Posts Tagged ‘Kevin Kelly’

blogs e colunas

03/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/03/2012

Stanley Fish é nome central na teoria literária dos EUA. Foi o criador do conceito de “comunidades interpretativas”, advogando que – vou simplificar – cada texto é interpretado de maneiras diferentes por leitores diferentes, dependendo das comunidades às quais estão vinculados. Pode parecer pós-modernismo fácil, e assim fez sucesso tremendo em congressos de estudos culturais no mundo inteiro. Fish luta contra essa interpretação de suas ideias. No primeiro texto de 2012 do seu blog, mantido pelo New York Times, ele declara – com tom sincerão usado muitas vezes para chocar intelectos pudicos – que, em seus 50 anos de carreira acadêmica, sempre buscou “construir argumentos que são decisivos, compreensivos, monumentais, definitivos e, mais importante, completamente meus.”

As palavras citadas colocam ponto final, com seriedade cruel, num primeiro parágrafo que começa engraçadinho, com Fish dizendo que sempre se refere a seu blog como coluna; por dois motivos. O primeiro é pitoresco: blog seria palavra horrenda (“como são clog, smog e slog”). O segundo motivo precisa de argumentos decisivos para ser defendido. Todo resto do texto do blog-que-quer-ser-uma-coluna (apesar de aparentemente só ser publicado on-line) tenta cumprir essa missão de forma monumental – e certamente muito original, mesmo ecoando o que muita gente tem dito por aí.

Para Fish, diferentemente dos artigos tradicionais valorizados na academia (escritos para durar para sempre, e construir carreiras estáveis), os textos dos blogs privilegiam o imediato. Os posts mais novos aparecem primeiro, os antigos somem. Além disso, há outras ferramentas desestabilizadoras na internet: a possibilidade de o texto sempre ser revisado; os links que levam a outros textos, imagens, sons e vídeos de outros autores; o espaço de comentários etc. (Um aparte: entre os blogs que acompanho, a “coluna” de Fish é a que apresenta mais alto nível de comentários, sempre centenas por post, geralmente respondidos pelo autor nos próximos textos, gerando uma produção de conhecimento coletivo – mesmo se capitaneada com pulso firme pelo dono do terreiro virtual – muito bem-sucedida.)

Essas diferenças foram também lembradas em debate entre Kevin Kelly e Nicholas Carr, cada um em seu blog. Carr, com sua conhecida antipatia com relação a tudo que tem a ver com a internet (e hoje em dia qualquer opinião anti-internet alcança muito sucesso), fez o elogio de tudo que há de fixo no livro como objeto. Quem escreveu tese acadêmica recente conhece a dificuldade de citar o que está on-line. É necessário dizer, além do endereço correto (terríveis de serem datilografados), a data em que o documento foi acessado – pois acesso no dia seguinte pode revelar algo totalmente mudado, ou mesmo inexistente. O livro não: a palavra X vai estar para sempre – enquanto o papel durar, e papel dura muito – na mesma página da mesma edição, o que contribui para um senso de completude, de trabalho acabado.

Kelly reconhece que essas são vantagens claras. O livro foi indubitavelmente uma invenção maravilhosa da humanidade. Mas se a fixidez pode ser uma dádiva em muitas situações, em tantas outras a fluidez é tudo que precisamos. No texto digital, fluido, a página pode ser lida em muitos aparelhos diferentes; a correção é fácil; o objeto pode ser armazenado na “nuvem” (onde está imune a traças); e no lugar do senso de completude, temos o senso de crescimento constante daquele conhecimento, para todos os lados, apropriado para uma infinidade de “finalidades” que não estavam nem no horizonte das preocupações dos autores “primeiros” ou “originais”.

(Parêntese um pouco maior do que aqueles que normalmente bagunçam o estilo dos meus textos: Umberto Eco, em uma das dezenas de entrevistas que concedeu para divulgar “O cemitério de Praga”, confessou já estar fazendo as pazes com a leitura em meios digitais. Ele gosta de tablets. Mas continua preferindo livros de papel, pois pode fazer anotações nas margens. Eco não deve ter descoberto o recurso de anotações que deveriam estar disponíveis em vários softwares de leitura, recurso que deve fazer a felicidade de amantes de livros para os quais rabiscos são pecados. Porém, isso é o de menos: há cada vez mais sites e softwares que facilitam a troca de comentários de leitura entre pessoas do mundo inteiro. É a leitura não mais isolada, mas compartilhada por coletivos cada vez maiores.)

Stanley Fish, no texto do blog citado acima,  identifica duas características principais da militância pró-fluidez. A primeira é a mais óbvia: seu lado político, de ataque à autoridade do texto fixo e, por conseguinte, do seu autor e todo o aparato institucional que mantém “eruditos separados de eruditos, leitores separados tanto da criação quanto do consumo de significado, e homens e mulheres comuns separados da maquinaria de produção do conhecimento […] e de outros motores dedicados à manutenção do status quo.” Isso todo mundo já ouviu falar.

A segunda característica é que me parece mais interessante: Fish aponta o fundamento teológico que move o maremoto de bits da internet. Contra a linearidade, a cultura digital propõe uma visão da realidade onde, como canta Fausto Fawcett (na sua música “Drops de Istambul”), dissolvemos nossos egos na matéria em movimento, onde tudo está conectado com tudo, onde o todo é o Um e atingimos o nirvana. Estamos bem longe do direito autoral? Semana que vem tentarei voltar ao planeta Terra.

Kevin Kelly

28/06/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17-06-2011

Kevin Kelly fará 60 anos em 2012. Fiquei surpreso ao descobrir sua idade. Até então lia seus textos como parábolas de um guru milenar, tipo Yoda, que “viveu” 900 anos. Estranho: Kelly escreve sobre o que há de mais novo, com o entusiasmo (e até ingenuidade) jovem. Não sei o que me levava à ideia de antiguidade, talvez um tom de sabedoria calma que envolve seus textos longos (mesmo os posts de seus blogs parecem não ter fim), lembrando ensinamentos religiosos, desses reveladores das profundezas sagradas do real e do virtual. Isso fica bem evidente em seu livro lançado no final de 2010, o tratado “O que a tecnologia quer”, no qual o mundo técnico é descrito – mesmo com linguagem pop – quase como a natureza em Spinoza – isto é, quase como Deus. Porém, não existe nada de místico ali. Tudo é explicado como fenômeno mundano, não mais mágico do que a produção da vida.

Nunca tinha tido curiosidade para investigar sua biografia, coisa que fiz apenas quando me sentei para escrever esta coluna. Agora entendo melhor a impressão que me causava, fora de todos os rótulos imagináveis. No seu site pessoal, encontramos logo a informação de que não tem nenhum diploma universitário. Ganhou a vida como fotógrafo por quase uma década, viajando pela Ásia e terminando como editor da newsletter dos helicópteros Bell no Irã (!). Nesse mesmo ano iraniano, visitou Jerusalém, onde teve uma conversão religiosa. Até hoje é cristão. Cruzou os Estados Unidos de bicicleta, escreveu livro de haikais, lançou uma revista para andarilhos. Só nos anos 80 encontrou com outra figura yodesca, Stewart Brand, mestre de todos os pensadores ciberculturais que mantêm seu coração hippie, mesmo sob todas as tentações robóticas.

Brand estava deixando a direção editorial da Whole Earth Review, revista que tem origem nos catálogos “do-it-yourself” dos anos 60 californianos e rompeu as próximas décadas como Bíblia contracultural, extremamente influente (há uma exposição sobre sua história em cartaz, até julho, no Museu de Arte Moderna de Nova York). Kelly surgiu como substituto ideal, e ficou no comando da publicação até o final dos anos 80, documentando toda a popularização da cibercultura e elaborando a “ideologia” libertária que deu rumo aos anos pioneiros da internet, mesmo em seu lado mais delirante, quando parecia que mergulharíamos na realidade virtual e seríamos felizes para sempre, com anarquismo – às vezes individualista, às vezes comunitarista – triunfante. Ainda tenho guardado vários números, inclusive o que trazia na capa o dossiê “O corpo está obsoleto?” Praticamente o mais interessante da pauta da revista Wired dos anos 90, da qual não por acaso Kelly foi editor executivo, está por ali, em semente. Hoje, com muitos dos artigos ainda sendo digitalizados e publicados na internet, dá para ver que nosso futuro ainda está ancorado naquelas páginas, girando em torno daquela turma, a turma de Stewart Brand e Kevin Kelly.

Essa turma experimentou as possibilidades da vida on-line antes mesmo que o acesso à internet fosse realidade fora de poucos departamentos de universidades americanas, com a criação – em 1985 – do The WELL, braço ciberespacial da Whole Earth, que funcionava basicamente como um fórum com listas de discussões sobre vários assuntos queridos dos tecnohippies. Um pouco antes, em 1984, organizou uma Conferência Hacker (talvez a primeira com esse nome) reunindo muitos pioneiros do mundo da computação pessoal, hoje frequentadores do “jantar dos bilionários” promovido pelo site Edge, já cantado em verso e prosa aqui nesta coluna. Kelly viveu esse tempo como um de seus principais e mais entusiasmados articuladores, promotores, agitadores. Continua com o mesmo espírito, até hoje, mesmo quando observa seu filho de 14 anos jogando videogame.

Seus principais livros são “Fora de controle”, “Novas regras para uma nova economia” e “O que a tecnologia quer”. O primeiro, lançado em 1994 (um calhamaço que agora está disponível online, de graça), tinha como subtítulo “A nova biologia das máquinas, dos sistemas sociais e do mundo econômico”, e já anunciava o papel cada vez mais central de Darwin e dos estudos pós-darwinianos em nosso novo século. “Nova economia” foi lançado na euforia Wired, pré-primeira-bolha, quando o ciberespaço parecia sem limites. Mesmo com tudo que aconteceu depois, ainda pode dar boas lições para tantas empresas apegadas ao mundo centralizado e centralizador do passado. “O que a tecnologia quer” tem pinta de mais ousado, de obra que vai demorar décadas para ser digerida, que nem seu autor sabe exatamente qual seu real significado.

Acompanhei a pesquisa e escritura desse livro através do blog The Technium, mantido por Kelly desde a época em que era apenas uma ideia embrionária até hoje, meses depois do livro lançado, mantido como obra em progresso. Foi uma experiência de transparência intelectual radical, sem segredos para aumentar vendas, incorporando comentários dos leitores. Mesmo tendo lido quase tudo antes, continuo a descobrir novidades no produto “acabado”, paralelo, em papel, com cheiro do que a tecnologia aparentemente deixou de querer. Pois nem a tecnologia pode prever o que vai querer daqui a pouco. Ela vai inventando/renovando o que quer a medida que evolui. Não muito diferente de nossos humanos quereres.

Século McLuhan

07/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29-04-2011

Meu amigo André Stangl, que conheci nos tempos pioneiros dos estudos ciberculturais baianos e hoje vive em São Paulo, manda avisar: Marshall McLuhan está de volta aos meios universitários paulistanos, depois de anos numa certa berlinda. Mais precisamente: segunda e terça-feira será realizado “O século McLuhan”, evento realizado pelo Atopos, centro de pesquisa “fora-de-lugar”, mas de certa forma baseado na ECA da USP (inscrições em www.atopos.usp.br/mcluhan). O leitor pode se perguntar: qual século, o XX ou o XXI? Qualquer um. Tom Wolfe, na introdução para o livro “Understand me” (cujo título é uma brincadeira com seu clássico “Understand media” e que foi publicado no Brasil, pela Ediouro, como “McLuhan por McLuhan”), afirma: “Não consigo pensar em outra figura que tenha assim dominado um campo de estudo inteiro na segunda metade do século XX. Na virada do século XIX e nas primeiras décadas do XX, havia Darwin na biologia, Marx na ciência política, Einstein na física, e Freud na psicologia. Desde então houve apenas McLuhan nos estudos da comunicação”. Outras pessoas dizem que as profecias de McLuhan só se tornarão realidade, ou dominarão nossa realidade, agora depois do ano 2000. Mesmo assim, o evento se refere a um outro século, bem mais preciso: em 2011 comemoramos os 100 anos de nascimento do cara que, entre outras coisas, nos disse que o mundo se transformou numa aldeia global e que o meio sempre foi a mensagem.

Fiquei surpreso ao ser lembrado que McLuhan nasceu em 1911. Isso significa que quando publicou suas obras mais inovadoras e de maior impacto já tinha mais de 50 anos e cerca de três décadas dando aulas. De certa forma, livros como “A galáxia Gutenberg” ou o “Understanding media” parecem ser trabalhos de uma mente mais jovem, capaz de comprar qualquer briga sem temer perder respeitabilidade conquistada em já longa carreira acadêmica. McLuhan permaneceu jovem audacioso até o final de sua vida, em 1980. Foi um desses muleks eternos como John Cage, Miles Davis, Mário Pedrosa, para quem a idade transmite não peso intelectual, mas leveza para encarar o mundo ainda com mais audácia e liberdade. É possível comprovar isso assistindo os vários vídeos com aparições de McLuhan na TV dos anos 60 e 70 que estão disponíveis na internet. Uma alma bondosa, talvez anônima para evitar problemas relativos a direito autoral, nos fez o favor de compilar todos essas imagens num único site para a comemoração do centenário. Procure por “Marshall McLuhan Speaks” em qualquer ferramenta de busca. Além da introdução de Tom Wolfe, que começa com a aparição de McLuhan no filme “Noivo neurótico, noiva nervosa” de Woody Allen, podemos ver clipes de suas respostas, divididas por assunto, que revelam como sua maior diversão era causar polêmicas, ou falar aquilo que fundia a cuca de seus interlocutores, que mesmo com vontade de não levá-lo à sério acabavam se deixando encantar pela convicção maluca, e inteligência impressionante, do mestre pop.

Quem ainda estiver desconfiado, talvez por causa dos ternos de McLuhan (afinal o meio, nesse caso corpo e roupa, passa muita mensagem), deve visitar o UbuWeb (viva Kenneth Goldsmith! Todo mundo leu sua entrevista no Prosa & Verso? Aula obrigatória…), fechar os olhos e escutar os arquivos com a gravação do LP “The medium is the massage”, lançado por McLuhan pela Columbia Records no final dos anos 60, portanto quando ele tinha quase 60 anos. O que está ali registrado é uma das experiências de colagem sonora mais radicais e psicodélicas da história da indústria fonográfica. A Wikipedia diz que a produção foi de John Simon, que já assinara a beleza minimalista de “Songs of Leonard Cohen”. Com a “massagem midiática” o espírito era de total maximalismo, imagino que uma tentativa de registrar para a posteridade como podemos aproveitar melhor aquilo que McLuhan chamava de “espaço acústico”, onde tudo convive ao mesmo tempo agora, sem centro e periferia, sem a linearidade da escrita e do campo visual.

Se possível, e os neurônios deixarem, esculache a audição lendo ao mesmo tempo a entrevista que McLuhan deu para a Playboy em 1969. Kevin Kelly (tenho que escrever uma coluna sobre este outro cara urgentemente), no blog que era apenas para preparar seu maravilhoso e já-lançado livro “The technium” mas onde há novos posts e tomara que nunca tenha fim, disse que McLuhan não escrevia: deitava no sofá e começava a falar seus deliciosos absurdos, que eram transcritos por alunos. Era um feiticeiro da oralidade, uma máquina de produzir slogans, uma campanha permanente de marketing para seu próprio pensamento. Por isso se dava tão bem em entrevistas. Na da Playboy, bem longa, estava especialmente inspirado. A primeira resposta, eu gostaria de dar hoje, para explicar o que tento produzir aqui nesta coluna: “Estou fazendo explorações. Não sei onde elas vão me levar. Meu trabalho é desenhado para o objetivo pragmático de entender nosso ambiente tecnológico e suas consequências psíquicas e sociais. Mas meus textos constituem o processo mais que o produto completo da descoberta; meu propósito é empregar os fatos como sondas investigativas, como meios de insights, de reconhecimento de padrões, mais que usá-los no sentido tradicional e estéril de classificação, categorias, contêineres. Eu quero mapear novos terrenos e não cartografar velhas fronteiras.”

abundância

06/04/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/03/2011

O comentário mais inspirador que já encontrei sobre a transformação que a internet provocou na vida cultural foi publicado por José Miguel Wisnik em sua coluna de 05/03/2011, aqui no Segundo Caderno. Antigamente, na era pré-digital, “as coisas eram decantadas pelo tempo. Porque o seu valor e seu preço simbólico eram ditados pela capacidade de sobreviver à morte. A cultura era em grande parte um culto aos mortos.” Hoje, aumentou “assustadoramente o número dos vivos.” Wisnik se pergunta: “Quem dá conta da cascata infinita de autores de tudo? Quem decanta essa massa informe e simultânea, epidérmica, cheia de potencialidades e de engano?” Indagações que contêm os principais desafios da cultura contemporânea. O que fazer com tanta vida, transbordante, que não cabe mais nem nos modelos de negócio nem nas instituições artísticas que até outro dia tentavam organizar nossa relação com a cultura?

Sintetizando: a cultura dos mortos se fundamentava na escassez; a cultura dos vivos produz cada vez maior abundância. Pense nos exemplos de uma gravadora, de uma produtora de filmes, de uma empresa de rádio e TV, de uma revista de arte. Eram poucos os artistas contratados, eram limitados os recursos que faziam com que as obras fossem produzidas, ganhassem visibilidade e fossem distribuídas no restrito circuito de comércio e divulgação (lojas de discos, salas de cinema, os 13 canais de TV, o “dial” do rádio, o número de páginas da revista). E mesmo assim nem tudo o que era lançado fazia sucesso: um raro hit pagava o prejuízo de muitos fracassos. Mas a conta tinha que fechar; então sempre foi reduzido o número lançamentos e contratações, mesmo em épocas de grandes lucros.

As restrições orçamentárias e mesmo físicas (o espectro por onde podem ser transmitidas ondas radiofônicas tem limites preci(o)sos) se combinava com a crença, provavelmente “verdadeira”, de que o talento é um igualmente um bem escasso, e que só talentosos – ou sortudos enganadores – podem ser artistas de sucesso (seja lá como é feita a medição do grau de sucesso). Estou relendo “O mal-estar na civilização”, na nova tradução (a primeira diretamente do alemão) de Paulo César de Sousa. Ali Freud também denuncia a “fraqueza” do método da sublimação dos instintos através da arte, pois não é de “aplicação geral” e “pressupõe talentos e disposições especiais”, aos quais poucos têm “acesso”. Então tudo conspirava para que a produção de arte fosse vista necessariamente como uma atividade de poucos para muitos. E os poucos eram filtrados por uma série de intermediários para chegar aos muitos.

A internet bagunçou com o coreto pequenininho, onde só haveria espaço para pouquinhas pessoas. Hoje qualquer menino com uma webcam pode transmitir sua nova dança diretamente da laje da favela para mundo inteiro (e alguma dessas danças viram logo “a melhor dança de todos os tempos” – já viu a moda planetária do “choque” colombiano em bit.ly/9EVGQe?), através de novos tipos de intermediários – por exemplo, o YouTube – que não mais selecionam o que vão lançar, e sim aceitam tudo e mais alguma coisa. É Arte com A maiúsculo? Talvez não seja, talvez seja algo diferente, um jogo de diversão coletiva, sem pretensão à eternidade. Um novo mundo pior ou melhor? Quem pode saber com certeza? Se como diz Freud, em seu Mal-estar, a finalidade da vida é “a busca da felicidade”, penso que hoje há mais gente feliz, “brincando” de ser artista, como faziam seus antepassados em outras brincadeiras que ficaram conhecidas como folclore e onde, geralmente, não havia diferença entre quem estava no palco e na platéia.

Essa mudança radical e rapidíssima, da escassez para a abundância, exige outras posturas diante da criação, sua distribuição e seu consumo. Muita gente já apontou, mas isso fica cada vez mais claro, que estamos deixando de lado o império da propriedade para entrarmos na era do serviço. Eu não quero ser o feliz proprietário de todos os vídeos de gente dançando choque colombiano, até porque isso seria impossível – agora mesmo dezenas de vídeos com novos movimentos de choque estão sendo publicados. Quero poder ver esses vídeos na hora que quiser, e melhor, quero poder fazer meus remixes desses vídeos e publicá-los na rede, retroalimentando a brincadeira. Então quem quiser que copie meu vídeo à vontade, e espalhe por aí. Provavelmente não vou nem guardar cópia desse vídeo, que se transformará apenas num item perdido no meu mar de bookmarks. Claro que seria bom ganhar dinheiro com o meu remix, pagando também para os produtores de todas as imagens que remixei. Isso será cada vez mais fácil, pois saberemos exatamente quantas pessoas assistiram o vídeo completo, ou quantas outras fizeram remixes do meu remix.

Evoluindo: o melhor é deixar a obra aberta, facilitando sua circulação de diversas maneiras. Quanto mais gente republicá-la ou remixá-la melhor. A abertura está se tornando a norma, mesmo para o bom senso comercial. O segredo e a proteção atrapalham. Vide o caso do Kinect, da Microsoft. Logo após seu lançamento, hackers abriram o aparelho e inventaram para ele novos usos. A Microsoft desistiu de proibir e começa timidamente a facilitar a vida dos hackers lançando um kit de desenvolvimento. Os hackers agora podem ganhar dinheiro ajudando a Microsoft a lucrar mais com o Kinect. O que é bom para todo mundo. Os vivos agradecem.


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