clássico

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/11/2010

A morte de Henryk Górecki, dia 12 deste mês, me fez recordar meu amor pela música clássica. Fui escutar, pela enésima vez, sua “Sinfonia nº 3”. É uma das criações humanas mais comoventes e belas que conheço. Sei que não é cool fazer essa declaração. É uma música querida demais. Quem quer tirar onda, geralmente escolhe composições menos óbvias para elogiar. Mas não importa: já disse que sou pop, gosto do que todo mundo gosta. E também sou fã de coisas simples ou facilmente bonitas. A “Sinfonia nº 3” é bonita de dar dó, e essa beleza já foi reconhecida por muita gente, mesmo tardiamente. Interessante a história de sua recepção. Foi composta em 1976 e teve críticas ruins em premières. Górecki era conhecido por pouquíssimos e continuou assim até que, em 1992, o selo chique Nonesuch – o de Caetano nos EUA – lançou uma gravação dessa obra, que vendeu cerca de um milhão de CDs. Uma surpresa enorme, até para seu autor, acostumado à obscuridade e com quase 60 anos. O reconhecimento e o sucesso podem acontecer quando menos se espera.

Esses fenômenos raros de grande aceitação popular para sinfonias e compositores “eruditos” me anima. Amo música clássica, mas detesto o ambiente que a cerca (que também se alastra em torno de vinhos, azeites, cadernetas…), transformando-a em símbolo careta de status intelectual, de superioridade diante das “massas” que preferem (ou, segundo a cartilha elitista, são obrigadas a preferir, pela ignorância) músicas de “baixa” qualidade. Nunca entendi porque não posso gostar de Anton Webern e Aviões do Forró, igualmente, ou por razões diferentes. Nunca tolerei políticas culturais que querem transformar o Brasil numa grande Sala São Paulo, com aquelas tolas brigas de poder na Osesp. Tudo isso é muito caipira (no mau sentido, pois sou fã de outras festas caipiras). Como também é ridícula a pompa do Lincoln Center, mesmo quando toca meu Mahler ou Monteverdi preferido.

Por que as pessoas não tratam o concerto clássico como algo normal? Por que tanta afetação, tantos símbolos ostensivos de reverência? Por que aquele silêncio sepulcral na platéia? Como desvenda Christopher Small, em  “Musicking” (talvez o melhor livro sobre música, só comparável ao hilário “Music and words”, do Paul Morley), mesmo quem fica relax nos concertos, precisa sinalizar para todos o relaxamento (como o passageiro freqüente que só toma água, evidenciando para companheiros de cabine que a primeira classe é o seu habitat natural). Prova de que nasceu entre maestros e Stradivarius.

Muitos se esquecem como essa atitude é recente. Salas de concerto, com público quieto, existem há pouco mais de um século. Christopher Small cita um quadro de Canaletto retratando a rotunda de Ranelagh, na Londres de 1754, local onde tocaram Handel e, ainda criança, Mozart. A maioria do público nem presta atenção na orquestra. Está ali para conversar, comer, brincar com as crianças, dar pinta. A música é um “plus a mais” no jogo da diversão social, não uma ditadura sonora de bom gosto divino, não uma palmatória pedagógica. Como seria saudável ter de volta aquela “ingenuidade”.

A história da música clássica foi violentamente expansionista. Pense nos departamentos de música das universidades. Até recentemente, música ali era apenas a música clássica ocidental. Musicologia também significava o estudo da tradição ocidental, como se todas as outras músicas não fossem dignas do mesmo interesse. E mesmo que isso afastasse a maioria dos ouvintes (tanto que, quando havia indústria fonográfica, o mercado da música clássica equivalia a apenas 3% do total das vendas), não importava: ser culto minoritário era parte do seu charme. Era preciso afastar o povo do ritual do concerto, mesmo quando o discurso parecia clamar pela “inclusão”.

Uma recente palestra de David Byrne conta como a existência das modernas salas de concerto modificou a composição musical. Como o público passou a ficar em silêncio, e como a acústica se tornou cada vez melhor, sutilezas sonoras passaram a poder ser percebidas pela audiência, e o que antes era inaudível ganhou destaque. Os compositores, tendo em mente o lugar onde suas obras seriam executadas, passaram a criar para essas novas possibilidades e nova atenção de quem estava na platéia. Mesmo John Cage, quando compôs “4’33” de silêncio, buscava se comunicar com esses mesmos públicos, que estariam nesses mesmos ambientes.

Byrne não fala só de música clássica. Sua argumentação explora a relação entre músicas, lugares onde elas são tocadas, e recursos para sua gravação. O aparecimento dos microfones ou do registro de cada instrumento em faixas diferentes (que depois são mixadas), por exemplo, abriram espaço para novos estilos vocais ou instrumentais ganharem popularidade.

Hoje, a era da alta-fidelidade parece ter terminado. As pessoas escutam música em tocadores de MP3 com qualidade “lamentável”. Outros detalhes importam mais, sobretudo o que está em volta da música (a camiseta com o nome da banda?), o jogo social incentivado pela música. De maneira inesperada, voltamos à rotunda pintada por Canaletto. Quem sabe se a música clássica não pode ser salva, junta e misturada à confusão ringtone do mundo? Salve Mozart, autor de um dos mais populares toques de celular!

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2 Respostas to “clássico”

  1. Kuja Says:

    Delícia ler isso!

  2. hermanovianna Says:

    delícia encontrá-lo por aqui Kuja

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