Radio Garden e outros jardins

Escrevi o PS do post anterior para declarar meu amor pela música sudanesa e pelo Radio Garden, uma das coisas mais bonítas e incríveis que há na internet. É projeto inicialmente financiado por instituto holandês, também museu, encarregado, entre outras atividades, de cuidar do acervo audiovisual do país. Foi desenvolvido por dois estúdios de design interativo/experimental, o Studio Puckey e o Moniker (vale conhecer seus outros projetos). Adoro passear no Radio Garden. Procuro sempre transmissões de cidades do interior de países que não conheço. Ou clico por acaso em qualquer dos pontinhos verdes que iluminam a face radiofônica do mundo.

Que privilégio ter acesso a tanta coisa de maneira tão fácil, prática e bela. As novas gerações não devem ter noção de como tudo isso era inviável antes. Na adolescência eu explorava ondas curtas (ainda existem? não tenho mais aparelho para checar…) apenas para ouvir linguas diferentes, ou os programas de música africana apresentados pelo BBC World Service ou pela Voice of America. Mas a qualidade sonora era péssima, dependia até de haver nuvens ou não no céu. Agora tudo está disponível de forma clara e abundante.

Estranho muito esta situação: apesar da facilidade e da abundância, a maioria das pessoas continua com um consumo de música (e informação em geral) restrito, como se habitasse num mundo ainda regido pela escassez. Os streamings da vida são dominados por um punhado meio óbvio de celebridades. Parece o mundo “de antes”. Sem aventuras fora de quadrados geradores de claustrofobia. Talvez seja necessidade de ouvir e comentar o que “todo mundo” está ouvindo e comentando. E não importa as músicas ouvidas e comentadas, e sim a conversa sobre aquilo que se ouve e comenta. Mas sinto também que a própria produção artística não descobriu ainda estratégias para digerir bem este acesso facilitado a informações tão diversas. As “referências” continuam as de sempre. Não conheço, por exemplo, músicos brasileiros mixando novidades encontradas na Love FM de Phnom Pehn ou na Chuchu FM de Zanzibar.

Mas talvez seja inevitável que isso ainda acabe acontecendo. Essas possibilidades são recentes, nem nos tocamos de que estão disponíveis, ou não incorporamos suas vantagens em nossas práticas criativas, que permanecem focalizadas em poucas instâncias de consagração.

Alguém precisa criar jardins para outras áreas. Penso em como seria útil uma ferramenta como Radio Garden para facilitar nossas descobertas de cursos gratuitos sobre os mais diversos assuntos. Com recomendações sobre melhores aulas e mestres etc. (que não precisam ficar confinados à Ivy League – bom aprender também com professoras(es) de Fiji ou do Mali). Já há abundância para todas as disciplinas. Exemplo: tenho acompanhado o curso Inteligência artificial para todos ministrado por três valentes professores(as) ligados ao laboratório Aria da UFPB. Fiquei ainda mais orgulhoso de ser paraibano quando assisti à aula-conversa com Marianne Linhares, jovem engenheira da Deep Mind em Londres. Que trajetória impressionante e inspiradora, que simpatia e inteligência. Exemplo das maravilhas que a educação das universidades públicas brasileiras consegue produzir na marra, mesmo longe dos “centros” do país. Mas falo de Marianne Linhares neste post pois reparei bem que ao citar os cursos mais importantes de sua formação mistura aulas presenciais com aulas online, recomendando material disponível gratuitamente na internet como o melhor caminho para aprender machine learning.

Tudo isso precisa ser conhecido e aproveitado melhor. Por muito mais gente.

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