escola

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/02/2013

Em edições recentes, esta coluna foi abduzida pelo óvni que faz a ponte aérea entre a abundância e o vazio. O assunto anterior era mais relevante: educação para o século XXI. Onde parei? Na recomendação megalomaníaca de que todos os estudantes completassem o Ensino Médio dominando a linguagem de computação C++. Isso seria passo para a criação de um Vale do Silício brasileiro. Minha meta: deixarmos de ser apenas – como já somos – campeões de consumo de internet; precisamos também inventar o futuro da rede global de informação. Meus leitores devem saber que sou como o cara da canção do Caetano: “eu nunca quis pouco, falo de quantidade e intensidade”.

Claro que “todo mundo com C++” é muito. No Reino Unido está acontecendo experiência educacional importante chamada Code Club, que quer dar para toda criança britânica oportunidade de aprender código. Seu objetivo é certamente mais modesto que o meu: estar presente em 25% das escolas primárias em 2015. E a linguagem ensinada é a Scratch, desenvolvida para crianças pelo MIT. Nada é moleza nesse campo. Que o diga Obama, que no State of the Union (principal discurso anual feito por presidentes dos EUA) da semana passada, na hora de falar em boa educação tecnológica, precisou recorrer ao exemplo da P-Tech, escola de Ensino Médio do Brooklyn que – com a colaboração da IBM e da City University of New York – só vai formar sua primeira turma em 2017.

Pedro Dória, em sua imperdível coluna na seção Digital & Mídia deste jornal, pegou carona na minha proposta delirante. Obviamente nem falou em C++: “Deveríamos ensinar linguagens de programação para as crianças. É um excelente início.” O que fazer depois do início? Suas recomendações são também certamente mais sensatas do que as minhas: uma universidade deveria liderar o movimento, bancado por venture capitalists, de criação de ambiente propulsor (com infraestrutura confiável de banda larga e eletricidade) para a inovação tecnológica.

Mas o que me fez mesmo baixar minha bola foi artigo de Rosely Saião na Folha. Ela nos lança a seguinte pergunta: “já perguntou aos responsáveis pela escola que seu filho frequenta qual o projeto pedagógico dela para o uso da internet pelos alunos?” Rosely afirma que é “urgentemente necessário” haver aulas semanais para os mais jovens aprenderem “a usar coletivamente a internet e a refletir sobre os usos e abusos que acontecem no mundo virtual.” Isso é bem menos que qualquer aprendizagem de código, mas muito a fazer diante da penúria da situação atual.

Já contei aqui minha aventura quando fui dar palestra sobre redes sociais para turmas de quinto ano de colégio carioca. Preparei fala tatibitate. Puro preconceito. Uma pirralha levantou a mão e me fez cair na real com a pergunta: “é possível rastrear IP?” Algum colega estava sendo acusado de usar perfis fakes para postar fotos pornograficamente manipuladas dos outros estudantes. Tenho quase certeza que a maioria dos seus professores não conhecia a língua que ela estava falando. Na disciplina proposta pela Rosely Saião, os alunos têm tudo para se tornar os mestres dos adultos. Estamos todos desbravando o admirável mundo novo eletrônico ao mesmo tempo. A gurizada leva vantagem: não precisa se desfazer de velhos hábitos analógicos para pensar o digital.

Na pesquisa para essa palestra encontrei várias organizações que investigam a relação entre infância e cultura eletrônica. Algumas tentam propor regras de conduta para auxiliar pais e professores. Continuo recebendo newsletters relacionadas com esse assunto, como a da organização Common Sense Media, que tem um time de conselheiros e apoiadores bem eclético: da Nickelodeon ao CEO do The San Francisco Giants, passando pelo diretor da Escola de Medicina de Stanford. No texto que anuncia sua missão está escrito: “existimos porque as crianças de nossa nação passam mais tempo com atividades digitais ou de mídia do que com suas famílias ou na escola”. Entre suas dez crenças: “acreditamos em ensinar as crianças a serem intérpretes, criadores e comunicadores de mídia experientes, responsáveis e respeitosos.”

Há bons conselhos para todos, inclusive um guia de apps para smartphones e tablets, classificadas por idade. Muita coisa me parece produzida para um mundo ideal. Exemplo: Twitter é recomendado para 15 anos. O que fazer quando todos os amigos do seu filho de 10 já usam os 140 caracteres como forma de comunicação frenética? Ou quando os próprios pais usam o Instagram para publicar fotos de suas filhas (e colegas) de 11 anos de biquíni?

O Monobloco já desfilou, as aulas recomeçaram. Bom momento para pensarmos seriamente sobre os cidadãos digitais que queremos formar.

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