Internet afora

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/08/2014

Na coluna da semana passada meu tema foi o choque da realidade real, escondida atrás do véu da ilusão do “vazio cultural”. Hoje vou falar do choque da realidade virtual, também fervilhante atrás do muro das lamentações das redes sociais mais populares. Na segunda-feira o programa Navegador, da Globo News, completará 39 edições. Sempre que me sento àquela mesa eletrônica sou surpreendido por aplicativos/sites recém-lançados que possibilitam novas maneiras de participação direta na vida cultural/política. Tanto quanto a movimentação artística de Teresina ou Duque de Caxias, essas ferramentas não têm a divulgação merecida. Vou citar aqui apenas alguns exemplos apresentados no Navegador, que podem – efetivamente – mudar o mundo se mais utilizados.

As iniciativas impressionam pela diversidade de origens/objetivos: podem ser governamentais ou não-governamentais, propostas por pequenos grupos ou grandes fundações, motivadas por ideologias bem conflitantes entre si. Há até laboratório hacker na Câmara dos Deputados, e isso vai se tornar cada vez mais comum num ambiente onde mesmo o curso de MBA mais careta incentiva a “disrupção” (palavra que ninguém consegue mais ouvir sem sacar cartão de crédito mais-que-platinum). Devemos aproveitar a confusão. E também a cada vez mais obrigatória disponibilização Big Data de tudo que as instituições públicas produzem. Estamos passando por uma mudança cultural profunda em processos decisórios. Somos minuciosamente vigiados, mas podemos vigiar quem nos vigia. Se quisermos, se abandonarmos a preguiça e a reclamação fácil, se nos empenharmos arduamente nessa tarefa, que exige esforço de formiguinha de todos.

É fácil naufragar no maremoto da publicação de todos os documentos, números e outros tipos de dados coletados por todos os órgãos públicos do país e do planeta. Por exemplo: o Senado Federal acaba de lançar a versão beta de um canal onde podemos dar nossa opinião sobre projetos de lei. É certamente um grande avanço, mas a interface é pouco amigável. Leigos se deparam com textos enormes nos quais as questões relevantes ficam submersas em jargão especializadíssimo. Por isso seria bom ver uma parceria do Senado com o site “Votenaweb” que simplifica a linguagem legislativa, estimula o debate sobre o que realmente importa em cada projeto de lei, e leva o resultado para os parlamentares, mantendo os colaboradores informados sobre a evolução de cada batalha. Há mapas, gráficos, explicações curtas que facilitam demais a compreensão do que está em jogo. Gosto especialmente da seção “Classificação do cidadão para este projeto”, que vai do “urgente” ao “sem noção”.

Muitas vezes a inovação acontece apenas com visualização mais simples. Esse é o caso do “Meu município”, site que facilita a fiscalização de contas das prefeituras brasileiras, com processamento rápido para comparação de dados entre cidades diferentes. Ter esses números na manga, a poucos cliques em qualquer smartphone, é bom ponto de partida para muitos movimentos sociais, que não podem mais ser enganados por discursos prolixos de autoridades que antes se legitimavam com segredos ou com a ignorância da população. Claro que isso é só o início, cabe aos cidadãos inventar usos criativos para os dados.

No Navegador falamos de projetos de prefeituras mundo afora, como o site “BetriReykjavik”, canal excelente e oficial de circulação de ideias para a melhoria da vida na capital islandesa, que usa o software do “Your priorities” para organizar debates e votações online. Outra ferramenta útil é o “Loomio”, que torna mais prático o processo de tomada de decisões coletivas via internet. Ou o “neighbor.ly”, para criação e financiamento de ações comunitárias (mesmo reformar as calçadas em bairro de Kansas City). Como muitas dessas ferramentas são abertas, fica bem prático incorporá-las a outros projetos ou mesmo fazer com que troquem dados automaticamente umas com as outras, aumentando a “inteligência” geral. O ideal é se espalhar por todos os lugares, como o “Meu Rio”, que já virou “Minhas cidades” com o lançamento do “Minha Sampa”, o que fortalece cada pequena mobilização local, colocando-a em rede com gente que quer a mesma coisa no Brasil e no mundo.

Há sites dedicados a temas específicos, como o “Observatório do PNE”, onde podemos monitorar o cumprimento das metas do recente Plano Nacional da Educação. Ou o “Saúde amanhã” que cria cenários para a saúde brasileira em 2030. Muitos subsídios para decidir que educação e saúde realmente queremos e lutar por algo além do “mais verbas” ou o “Padrão Fifa”. Não há desculpa para empacar na palavra de ordem ultrapassada por dados/fatos.

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