Rita Indiana

No twitter do Bani Haykal (ver post anterior) descobri link para esta matéria descrevendo as atividades do Spot, robô quadrúpede da Boston Dynamics, lembrando as regras de distanciamento social para humanos. A notícia me fez ter outra lembrança: os “coletores” que aparecem nas primeiras páginas de La mucama de Omicunlé (traduzido para inglês e outras línguas como Tentáculo), livro que Rita Indiana publicou em 2015. Cenário: houve uma catástrofe militar-ecológica no Caribe (não fica claro se atingiu o planeta inteiro), toda vida marinha foi extinta. Haitianos com vírus, para fugir da quarentena de seu país, cruzam a fronteira da República Dominicana e, quando identificados pelos sistemas de vigilância, são bombardeados por gás letal e depois seus corpos são recolhidos e desintegrados pelos robôs patrulhas, os coletores.

O livro, maravilhoso, é um tsunami de ideias como essas. Tudo passa rápido, como em obra de Fausto Fawcett. Não voltamos mais a ouvir falar nem no vírus, nem na quarentena haitiana, nem nos coletores nas outras cento e tantas páginas. Não há tempo para sentir falta pois temos que lidar curadores cubanos, viagens no tempo para quando o Caribe era ocupado por piratas, músicas de Giorgio Moroder, ou até uma carta de Lydia Cabrera para Pierre Verger. Tudo isso numa República Dominicana controlada por um ditador ex-dançarino de break, que decreta uma mistura de vodu/santeria como religião oficial (ainda outra lembrança: o candomblé na ficção científica – também de certa forma caribenha, via Lezama Lima – de Guilherme Kujawski), fazendo que alguns grupos evangélicos se transformem em células terroristas.

Rita Indiana tem uma das imaginações mais espantosas da cultura contemporânea. Faz de tudo um pouco. Além dos livros, que apresentam sempre uma combinação muito original de erudição e pop, produz também discos deliciosos e desconcertantes, seguindo uma trilha pós-reggaetón-dembow, para chacoalhar quadris e cérebros. Lançou nesta quarentena Como un dragón, com vídeo que tem pinta de videogame criado por Jodorowsky, anunciando seu novo trabalho Mandinga times.

Na obra de Rita Indiana, a cultura caribenha, com toda sua fractalidade, se apresenta mais forte do que nunca.

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