Archive for dezembro \28\UTC 2013

império da lei

28/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/12/2013

A leitura de dois textos diferentes, numa mesma quinzena de novembro, marcou meu final de ano. Ainda vivo sob o impacto de suas assustadoras, mas previsíveis, revelações. Um é brasileiro: “Setor privado, vítima ou algoz”, assinado por Mário Vinícius Spinelli, controlador-geral do município de São Paulo, e publicado na Folha de S. Paulo (26/11/2013). O segundo tem origem britânica, mas foi capa da New York Review of Books (21/11/2013): “The Snowden Leaks and the Public”, escrito por Alan Rusbridger, editor do jornal The Guardian. Penso que apontam para os principais desafios que vamos enfrentar em 2014.

Começo pelo Brasil, para depois cair no mundo. Spinelli aborda o “recente caso envolvendo desvios no ISS-Habite-se da Prefeitura de São Paulo, fraude que pode chegar a R$ 500 milhões”. Não tenho espaço aqui para entrar nos seus detalhes, e sua investigação ainda está longe de ser concluída. Quero citar apenas a desconfortável opção que Spinelli sugere para explicar a “estranha relação” entre construtoras/incorporadoras com “esquemas especializados em desviar recursos públicos”: ou são corruptoras, beneficiando-se com menor recolhimento de impostos; ou são “omissas e coniventes com o ato ilícito”, por “não denunciarem a prática às autoridades competentes”. Notícias posteriores sobre listas – ainda não plenamente divulgadas – de empresas que teriam pago propina a fiscais mostraram a abrangência dos esquemas: mais de 400 empreendimentos, que incluíam também hospitais e pelo menos uma igreja.

Em matéria de capa da revista Época, intitulada “O país dos alvarás e da propina” (16/12/2013), aprendemos que até a Câmara dos Deputados funciona sem o “habite-se”. O pesadelo burocrático ineficiente e lerdo cria ambiente ideal para achaques. Um “empresário de porte médio do Rio de Janeiro” revelou: “um fiscal do município fechou meu estabelecimento porque eu não tinha um documento devido pela própria prefeitura.” A autorização só saiu depois da assinatura de uma carta de apoio a candidato a prefeito. Claro: o empresário pediu para a revista “que seu nome fosse trocado por temer represálias”.

Como cantaram Fausto Fawcett e Fernanda Abreu em “Rio 40 graus”, canção que cada vez mais serve para descrever a totalidade da realidade brasileira: cidade de comandos de comandos. Somos todos meio favelados, vivendo em construções ilegais/informais. Quantos shoppings têm alvarás? As pessoas não fazem denúncias por temer represálias de antigos comandos, sejam facções criminosas ou “máfias” legais, que podem voltar a qualquer momento, retomando o poder em nossos vários morros/asfaltos. A conivência “com o ato ilícito” vira estratégia de sobrevivência.

Causa alívio colocar a culpa em “poderosos” que generalizaram a corrupção, transformando a sociedade civil em vítima. Na prática cotidiana, esse caminho – entre sociedade e governo – tem mão dupla. Lembro da humilhação depois de consultas médicas, quando na hora do pagamento era preciso responder àquela pergunta cínica: “com ou sem nota?” Isso melhorou, talvez por controle mais rigoroso de movimentações bancárias de cada CPF. Mas continuo estranhando a naturalidade com que os restaurantes quase nunca entregam recibos depois que pagamos as contas. Somos sócios na caixinha para fiscalização dos vários alvarás impossíveis que os órgãos competentes se recusam a emitir? E assim a situação se perpetua, com a colaboração geral?

Dúvida cruel: a cultura brasileira é ou está corrupta? Imagino que os “mensaleiros” tinham um diagnóstico pessimista sobre o caráter nacional. Deviam pensar: “não tem jeito, o país é corrupto mesmo, as coisas só andam assim, vamos organizar um metaesquema de propinas.” O fato de estarem hoje na prisão indica erro de interpretação antropológica? O Brasil quer mesmo passar a viver sob o império da lei, que há de chegar até no coração do Pará, como canta Caetano? Só o tempo e a Papuda dirão.

Claro: há muito de simbólico nessa condenação. Pelo visto, como indicam as notícias sobre a “máfia do ISS” ou sobre o “propinoduto tucano”, nada seria construído no Brasil se todos os envolvidos/coniventes com megaesquemas de corrupção fossem presos. Nenhum habite-se, ruas vazias, xilindrós em todas as esquinas? Outro pensamento sinistro: por vias muito tortas, o PT acabou prestando mais um serviço para a República: forneceu os bodes expiatórios para rito de passagem de purgação nacional. Isso se acreditamos, com otimismo, que a partir do julgamento dos “mensaleiros” entramos no caminho sem volta para ficarmos livres de uma corrupção sistêmica e generalizada. Assim seja.

Os comentários sobre o segundo artigo, o internacional, ficam para 2014.

Fauzi Arap

21/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/12/2013

Fauzi Arap, que morreu há 15 dias, publicou sua autobiografia – “Mare nostrum – sonhos, viagens e outros caminhos” – em 1988. Foi Maria Bethânia que me indicou enfaticamente sua leitura quando eu lhe disse que estava interessado na explosão artística radical que aconteceu no Brasil do início dos anos 1970, apesar do auge da ditadura militar. Demorei a encontrar um exemplar a venda. Vale a pena a busca difícil (escrevo esta coluna para sugerir nova edição).

Passei a ter com esse livro, e com a trajetória de Fauzi Arap (não cheguei a conhecê-lo pessoalmente; achei que nosso encontro aconteceria por acaso inevitável…), uma relação especial. Copio Maria Bethânia, que escreveu para seu “velho querido Arap” em carta impressa na orelha de “Mare nostrum”: “A tua fé ilumina todo o livro, cada palavra. E quero lhe dizer que ele passou a ser um objeto sagrado para mim. Me ocupo em vigiá-lo, procuro colocá-lo sempre em lugares luminosos e onde de vez em quando passe um leve vento, uma aragem fresca, uma brisa suave que o acaricie.”

Depois das notícias sobre a morte de Fauzi Arap, reli todas as páginas de “Mare nostrum” com a mesma curiosidade da primeira vez. É um dos relatos mais comoventes, de entrega total, sobre a combinação de busca espiritual e desenvolvimento artístico. É também documento precioso sobre a aventura tempestuosa da cultura brasileira, dos anos 1960 até hoje. A coincidência de ter visto o filme “Tatuagem”, também comovente na sua amorosa reflexão sobre contracultura na ditadura, e ter feito a pesquisa para escrever a coluna da semana passada sobre Numa Ciro (com informações sobre o movimento pré-punk de Campina Grande), enquanto mergulhava novamente na autobiografia de Fauzi Arap só revelou as marcas profundas que todas essas viagens deixaram em nosso (in)consciente coletivo.

“Mare nostrum” começa no tranco. Maria Bethânia rememora na mesma carta/orelha: “soube logo que ia me pegar fundo. Intuí parar de ler e deixei-o sobre meu corpo, silencioso.” Pudera: somos transportados para 1963, quando Fauzi Arap estava no Rio atuando na peça “A mandrágora”, de Maquiavel, dirigida por Augusto Boal. Seguindo indicação de uma amiga atriz (não é revelado o nome, “por respeito à sua privacidade”), ele vai parar no consultório do Dr. Murilo Pereira Gomes, médico que fazia experiência pioneira de terapia com o uso de LSD (ainda comercializado legalmente pelo laboratório Sandoz, com bula e tudo), administrado com injeção (!). Dr. Murilo teve alguns pacientes celebridades, como Paulo Mendes Campos, que escreveu uma série de artigos sobre o novo remédio para a revista Manchete.

Formado em Engenharia, participando de um ambiente teatral dominado pelo materialismo marxista, Fauzi Arap não tinha elementos para entender o contato imediato com a dimensão espiritual proporcionado já na sua primeira viagem de ácido (correndo e pulando no Parque da Cidade). Aquilo acontecia muito antes da voga psicodélica, que trouxe amparo para viajantes posteriores: “Castañeda não existia. Jung só era conhecido por eleitos, e livros sobre ioga e zen-budismo não eram populares como hoje em dia.” Não importava: em qualquer conversa, Fauzi Arap não parava de falar de sua experiência (“meu cotidiano havia se transformado em algo absolutamente mágico”): “fantasiei que o LSD tinha o poder de mostrar o paraíso democraticamente a todos.” Pensava ser o apóstolo da boa nova lisérgica. “Compulsão messiânica”. Acabou sendo considerado maluco, antes que houvesse maluco beleza.

Seu sentimento de inadequação/solidão foi se aprofundando. Apesar do sucesso como ator e em seguida como autor de teatro não trazia alívio. A barra se tornava um pouco mais leve ao se encontrar com pessoas pouco comuns, como Clarice Lispector (escreveu um espetáculo – com Glauce Rocha, trilha de Karabitchevski etc. – misturando trechos de vários de seus livros). Ainda assim: “minha insistência em conversar sobre percepções alteradas e estados de consciência especiais a incomodava”.  Anos depois é que o ambiente cultural passou a ter pistas para entender (“acertar o passo com a minha geração”) aquele papo pra lá de Marrakesh. 1971 foi o ano de “Rosa dos ventos”, show que dirigiu para Maria Bethânia e que marcou a época (“alguns acabaram presenteados com o livre acesso diário ao show, depois de terem voltado quarenta vezes”). Mas nada é simples ou fácil numa iniciação. Não contei nada ainda. Leia “Mare nostrum”. Dra. Nise da Silveira e seus gatos. Living Theatre no candomblé. Muitas turmas mais num “psicodrama cósmico” que é nossa história nacional. Duas possíveis conclusões: “o mundo não nos deixa sem resposta” e “a morte não existe”.

Numa Ciro

14/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/12/2013

Numa Ciro termina a temporada do espetáculo (mais precisamente um monólogo cantante) “A peleja da voz com a língua” nas próximas terça-feira e quarta-feira (gosto muito de nossos dias de semana serem todos “feiras”, forma bem mais maluca – na origem eclesiástica tudo era feriado – do que as homenagens para deuses romanos/vikings de outras línguas; por isso insisto sempre no uso dos nomes completos) no teatro do Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema. Por mim, poderia continuar eternamente. Ter Numa Ciro se apresentando na cidade deveria ser algo tão garantido quanto o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento. O bom é ver repetidas vezes, religiosamente. Mas agora é quase tarde: quem perdeu só tem mais uma oportunidade. Até que a peleja de Numa Ciro encontre sua próxima morada.

Escrevi terça-feira e quarta-feira. Não seriam então duas oportunidades? Não: em cada feira (Numa Ciro vem de Campina Grande, cidade que tem – além do forródromo e da “tech city” – um dos melhores mercados de rua nordestinos; espero que ainda com aquela ala só de barbeiros) o repertório é diferente. Na terça-feira a peleja é chamada de “A viagem”; na quarta-feira encontramos “O amor”. Os dois monólogos – criação encomendada para homenagear os 50 anos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (não se espante: Numa Ciro é mestre radical na circulação entre mundos diferentes) – deveriam ter sido um só. Mas no seu bordado (desde criança, Numa Ciro aprendeu a bordar com linhas – tão preciosas “quanto um stradivarius” – da Ilha da Madeira), somando tudo que ia entrando de Portugal/Brasil/África (e ainda a interferência de outras línguas, mesmo o grego antigo), foi ficando cada vez mais complexo/quilométrico, e finalmente precisou ser dividido em dois. Quem puder ver só um, vai ter boa introdução ao universo de Numa Ciro. Porém, o melhor mesmo é assistir aos dois rounds dessa peleja.

Como disse, Numa Ciro cresceu na Serra da Borborema paraibana, aprendendo até a bordar para se tornar uma dona de casa perfeita. Casou bem cedo, ainda adolescente. Naquela época/cultura, era comum que mulher casada deixasse de estudar. Nos planos domésticos, apareceu um grande problema. Ela não engravidava. Disse para o marido: só terei filho se entrar para a universidade. Barganha feita, passou para psicologia, engravidou, mas inventou outro tipo de perfeição existencial. Seu nome era Maria do Socorro, em devir para psicanalista lacaniana, e também Socorro Brito, atriz. Apresentou os espetáculos “Escombros eletrônicos – um show de anormalidades” (com Selma Tuareg) e “Tangos e boleros punks” (com Diomedes), na Campina Grande do início dos anos 1980.

Chegando no Rio, ficou logo amiga do pessoal da Poesia Pornô e da Geração 80 (precisamos de algum estudo detalhado daquele momento cultural da cidade; outro dia procurei e não encontrei nada na internet sobre o Cabaret Voltaire de Ipanema – será que foi sonho meu? – lembro-me vagamente de gente pelada, filmes udigrudis e shows new wave – era a resposta carioca para os televisores da Gang 90 no Lira Paulistana e para a cítara de Alberto Marsicano [que o panteão hindu o tenha em bom lugar] no Carbono 14). Quase imediatamente foi parar na Academia Brasileira de Letras cantando “Subayara Johnny”, nua (Hidelbrando de Castro pintou uma explosão de bomba atômica no seu corpo, transformando-o em ameaçadora natureza viva). Totalmente demais?

Nas décadas seguintes, Numa Ciro foi desenvolvendo (com a colaboração de parceiros/artistas, como Tania Christal, inventora do nome Numa Ciro, ou Flaviola, cocriador do primeiro monólogo cantante, e sempre Hildebrando de Castro) um tipo de espetáculo muito particular, fundamentado no canto a capella. Tudo simples e delicado: um corpo e uma voz em cena, poucos bons adereços mais. Voz totalmente diferente daquele estilo que faz sucesso no The Voice. Voz que peleja com o canto e com as ideias.

Agora: uma voz que nos leva para uma viagem pela língua portuguesa (incluindo o crioulo de Cabo Verde), tentando descobrir o que ela pode, inventa, anuncia. Ao ouvir Numa Ciro cantar no minúsculo palco do Cândido Mendes, ali tão próxima dos nossos corpos e de nossas vozes, lembrei as palavras do poeta português Eugênio de Andrade, revelando que nossa língua tem “este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar das abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel corrosivo da melancolia.” No seu monólogo cantante, Numa Ciro processa e expande essas características (misturando Luiz Gonzaga com Renato Russo, Marianne Faithfull com Sophia de M.B. Andressen etc.) como um sampler sertanejo de muitos mares além.

Arrastão!

07/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/12/2013

Parece que o espectro que ronda nossa cidade maravilhosa não é o do comunismo (anunciado por Marx e Engels naquela primeira frase enigmática de seu “Manifesto”), mas sim o do arrastão. Mês passado, ele reapareceu de sunga branca, fazendo búú nas praias (que, para infelicidade de alguns, não são tão chiques quanto as de Mônaco, mesmo em frente ao Fasano). Eu pensei: já vi esse filme trash antes, e não era cena do Gasparzinho. Voltando à minha filosofia marxista customizada: a história se repete em farsa da farsa da farsa, ad infinitum, como no loop eterno da instalação “Ão” de Tunga, com trecho repetido de “Night and Day” (não confundir com a saltitante “Day’n’Nite” de Kid Cudi) servindo de trilha sonora para passeio onde não há luz no fim do túnel (meu primeiro contato com sua película rastejante foi nos anos 1980 em galeria de Ipanema; hoje está exposta no Inhotim).

Recapitulando: em 1992, também no perigosíssimo Arpoador, houve tumulto animado, durante domingo de muito sol. No dia seguinte as manchetes dos jornais berravam irresponsáveis: Arrastão! Eu me arrependo de ter escrito artigo para o Jornal do Brasil tentando explicar que aquilo não fora assalto “serial” e em massa, mas sim (os dados policiais já confirmavam: quase ninguém roubado) a reencenação, nas areias escaldantes, de conflitos dançantes entre turmas de favelas diferentes que costumavam acontecer em baile funk. Resultado: os ataques se voltaram contra o funk. Quase todos os bailes de clube (Mackenzie, Cassino Bangu etc.) foram fechados. Deu origem a um atraso enorme na vida cultural da cidade, pois o desenvolvimento de sua nova música eletrônica teve que acontecer malocado em favelas patrulhadas por “comandos” cada vez mais armados. O poder público, com ajuda da imprensa, foi coinventor do “proibidão”.

21 anos depois, agora, depois do feriado da Consciência Negra, abro os jornais e as manchetes estão histéricas novamente: Arrastão! Parece flashback de viagem de droga muito ruim. Foi arrastão mesmo? Não importa: até o consulado dos EUA emitiu alerta falando em “roubos de massa”. Qual será o próximo bode expiatório? Qual será o próximo “proibidão”? Por que essa compulsão na “reincidência” interpretativa, que já se provou equivocada anteriormente?

O autosubversivo Albert O. Hirschman, um dos maiores pensadores do Século XX (ele teve ilustres discípulos/amigos brasileiros, que poderiam lucrar com doses mais generosas de autosubversão também), fez comentário absolutamente inspirador (no final de sua obra-prima “As paixões e os interesses” – que acaba de ter nova edição americana, com prefácio de Amartya Sen e posfácio de seu biógrafo Jeremy Alderman) sobre a máxima de Santayana: “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Essas palavras são tão citadas (recentemente foram inspiração para vários textos da Batalha das Biografias) que passamos a acreditar que fatos históricos se repetem mesmo.

Para Hirschman, a máxima tem maior probabilidade de “aplicar-se rigorosamente à história das ideias do que à história dos fatos”. Sua explicação, deliciosa: “Esta última, como sabemos, quase nunca se repete, porém, circunstâncias vagamente similares, ocorridas em dois diferentes e talvez distantes momentos do tempo, podem facilmente dar origem a pensamentos-respostas idênticos e identicamente imperfeitos se o episódio intelectual anterior for esquecido.” Na minha humilde opinião, foi isso que mais uma vez aconteceu com o tal arrastão. Fatos diferentes (e talvez somente espectrais), circunstâncias diferentes, mas desencadeando o mesmo pensamento-resposta, que educadamente podemos considerar “imperfeito”.

Sou cada vez mais cético (incluindo convicto relativismo fora de moda). Por isso fiquei comovido com a profissão de fé no valor da História que multidões externaram na Batalha das Biografias. Senti até uma ponta de inveja, a mesma que entristece meu coração quando, diante do delírio de torcida de time de futebol, percebo que nunca vou dar aqueles urros/pulos de felicidade.

Fui formado por livros errados, na idade errada.  Entre eles: “O inventário das diferenças”, com aula inaugural de Paul Veyne no Collège de France. Ali aprendi coisas horríveis que viraram bandeiras inconvenientes. Exemplo: “uma cultura está bem morta quando a defendem em vez de inventá-la.” Ou (crianças, tapem seus ouvidos!): “a verdade não é o mais elevado dos valores do conhecimento”, pois “é mais importante ter ideias do que conhecer a verdade”. Pior ainda: “a História é feita para divertir os historiadores, é tudo.” Que sina: não consigo nem ter raiva ou piedade daqueles que acreditam no espectro do arrastão.


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