoas, menos exaltadas, decretam apenas que ele será o próximo Roberto Bolaño (isto é: obrigatório em rodas intelectuais chiques, assim como um caramelo com flor de sal). Os sinais de sua iminente celebridade global são claros. Em 2011, foi “escritor em residência” em Stanford. Este ano, concorre para o Man Booker International Prize que será anunciado dia 22 de maio, em jantar no museu Victoria & Albert, Londres.

Mas não foi instinto cool hunter que me levou a escrever agora sobre sua obra. O impulso veio de acontecimento pouco literário: a queda do meteoro sobre Chelyabinsk. Quando vi a fotografia do buraco na crosta de gelo do lago da região, aberto provavelmente por fragmento da estrela cadente, fiquei assustado: era imagem exatamente igual a que se formou em minha mente ao ler “Trilogia do Gelo”, de Sorokin. A farsa ficcional se repete em tragédia real?

“Trilogia do Gelo”, por sua vez, começa com a enorme explosão que ocorreu perto do rio Podkamennaya Tunguska, na Sibéria, em 1908 – e ficou conhecida como o “evento Tungus”, mote para tanta piração quanto o “incidente de Roswell”. Tem gente que acredita foi uma espaçonave alienígena que explodiu no ar. “Bro”, o primeiro livro da “Trilogia do Gelo” começa justamente com o efeito longínquo do “evento Tungus” no parto prematuro de Alexander Snegirev, em fazenda perto de São Peterburgo. Alexander, quando entra em contato com o Gelo, aprende que seu nome verdadeiro é Bro.

A trilogia, como outros livros de Sorokin, tem nível de bizarrice também explosivo. O meteoro seria uma grande bola de gelo que ficou escondida no fundo de lago siberiano. Bro descobre sua localização e utilidade: pedaços do Gelo acoplados a tiras de carne de cachorro viram martelos capazes de acordar os corações das 23 mil pessoas louras e de olhos azuis que formam a Irmandade da Luz Primordial, incumbida de preparar a destruição da Terra, cuja criação – com água instável, no lugar da ordem do Gelo – foi um grande erro e constitui anomalia maligna que, se não extirpada, vai acabar com a harmonia do resto do universo.

Olga Drobot, personagem decisiva no final da trilogia, pergunta se a Terra, por ser única, não é um milagre. Seu amigo alemão Ernest Wolf (que antes já tinha descrito a Rússia como um “buraco metafísico”) lhe responde com calma: “Milagres são anomalias, Olga. E qualquer anomalia é uma violação do equilíbrio, uma destruição da ordem. Uma linha reta pode ser traçada entre dois pontos, através de três, através de trinta e três. Mas não há sentido em traçar uma reta com um só ponto. Porque um ponto é só um ponto. Não é um caminho.”

É preciso suportar essa paródia séria, e muitas vezes irritante, de literatura new age, para atravessar as 694 páginas da trilogia. Há também debate na crítica russa sobre a especificidade da escrita de Sorokin: é uma volta ao absurdo? Tendo a concordar com outro partido, o que fala da volta do realismo, e de uma narrativa linear, depois das experimentações mais tipicamente pós-modernas dos seus primeiros livros. Tudo, mesmo os martelos de Gelo absurdos, são descritos com naturalidade, como se fossem as coisas mais normais do mundo, tão corriqueiras quanto um cachorro chamado Fidel (ou um poodle Arto), um executivo que usa isqueiro Gucci e só escuta Leonard Cohen, ou poster stalinista “Mulheres Soviéticas, Luta contra Preconceitos Burgueses” condenando manicures, batons, rouge e mesmo o costume de se raspar as axilas ou fazer as sobrancelhas. No fundo, a trilogia é um panorama realista dos absurdos da história do século XX, sob o ponto de vista de uma sociedade que tentou ser comunista.

Sorokin nasceu em 1955. Sua geração produziu os movimentos de arte “underground” dos anos 1980, que anteciparam – em clima punk – o final da União Soviética. A liberdade conquistada de repente, sobre os escombros de uma velha ordem que parecia eterna, logo revelou novos problemas no ritmo frenético de uma série de crises BRICs. Protestos e processos tentaram proibir a circulação de livros (sobretudo o que trazia cena de clone de Khrushchev sodomizando clone de Stalin) ou a estreia de ópera do Teatro Bolshoi escritos por Sorokin. É o fim da história, mas não como a vitória da paz capitalista. O autor da “Trilogia do Gelo” declarou para o New York Times: “O que está acontecendo agora não é estagnação, é destruição, é colapso.” Meteoros gelados não têm poder algum: nunca mais teremos a simplicidade e o repouso da ordem.


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