Archive for março \19\UTC 2011

games e poesia

19/03/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/03/2011

Em seus textos sobre direito autoral, que acabam sendo reflexões mais amplas acerca dos efeitos das novas tecnologias no mundo da cultura, José Miguel Wisnik tem me lançado desafios. Na coluna de 19/02/2011, ele escreveu: “nem eu aceito com paciência a ideia de que videogames são tão ricos e válidos quanto um soneto de Shakespeare (como Hermano Vianna tende a dizer a título provocativo, sem experimentar demonstrar).” Estava me preparando para a experiência – sem nunca esperar produzir uma demonstração – quando o próprio Wisnik adiantou, enigmaticamente, o núcleo (nada-duro) da minha resposta em seu texto de sábado passado (o que falava sobre a gratuidade da arte, e que numa coincidência maravilhosa foi publicado no mesmo dia que o caderno Prosa e Verso, deste jornal, nos brindou com a entrevista de Lewis Hyde sobre dádiva e mundo “comum”): “O soneto de Shakespeare tem sobre o videogame a vantagem de ter passado por provas inimagináveis que o videogame apenas simula imaginariamente.” Pacientemente (hehehe), passo agora a tentar desvendar o que meu querido mestre Wisnik quis dizer com isso.

Custei a me lembrar onde tendi a dizer que os videogames seriam tão ricos e válidos como um soneto de Shakespeare. Escrevi dois textos sobre videogames nesta coluna. O primeiro deles – também o texto inaugural publicado por aqui – falava de Will Wright, o criador do The Sims. O segundo era sobre Shigeru Miyamoto, da Nintendo, pai do Mario e do Wii. Claro que sou fã: acredito que são dois dos mais criativos e influentes artistas em atividade hoje, mas fui até comedido nos elogios. Escrevi: “chegou a hora de levar os jogos eletrônicos a sério. Alguns criadores de games não são só grandes artistas, mas também grandes pensadores, que têm acesso privilegiado à complexa sensibilidade contemporânea, como pouca gente tem.” Meu objetivo principal era lamentar o fato de que “a maioria dos jornais praticamente ignora a centralidade evidente dos games em nossa vida cultural.” Além disso, cheguei a fazer coro para Jesse Schell, autor do livro “A arte do game design”, ao perguntar: “Schell diz que os games ainda estão no estágio cinema mudo. Todo mundo achava engraçadinho, mas ninguém levava os filmes muito a sério. Até que surgiu o cinema falado. O que vai ser a “fala” no mundo dos games?”

Vasculhando meu hard-drive, redescobri um texto de 2003, que não foi publicado em lugar nenhum, mas que dizia – realmente a título provocativo – algo próximo àquilo que Wisnik intuiu: “há games que envolvem visões de mundo tão complexas como aquelas contidas num soneto de Camões.” O que não é exatamente a mesma coisa que dizer que o game é tão rico ou válido quanto o soneto, mas reconheço que isso é sutileza… Escrevi mais, sem economizar na petulância e na busca de “chocar a burguesia”: “Há games interessantíssimos sendo produzidos hoje em dia. Não sou profeta para dizer que um dia algum deles vai ser tão valorizado como os Lusíadas. Acredito que sim. E não posso deixar de admirar a qualidade gráfica e o hibridismo mitológico contido em Myst ou Riven. Nem posso deixar de me comover com a complexidade do EverQuest, jogado diariamente – via internet – por 400 mil pessoas cadastradas em todo mundo. Não conheço outra criação “literária” coletiva que tenha envolvido tanta gente e tenha se transformado numa experiência artística que envolve tal multidão transcultural com tão longa duração.”

Bem, eu ainda não tinha 50 anos; podia fazer essas declarações “jovens” sem medo de ser feliz. Hoje aprendi a ser mais recatado, menos apressado, a dar valor ao tempo que passa, mesmo desconfiando dos julgamentos do tempo. Afinal, tenho que confessar minha dúvida: o fato de determinada obra ser valorizada por séculos não é garantia de sua “qualidade”; o cânone é um plebiscito diário; muita coisa “melhor” pode ter sido esquecida por acaso; a posteridade não é um juiz infalível, nem bem intencionado (relativista radical eu?). Enfim: por que a arte não pode ser boa justamente por ser efêmera, não se tornando um fardo em nossa memória? A “durabilidade” não é supervalorizada?

Dito isso, só posso concordar com Wisnik: Shakespeare e Camões escreveram sonetos depois de séculos de desenvolvimento dessa forma poética, desde sua “invenção” na Sicília, passando pelas “provas” de Petrarca ou Dante. O videogame, coitadinho, tem apenas 40 anos (diria que só começou a evoluir artisticamente nos anos 1980, mas a exposição “Arte dos videogames” que o Smithsonian vai abrir em 2012 fala em quatro décadas e cinco “eras” – quem sou eu para contrariar?) e ainda é acusado de transformar criancinhas em serial-killers (tanto que um juiz proibiu o EverQuest, elogiado acima, no Brasil). Então garotos que querem credibilidade artística (mesmo para aparecer na capa dos cadernos culturais) não vão criar videogame, assim como quem queria entrar para o cânone do período elisabetano não devia se meter com o mundo do teatro popular no qual Shakespeare trabalhava, onde – segundo empresário rival – o espectador corria o risco de assistir às peças “grudado à jaqueta espumosa de um cervejeiro.” Ainda bem que a posteridade foi justa com Romeu e Julieta. Por falar nisso: será que alguém já fez um game com a luta entre os Capuletos e os Montecchios? Claro que esta conversa continua.

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Benjamin Biolay

12/03/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04-03-2011

Benjamin Biolay é dono de trajetória artística estapafúrdia. Anos atrás, ele aparentemente tinha tudo: elogios da crítica, “grande” gravadora e Chiara Mastroianni, sua mulher, filha de Catherine e Marcello. Só faltava real sucesso popular. Então tudo começou a ruir. Acabou o casamento, foi despedido da EMI. Para recomeçar, escolheu caminho difícil. Lançou, no final de 2009, um CD duplo, independente. Ninguém poderia prever o que aconteceu: Biolay caiu nas graças do público, vendeu centenas de milhares de discos e virou novo um rei pop na França. Na edição 2010 do “Victoires de la musique“, Grammy da terra de Serge Gainsbourg (a quem Biolay sempre foi comparado), ele venceu nas categorias de melhor intérprete e melhor álbum. No prêmio 2011, realizado esta semana, foi indicado para melhor show e melhor música (“Ton héritage“, bela de doer – alguém já disse que condensa todo Freud em sete estrofes). Como canta nas faixas de abertura e encerramento deste CD, intitulado orgulhosamente “La superbe”: “quelle aventure“!

Não sei como o primeiro disco de Biolay veio parar em minhas mãos. Tornei-me fã, imediatamente. Boas melodias me conquistam fácil. Gosto de muita música ruim, sob todos outros aspectos, só porque tem um fiapo de melodia bonita, mesmo se for cafonamente bonita. Mas esse disco apresenta também uma esquisitice bem avançada. A começar pela faixa título, Rose Kennedy, dedicada aos últimos dias solitários da matriarca de uma das famílias de história mais trágica depois daquela vivida pelo pessoal de Agamémnon e Clitemnestra, como encenada por Ésquilo. A óbvia sedução de canções bem acabadas é como que sabotada por muitos detalhes surpreendentes, entre eles a citação de “River of no return” interrompendo brusca/delicadamente “Les cerfs volants“, que depois volta com tudo (com o auxílio “covarde” de muitas cordas) num daqueles momentos pop-musicais que meu irmão Herbert classifica como “é-o-amor-chegando- triunfal”.

Por acaso, e também pela generosidade de amigos (muito obrigado, Moniquinha!), tenho todos os outros discos, coisa rara no meu consumo cultural streaming dos dias de hoje. Preciso declarar: acho que gosto de todas as músicas. Além de bom compositor de melodias, Biolay é músico CDF, toca milhares de instrumentos, escreve os arranjos. E tem mais: suas letras sempre me fazem redescobrir a beleza da língua francesa.

A poética de Biolay às vezes se parece com a de Chico Buarque (a troca de bilhetes na obra-prima “Brandt rhapsodie” é parente, mais neurótica, de “Trocando em miúdos”). Há aquela procura da rima perfeita, inusitada, não muito diferente da de um rapper na Batalha do Real, apesar de talvez mais cerebral ou erudita. Provavelmente nada se compara com o tour de force da faixa secreta (a do refrão “Woodstock, estado de New York”) do CD Trash Yé Yé, de 2007, com versos terminando com subsonique, soviètique, paraplègique e Honda Civic (pronunciada à francesa, é claro – gosto da França permanecer afrancesando foneticamente as palavras estrangeiras, costume que nós brasileiros estamos perdendo para adotar o corretamente americano). “La superbe” mantém a rima afiada: “Hedi Slimane” com “première dame”; “sex toy” com – óbvio! – Tolstoi; “somnifère” e “hemisphère” se transformando em “secondaire” para terminar em “la mèr”.

Porém, há algo em Biolay que me lembra mais Caetano, por contraste (se bem que “Jaloux de tout” lembra “Odeio” por afinidade). Canções como “Cajuína” também me fazem redescobrir a beleza da língua portuguesa. Mas Caetano abre a língua, tornando cada som de cada palavra mais nítido, aberto mesmo. A beleza do francês é, para mim (e falo isso humildemente, sem querer convencer ninguém), produto de outra estratégia, de fechar a língua, comendo os sons das consoantes finais, fundindo uma palavra com a próxima, colocando apóstrofos em tudo, abusando do “en”, do “y”, coisa que só quem é nativo, ou que devém nativo, consegue dominar. Caetano é cristalino, mesmo quando desolado, ao ver o mundo, pela janela de um avião sobrevoando Los Angeles, com os olhos cheios de lágrimas. A Los Angeles de Biolay é obscura, dita com sons truncados (mesmo “sonho americano” vira um quase grunhido) vista com olhos artificiais de um cyborg movido a vallium, coca e lithium. Em Caetano, não há chão. Em Biolay, a terra treme e come tudo.

Isso para não falar dos diferentes usos do rock inglês, em Caetano e em Biolay (“Beaux souvenirs” é a música mais bonita do New Order, que o New Order nunca fez?), e também no minimalismo moderno de Caetano e no maximalismo romântico de Biolay. Sou mais minimalista. No entanto, a ingenuidade apaixonada, épica, pode me encantar, como quando Biolay canta: “não há céus, há apenas um só horizonte” ou “não há mais acasos, há apenas decisões.” Tudo isso é parte de uma inesperada revitalização do romantismo da canção francesa, abençoada por seus deuses (como Charles Aznavour, que estava na platéia do concerto de “La superbe”). Biolay abriu espaço para novos talentos aparecerem num ambiente que estava vivendo das glórias do passado. Os também brilhantes (cada um com sua esquisitice) Florent Marchet e Arnaud Fleurent Didier detestam ser chamados de novos Biolays. Eles precisam relaxar. A comparação, hoje, é inevitável.

Kaos

05/03/2011

Jorge Mautner completou 70 anos, no dia 17 de janeiro. Não consegui ir à festa-show. Tenho trabalhado feito um condenado este verão. E fui obrigado a tratar de outros assuntos nesta coluna. Por isso esta homenagem, só agora, mais de um mês atrasada. Poderia falar do passado, de tudo que Mautner já fez para nos deixar mais espertos. Mas quero tratar da História do Futuro que, como padre Antônio Vieira, escreveu para todos nós. Mautner é profeta: anunciou o Kaos, a ecologia, a brasilificação para o bem do mundo (“Ou o mundo se brasilifica ou então tornar-se-á nazista!”) Isso muita gente já comentou. O que poucos notaram, e não com a ênfase necessária, é sua percepção do papel da tecnologia, sobretudo do computador, como ferramenta libertadora para a humanidade.

Escrevendo no início dos anos 70 (quando não havia ainda computador pessoal e a informática era propriedade de militares, universidades e empresas milionárias, com seus gigantescos mainframes que ocupavam edifícios inteiros apesar da capacidade de processamento muito inferior a um celular atual), Mautner profetizou uma realidade na qual ainda damos nossos primeiros passos. São suas palavras: “Haverá máquinas imensas, cérebros eletrônicos imensos, onde os seres colocarão cartões indicando quais outros seres que eles querem conhecer. E assim a comunicação será total: os bilhões de seres vivos, que se agitam como geléia neste mundo poluído, travarão contato carnal e espiritual através do imenso sistema nervoso das máquinas promovendo o encontro dos variados sexos e intenções […] O humanismo será tecnológico, eficiente, dirigido completamente para o presente.” Hoje sabemos: imensas não são as máquinas, mas as redes que conectam pessoas através de bilhões de micromáquinas. E não precisamos mais de cartões: temos perfis no Orkut, no Twitter, no YouTube, no Tumblr e no que mais vier por aí.

O profeta tinha certeza que a era comunicação total traria grandes mudanças também para o modo de se fazer política: “Essa própria máquina atingiu agora sua linguagem própria, não depende mais (segundo o próprio Marx) de se vestir com as roupagens de épocas passadas para poder explicar-se.” Isso se transforma em programa de Gov 2.0: “Eu sou um democrata eletrônico que acredita (porque vê, viu, e espera ainda ver muito) na chegada do dia da abundância mundial, na era da automação e ecologia da Justiça Social para todos, mas não mais através de grupos ou pessoas messiânicas, mas sim pelo tão mais elevado, educado, sofisticado braço da tecnologia.” Não foi surpresa, portanto, ver Mautner abraçar o projeto dos Pontos de Cultura, com sua rede de computadores conectada por software livre.

O mundo mudou, irremediavelmente. É preciso encontrar novas formas de ação, proteção, produção. Mautner nos ensina: “Tudo se fragmentou, e essa é a consciência nova. Anseiam a unidade perdida, os cacos em trajetória meteórica. Mas não há volta para a unidade. Só é possível encontrar uma harmonia mais profunda na velocidade cada vez maior e fragmentada de cada caco.” Gosto desta idéia: o que nos une, nossa harmonia, é a velocidade. Pegamos todos o bonde andando, na velocidade com a qual um byte de informação dá a volta no planeta e vai parar, por exemplo, no estúdio de produção musical do coletivo Puraqué, que promove “cultura digital e autonomia na Amazônia”, e segue pulando de nó em nó da rede.

A velocidade assusta. Mas não tem jeito. Temos que fazer nossas experiências em movimento. Nas palavras de Mautner: inaugurando “espaços culturais tão velozes e diferentes entre si que um mal reconhece o outro, os equívocos nascendo do fato de tão novas situações serem descritas por linguagens lineares”. O não-linear dá trabalho, nada está claro, mas é preciso experimentar novas possibilidades. Já recomendei para o Mautner a leitura do “Manual de sobrevivência no mundo digital“, livro recém-lançado por Leoni (Prestígio editorial), que narra com detalhes sua trajetória do mundo linear das grandes gravadoras para o campo em aberto, imprevisível, da música na internet.

Muitos livros falam da nova situação de maneira distanciada. O interessante no guia do Leoni é que tudo que está escrito é resultado de experiência vivida, testada pelo próprio autor. Leoni fala de seus erros e acertos com sites, blogs, redes sociais, vendas de música online, jabás, composição com fãs, shows com listas de músicas escolhidas pelos fãsetc. – tudo com uma visão prática, de quem trabalhou muito procurando novos caminhos. Há, é claro, o capítulo “Onde está o dinheiro se a música é gratuita? Todo cuidado é inútil”, com reflexões sobre Spotify, licença universal (ou pagar música “como se fosse água”), financiamento através dos fãs – e a conclusão é até otimista.

Recomendei também para Mautner dar uma olhada num novo serviço, o www.songtrust.com, que parece simplificar o processo de publicação musical e coleta de royalties das músicas no mundo todo, sempre em parcerias com sociedades coletoras. São novidades que aparecem todos os dias em sites como o Hypebot. Claro, ninguém sabe qual dessas experiências terá futuro, todas são arriscadas. Mas somos corajosos, gostamos de coisas difíceis. E das dificuldades fazemos festa, carnaval. Temos, isso também aprendi com Mautner, “um olho macunaímico, e não entediado. Com o micróbio do frevo dentro do corpo, e do trio elétrico dentro de si.”


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