Posts Tagged ‘Caetano Veloso’

15 talvez 14

11/08/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/08/2012

Caetano Veloso, aqui neste nosso cantinho do Segundo Caderno, escreveu: “Quinze anos é a minha idade. Talvez 14. O resto são marcos exteriores que não me dizem respeito”. Então só me resta felicitá-lo por, três dias atrás, ter permanecido com quinze anos, talvez 14. Minha coluna já comemorou os 70 anos de Peter Fry e Gilberto Gil. Como sempre diz Regina Casé: festa boa tem que ter gente de várias idades, tons de pele, orientações sexuais, religiosas etc. Então é bom, para variar, dar meus parabéns para um novinho. Fui apresentado para Caetano, no início da década de 1980, por Arto Lindsay (na base de nossa amizade está o noise). Fazendo as contas, acompanho de perto sua adolescência há quase 30 anos. Fizemos juntos algumas travessuras juvenis neste tempo que para/não-para nos 15-talvez-14 (copiando Caetano: o verbo parar conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo deveria continuar com acento diferencial talvez para sempre).

Uma boa aventura foi minha campanha para ter seu “O cinema falado” lançado em DVD. Com Carlos Nader, cuidamos dos extras, mais falantes ainda. Quem convive com Caetano em casa conhece bem um de seus dons: é excelente professor, capaz de explicar de forma clara os temas mais complexos (apesar de sua pouca idade, é menino bem sabido). Já aprendi muito em conversas que se tornaram serões. Nunca vou me esquecer da noite em que ele explicou tintim por tintim o “O que é a filosofia?”, de Deleuze e Guattari, livro que – mesmo já tendo estudado o “Anti-Édipo” e o “Mil Platôs” – eu considerava impenetrável.

A intenção, com vários extras do “Cinema falado”, era aumentar o número de seus alunos. Por exemplo: na leitura de Thomas Mann, interrompida por comentários de uma profundidade divertida, penso que conseguimos captar o espírito ao mesmo tempo caseiro e rigoroso das aulas particulares do mestre Caetano. Pena: acho que pouca gente viu o que fizemos. (Não acredite no mito que diz que todo mundo presta atenção exagerada em tudo que Caetano faz. Não dê ouvidos também a quem diz que todo mundo só fala bem dele. Desde que comecei a ler cadernos culturais, encontro muita gente que quer brilhar escrevendo contra Caetano.) Parodiando o professor que uma vez cantou “quem lê tanta notícia?”, posso ousar perguntar: quem vê tantos extras?

Talvez alguém um dia alguém os veja. É essa possibilidade que move projetos como o lançamento em DVD de “O cinema falado”, desejoso de permanência, de eternizar aquilo que pode desaparecer ou ser esquecido. Outras de nossas travessuras comuns tiveram destinos contrários: já desapareceram. Uma vez nos reunimos com Sérgio Mekler (nós apenas ajudamos Caetano a colocar suas ideias no papel) para escrever o roteiro da adaptação cinematográfica de “Ó paí ó”, a peça do Bando de Teatro do Olodum, que Caetano gostaria de dirigir em sua sempre adiada volta ao cinema como realizador (e que depois, com outro roteiro, acabou virando filme e série de TV dirigidos por Monique Gardenberg). Na nossa versão, havia até uma conversa entre Tom Zé e Jorge Amado sobre a nova política racial brasileira.

Não é só a impossibilidade, depois da morte de Jorge Amado, de filmar esta cena que me deixa nostálgico (mesmo eu sendo um defensor perpétuo da impermanência). Havia outro momento incrível no roteiro com o por do sol atravessando as janelas do Elevador Lacerda. Ali ouviríamos na trilha sonora uma canção que Caetano compôs especialmente para esse momento. Era como que uma oração para o dia que chegava ao fim, representante de todos nossos dias com sua mistura trágica de dor e alegria, monotonia e excitação. Quando, tempos depois, arquivamos o projeto do filme, pensei aliviado que pelo menos essa música seria lançada. Perguntei por ela: Caetano tinha perdido a fita cassete com a gravação e se esquecido completamente da letra e da melodia. Lembro-me apenas que o refrão terminava ou repetia a frase “que dia”. É o que resta de uma de suas mais belas canções, que ninguém jamais vai ouvir.

Mais uma de nossas aventuras sólidas que se desmancharam no ar foi o blog “Obra em progresso”, que acompanhou a criação do disco “Zii e zie”, e formou uma comunidade (ainda recebo email de Labi Barrô) com conversa de consistência poucas vezes ouvida na internet (talvez por causa de minha moderação antipática, que nem pestanejava ao apagar qualquer trollagem). Procurei mas não encontrei nem vestígio online do que produzimos por ali. Talvez esteja armazenado em algum hard drive desligado da nuvem. Mas decidi cessar as buscas. Foi bom enquanto durou. Estou mais interessado nas próximas desculpas que vou inventar para ficar ainda mais bem perto da continuação dos 15-talvez-14 anos sempre renovados de Caetano.

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Roberto Schwarz e Caetano Veloso – Parte 2

19/05/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/05/2012

Retomando a coluna da semana passada: segundo Roberto Schwarz, Caetano Veloso não usa populismo “na sua acepção sociológica usual, latino-americana, de liderança personalista exercida sobre massas urbanas pouco integradas.” Concordo: Caetano não se refere a Perón ou Vargas. Mas o resto da interpretação de Schwarz me parece menos clara: a “morte do populismo” não surge em “Verdade tropical” para anunciar um novo tempo em que o “povo trabalhador” (quem fala em povo somente trabalhador é Schwarz) não teria mais “papel especial” como “sujeito e aliado necessário a uma política libertadora”. Caetano, acredito, estava pensando com aspas (ele literalmente usou aspas), dialogando com os múltiplos usos e definições do popular (o próprio CPC diferenciava “arte do povo”, “arte popular” e “arte revolucionária”) que circulavam no debate cultural dos anos que antecederam o lançamento de “Terra em transe”, filme que traz cena polêmica do poeta ficcional Paulo Martins decretando “a falência da crença” – assim está escrito em “Verdade tropical” – “nas energias libertadoras do ‘povo’.”

A narrativa do artigo de Schwarz se constrói em torno desse trecho de “Verdade tropical” sobre “Terra em transe”, momento que teria sido decisivo para uma “virada” ou “conversão” de Caetano. Antes, era bom moço, “simpático à transformação social, ao método Paulo Freire de alfabetização de adultos e ao CPC”. Depois, passa a se imaginar “livre das amarras políticas tradicionais”, “cultuando divindades antagônicas” e se tornando também “adversário” da esquerda. Schwarz afirma repetidas vezes que sua leitura está baseada no texto, mesmo para desdizer o que Caetano diz (“a despeito do autor, não é isso que o livro mostra”). Então volto ao texto de Caetano.

Não sei se há “virada” tão nítida assim. Por exemplo: no relato de suas primeiras conversas com o diretor de teatro Álvaro Guimarães (“quem nos lançou, a mim e a Bethânia, como profissionais de música”), na parte do livro da qual Schwarz mais gosta, o autor de “Verdade tropical” já se distanciava do pensamento de certa esquerda: “ele me agradou em cheio e me interessou ao externar suas críticas ao teatro panfletário do CPC.” Em outro escrito da mesma época, seu primeiro texto longo, publicado em revista universitária baiana, Caetano ataca “uma tendência equívoca da inteligência brasileira”: “A julgar pelos artigos histéricos reunidos em livro pelo Sr. José Ramos Tinhorão […], somente a preservação do analfabetismo asseguraria a possibilidade de fazer música no Brasil.” Desafiando um pensamento nacional-popular, afirma que o “povo (e aqui podemos dar à palavra povo o seu sentido mais irrestrito, isto é, a reunião das gentes) desmaia aos pés do jovem industrial Roberto Carlos”, enquanto lançamentos do samba classificado como autêntico fazem sucesso “restrito aos universitários”. Claro que Caetano queria, bem antes de “Terra em transe”, combater esse tipo de populismo, culto de um “povo” irreal (que não deveria gostar de jovem guarda), cujo projeto, no Brasil, incluía apagar as lições de João Gilberto.

Contudo, a “morte do populismo” não foi encarada com alegria. Para Caetano, foi uma “hecatombe”. Quem escreve “hecatombe bem-vinda”, e fala das “razões que fizeram que Caetano festejasse a derrocada da esquerda”, é Schwarz. A narrativa de “Verdade tropical” tem tom de tragédia, não de festa. Não foi “júbilo ante o incêndio da UNE”, como escreve Schwarz, mas sim, nas palavras de Caetano, “estranho júbilo de entender com clareza suas razões [de Rogério Duarte – Schwarz o apresenta apenas como Rogério – que havia dito que o prédio da UNE deveria sim ter sido queimado], e mesmo de identificar-me com elas”. Porém, e isso é o mais importante, esse júbilo não era sorridente, ou experimentado sem dor. (Já li “Verdade tropical” como uma virada, mas com outro sentido, do antipop para o pop – e nela também não há nada festivo. Cito trecho angustiado, na minha leitura mais central que o comentário sobre o filme de Glauber Rocha: “Imagine-se com que força eu não tive que pensar contra mim mesmo para chegar a ouvir Roberto e Beatles e Rolling Stones – e mesmo Elis – com amor.”)

O que considero mais original no artigo de Schwarz, para além do texto do Caetano (mesmo que demonstrando satisfação ao reconhecer em “Verdade tropical” elementos para provar sua tese), é sua descrição de uma idade do ouro da cultura brasileira ali por volta de 1964, quando “a invenção artística radical se sintonizou com a hipótese da revolução e fez dela seus critérios”. Os grupos de tolo nacionalismo que depois vaiaram Caetano não deveriam ser considerados hegemônicos na esquerda dessa época. Contudo, Schwarz reconhece: “é possível que o saldo do período, avaliado nas obras, não sobressaia particularmente.” Então veio o tropicalismo, com suas obras brilhantes, e bagunçou essa frente anticapitalista, dando a tudo a feição de “grande mercado”. Schwarz não se deixa arrebatar nem pela caetanave: enxerga na alegria – agora sim – de Caetano, ao ser recebido, depois do exílio, por um trio elétrico espacial batizado com seu nome, como “abdicação”.

No final, tudo parece apenas mais um capítulo daquilo que o próprio Schwarz reconhece ser “uma comédia de desencontros” entre a contracultura e arte engajada. Não sei se devo torcer pelo encontro. O mundo ficaria chato sem novos rounds da luta entre Schwarz e Caetano.

Roberto Schwarz e Caetano Veloso

12/05/2012

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/05/2012

Vários de meus colegas de coluna já comentaram o artigo de Roberto Schwarz sobre “Verdade tropical“. Eu estava me sentindo mais por fora do que piercing em umbigo de piriguete. Abri espaço enorme na minha agenda para ler com atenção as já clássicas 59 páginas. Queria entrar na onda (e ajudar a vender o livro de Schwarz – afinal vivemos ainda o tempo do mercado, mesmo occupied, vitorioso). Porém, a leitura me deixou perplexo. Precisaria reler muitas vezes o artigo, assim como “Verdade tropical”. Schwarz levou 15 anos para tornar pública sua reflexão sobre o livro de Caetano. Gostaria de ter o mesmo tempo para digerir bem seu excelente artigo. Publicaria minha humilde opinião em 2027. Impossível: só a academia nos proporciona essa possibilidade de planejamento a tão longo prazo. Estou noutra, descontrolado. Meu tempo é agora ou nunca.

Por isso assumo o risco de escrever besteira. Minha primeira vontade, abusada, foi declarar que Schwarz apenas repete, muitos anos depois, em muito mais parágrafos, as perguntas que Fausto Wolff tinha feito na Tribuna da Imprensa em 1968: “Mas, dialeticamente, a que conduz a Tropicália? Constatado o caos, habituada a plateia ao caos, o que fazer depois? Qual a síntese para a antítese?” Ou ainda: “o que me parece positivo é a constatação do caos, da anarquia ignorante em que estamos envolvidos. Muito bem: o caos foi capturado e apresentado aos olhos perplexos da burguesia. Mas o caos funciona como a penicilina. No princípio tonteia os germes, mas em seguida os fortifica.” Imaginei irresponsavelmente que seria mais ou menos isso o que Schwarz quer dizer com “[o] contraste evidente entre as partes descombinadas agride o bom gosto, mas ainda assim ou por isso mesmo, o seu absurdo se mostra funcional como representação da atualidade do Brasil, de cujo desconjuntamento interno, ou modernização precária, passa a ser uma alegoria das mais eficazes.”

Eu estaria sendo injusto se insistisse nessa acusação. O artigo de Schwarz é brilhante, diria até tropicaliamente brilhante. Não dá um único ponto sem nó, sem embrulhá-lo em camadas de uma ambiguidade tão ousada quanto a do estranho Caetano (estranho Schwarz chamar Caetano de herói estranho, ou afirmar que as primeiras páginas do livro são “muito estranhas”), que por vezes também soa como confusionismo “calculado”, ou encantado com seu virtuosismo retórico. O início do artigo (entre o “não tenho conhecimento de música nem das composições do autor” e o “gosto muito do livro como literatura”) anuncia a bela e elegante luta (mais kung fu, menos MMA) que vem a seguir, o mais recente round entre dois dos brasileiros que mais admiro (tomei todo cuidado para minha amizade com Caetano não influenciar a análise que faço do combate).

Schwarz se apresenta como autoridade do campo acadêmico, que tem legitimidade inquestionável (ele fala do lugar de poder, com a pompa e circunstância dos poderosos) para identificar a “grande qualidade literária”. Há ainda um tom maravilhado com a “novidade” de um músico popular revelado como “intelectual de envergadura”. Não há condescendência na estratégia: Schwarz aceita Caetano como um de seus pares – o artigo parece um ritual de concessão de título de doutor honoris causa (mas Schwarz nem fala que Caetano escreveu seu livro recorrendo apenas a sua memória, sem consultar documentos, ou mesmo sem voltar a ouvir seus próprios discos – o que poderia ser visto, numa banca careta, como afronta diante de regras básicas da academia).

Seria divertido passar todo esse texto citando trechos que revelam momentos pitorescos dessa luta, oscilante entre a análise do estilo literário do texto de Caetano e a verdade (também cheia de estilo) de seu testemunho histórico – oscilação que por vezes causa até vertigem no leitor menos superficial. Sem tempo para essas sérias brincadeiras, vou logo enfrentar o momento central do artigo, o muito citado comentário de Schwarz sobre o comentário de Caetano sobre cena de “Terra em transe”. Por sua vez, para seu golpe mais duro ter eficiência brutal, Schwarz não segue religiosamente as regras acadêmicas, mesmo tendo o texto analisado diante de seus olhos. Na página 78, são citadas as palavras exatas de Caetano: “quando o poeta de “Terra em transe” decretou a falência da crença nas energias libertadoras do ‘povo’, eu, na plateia, vi, não o fim das possibilidades mas o anúncio de novas tarefas para mim.” Na página seguinte, Schwarz usa aspas novamente para escrever “energia libertadora do povo”. Repare bem: “energia” e “libertadora” passaram para o singular; o povo perdeu as aspas dentro das aspas que tinha na página anterior e em “Verdade tropical”.

Parecem detalhes tolos. Não são. As palavras de Caetano mudam de sentido. Não estou insinuando que Schwarz foi desonesto. Ele realmente parece acreditar que Caetano pensava no singular e sem aspas. Tanto que aplica redução semelhante ao afirmar categoricamente que, segundo Caetano, populismo, cuja morte o poeta de “Terra em transe” decretaria, é o “papel especial reservado ao povo trabalhador nas concepções e esperanças da esquerda”. As consequências dessa interpretação literária são enormes, e nos conduzem para aquilo que mais gosto de pensar sobre o Brasil. Bem que o próprio Caetano avisou que nossas colunas são pequenas para tratar desses assuntos cabeludos. Vou precisar concluir (talvez…) só na semana que vem. Já precisei de duas colunas até para falar de show do Kraftwerk que não vi. Por que o gentil duelo Schwarz/Caetano, avesso a desfechos e interpretações fáceis, caberia numa coluna só?

1967-2011

31/12/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/12/2011

Provavelmente, o acontecimento musical mais importante de 2011, entre “formadores de opinião”, foi o lançamento não de disco, mas sim de livro: o “Retromania”, de Simon Reynolds. Ninguém precisa ler suas 496 páginas para conhecer o conteúdo. As ideias de “Retromania” foram tão debatidas e enriquecidas na internet que o texto original parece ultrapassado. Isso vai acontecer cada vez mais com todos os produtos culturais, que se tornarão obras em progresso, sempre em modo “beta”, sem edição definitiva, ou com versão final logo transformada em matéria prima para remixagens eternas – o que vem confirmar parte da tese de “Retromania”, que vivemos um tempo em que o novo é resultado de um “revival” ininterrupto de modas passadas.

O próprio Simon Reynolds já aproveitou a onda retrô. É de sua autoria a obra (“Rip it up and start again”) que se tornou referência básica para o conhecimento sobre a era pós-punk, na qual uma parcela influente de nossa juventude vai viver para sempre, como se a cultura da humanidade inteira se resumisse a um show do Gang of Four em 1981. Vamos ter que nos acostumar com essas tribos que habitam tempos históricos culturais diferentes, tudo ao mesmo tempo agora. Mesmo cultuando o passado, elas vão ser anunciadas como o futuro – ou pelo menos como a última moda de quem está mais conectado com presente, sendo protagonista da definição do espírito do seu tempo (não importa que sua sonoridade tenha sido criada pela geração de seus pais ou avós). Então resta a dúvida: ninguém vai mais criar nada realmente novo? Em música: nunca mais vamos ouvir o que ninguém nunca ouviu antes?

Diante dessa garotada hipster-passadista, fico alegre/espantado ao constatar que os discos mais inovadores de 2011 foram produzidos por artistas de mais de 60 anos. Mais interessante ainda: meus dois lançamentos preferidos do ano têm a ver com 1967.

O primeiro foi gravado em 1967, mas não tinha sido lançado até o mês passado. É “Smile”, o disco inacabado dos Beach Boys. Imaginava que nunca iria ouvi-lo de cabo a rabo, e teria me contentar com os fragmentos que apareceram como faixas bônus de caixas de CD ou com a regravação que Brian Wilson lançou em 2004. Tudo já era uma maravilha, mas não me preparou para a mixagem/masterização que 2011 nos deu de presente. Muita música pop-experimental recente, de Jim O’Rourke a Panda Bear, tentou levar para frente as lições dos Beach Boys, mas agora comprovamos que nada foi tão radical como o “original”. Smile poderá ainda por muito anos nos servir de guia para o futuro da arte. Impossível não ficar desconcertado ao perceber que aquilo foi gravado sem mesas de muitos canais, sem computadores, sem samplers, sem softwares como Pro Tools, com músicos tocando e cantando juntos (como conseguiam fazer isso? mesmo hoje com toda a tecnologia, seria quase impossível).

Outra razão para desconcerto: o experimentalismo de “Smile” está sempre a serviço da beleza totalmente angelical, beleza que dói de tão bela, mais que aquele trecho adorado da Quinta Sinfonia do Sibelius. Não dá para existir algo que supere “Surf’s Up”, mesmo com letra escalafobética de Van Dyke Parks. É para se ajoelhar e ficar chorando na frente das caixas de som ou sob o fone de ouvido do Dr. Dre.

O outro disco mais inovador de 2011 tem a ver com 1967 por tabela. É “Recanto”, de Gal Costa. Em 1967, ela e Caetano Veloso lançaram “Domingo”. 44 anos depois os amigos baianos se reúnem novamente para nos presentear com um álbum que quase se chamou Segunda. Esperava algo assim da música popular do Brasil há anos. Imaginava que seria obra de músico de poucos anos de vida. Porém, os mais jovens pareciam vítimas de culto a um passado mais criativo, diante do qual só podemos tentar enfeitar nossa inferioridade com trinados de teclado Hammond e chiado de vinil. (Nesse ambiente o funk carioca emergiu como uma ilha futurista, com o uso mais desabusado da tecnologia em território nacional. Mas todos sabemos que funk não faz parte da tal “linha evolutiva” da MPB, e muitos críticos fizeram o possível para mantê-lo isolado na favela pré-UPP.) Foi preciso novamente a ação de heróis tropicalistas para nos salvar. (E depois reclamam da centralidade de Caetano em nossa cultura: não aparece ninguém mais jovem para fazer seu trabalho, então ele precisa continuar orientando nosso carnaval e inaugurando novos monumentos.)

Semelhança de “Recanto” com “Smile”: a radicalidade estética e a esquisitice sonora estão a serviço da canção, da bela canção. (E que safra de canções há em “Recanto”! – com as melodias que fazem falta nos discos da Bjork, ou do Alva Noto.) Reconfortado, preciso fazer coro para a letra de “Mansidão”: “está tudo onde deve estar”. Finalmente.

***

Minha coluna passada me obrigou a reler vários artigos de Michael Ventura. Redescobri o deslumbrante “Hear that long snake moan”, talvez o melhor texto já escrito sobre o rock, ou sobre a história da música popular dos EUA. Aqui tenho espaço para comentar apenas um detalhe: Ventura revela que o Brasil não é o único lugar do mundo onde se diz “aqui ninguém é branco”; há um ditado sulista norte-americano que é até mais específico: “there ain’t no white people in New Orleans” (não há brancos em Nova Orleans). Todos os branquelos iam pedir a benção de Marie Laveau, cabeleireira e sacerdotisa voodoo. Por isso o batuque se manteve vivo na cidade e hoje até neguinhos brasileiros podemos dançar “Miami Maculelê”.

Benjamin Biolay

12/03/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04-03-2011

Benjamin Biolay é dono de trajetória artística estapafúrdia. Anos atrás, ele aparentemente tinha tudo: elogios da crítica, “grande” gravadora e Chiara Mastroianni, sua mulher, filha de Catherine e Marcello. Só faltava real sucesso popular. Então tudo começou a ruir. Acabou o casamento, foi despedido da EMI. Para recomeçar, escolheu caminho difícil. Lançou, no final de 2009, um CD duplo, independente. Ninguém poderia prever o que aconteceu: Biolay caiu nas graças do público, vendeu centenas de milhares de discos e virou novo um rei pop na França. Na edição 2010 do “Victoires de la musique“, Grammy da terra de Serge Gainsbourg (a quem Biolay sempre foi comparado), ele venceu nas categorias de melhor intérprete e melhor álbum. No prêmio 2011, realizado esta semana, foi indicado para melhor show e melhor música (“Ton héritage“, bela de doer – alguém já disse que condensa todo Freud em sete estrofes). Como canta nas faixas de abertura e encerramento deste CD, intitulado orgulhosamente “La superbe”: “quelle aventure“!

Não sei como o primeiro disco de Biolay veio parar em minhas mãos. Tornei-me fã, imediatamente. Boas melodias me conquistam fácil. Gosto de muita música ruim, sob todos outros aspectos, só porque tem um fiapo de melodia bonita, mesmo se for cafonamente bonita. Mas esse disco apresenta também uma esquisitice bem avançada. A começar pela faixa título, Rose Kennedy, dedicada aos últimos dias solitários da matriarca de uma das famílias de história mais trágica depois daquela vivida pelo pessoal de Agamémnon e Clitemnestra, como encenada por Ésquilo. A óbvia sedução de canções bem acabadas é como que sabotada por muitos detalhes surpreendentes, entre eles a citação de “River of no return” interrompendo brusca/delicadamente “Les cerfs volants“, que depois volta com tudo (com o auxílio “covarde” de muitas cordas) num daqueles momentos pop-musicais que meu irmão Herbert classifica como “é-o-amor-chegando- triunfal”.

Por acaso, e também pela generosidade de amigos (muito obrigado, Moniquinha!), tenho todos os outros discos, coisa rara no meu consumo cultural streaming dos dias de hoje. Preciso declarar: acho que gosto de todas as músicas. Além de bom compositor de melodias, Biolay é músico CDF, toca milhares de instrumentos, escreve os arranjos. E tem mais: suas letras sempre me fazem redescobrir a beleza da língua francesa.

A poética de Biolay às vezes se parece com a de Chico Buarque (a troca de bilhetes na obra-prima “Brandt rhapsodie” é parente, mais neurótica, de “Trocando em miúdos”). Há aquela procura da rima perfeita, inusitada, não muito diferente da de um rapper na Batalha do Real, apesar de talvez mais cerebral ou erudita. Provavelmente nada se compara com o tour de force da faixa secreta (a do refrão “Woodstock, estado de New York”) do CD Trash Yé Yé, de 2007, com versos terminando com subsonique, soviètique, paraplègique e Honda Civic (pronunciada à francesa, é claro – gosto da França permanecer afrancesando foneticamente as palavras estrangeiras, costume que nós brasileiros estamos perdendo para adotar o corretamente americano). “La superbe” mantém a rima afiada: “Hedi Slimane” com “première dame”; “sex toy” com – óbvio! – Tolstoi; “somnifère” e “hemisphère” se transformando em “secondaire” para terminar em “la mèr”.

Porém, há algo em Biolay que me lembra mais Caetano, por contraste (se bem que “Jaloux de tout” lembra “Odeio” por afinidade). Canções como “Cajuína” também me fazem redescobrir a beleza da língua portuguesa. Mas Caetano abre a língua, tornando cada som de cada palavra mais nítido, aberto mesmo. A beleza do francês é, para mim (e falo isso humildemente, sem querer convencer ninguém), produto de outra estratégia, de fechar a língua, comendo os sons das consoantes finais, fundindo uma palavra com a próxima, colocando apóstrofos em tudo, abusando do “en”, do “y”, coisa que só quem é nativo, ou que devém nativo, consegue dominar. Caetano é cristalino, mesmo quando desolado, ao ver o mundo, pela janela de um avião sobrevoando Los Angeles, com os olhos cheios de lágrimas. A Los Angeles de Biolay é obscura, dita com sons truncados (mesmo “sonho americano” vira um quase grunhido) vista com olhos artificiais de um cyborg movido a vallium, coca e lithium. Em Caetano, não há chão. Em Biolay, a terra treme e come tudo.

Isso para não falar dos diferentes usos do rock inglês, em Caetano e em Biolay (“Beaux souvenirs” é a música mais bonita do New Order, que o New Order nunca fez?), e também no minimalismo moderno de Caetano e no maximalismo romântico de Biolay. Sou mais minimalista. No entanto, a ingenuidade apaixonada, épica, pode me encantar, como quando Biolay canta: “não há céus, há apenas um só horizonte” ou “não há mais acasos, há apenas decisões.” Tudo isso é parte de uma inesperada revitalização do romantismo da canção francesa, abençoada por seus deuses (como Charles Aznavour, que estava na platéia do concerto de “La superbe”). Biolay abriu espaço para novos talentos aparecerem num ambiente que estava vivendo das glórias do passado. Os também brilhantes (cada um com sua esquisitice) Florent Marchet e Arnaud Fleurent Didier detestam ser chamados de novos Biolays. Eles precisam relaxar. A comparação, hoje, é inevitável.


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